quinta-feira, 16 de abril de 2026

Marcel Proust - Sodoma e Gomorra (Cap III - Todos os dias eu saía)

em busca do tempo perdido

volume IV
Sodoma e Gomorra

Capítulo Terceiro

Tristezas do Sr. de Charlus. - Seu duelo fictício. - As estações do "Transatlântico". - Cansado de Albertine, desejo romper com ela.  
 

     Todos os dias eu saía com Albertine. Ela resolvera dedicar-se a pintura e havia escolhido primeiramente, para trabalhar, a igreja de Saint-Jean-de-la-Haise, que não é mais frequentada por ninguém, sendo muito mal conhecida, difícil de fazer-se indicar, impossível de descobrir sem guia e demorada de se atingir em seu isolamento, a mais de meia hora da estação de Épreville, depois de passadas há muito as últimas casas da aldeia de Quetteholme. Quanto ao nome de Épreville, não encontrei concordância entre o livro do cura e as informações de Brichot. Para um, Épreville era a antiga Sprevílla; o outro indicava como etimologia Aprívilla.  
     Da primeira vez, tomamos a pequena estrada de ferro em sentido oposto ao de Féterne, ou seja, na direção de Grattevast. Mas era um dia de canícula e já fora terrível partir logo em seguida do almoço. Eu teria preferido não sair tão cedo; o ar luminoso e ardente despertava ideias de indolência e refrescamento. Sujeitava nossos quartos, o meu e o de minha mãe, conforme sua exposição, a temperaturas desiguais, como quartos de estâncias balneárias. O gabinete de toalete de mamãe, festoado pelo sol, de uma brancura fulgurante e mourisca, parecia estar mergulhado no fundo de um poço, devido aos quatro muros de estuque para os quais dava, ao passo que lá em cima, no quadrado vazio, o céu, cujas ondas macias e superpostas se viam deslizar umas sobre as outras, parecia (por causa do desejo que tínhamos) estar situado num terraço ou (visto às avessas em algum espelho pendurado à parede) ser uma piscina cheia de uma água azul, reservada às abluções. Apesar dessa temperatura abrasadora, tínhamos tomado o trem de uma da tarde. Porém Albertine sentira muito calor no vagão, e mais ainda durante o longo trajeto a pé, e eu temia que ela se resfriasse ao ficar, em seguida, imóvel naquela concavidade úmida que o sol não atingia. Por outro lado, e desde nossas primeiras visitas a Elstir, tendo-me apercebido de que ela apreciava não apenas o luxo mas até um certo conforto, do qual a privava sua falta de dinheiro, entendera-me com um locador de Balbec para que todos os dias um carro viesse buscar-nos. Para sentir menos calor, tomávamos pela floresta de Chantepie. A invisibilidade dos inúmeros pássaros, alguns meio marinhos, que se respondiam uns aos outros ao nosso lado nas árvores, dava a mesma impressão de repouso de quando estamos de olhos fechados. Ao lado de Albertine, preso em seus braços no fundo do carro, escutava essas oceânides. E, quando por acaso via um desses músicos que passava de um ramo a outro, havia tão pouca relação aparente entre ele e seus trinados, que não julgava enxergar a causa destes no pequeno corpo saltitante, humilde, assustado e sem olhos. O carro não podia nos levar até a igreja. Eu o mandava parar à saída de Quetteholme e me despedia de Albertine. Pois ela me impressionara ao dizer dessa igreja, como de outros monumentos, ou de certos quadros:

- Que prazer seria ver tudo isto na sua companhia! -

     E eu não me sentia capaz de dar-lhe esse prazer. Só o sentia diante das belas coisas se estivesse sozinho, ou quando fingia estar e ficava calado. Mas já que ela pensara poder experimentar, graças a mim, as sensações de arte que não se comunicam desse modo, achava eu mais prudente dizer-lhe que a deixava e voltaria para buscá-la no fim do dia, mas que, até lá, era preciso que regressasse com o carro para fazer uma visita à Sra. Verdurin ou aos Cambremer, ou até passar uma hora com mamãe em Balbec, mas nunca mais distante que isso. Pelo menos nos primeiros tempos. Pois, tendo-me dito Albertine uma vez por capricho: 

"É aborrecido que a natureza tenha feito tão mal as coisas e que tenha posto Saint-Jean dela-Haise de um lado, La Raspeliere de outro, e que a gente fique o dia inteiro aprisionado no local que escolheu".  

     Logo que recebi a touca e o véu, encomendei para minha desgraça um automóvel em Saint-Fargeau (Sanctus Ferreolus, segundo o livro do cura). Albertine, deixada por mim na ignorância, e que viera me buscar, ficou surpresa ao ouvir diante do hotel o ronco do motor, e encantada quando soube que esse automóvel era para nós dois. Fi-la subir por um instante para o meu quarto. Ela pulava de alegria. 

- Vamos visitar os Verdurin? 
- Sim, mas é preferível que não vá desse jeito, pois vai ter o seu auto. Veja, ficará melhor assim. -

     E apresentei-lhe a touca e o véu que havia escondido. 

- É para mim? Oh, como você é gentil! - exclamou ela, saltando-me ao pescoço, Aimé nos encontrou na escada, orgulhoso da elegância de Albertine e do nosso meio de transporte, pois esses autos eram bastante raros em Balbec, e deu-se o prazer de descer atrás de nós. Albertine, desejando ser vista um pouco em sua nova toalete, pediu-me para suspender a capota, que se baixaria depois para que ficássemos livremente juntos. 
- Vamos - disse Aimé ao motorista, a que, aliás, não conhecia e que não se havia mexido -, não ouves que te dizem para suspender a capota? -

     Pois Aimé, curtido pela vida de hotel, onde de resto havia conquistado um cargo eminente, não era tão tímido como o cocheiro do fiacre, para quem Françoise era uma "dama": apesar da falta de apresentação prévia, tratava por tu os plebeus a quem nunca vira, sem que se soubesse com certeza se era, de sua parte, desdém aristocrático ou fraternidade popular. 

- Eu não sou livre - respondeu o motorista, que não me conhecia. - Fui chamado a serviço da Srta. Simonet. Não posso levar o cavalheiro. -

     Aimé desatou a rir: 

- Mas ora, seu grande imbecil - respondeu ele ao motorista, a quem logo convenceu -, é justamente a Srta. Simonet, e o cavalheiro que te manda erguer a capota é justamente o teu patrão. -

     E, como Aimé, embora não tivesse pessoalmente simpatia por Albertine, estava, por minha causa, orgulhoso da toalete que ela vestia, segredou ao chofer: 

- Se pudesses, hem! Bem que gostarias de conduzir todos os dias princesas como esta! - Nesta primeira vez, não fui só eu quem pôde ir a La Raspeliere, como fiz outros dias enquanto Albertine pintava; ela quis ir comigo até lá. Achava que poderíamos perfeitamente parar aqui e ali na estrada, mas julgava impossível começar indo a Saint-Jean-dela-Haise, isto é, numa outra direção, e fazer um passeio que parecia votado a um dia diferente. Ao contrário, soube pelo motorista que nada era mais fácil do que ir a Saint-Jean, onde chegaríamos em vinte minutos, e que poderíamos ali ficar, se quiséssemos, várias horas, ou então ir bem mais longe, pois de Quetteholme a La Raspeliere ele não levaria mais que trinta e cinco minutos. Compreendemo-lo assim que o automóvel, avançando, transpôs de um só ímpeto vinte passos de um excelente cavalo. As distâncias são unicamente a relação entre o espaço e o tempo e variam com este. Exprimimos a dificuldade que temos em nos dirigir a um local num sistema de léguas e quilômetros que se torna falso desde que essa dificuldade diminui. Com isso, a arte também é modificada, pois uma aldeia que parecia localizar-se num mundo bem diverso de outra, torna-se vizinha sua numa paisagem cujas dimensões estão mudadas. Em todo caso, saber que talvez exista um universo em que 2 mais 2 fazem 5 e onde a linha reta não seja o caminho mais curto entre dois pontos, teria assombrado menos a Albertine do que ouvir o motorista dizer que era fácil ir, numa mesma tarde, a Saint-Jean e à Raspeliere. Douville e Quetteholme, Saint-Mars-le-Vieux e Saint-Marsle-Vêtu, Gourville e Balbec-le-Vieux, Tourville e Féterne, prisioneiros tão hermeticamente fechados até ali na célula de dias distintos como outrora Méséglise e Guermantes, e sobre as quais os mesmos olhos não podiam pousar numa única tarde, libertos agora pelo gigante de botas de sete léguas, vieram reunir por volta da hora do nosso chá suas torres e campanários, seus velhos jardins que o bosque, ao aproximar-se, se apressava a descobrir. Chegando à estrada do precipício, o auto subiu de um só impulso, com um ruído contínuo de motor, como uma faca que se afia, ao passo que o mar, rebaixado, se alargava aos nossos pés. As casas antigas e rústicas de Montsurvent acorreram, mantendo presos contra si o seu vinhedo ou o seu roseiral; os abetos de La Raspeliere, mais agitados que quando se erguia o vento da tardinha, correram em todos os sentidos para nos evitar, e um criado novo, que eu ainda não tinha visto, veio receber-nos na escadaria, enquanto o filho do jardineiro, revelando disposições precoces, devorava com os olhos o local do motor. Como não era segunda-feira, não sabíamos se haveríamos de encontrar a Sra. Verdurin, pois, a não ser naquele dia em que ela recebia, era imprudente ir visitá-la de improviso. Sem dúvida, "em princípio" ela ficava em casa, mas essa expressão, que a Sra. Swann empregava no tempo em que também procurava formar o seu pequeno clã e atrair os convivas sem se mexer, conquanto muitas vezes não tirasse nem para os gastos, e que ela, num contra-senso, traduzia "por princípio", significava apenas "em regra geral", isto é, com numerosas exceções. Pois não só a Sra. Verdurin gostava de sair como também levava muito longe os deveres da hospitalidade, e, quando tinha convidados para o almoço, logo após o café, os licores e os cigarros (apesar do primeiro entorpecimento do calor e da digestão quando se teria preferido contemplar, através das folhagens do terraço, a passagem do paquete de Jersey pelo mar de esmalte), o programa compreendia uma série de passeios no decurso dos quais os convivas, instalados à força num carro, eram conduzidos a contragosto para um ou outro dos panoramas que se multiplicam em torno de Douville. Aliás, esta segunda parte da festa não era (depois de cumprido o esforço de se levantar e subir para o carro) a que menos agradava aos convivas, já preparados pelos pratos suculentos, os vinhos finos ou a cidra espumante, a se deixar embriagar facilmente pela pureza da brisa e a magnificência dos sítios. A Sra. Verdurin fazia com que estes lugares fossem visitados pelos estrangeiros um pouco feito os anexos (mais ou menos distantes) de sua propriedade, e que não se podia deixar de ir ver, uma vez que se vinha almoçar em casa dela e que, reciprocamente, não seria possível conhecer se não se fosse recebido em casa da Patroa. Essa pretensão de arrogar-se um direito único sobre os passeios, como sobre o recital de Morel e antigamente o de Dechambre, e de constranger as paisagens a fazerem parte do pequeno clã, não era aliás tão absurda quanto parece à primeira vista. A Sra. Verdurin troçava da falta de gosto que, segundo ela, os Cambremer demonstravam não só no mobiliário de La Raspeliere e no arranjo do jardim, mas também nos passeios que davam ou mandavam dar pelos arredores. Do mesmo modo que, a seu ver, La Raspeliere só principiara a tornar-se o que deveria ter sido depois de se constituir no asilo do pequeno clã, afirmava ela que os Cambremer, refazendo perpetuamente em sua caleche, ao longo da estrada de ferro, à beira-mar, a única estrada ordinária que existe nas cercanias, moravam desde sempre na região, mas não a conheciam. Havia um pouco de verdade nesta asserção. Fosse rotina, falta de imaginação, curiosidade por uma região que parece batida de tão próxima, os Cambremer só saíam de casa para ir sempre aos mesmos locais e pelos mesmos caminhos. Decerto, riam muito da pretensão dos Verdurin em fazê-los conhecer sua própria terra. Mas, colocados entre a espada e a parede, eles e até o seu cocheiro teriam sido incapazes de nos levar aos lugares esplêndidos, e um tanto secretos, aonde nos conduzia o Sr. Verdurin, erguendo aqui a barreira de uma propriedade particular, mas abandonada, onde outros não acreditariam ser possível aventurar-se; ali, descendo de carro para seguir um caminho que não era carroçável, mas tudo isso com a segura recompensa de uma paisagem maravilhosa. Digamos, além disso, que o jardim da Raspeliere era de certa forma um resumo de todos os passeios que se podia fazer a muitos quilômetros em derredor. Primeiro, por causa de sua posição dominante, olhando de um lado para o vale, do outro para o mar, e depois porque, mesmo de um só lado, o do mar, por exemplo, tinham sido abertas clareiras no meio das árvores, de tal maneira que daqui se avistava um horizonte, dali um outro. Em cada uma dessas perspectivas existia um banco; a gente vinha assentar-se alternativamente naquele de onde se avistava Balbec, ou Parville, ou Douville. Mesmo numa só direção, fora colocado um banco mais ou menos a pique sobre a falésia, em local relativamente retirado. Destes últimos, tinha-se um primeiro plano de verdura e um horizonte que já parecia o mais vasto possível, mas que ia se ampliando indefinidamente se, continuando por um estreito caminho, a gente andava até um banco seguinte, de onde se abrangia todo o círculo do mar. Ali se percebia nitidamente o rumor das vagas, que, pelo contrário não chegava às partes mais recônditas do jardim, lá onde as vagas ainda se deixavam avistar, porém não ouvir. Esses locais de repouso tinham na Raspeliere, para os donos da casa, o nome de "vistas". E de fato, reuniam em torno do castelo as mais belas "vistas" das regiões vizinhas, das praias, ou das florestas, muito diminuídas pelo afastamento, como o imperador Adriano reunira em sua vida reduções dos monumentos mais célebres de diversos países. O nome que se seguia à palavra "vista" não era forçosamente o de um ponto do litoral, porém, muitas vezes da margem oposta da baía e que se descortinava com certo relevo, apesar da extensão do panorama. Da mesma forma que se pegava um livro na biblioteca do Sr. Verdurin: para ir ler durante uma hora na "vista de Balbec", assim também, se o tempo estava bom, ia-se tomar licor na "vista de Rivebelle", desde que não ventasse muito, pois, apesar das árvores plantadas de cada lado, o ar era bastante vivo ali.

     Voltando aos passeios de carro que a Sra. Verdurin organizava para a tarde, se a Patroa encontrava na volta os cartões de algum mundano "de passagem pelo litoral", fingia estar encantada, mas desolava-se por haver perdido essa visita e (embora ainda não viessem senão para ver "a casa" ou conhecer por um dia uma mulher cujo salão artístico era célebre, porém não frequentado em Paris) mandava convidá-lo sem demora pelo Sr. Verdurin, para que viesse jantar na quarta-feira seguinte. Como muitas vezes o turista era obrigado a viajar antes, ou temia os regressos tardios, a Sra. Verdurin havia convencionado que aos sábados encontrá-la-iam sempre à hora da merenda. Essas merendas não eram extremamente numerosas, e eu já conhecera em Paris outras mais brilhantes na casa da princesa de Guermantes, da Sra. de Galliffet ou da Sra. d'Arpajon. Mas aqui justamente não era mais Paris, e o encanto do quadro não reagia para mim sobre o aspecto aprazível da reunião, e sim sobre a qualidade dos visitantes. O encontro de determinado mundano, que em Paris não me proporcionaria prazer nenhum, mas que na Raspeliere, aonde viera de longe pela floresta de Chantepie ou por Féterne, mudava de caráter, de importância, tornava-se um incidente agradável. Às vezes era alguém que eu conhecia perfeitamente e a quem não teria dado um passo para encontrar na casa dos Swann. Mas seu nome soava de outra forma naqueles alcantis, como o de um ator que se ouve muitas vezes num teatro, impresso em cor diferente no cartaz; de um espetáculo extraordinário e de gala, onde sua notoriedade se multiplica de repente, no imprevisto do contexto. Como no campo a gente não tem cerimônia, frequentemente o mundano trazia por conta própria os amigos em cuja casa se hospedava, alegando baixinho, como desculpa, à Sra. Verdurin, que não poderia deixá-los, porque estava na casa deles; em compensação, a esses anfitriões, fingia ele oferecer, como uma espécie de atenção, o divertimento de ir a um centro espiritual nessa vida monótona de praia, de visitar uma residência magnífica e de saborear um chá excelente. Isto, em seguida, compunha uma reunião de valor mediano; e, se um pequeno recanto de jardim com algumas árvores, que pareceria mesquinho no campo, adquire um encanto extraordinário na avenida Gabriel ou então na rua de Monceau, onde somente multimilionários podem permitir-se coisa semelhante, inversamente, senhores que estão em segundo plano num sarau parisiense assumiam todo o seu valor segunda-feira à tarde, em La Raspeliere. Mal sentavam-se em torno à mesa coberta de uma toalha bordada de vermelho, e onde sob os tremós de camafeu serviam-lhes bolos folhados, pastéis normandos, tortas em forma de barco, repletas de cerejas como pérolas de coral, "diplomatas", e logo aqueles convidados sofriam, com a proximidade da profunda concha de azul para a qual abriam as janelas e que não podia se deixar de ver, ao mesmo tempo que eles, uma alteração, uma transmutação profunda que os mudava em algo mais precioso. Mais ainda, mesmo antes de os ter visto, quando vinham na segunda-feira à casa da Sra. Verdurin, as pessoas que em Paris apenas tinham olhares cansados pelo hábito para as atrelagens elegantes que estacionavam diante de um palacete suntuoso, sentiam o coração bater à vista de duas ou três feias carruagens paradas diante da Raspeliere, sob os grandes pinheiros. Sem dúvida, por ser diferente o quadro agreste e porque as impressões mundanas, graças a essa transposição, retomavam o seu frescor. Era também porque a má carruagem que se tornava para ir visitar a Sra. Verdurin evocava um belo passeio e um custoso "trato" concluído com um cocheiro que havia pedido "tanto" pela jornada. Mas a curiosidade levemente excitada, em relação aos que chegavam, ainda impossíveis de distinguir, também provinha de que cada um indagava a si próprio: "Quem poderá ser?", pergunta a que era difícil responder, por não se saber quem poderia vir passar oito dias na casa dos Cambremer ou alhures, e que sempre se gosta de fazer nas vidas agrestes e solitárias, onde o encontro de um ser humano que se deixou de ver havia muito tempo, ou a apresentação a alguém que não se conhece, já não é mais essa coisa fastidiosa que é na vida de Paris, e interrompe deliciosamente o espaço vazio das vidas demasiado isoladas, em que até a hora do correio se torna agradável. E, no dia em que fomos de automóvel a Raspeliere, como não se tratava de uma segunda-feira, o Sr. e a Sra. Verdurin deviam estar atormentados pela necessidade de ver gente, necessidade que perturba os homens e as mulheres e dá ao doente, que encerraram longe dos seus, para uma cura de isolamento, vontade de se atirar pela janela. Pois, tendo-nos respondido o novo criado de pés mais rápidos, e já familiarizado com essas expressões, que "se madame não tinha saído, devia estar na 'vista de Douville', e que ele ia ver", voltou logo para dizer-nos que seríamos recebidos por ela. Encontramo-la um tanto despenteada, pois estava chegando do jardim, do galinheiro e do pomar, aonde fora dar de comer a seus pavões e galinhas, procurar ovos, colher frutas e flores para "fazer seu trilho de mesa", trilho que lembrava em miniatura o do parque; mas, sobre a mesa, apresentava a diferença de só fazê-lo suportar coisas úteis e boas para comer; pois, ao redor desses outros presentes do jardim que eram as peras, os ovos batidos em ponto de neve, erguiam-se hastes elevadas de viperinas, de cravos, de rosas e de coreópsis, entre as quais se viam, como entre estacas indicadoras e floridas, deslocando-se pelos vidros da janela, os barcos ao largo. Pelo espanto que o Sr. e a Sra. Verdurin, interrompendo o arranjo de flores para receber os visitantes anunciados, mostraram ao ver que esses visitantes eram apenas Albertine e eu, percebi que o novo criado, cheio de zelo, mas a quem seu nome ainda não era familiar, repetira-o mal e que a Sra. Verdurin, ouvindo o nome de visitantes desconhecidos, mesmo assim dissera que os mandasse entrar, tanta a sua necessidade de ver qualquer pessoa. E o novo criado contemplava da porta este espetáculo, a fim de compreender o papel que desempenhávamos na casa. A seguir, afastou-se correndo, a grandes pernadas, pois só estava contratado desde a véspera. Depois de ter mostrado bastante sua touca e seu véu aos Verdurin, Albertine lançou-me um olhar para me lembrar de que não tínhamos muito tempo à nossa frente para o que desejávamos fazer. A Sra. Verdurin queria que esperássemos a hora do chá, porém recusamos, quando, de súbito, se apresentou um projeto que liquidaria todos os prazeres que eu me prometia lucrar desse passeio com Albertine: a Patroa, não podendo decidir-se a nos deixar, ou talvez a deixar escapar uma nova distração, queria voltar conosco. Habituada desde muito a que oferecimentos desse gênero não causassem prazer, e provavelmente não tendo certeza de que este nos causasse algum, dissimulou sob um excesso de confiança a timidez que sentia ao nos fazê-lo, e nem sequer dando a impressão de supor que pudesse haver dúvidas quanto à nossa resposta, não nos fez nenhuma pergunta, porém disse ao marido, falando de Albertine e de mim como se nos fizesse um favor:

- Eu os levarei de volta. -

     Ao mesmo tempo, um sorriso se lhe aplicou à boca, sorriso que não lhe pertencia propriamente, sorriso que eu já vira em certas pessoas, quando diziam a Bergotte com ar finório: 

- Comprei o seu livro, é assim-assim -, um desses sorrisos coletivos, universais, que, quando as pessoas dele necessitam como a gente se utiliza da estrada de ferro ou dos carros de mudança -, tomam emprestado, menos alguns muito refinados como Swann ou o Sr. de Charlus, em cujos lábios nunca vi pousar tal sorriso. Desde aquele momento a minha visita estava envenenada. Fiz cara de não haver compreendido. Após um instante, tornou-se evidente que o Sr. Verdurin participaria da festa. 
- Mas será um passeio muito longo para o Sr. Verdurin - objetei. 
- Que nada! - replicou a Sra. Verdurin com ar condescendente e divertido - ele diz que muito lhe agradará refazer com essa mocidade o caminho que tantas vezes percorreu outrora; se necessário, ficará ao lado do wattman; isto não o assusta e nós dois voltaremos bem direitinho pelo trem como bons esposos. Olhem, ele parece encantado. -  

    Ela dava a impressão de falar de um grande pintor velho cheio de bonomia que, mais moço que os jovens, alegra-se em garatujar figuras para fazer rir seus netinhos. O que aumentava a minha tristeza era que Albertine parecia não compartilhá-la e achar divertido circular desse modo por toda a região com os Verdurin. Quanto a mim, o prazer que me havia prometido desfrutar com ela era tão imperioso que não quis deixar que a Patroa o estragasse; inventei mentiras que as irritantes ameaças da Sra. Verdurin tornavam desculpáveis, mas que Albertine, ai de mim, contradizia. 

- Mas temos uma visita a fazer - disse eu. 
- Que visita? - perguntou Albertine. 
- Eu lhe explicarei, é indispensável. 
- Pois bem, nós os esperaremos - disse a Sra. Verdurin, resignada a tudo.

     No último minuto, a angústia de sentir que me arrebatavam um prazer tão desejado deu-me coragem para ser descortês. Recusei redondamente, dizendo ao ouvido da Sra. Verdurin que, por causa de um desgosto que Albertine havia tido e sobre o qual queria me consultar, era absolutamente necessário que estivesse a sós com ela. A Patroa assumiu um aspecto irritado: 

- Está bem, não iremos - disse-me, a voz trêmula de cólera.

     Senti que estava tão zangada que, para parecer que cedia um pouco, disse: 

- Mas a gente talvez pudesse... 
- Não - retrucou ela, mais furiosa ainda; quando digo não, é não. -

     Julguei que estávamos rompidos; mas ela nos chamou à porta para nos recomendar que não "largássemos" a quarta-feira seguinte e que não viéssemos naquela máquina, que era perigosa à noite, mas pelo trem com todo o pequeno grupo, e mandou parar o auto, já em marcha, na descida do parque, pois o novo criado se esquecera de pôr na capota o pedaço de torta e os sablés que ela mandara embrulhar para nós. Tornamos a partir, escoltados um momento pelas casinhas, que acorriam com suas flores.

continua na página 186...
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