terça-feira, 21 de abril de 2026

Émile Zola - Germinal: Quinta Parte - (II.a)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Quinta Parte

II
 

     Na Jean-Bart, havia já uma hora que Catherine empurrava os vagonetes até o entroncamento. Estava tão alagada de suor que parou um momento para enxugar o rosto.
     Do fundo do desmonte, onde britava no veio com seus companheiros de empreitada, Chaval admirou-se de não ouvir mais o barulho das rodas. As lâmpadas iluminavam mal, a poeira do carvão não deixava ver nada. 

— Que aconteceu? — gritou ele.

     Quando ela respondeu que estava desfazendo-se em suor e que sentia o coração saltando do peito, respondeu furioso: 

— Burra! pois tira a camisa, como a gente!

     Estavam a setecentos e oito metros, ao norte, na primeira via do veio Désirée, separados por três quilômetros do poço. Quando falavam daquela parte da mina, os mineiros da região empalideciam e baixavam a voz, como se estivessem falando do inferno. No mais das vezes limitavam se a abanar a cabeça, preferindo calar sobre aquelas profundidades que ardiam como brasas. A medida que avançavam para o norte, as galerias aproximavam-se do Tartaret, penetrando assim no incêndio interno que, em cima, calcinava as rochas. O veio, no ponto a que se chegara, tinha uma temperatura média de quarenta e cinco graus. Estava-se em plena cidade maldita, no meio das chamas que os passantes da planície viam pelas fissuras, cuspindo enxofre e vapores nauseabundos.
     Catherine, que já tirara a jaqueta, hesitou, depois tirou também as calças. E de braços e pernas nus, a camisa amarrada na cintura por uma corda, como se fosse uma blusa, pôs-se de novo a empurrar. 

— Assim talvez melhore — disse ela em voz alta.

     Sentia-se inquieta por estar seminua. Havia cinco dias que trabalhavam ali e que pensava nas histórias com que fora embalada na infância, nas operadoras de vagonetes de outrora que ardiam no Tartaret, como castigo por coisas que não se ousava repetir. Sem dúvida, já tinha idade bastante para não acreditar em tais bobagens, mas que faria ela, se repentinamente visse sair do muro uma moça rubra como um fogareiro e com olhos parecendo tições? A esta ideia, suava mais ainda.
     No entroncamento, a oitenta metros do desmonte, outra operadora recebia o vagonete e empurrava-o mais oitenta metros. Dali ele era expedido pelo recebedor, com os demais que desciam das vias superiores.

—  Puxa que coragem! — disse a outra operadora de vagonetes, uma viúva magra de trinta anos, ao ver Catherine em camisa. — Eu é que não posso andar assim... Os garotos do plano inclinado não me deixam em paz com os seus palavrões. 
— Pois eu — replicou Catherine — não ligo para o que dizem os homens. Estou sentindo muito calor.

     E tornou a partir, empurrando um vagonete vazio. O pior era que naquela via do fundo outra causa vinha juntar-se à vizinhança do Tartaret para tornar o calor insuportável. Ao lado, havia uma galeria abandonada da Gaston-Marie, muito profunda, onde uma explosão de grisu, dez anos antes, incendiara o veio, que ainda ardia por trás do muro de greda, que fora construído ali para estancar o fogo e vivia sob contínuos reparos, a fim de limitar o desastre. Sem ar, o incêndio devia ter-se apagado, mas sem dúvida correntes de ar desconhecidas o mantinham aceso. Durando já dez anos, esse fogo esquentava a argila do muro como os tijolos de um forno, a ponto de se receber o seu bafo na passagem. E era ao longo dessa muralha de mais de cem metros que se fazia o transporte, a uma temperatura de sessenta graus.
     Após duas viagens, Catherine sentiu-se novamente abafada. Felizmente a via era larga e cômoda no veio Désirée, um dos mais espessos da região. A camada tinha um metro e noventa, os operários podiam trabalhar em pé; mas eles teriam preferido cavar curvados e ter um pouco de ar fresco para respirar. 

— Mais esta! Já estás dormindo? — gritou violentamente Chaval quando não mais ouviu Catherine movimentar-se. — Que castigo para mim ter conseguido uma estropiada dessa! Vais ou não vais encher teu vagonete e empurrá-lo?

     Ela estava na parte de baixo do veio, apoiada na pá; olhava a todos com um ar imbecilizado, sem obedecer, presa de um súbito mal-estar. Mal podia vê-los à luz avermelhada das lâmpadas, inteiramente nus, como animais, tão negros e sujos de suor e carvão, que sua nudez não a incomodava. Era um trabalho feito na obscuridade, espinhas de macacos que se espichavam, uma visão infernal de membros chamuscados, esgotando-se em meio aos golpes surdos e aos gemidos. Mas eles, sem dúvida, viam-na melhor, porque pararam de bater com as picaretas e começaram a fazer brincadeiras ao perceberem que estava sem calças. 

— Ei, cuidado, não deixes que te resfries! 
— Que pernas que ela tem! Como é, Chaval? Dá bem para dois! 
— Queremos ver! Levanta mais um pouco! Mais alto! Mais alto, Chaval, sem se zangar com aquela pândega, insultou-a de novo. 
— Diacho! Para ouvir palavrões ela é boa, poderia ficar ali até amanhã.

     Num supremo esforço, Catherine decidiu-se a encher o vagonete e depois empurrou-o. A galeria era larga demais para que ela pudesse encostar-se nas madeiras dos lados, seus pés descalços não se mantinham sobre os trilhos, onde buscava um ponto de apoio enquanto empurrava o carro lentamente, os braços retesados e o corpo curvado. E, assim que ladeava o muro de greda, o suplício do fogo recomeçava, o suor voltava a correr por todo o corpo, em gotas enormes, como uma chuva de tempestade.
     Apenas a um terço do entroncamento, ficou inundada, cega, coberta também de lama negra. Sua camisa estreita, como que encharcada em tinta, colada à pele, subira até os rins com o movimento das pernas. Sentia-se tão dolorosamente manietada, que teve de parar o trabalho outra vez.
     Afinal, que estava acontecendo com ela naquele dia? Nunca se sentira tão mole. Devia ser o ar contaminado. Não havia ventilação no fundo daquela via longínqua. Respirava-se toda espécie de vapores que saíam do carvão com uma efervescência de fonte, e às vezes com tal abundância que as lâmpadas apagavam-se. Sem falar do grisu, do qual ninguém se ocupava mais, tal a sua quantidade, intoxicando os mineiros, do princípio ao fim da quinzena. Ela conhecia bem esse ar contaminado, esse ar morto, como dizem os mineiros: embaixo pesados gases asfixiantes, em cima gases leves que se incendeiam e fulminam uma mina inteira e centenas de homens num relâmpago. Desde a sua infância respirara-o tanto, que se espantava de não poder suportá-lo agora, os ouvidos zumbindo, a garganta em fogo.
     Não podendo mais, sentiu necessidade de tirar a camisa. Aquela roupa, cujas menores pregas pareciam entrar na carne, estava-se transformando numa tortura. Resistiu e quis continuar empurrando, mas foi forçada a endireitar a espinha. Num repente, dizendo-se que voltaria a vestir-se no entroncamento, tirou tudo, a corda e a camisa, com tanta ânsia que teria arrancado a pele, se pudesse. E agora, nua, deplorável, rebaixada ao trote de fêmea ganhando a vida pela lama dos caminhos, esfalfava-se, com a garupa coberta de fuligem e barro até a barriga, como uma égua de carroça. De quatro patas, ela empurrava o vagonete.
     Sentiu que estava ficando desesperada, a nudez não a aliviara. Que mais havia de tirar? Estava surda com aquele zumbido nos dos parecia-lhe ter um torniquete nas têmporas. Caiu de joelhos. A lâmpada, enfiada nos fragmentos de carvão do vagonete, foi diminuindo. No meio das suas ideias confusas, uma única era clara: subir o pavio da lâmpada. Por duas vezes quis examiná-la, e em ambas, à medida que a pousava diante de si, no chão, notou que se extinguia, como se a ela também faltasse a respiração. De repente a lâmpada apagou-se e tudo foi engolfado pelas trevas. Sua cabeça parecia um moinho girando, seu coração foi parando de bater, entorpecido pelo mesmo imenso cansaço que lhe atingira o corpo. Caíra de boca para baixo e agonizava no ar asfixiante, rente ao chão. 

— Inferno! Garanto que ela anda outra vez fazendo das suas! — trovejou a voz de Chaval.

     Pôs-se a escutar do alto do veio e não ouviu o barulho das rodas. 

— Ei, Catherine! Diabo de mulher!

     A voz perdia-se ao longe, na galeria escura, e nem um suspiro respondia. 

— Queres que eu vá fazer-te andar?

     Nada se movia, sempre o mesmo silêncio de morte. Furioso, ele desceu e saiu correndo com a sua lâmpada, quase tropeçando no corpo da operadora de vagonetes, que barrava a via. Boquiaberto, olhou-a demoradamente. Que teria ela? Não estaria fingindo, para tirar uma soneca? Mas a lâmpada, que baixara para iluminar o rosto da mulher, quase se apagou. Levantou-a, baixou-a novamente e acabou por compreender: devia ser um golpe de ar asfixiante. Sua violência desaparecera, a solidariedade do mineiro acordava diante do companheiro em perigo. Gritou para que lhe trouxessem a camisa dela, tomou nos braços a moça nua e desmaiada, erguendo-a o mais alto possível. Assim que lhe puseram nos ombros a roupa de ambos, partiu correndo, sustentando com uma das mãos o seu fardo, carregando na outra as duas lâmpadas. As galerias profundas desenrolavam-se na sua frente, enquanto corria, dobrando à esquerda e à direita, em busca da vida no ar gelado da planície, que o ventilador soprava. Finalmente parou ao ouvir um ruído de fonte, o borbulhar de uma infiltração vazando na rocha. Encontrava-se na encruzilhada de uma grande galeria carroçável, que antigamente era utilizada pela Gaston-Marie. Nesse ponto a ventilação soprava como uma tempestade, o frescor era tão grande que ele foi sacudido por um arrepio ao sentar-se por terra, encostando-se ao revestimento e com a amante ainda desacordada e de olhos fechados. 

— Chega de brincadeiras, Catherine! Como é?... Vê se podes sustentar-te sozinha por um instante enquanto eu molho isto na água...

     Estava assustado com a placidez dela. Mas assim mesmo conseguiu molhar sua camisa na fonte e lavar-lhe o rosto. Ela mais parecia uma morta, já enterrada, com seu corpo delicado de moça tardia, onde as formas da puberdade eram ainda hesitantes. De repente, um frêmito percorreu seu colo de criança, indo terminar no ventre e no sexo de pequena miserável, deflorada antes da idade. Abrindo os olhos, sussurrou: 

— Tenho frio. 
— Ah! agora sim, estou gostando... — exclamou Chaval, aliviado. Vestiu-a, enfiando-lhe facilmente a camisa, e praguejou devido à dificuldade que encontrava para enfiar-lhe as calças. Ainda atordoada e sem movimentos, ela não sabia onde se encontrava nem por que estava nua. Ao lembrar-se, ficou envergonhada. Como tivera a coragem de tirar tudo! Perguntou: tinha sido vista assim, sem ao menos um lenço na cintura? Ele, rindo, inventou história, contou que desfilara com ela nua por entre os companheiros que abriam alas. Também, que idéia ter ouvido seu conselho e pôr-se de bunda à mostra! Em seguida deu a sua palavra de que os camaradas nem ficaram sabendo se ela tinha o traseiro redondo ou quadrado, tanto ele correra.
— Com a breca! Estou morrendo de frio! — disse, vestindo-se também. 

     Nunca ela o vira tão carinhoso. De ordinário, para uma palavra boa, saíam logo duas grosseiras da sua boca. Seria tão bom se pudessem viver em paz! Ainda lânguida de fadiga, foi invadida pela ternura. Sorrindo, murmurou: 

— Beija-me! 

     Ele beijou-a e deitou-se ao seu lado, enquanto esperava que ela pudesse caminhar. 

— Estás vendo? — continuou a moça. — Não tinhas razão de gritar comigo lá no veio. Juro que já não podia mais. Onde vocês trabalham é menos quente, mas se tu soubesses como a gente cozinha no fundo da via... 
— Claro — respondeu ele. — A gente estaria melhor a céu aberto. Tens sofrido um bocado nesta mina, minha pobre menina; disso não duvido. 

     Ficou tão comovida ouvindo-o concordar, que se fez de corajosa. 

— É que hoje o ar está envenenado e eu tive uma indisposição. Mas em seguida verás se sou preguiçosa. Quando é preciso trabalhar, trabalha-se, não é verdade? Prefiro morrer a ficar sem fazer nada...

     Houve um silêncio. Ele segurava-a pela cintura, abrigando-a contra o peito. Ela, embora sentindo-se já com forças para voltar ao trabalho, entregava-se, deliciada. 

— Eu só queria que fosses mais carinhoso — disse ela baixinho. — A gente podia viver tão bem se houvesse um pouco de amor... 

     E pôs-se a chorar mansamente. 

— Mas eu te amo! — exclamou ele. — A prova é que te levei para viver comigo.

continua na página 254...
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Germinal: Quinta Parte - (II.a) /     
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.

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