quinta-feira, 28 de maio de 2026

Émile Zola - Germinal: Quinta Parte - (V.a)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Quinta Parte

V


     O Sr. Hennebeau fora à janela do seu gabinete para ver a partida da caleça que levava sua mulher para almoçar em Marchiennes. Por um instante, seu olhar seguira Négrel, que trotava ao lado da portinhola, depois foi sentar-se tranquilamente à sua mesa. A casa parecia vazia sem a presença buliçosa da mulher e do sobrinho. Justamente naquele dia era o cocheiro quem guiava a carruagem; Rose, a nova camareira, estava de licença até as cinco horas; só Hippolyte, o camareiro, permanecera, locomovendo-se à vontade pelas peças, e, naturalmente, a cozinheira, ocupada desde o amanhecer com suas panelas, toda entregue ao jantar que seus patrões dariam à noite. De modo que o Sr. Hennebeau planejara um dia de ande trabalho, na calma imensa da casa deserta.
     Lá pelas nove horas, Hippolyte, ainda que tivesse recebido ordem para não deixar ninguém entrar, tomou a liberdade de anunciar Dansaert que trazia notícias. Foi só então que o diretor soube da reunião da véspera, na floresta. E os detalhes eram a tal ponto pormenorizados que ele os escutou pensando nos amores do capataz com a mulher de Pierron, tão conhecidos, que duas ou três cartas anônimas por semana denunciavam os desregramentos do seu empregado: evidentemente o marido falara, aquela delação cheirava a travesseiro. Aproveitou a ocasião, deu a entender que sabia de tudo, mas apenas recomendou um pouco de prudência, para evitar escândalo. Assustado com aquelas acusações durante seu relatório, Dansaert negou, gaguejando desculpas, enquanto seu narigão confessava o crime, subitamente rubro. Mas não quis insistir, contente de se ver desculpado com tanta bonomia, porque, de ordinário, o diretor mostrava-se de uma severidade implacável de homem puro, quando algum empregado resolvia regalar-se com alguma moça bonita durante o trabalho. A conversa continuou sobre a greve; essa reunião da floresta não passava ainda de uma fanfarronada de baderneiros, não havia uma ameaça séria. Em todo o caso, certamente os conjuntos habitacionais mineiros não se mexeriam nos próximos dias, graças à impressão de medo e respeito que lhes fora inculcada pelo desfile militar da manhã.
     Quando o capataz partiu, o Sr. Hennebeau esteve a ponto de enviar um telegrama ao prefeito. Apenas o receio de dar provas de nervosismo o reteve. Já não se perdoava sua falta de faro, que o levara a dizer aos quatro ventos, e mesmo escrever à administração, que a greve não duraria mais do que uma quinzena. Para sua grande surpresa, ela se arrastava havia dois meses. Desesperava-se com isso, sentia-se humilhado, comprometido, forçado a imaginar algo brilhante, se queria voltar às boas graças dos administradores. Acabava de pedir-lhes instruções na eventualidade de alguma desordem. A resposta não vinha, esperava-a pelo correio da tarde. E perguntava-se se ainda estaria em tempo de enviar telegramas, pedindo a ocupação militar das minas, se essa fosse a opinião de Paris. Segundo ele, isso resultaria numa batalha, com sangue e mortos. Semelhante responsabilidade perturbava-o, apesar de sua habitual energia.
     Até as onze horas trabalhou sem ser incomodado, sem outro ruído na casa morta que o da escova de encerar que Hippolyte manejava, muito ao longe, numa peça do primeiro andar. Depois uma após a outra, recebeu duas mensagens, a primeira anunciando a invasão da Jean-Bart pelos grevistas de Montsou, a segunda falando dos cabos cortados, das fornalhas apagadas, de todos os estragos. Não podia compreender. Que tinham ido fazer os grevistas na concessão de Deneulin, em vez de atacarem uma mina da companhia? Aliás, que arrasassem Vandame à vontade, isso não fazia mais que ajudar o plano de conquista que tramava. Ao meio-dia almoçou sozinho na vasta sala, servido em silêncio pelo criado, do qual nem mesmo os passos ouvia. Esta solidão tornava ainda mais sombrias as suas preocupações. Sentiu o sangue gelando nas veias quando um contramestre, que viera correndo, foi introduzido e lhe contou a marcha do bando sobre a Mirou. Quase em seguida, quando acabava de tomar café, um telegrama lhe informou que a Madeleine e a Crèvecoeur também estavam ameaçadas. Desse momento em diante sentiu-se extremamente perplexo. Esperava o correio às duas horas: devia pedir tropas imediatamente? ou seria melhor esperar, para não agir antes de ter conhecimento das ordens da administração? Voltou ao gabinete, quis ler uma nota para o prefeito, que na véspera pedira a Négrel que redigisse, mas não conseguiu encontrá-la. Pensou que talvez o rapaz a tivesse deixado no seu quarto, onde muitas vezes escrevia durante a noite. E, sem tomar uma decisão, perseguido pela idéia da nota, subiu ao quarto do sobrinho para procurá-la.
     Ao entrar, o Sr. Hennebeau teve uma surpresa: o quarto não estava arrumado, sem dúvida por esquecimento ou preguiça de Hippolyte. Reinava ali um calor úmido, o calor abafado de uma noite inteira, aumentado pelo escapamento do calorífero que ficara aberto. Seu olfato foi açulado, quase sufocado com um perfume penetrante, que julgou ser o cheiro dos sais de banho, de que a bacia estava cheia. Uma grande desordem reinava na peça, roupas espalhadas, toalhas molhadas jogadas nos encostos das cadeiras, a cama descoberta, um lençol puxado, arrastando-se no tapete. Quando entrou, apenas lançou um olhar distraído a tudo aquilo, dirigindo-se para uma mesa coberta de papéis, em busca da nota desaparecida. Por duas vezes examinou os papéis, um por um, e decididamente o que buscava não estava entre eles. Onde diabo teria o desmiolado do Paul escondido o documento?
     E ao voltar para o centro do quarto, olhando por cima de cada móvel, percebeu, na cama descoberta, algo que brilhava como uma faísca. Aproximou-se maquinalmente e estendeu a mão. Era um pequeno frasco de ouro entre duas pregas do lençol. Imediatamente reconheceu-o como da Sra. Hennebeau, o frasco de éter do qual ela nunca se separava. Continuava sem compreender como aquele objeto viera parar na cama de Paul. Num átimo ele se transformara: estava horrivelmente pálido. Sua mulher tinha dormido ali. 

— Desculpe — murmurou Hippolyte da porta. — Como vi o senhor subir...

     O criado entrou, olhando espantado para a desordem da peça. 

— Meu Deus! É verdade que este quarto ainda não foi arrumado! Também, a Rose saiu, deixando tudo nas minhas costas..

     O Sr. Hennebeau escondia o frasco na mão, apertando-o com toda a força. 

— Quer alguma coisa? 
— Está aí outro homem... Veio da Crèvecoeur trazendo uma carta. 
— Está bem. Pode ir, e diga-lhe que me espere.

     Sua mulher tinha dormido ali! Correu o ferrolho da porta, abriu a mão e olhou o frasco, que lhe deixara um sinal vermelho na pele. E subitamente começou a compreender, a ver claro, aquela sujeira tinha lugar em sua casa havia meses. Lembrou-se da sua antiga suspeita, os ruídos leves contra as portas, os pés descalços caminhando de noite pela casa silenciosa. Era isso! Sua mulher subia para dormir ali...
     Caído sobre uma cadeira, em frente à cama que contemplava fixamente, permaneceu por algum tempo como se tivesse sido golpeado. Foi despertado por um barulho, alguém batia à porta, tentando abrir. Reconheceu a voz do criado: 

— Sr. Hennebeau... Ah! está fechado por dentro... 
— Que quer? 
— Parece que é urgente, os operários estão quebrando tudo. Há mais dois homens lá embaixo. Chegaram telegramas... 
— Deixe-me em paz! Já vou.

     A ideia de que Hippolyte teria descoberto o frasco, se tivesse arrumado o quarto de manhã, deixava-o gelado. Aliás, esse criado já devia saber: inúmeras vezes encontrara a cama ainda quente do adultério, cabelos da mulher caídos no travesseiro, manchas execrandas enodoando os lençóis. Se vinha a todo o momento importuná-lo, era por maldade.
     Quantas vezes não teria ficado com o ouvido colado à porta excitado com a devassidão dos patrões?
     O Sr. Hennebeau permaneceu imóvel, olhando para a cama. o longo passado de sofrimentos veio-lhe à memória, seu casamento com aquela mulher, o imediato mal-entendido, tanto físico como espiritual, os amantes que ela tivera sem que ele desconfiasse, aquele que tolerara por dez anos como se tolera uma perversão a uma doente. Depois, foi a chegada deles a Montsou, a louca esperança de curá-la, meses de languidez, de exílio modorrento, a aproximação da velhice, que enfim iria trazê-la de volta para ele. Mas surgia o sobrinho, esse Paul de quem ela se intitulava mãe, a quem falava do seu coração morto, enterrado em cinzas para todo o sempre. E ele, marido imbecil, nada via, na adoração por aquela mulher que era sua, que tantos homens tinham possuído e só ele não podia ter. Adorava-a com uma paixão vergonhosa, a ponto de cair de joelhos se ela resolvesse dar-lhe o resto dos outros. E o resto dos outros ela dava àquele rapaz.
     Nesse momento, um toque de campainha longínquo fez o Sr. Hennebeau estremecer. Reconheceu-o, era o toque que se dava, seguindo suas ordens, quando chegava o carteiro. Levantou-se, falou em voz alta, num assomo de vulgaridade que jorrava da garganta, escapando ao seu controle.

— Ah! Que um raio os parta! Pouco me importam os telegramas e as cartas dessa gente!

     Sentia-se invadido pelo ódio, necessitava de uma cloaca para nela enterrar toda essa imundície, esmagando-a com os pés. Aquela mulher era uma cadela! Procurava palavras indecorosas, para com elas emporcalhar a sua imagem. A repentina ideia do casamento entre Cécile e Paul, que ela arranjava com um sorriso tão inocente, acabou de exasperá-lo. Então nem sequer havia paixão, ou ciúme, em toda aquela sensualidade arrebatada? Na idade dela, já não devia ser mais do que um brinquedo perverso, a fixação no homem, uma recreação degustada como uma sobremesa a que estivesse acostumada. Acusava-a de tudo, quase inocentava o rapazinho que ela, com rejuvenescido apetite, mordera, como se morde o primeiro fruto verde, roubado na estrada. Quem mais devoraria, até onde desceria quando não houvesse mais sobrinhos condescendentes, bastante práticos para aceitarem em sua família, mesa, cama e mulher?
     Bateram timidamente na porta e Hippolyte disse, com medo, pelo buraco da fechadura: 

— O correio, Sr. Hennebeau... E está aí outra vez o Sr. Dansaert dizendo que se estão matando... 
— Inferno! Já vou!

     Que faria com eles? Expulsá-los quando voltassem de Marchiennes, como animais nojentos que não queria mais ter sob seu teto? Agarraria um pau e lhes gritaria que fossem espalhar longe dele o veneno de seu concubinato. Eram seus suspiros, seus hálitos confundidos que aumentavam o calor úmido daquele quarto; o cheiro penetrante que o sufocara era o cheiro de almíscar que exalava a pele de sua mulher, outro gosto depravado, uma necessidade carnal de perfumes violentos. Reconheceu então o calor, o cheiro de fornicação, o adultério vivendo nos vasos desarrumados, nas bacias ainda cheias, na desordem dos lençóis, dos móveis, da peça inteira, corrompida pelo vício. Um furor de impotência atirou-o para cima da cama aos murros, massacrou-a, amarfanhou os lugares onde via a marca dos dois corpos, furioso com as cobertas arrancadas, com os lençóis usados, moles e inertes sob seus golpes, como que também exaustos pela longa noite de amor.
     Mas de repente pareceu-lhe ouvir Hippolyte subindo outra vez. Envergonhado, parou.
     Ficou por um momento ainda ofegante, enxugando a testa, acalmando as batidas do coração. Em pé defronte de um espelho, contemplou seu rosto, tão descomposto que não chegava a reconhecê-lo. Depois, quando viu que voltava ao normal, por um supremo esforço de vontade, desceu.
     Embaixo, cinco mensageiros, sem contar Dansaert, esperavam. Todos traziam notícias de gravidade crescente sobre a marcha dos grevistas pelas minas. O capataz contou com detalhes os acontecimentos da Mirou, salva pelo valoroso comportamento do velho Quandieu. Ele escutava, balançava a cabeça, mas não sabia o que o outro estava dizendo; seu espírito ficara lá em cima, no quarto. Por fim disse que podiam ir, prometendo tomar medidas. Vendo-se outra vez só, sentado em frente à sua mesa, pareceu adormecer, a cabeça entre as mãos, os olhos abertos. A correspondência estava ah, sobre a mesa, e decidiu procurar a carta esperada, a resposta da administração, cujas linhas, a princípio, dançaram ante seus olhos Contudo, acabou por compreender que os administradores queriam uma reação; claro, não lhe ordenavam que piorasse as coisas, mas davam a entender que alguns choques apressariam o desenlace da greve, provocando uma repressão enérgica. Desse momento em diante não hesitou mais, enviou telegramas para toda parte, ao prefeito de Lille, ao quartel do exército de Douai, à polícia de Marchiennes. Era um alívio, agora podia encerrar-se em casa, fez até espalhar boatos de que estava com gota. E durante toda a tarde escondeu-se no seu gabinete, sem receber ninguém, lendo apenas os telegramas e cartas que continuavam a chover. Seguiu assim de longe o bando da Madeleine à Crèvecoeur, da Crèvecoeur à Victoire, da Victoire à Gaston-Marie. Por outro lado, chegavam-lhe informações sobre o desnorteamento dos policiais e da cavalaria, perdidos pela estrada, sempre saindo das minas que iam ser atacadas. Podiam matar se e destruir tudo, colocara novamente a cabeça entre as mãos, os dedos apertando os olhos, engolfados no grande silêncio da casa vazia, onde se ouvia apenas, e espaçadamente, o barulho das caçarolas da cozinheira preparando o jantar.
     O crepúsculo já escurecia a peça, eram cinco horas quando uma algazarra fez que o Sr. Hennebeau acordasse sobressaltado, saindo do torpor e da inércia em que se encontrava, sempre com os cotovelos fincados na mesa. Por um momento pensou que eram os dois miseráveis que voltavam. Mas o tumulto ia num crescendo, e ao aproximar-se da janela deu-se uma terrível explosão de vozes: 

— Pão! Pão! Pão!

     Eram os grevistas que invadiam Montsou, enquanto os policiais, acreditando em um ataque à Voreux, galopavam em sentido contrário para ocupar aquela mina.

continua na página 293...
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Quinta Parte - (V.a) /
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.

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