Terceira Parte - Mário
No primeiro momento, Mário julgou que era outra filha do mesmo homem, uma irmã,
sem dúvida, da primeira. Mas quando o invariável itinerário do passeio o fez passar
segunda vez junto do banco e a examinou com mais atenção, reconheceu ser a mesma.
Em seis meses tornara-se a menina quase uma senhora; eis toda a diferença. Não há
fenômeno mais frequente do que este. Há um momento em que as meninas
desabrocham num abrir e fechar de olhos, e em que de repente se tornam rosas. Ontem
deixaram-se crianças, hoje acham-se inquietadoras.Livro Sexto — Conjunção De Duas Estrelas
II — Lux facta est
Precisamente no segundo ano, no ponto desta história a que o leitor chegou, sucedeu
que Mário sem que mesmo soubesse porquê, interrompeu aquele hábito de ir ao
Luxemburgo, estando perto de seis meses sem pôr os pés no seu caminho repleto de árvores favorito. Um dia,
enfim, voltou ali; era uma serena manhã de verão e Mário sentia-se alegre, como sucede
quando o tempo está agradável. Parecia-lhe que tinha no coração o canto de todas as
aves que ouvia e todas as porções de folhagem do arvoredo.
Foi direito à «sua álea», e quando chegou ao fim, avistou ainda no mesmo banco, o
par já conhecido. Quando se aproximou viu que o homem era o mesmo que dantes; a
pequena é que lhe pareceu mudada. A jovem que agora via, era uma alta e bela criatura,
tendo todas as formas mais encantadoras da mulher no momento preciso em que elas
se combinam ainda com as mais ingênuas graças da criança; momento fugitivo e puro,
que só se pode traduzir pelas duas palavras: quinze anos. Tinha admiráveis cabelos
castanhos escuros com certos cambiantes doirados, uma fronte que parecia de mármore,
faces que se diriam compostas de folhas de rosas, mas um tanto pálidas, uma alvura
transparente, uma boca primorosa, donde o sorriso saía como uma claridade e a palavra
como uma música, uma cabeça que Rafael teria dado a Maria, sobre um pescoço que
Jean Goujon teria dado a Vênus. Enfim, para que nada faltasse àquela encantadora
fisionomia, o nariz não era belo, era bonito; nem reto nem curvo, nem italiano nem
grego; era o nariz parisiense, com o não sei quê de espirituoso, de fino, de irregular e de
puro, que desespera os pintores e encanta os poetas.
Quando Mário passou por diante dela não pôde ver-lhe os olhos, que conservava
constantemente baixos. Apenas lhe viu as compridas pestanas castanhas, carregadas de
sombra e de pudor.
Isto não impedia que a linda criança se sorrisse ouvindo o que lhe dizia o homem dos
cabelos brancos; e não havia nada tão arrebatador como aquele fresco sorriso com os
olhos baixos.
Aquela não só tinha crescido, mas tinha-se idealizado. Como três dias de abril são
suficientes a certas árvores para se cobrirem de flores, assim seis meses lhe bastaram
para ela se cobrir de beleza. Também tinha chegado o seu abril.
Veem-se às vezes pessoas que, pobres e mesquinhas, parecem despertar passando
subitamente da indigência ao fausto, principiando a fazer despesas de toda a qualidade,
tornando-se de repente salientes, pródigas e magnificentes. É o efeito de alguma grande
pensão, cujo primeiro prazo se venceu ontem. Do mesmo modo a donzela chegara
também ao termo do seu semestre.
Já não era a recolhida de outrora com o seu chapéu de pelica, o seu vestido de
merino, os seus sapatos de rapaz de escola e as suas mãos vermelhas; com a beleza
viera-lhe o gosto; era uma jovem bem trajada com uma espécie de simples, rica e
despretensiosa elegância. Trazia um vestido de damasco preto, um mantelete da mesma
fazenda e um chapelinho de crepe branco. Adivinhava-se-lhe através das alvas luvas a
delicadeza daquela mão que brincava com o cabo de uma sombrinha de marfim chinês, e
desenhava-lhe o borzeguim de seda a pequenez do pé. Quem por ela passava sentia um
penetrante olor de juventude exalando-se-lhe da roupa.
Quanto ao velho que a acompanhava, em nada tinha mudado.
Da segunda vez que Mário passou por diante da jovem, esta levantou as pálpebras e
deixou ver uns profundos olhos azuis celestes, mas a expressão do seu olhar era ainda
simplesmente a do olhar de uma criança. Olhou para Mário com a mesma indiferença
com que olharia para o gaiatozinho, que andava a brincar debaixo dos sicómoros, ou
para o vaso de mármore que assombrava o banco em que ela se achava; e Mário
continuou também o seu passeio com o pensamento noutra coisa.
Passou depois mais quatro ou cinco vezes próximo dela, mas sem ao menos lhe deitar
os olhos.
Nos dias que se seguiram voltou, como de costume, ao Luxemburgo; como de
costume, lá encontrou o «pai e a filha», porém não mais fez reparo neles. Tanto pensava
na jovem agora que ela era bela, como quando ela era feia. Continuava a passar próximo
do banco em que ela ia sentar-se, porque era esse o seu costume.
continua na página 528...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Sexto - II — Lux facta est
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS
Título original: Les Misérables (1862)
OS MISERÁVEIS
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira
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