Terceira Parte - Mário
Livro Sexto — Conjunção De Duas Estrelas
VII — Aventuras da letra U entregue a conjecturas
O isolamento, o desapego de tudo, o orgulho, a independência, o amor da natureza, a
falta de atividade quotidiana e material, o viver íntimo, as secretas lutas da castidade, o
êxtase benévolo em presença de todos os objetos da criação, haviam preparado Mário
para essa posse chamada paixão. O culto que ele tributava a seu pai pouco a pouco
convertera-se em religião, e, como toda a espécie de religião, retirara-se para o
fundo da alma. Era, pois, necessário alguma coisa no primeiro plano. Veio o amor.
Decorreu um mês, durante o qual Mário nem um só dia faltou no Luxemburgo.
Chegada a hora, não havia forças que o retivessem.
— Está de serviço — dizia Courfeyrac.
Mário vivia em sucessivos arrebatamentos, porque é caso averiguado que a donzela
lhe fitava os olhos todas as vezes que podia.
Mário, por último, viera a fazer-se ousado, aproximando-se o mais que podia do
banco, sem, todavia, tornar a passar por diante dele, no que juntamente obedecia ao
instinto da timidez e ao instinto da prudência dos namorados. Julgando útil, pois, não
atrair a «atenção do pai», combinava as suas paragens por trás das árvores e dos
pedestais das estátuas, com profundo maquiavelismo, de modo a tornar-se visível o mais
que podia para a jovem e o menos possível ao velho que passava por seu pai. Às vezes
permanecia imóvel por mais de meia hora à sombra de um Leónidas ou de um
Espártaco, conforme os topava a jeito, segurando na mão um livro, por cima do qual iam
os seus olhos meigamente fitar-se na donzela: ela voltava-se para o lado do mancebo
com um sorriso vago que lhe expandia em graças o donairoso rosto, e ao mesmo tempo
que natural e sossegadamente recreava os ouvidos do ancião com a meiguice das suas
palavras, fazia estremecer o mancebo com a sensação que nele ia produzir o seu virginal
e apaixonado olhar. Antigo manejo, de data imemorial, que Eva aprendeu no primeiro
dia da existência do mundo e que todas as mulheres sabem desde o primeiro dia da sua
vida! Com a boca respondia a um, com os olhos correspondia às mudas falas do coração
do outro.
Devemos porém acreditar que o senhor Leblanc viera, por último, a suspeitar de
alguma coisa, porquanto às vezes, logo que Mário chegava, ele erguia-se e principiava a
passear. Afinal, abandonara o costumado pouso dos seus passeios quotidianos e fora
tomar posse do banco que ficava ao pé da estátua do Gladiador, na outra extremidade
da rua, como para ver se Mário os seguiria. Mário, que não percebeu o ardil, cometeu,
efetivamente, a falta de os seguir e, desde então, «o pai» principiou a ser menos exato
nas regularidades dos seus passeios e a não trazer «a filha» quotidianamente como
dantes, vindo algumas vezes só. Nesse caso, Mário não ficava. Outra falta.
O mancebo, porém, não dava importância a estes sintomas. Da fase da timidez
passara, por uma progressão natural, mas nem por isso menos fatal, à fase da cegueira.
Só conhecia que o seu amor aumentava de dia a dia e que de noite não era outro o
objeto constante dos seus sonhos. Para maior desgraça, sucedera-lhe uma aventura
inesperada, que foi como um deitar pólvora no lume, um espessar-se mais a venda
que já lhe tapava os olhos. Uma tarde, à luz crepuscular que lhe povoava o espaço de
visões etéreas, encontrou no banco em que «o senhor Leblanc e sua filha» costumavam
estar sentados, um lenço sem bordados nem lavores, mas branco, fino, que lhe pareceu
rescender inefáveis aromas. Apoderou-se dele com transporte e viu que estava marcado
com as iniciais U. F.; Mário nada sabia daquela graciosa jovem, nem a respeito da sua
família, nem do seu nome, nem da sua morada; eram aquelas duas letras a primeira
coisa que a respeito dela colhia, duas iniciais adoráveis, sobre as quais imediatamente
começou a construir castelos movediços a qualquer empuxão da realidade. U, com
certeza, era o nome de baptismo.
— Úrsula! — disse ele a sós consigo. — Que delicioso nome!
E após haver beijado, aspirado, sorvido em sôfregos aulos os olores perfumados
daquele tão simples, tão desornado lenço, colocou-o junto ao coração, junto à carne, de
dia, e à noite sobre os lábios, para que mesmo dormindo lhe coassem bem dentro os
eflúvios rescendentes daquela amorosa relíquia.
— Sinto a alma dela neste lenço! — exclamava ele.
Aquele lenço tão apaixonadamente arrecadado pelo enamorado mancebo era do
velho, que por inadvertência o deixara cair do bolso.
Nos dias que se seguiram ao precioso achado, o mancebo aparecia sempre no
Luxemburgo beijando o lenço e apertando-o contra o coração. A graciosa jovem não o
percebia naquela linguagem muda da sua paixão e disso o advertia por meio de sinais
imperceptíveis.
— Quanto pode o pudor! — dizia Mário.
continua na página 535...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Sexto - VII — Aventuras da letra U
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS
Título original: Les Misérables (1862)
OS MISERÁVEIS
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira
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