segunda-feira, 15 de junho de 2026

Dostoiévski - Os Irmãos Karamazov Livro 2 (IV. Uma dama sem muita fé)

Os Irmãos Karamazov

Fiódor Dostoiévski


PRIMEIRA PARTE
LIVRO II
UMA REUNIÃO INTEMPESTIVA
IV
UMA DAMA SEM MUITA FÉ
    
     A dama proprietária, recentemente chegada, testemunha dessa conversação com as mulheres do povo e da bênção, vertia suaves lágrimas que enxugava com seu lenço. Era uma mulher da sociedade, sensível, de tendências virtuosas. Quando o stáriets a abordou, por fim, acolheu-o com entusiasmo.

— Experimentei uma tal impressão, contemplando essa cena enternecedora... — a emoção cortou-lhe a palavra. — Oh! Compreendo que o povo vos ame, eu mesma amo o povo. Como não se haveria de amar nosso excelente povo russo, tão ingênuo na sua grandeza? 
— Como vai sua filha? Quis de novo entreter-se comigo? 
— Oh! Pedi instantemente, tenho suplicado, estava pronta a me pôr de joelhos e a ficar três dias diante de vossas janelas, até que me deixásseis entrar. Vimos, grande curador, exprimir-vos todo o nosso reconhecimento entusiasta. Porque fostes vós que curastes Lisa, completamente, quinta feira, rezando diante dela e impondo-lhe as mãos. Tínhamos pressa em beijar essas mãos, em testemunhar nossos sentimentos e nossa veneração. 
— Eu a curei, diz a senhora? Ela, porém, está ainda deitada em sua poltrona. 
— Mas as febres noturnas desapareceram completamente há dois dias, a partir de quinta-feira — disse a dama com uma solicitude nervosa. — Não é tudo: suas pernas fortificaram-se. Esta manhã, levantou-se de boa saúde. Olhai suas cores e seus olhos que brilham. Chorava constantemente, agora já, está alegre, jovial. Hoje, exigiu que a pusessem de pé e manteve-se um minuto sozinha, sem nenhum apoio. Quer apostar comigo que dentro de quinze dias dançará uma quadrilha? Mandei chamar o Doutor Herzenstube; ele levanta os olhos e diz: "Estou admirado, não compreendo nada disso". E queríeis vós que não vos incomodássemos, que não acorrêssemos aqui, para agradecer-vos? Lisa, vamos, agradece!  

     O rostinho de Lisa tornou-se subitamente sério. Ergueu-se de sua poltrona tanto quanto pôde e, fitando o stáriets, juntou as mãos, mas não pôde conter-se e pôs-se a rir.

— É dele que rio, dele — disse ela, mostrando Aliócha, contrariada por não poder impedir-se de rir. Observando-se o rapaz, que se mantinha por trás do stáriets, ter-se-ia visto que suas faces se cobriam dum rápido rubor. Seus olhos brilharam e ele os baixou. 
— Ela tem um recado para você, Alieksiéi Fiódorovitch... Como vai você? — continuou ela dirigindo-se a Aliócha e estendendo-lhe a mão deliciosamente enluvada. O stáriets voltou-se e examinou Aliócha. Este aproximou-se de Lisa e estendeu-lhe a mão, sorrindo acanhadamente. Lisa assumiu um ar grave.

— Catarina Ivânovna pediu-me que lhe remetesse isto — e entre gou-lhe uma pequena carta. — Ela lhe pede que vá vê-la o mais cedo possível e sem falta. 
— Ela me pede que eu vá à casa dela? Por quê?... — murmurou Aliócha com profundo espanto. Seu rosto tornou-se preocupado. 
— Oh! Ê a propósito de Dimítri Fiódorovitch e... de todos esses últimos acontecimentos — explicou rapidamente a mãe. — Catarina Ivânovna firmou-se agora numa decisão... mas para isso deseja vê-lo ... Por quê? Ignoro-o, decerto, mas pediu ela que fosse o mais cedo possível e você não deixará de ir lá, os sentimentos cristãos o obrigam a isto. 
— Vi-a uma vez ao todo — continuou Aliócha, sempre perplexo. 
— Oh! É uma criatura tão nobre, tão inacessível!... Quando menos pelos seus sofrimentos... Considere o que tem ela suportado, o que ela suporta agora e o que a espera... Tudo isto é horrível, horrível! 
— Está bem, irei — decidiu Alieksiéi, depois de ter lido o bilhete, curto e enigmático, que não continha nenhuma explicação, a não ser a súplica instante para que ele fosse. 
— Ah! Como é gentil de sua parte — exclamou Lisa, animadamente. — Dizia eu a mamãe: "Ele jamais irá, está tratando de sua salvação". Como você é bom! Sempre pensei que você era bom. É um prazer dizer-lhe agora! 
— Lisa! — disse gravemente a mãe, que, aliás, sorriu. 
— Você nos esqueceu, Alieksiéi Fiódorovitch, não quer absolutamente visitar-nos. Entretanto, Lisa me disse duas vezes que só se encontrava bem em sua companhia. — Aliócha ergueu seus olhos baixos, corou de novo e sorriu sem saber por quê. Aliás o stáriets não o observava mais. Entrara em conversa com o monge que aguardava sua vinda, como o dissemos, ao lado da cadeira de Lisa. Era, pelo que se via, um monge duma condição das mais modestas, de ideias estreitas e paradas, mas crente e obstinado a seu modo. Contou que vivia longe, no norte, em Obdorsk, no Convento de São Silvestre, pobre mosteiro, que só contava nove monges. O stáriets - abençoou-o, convidou-o a vir à sua cela, quando bem lhe parecesse.
— Como tentais semelhantes coisas? — perguntou o monge, mostrando gravemente Lisa. Fazia alusão à sua "cura".
— É ainda demasiado cedo para falar disso. Um alívio não é a cura completa e pode ter outras causas. Mas o que pôde passar-se é unicamente devido à vontade de Deus. Tudo vem dele. Venha ver-me, padre — acrescentou ele —, eu não poderei vir sempre; estou doente e sei que meus dias estão contados. 
— Oh! não, não, Deus não vos arrebatará de nós, vivereis ainda muito tempo, muito tempo — exclamou a mãe. — Além disso, qual a vossa doença? Pareceis de tão bom aspecto, alegre e feliz. 
— Sinto-me muito melhor hoje, mas sei que não é por muito tempo. Conheço agora a fundo minha doença. Se lhe pareço tão alegre, nada me pode causar mais prazer que ouvi-la dizer isso. Porque a felicidade é o fim do homem, e aquele que tem sido completamente feliz tem o direito de dizer a si mesmo: "Cumpri a lei divina nesta terra". Os justos, os santos, os mártires todos foram felizes. 
— Oh! As ousadas, as sublimes palavras! — exclamou a mãe. — Elas nos traspassam! Entretanto, onde está a felicidade? Quem pode dizer-se feliz? Oh! já que tivestes a bondade de permitir que vos viéssemos ser ainda hoje, escutai tudo quanto não vos disse na derradeira vez, tudo quanto não ousava dizer-vos, aquilo de que sofro desde tanto tempo! Porque eu sofro, desculpai-me, eu sofro... —' e, num ímpeto de fervor, juntou as mãos diante dele. 
— De que, particularmente? 
— Sofro... porque não creio... 
— Não crê em Deus? 
— Oh! Não, não, não ouso pensar nisso, mas a vida futura, que enigma! E ninguém pode responder a isto! Escutai-me, vós que conheceis a alma humana e a curais; sem dúvida, não ouso pedir-vos que me acrediteis absolutamente, mas asseguro-vos, da maneira mais solene, que não é por leviandade que falo agora, essa ideia da vida de além-túmulo me emociona até o sofrimento, até o espanto e o pavor... E não sei a quem dirigir-me, não ousei toda a minha vida... Agora me permito dirigir-me a vós... Oh! Deus! Por quem me tomais?

     Bateu as mãos uma contra a outra.

— Não se inquiete com a minha opinião — respondeu o stáriets. — Creio perfeitamente na sinceridade de sua angústia. 
— Oh! Como vos sou grata! Vede: fecho os olhos e sonho. Se todos acreditam, donde vem isto? Assegura-se que tudo isto provém a princípio do medo, inspirado pelos fenômenos grandiosos da natureza, mas que nada existe. Pois bem! penso eu, acreditei toda a minha vida; morrerei e não haverá nada e somente "a relva brotará sobre o tumulo", como se exprime um escritor. É horrível! Como recuperar a fé? Aliás, cri somente na minha infância, mecanicamente, sem pensar em nada... Como me convencer? Vim inclinar-me diante de vós e rogar-vos que me esclareçais. Porque se deixo passar a ocasião presente nunca mais me responderão. Como persuadir-me? De acordo com que provas? Quanto sou infeliz! Em redor de mim, ninguém se preocupa com isto, quase ninguém; ora, não posso suportar isto sozinha. É esmagador! 
— Decerto, é esmagador. Mas onde nada se pode provar, pode a gente persuadir-se. 
 — Como? De que maneira? 
— Pela experiência do amor que age. Esforce-se por amar seu próximo com ardor e sem cessar. À medida que progredir no amor, convencer-se-á a senhora da existência de Deus e da imortalidade de sua alma. Se for até a abnegação total no seu amor ao próximo, então acreditará indubitavelmente e nenhuma dúvida mesmo poderá aflorar sua alma. Está isto demonstrado pela experiência. 
— O amor que age! Eis ainda uma questão, e que questão! Vede: amo tanto a humanidade que, acreditaríeis vós?, sonho por vezes abandonar tudo quanto tenho, deixar Lisa e fazer-me irmã de caridade. Fecho os olhos, sonho e devaneio; nesses momentos, sinto em mim uma força invisível. Nenhum ferimento, nenhuma chaga purulenta poderia horrorizar-me. Eu as pensarei, as lavarei com minhas próprias mãos, serei a enfermeira desses pacientes, prestes a beijar suas úlceras... 
— Já é muito que a senhora tenha tais pensamentos. Por acaso acontecer-lhe-á praticar verdadeiramente uma boa ação. 
— Sim, mas poderia eu suportar muito tempo tal existência? — continuou a dama, apaixonadamente, com um ar quase desvairado. — Eis a questão capital, a que mais me atormenta. Fecho os olhos e pergunto a mim mesma: "Persistidas muito tempo nessa via? Mas se o doente, cujas úlceras tu lavas, te pagar com ingratidão, se puser a atormentar-te com seus caprichos, sem apreciar nem notar teu devotamento, se gritar contra ti, se se mostrar exigente e queixar-se mesmo à diretoria (como acontece muitas vezes quando se sofre muito), farás então o quê? Continuará o teu amor?" Imaginai que já decidi, com um arrepio: "Se há alguma coisa que possa esfriar imediatamente meu amor *que age* em favor da humanidade, é unicamente a ingratidão". Numa palavra: trabalho por um salário, exijo-o imediatamente, sob forma de elogios e de amor em troca do meu. De outro modo, não posso amar ninguém.

     Depois de haver-se assim fustigado, num acesso de sinceridade, ela fitou o stáriets com um atrevimento provocante.

— É exatamente o que me contava, há muito tempo, aliás, um médico — observou o stáriets.-—- Era um homem de idade madura e verdadeiramente inteligente, exprimia-se tão francamente quanto a senhora, se bem que brincando, mas com tristeza. "Eu amo", dizia ele, "a humanidade, mas admiro-me de mim mesmo. Tanto mais amo a humanidade em geral, quanto menos amo as pessoas em particular, como indivíduos. Muitas vezes tenho sonhado apaixonadamente em servir à humanidade, e talvez tivesse verdadeiramente subido ao calvário por meus semelhantes, se tivesse sido preciso, muito embora não possa viver com ninguém dois dias no mesmo quarto. Sei-o por experiência. Desde que alguém está junto de mim, sua personalidade oprime meu amor próprio e constrange minha liberdade. Em 24 horas, posso mesmo antipatizar com. as melhores pessoas uma, porque fica muito tempo na mesa, outra, porque está resfriada e só faz espirrar. Torno-me o inimigo, dos homens, apenas se acham eles em contato comigo. Em compensação, invariavelmente, quanto mais detesto as pessoas em particular, tanto mais ardo de amor pela humanidade em geral." 
— Mas que fazer? Que fazer em semelhante caso? É de desesperar. 
— Não, porque basta que a senhora fique desolada. Faça o que puder e ser-lhe-á levado isso em conta. A senhora já fez muito para ser capaz de conhecer-se a si mesma, de maneira tão profunda, tão sincera. Se me falou agora com tal franqueza, unicamente para receber meus elogios pela sua veracidade, não atingirá nada, seguramente, no domínio do amor que age. Tudo se limitará a sonhos e sua vida escoar-se-á como um sonho. Então, naturalmente, esquecerá a vida futura e para o fim tranquilizar-se-á duma maneira ou de outra. 
— Vós me acabrunhais! Compreendo somente agora, como acabais de dizer-me, que, ao contar-vos o horror que sinto pela ingratidão, esperava vossos elogios à minha sinceridade, e nada mais. Sugerisies, captastes meus pensamentos para mos revelardes. 
— Fala sério? Pois bem! depois de tal confissão, creio que a senhora é boa e sincera. Se não atingir a felicidade, lembre-se sempre de que está no bom caminho e trate de não sair dele. Sobretudo, evite toda mentira, particularmente a mentira para consigo mesma. Observe sua mentira, examine-a a cada instante. Evite também a repugnância para com os outros e para consigo mesma: o que lhe parece mau na senhora mesma está purificado, pelo simples fato de que o notou na senhora. Evite também o temor, se bem que seja ele somente a consequência de toda mentira. Não tema jamais sua própria covardia na procura do amor, não se deixe mesmo atemorizar demais pelas suas más ações a esse propósito. Lamento nada poder dizer-lhe de mais rejubilante, porque o amor que age, comparado com o amor contemplativo, é algo de cruel e de atemorizante. O amor contemplativo tem sede de realização imediata e de atenção geral. Chega-se ao ponto de dar sua vida, com a condição de que isso não dure muito tempo, e que tudo se acabe rapidamente, como no palco, sob os olhares e os elogios. O amor atuante é o trabalho e o domínio de si, e para alguns toda uma ciência. Ora, predigo-lhe que no momento mesmo em que a senhora verificar com terror que, malgrado todos os seus esforços, não somente não se aproximou a senhora do alvo, mas até mesmo dele se afastou — nesse momento, predigo-lhe —, a senhora atingirá o alvo e verá acima da senhora a força misteriosa do Senhor, que a terá guiado com amor, sem que a senhora soubesse. Desculpe-me não poder demorar mais tempo com a senhora. Esperam-me. Adeus.

     A dama chorava.

— Lisa, Lisa, abençoai-a — disse ela com ímpeto.
— Ela não merece ser amada. Vi-a divertir-se todo o tempo — brincou o stáriets. — Por que zombou de Alieksiéi?  

     Lisa, com efeito, dedicara-se todo o tempo a isso. Desde muito tempo, desde o ano anterior, notara que Aliócha se perturbava na sua presença, evitava olhá-la, e isto tornou-se muito divertido para ela. Fitava o, buscava seu olhar. Não resistindo àquele olhar fixo obstinadamente sobre ele, Aliócha, impelido por uma força invisível, olhava-a por sua vez; imediatamente ela se abria num sorriso triunfante. Isto aumentava a confusão e o despeito de Aliócha. Afinal, afastou-se completamente dela, ocultando-se por trás do stáriets. Ao fim de alguns minutos, como que hipnotizado, voltou-se para ver se o olhavam. Lisa, quase fora de sua cadeira, observava-o de viés e esperava impacientemente que ele a olhasse; tendo assim captado o olhar dele, explodiu em tal gargalhada que o stáriets não pôde conter-se.

— Por que, sua brejeira, faz você que ele core dessa maneira?

     Lisa ficou toda vermelha, seus olhos brilharam, seu rosto ficou sério e com voz lamentosa, indignada, disse nervosamente:

— Por que esqueceu ele tudo? Quando eu era bem pequenina, carregava-me em seus braços, brincávamos juntos. Foi ele quem me ensinou a ler, sabíeis? Há dois anos, ao partir, disse que não o esqueceria jamais, que éramos amigos para sempre, para sempre! E ei-lo agora que tem medo de mim, como se eu fosse comê-lo. Por que não se aproxima e não quer falar? Por qual razão não nos vem ver? Não é porque vós o retenhais, pois sabemos que ele vai a toda parte. Não é conveniente para mim convidá-lo. Deveria ele lembrar-se por primeiro, se não esqueceu. Não, agora trata de sua salvação! Por que o revestistes desse hábito de longas abas?... Se correr, cairá...

     De súbito, não suportando mais, ocultou o rosto nas mãos e rebentou numa gargalhada nervosa, prolongada, silenciosa, que a sacudia toda. O stáriets, que a havia escutado sorrindo, abençoou-a com ternura; ao beijar-lhe a mão, ela a apertou contra seus olhos e se pôs a chorar.

— Não vos zangueis comigo, sou uma bobinha, não valho coisa alguma... Aliócha tem talvez razão em não querer ir à casa duma moça tão ridícula.
— Eu o mandarei lá, sem falta — cortou o stáriets

continua na página 50...
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Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, nascido em Moscou, 11 de novembro de 1821 — falecido em São Petersburgo, 9 de fevereiro de 1881, foi um escritor, filósofo e jornalista russo. É considerado por muitos um dos maiores romancistas e pensadores da história, bem como um dos maiores «psicólogos» que já existiu, ao considerar a designação e etimologia mais ampla do termo, como investigador da psique.
Os Irmãos Karamazov é um romance de Fiódor Dostoiévski, escrito em 1879, uma das mais importantes obras das literaturas russa e mundial, ou, conforme afirmou Freud: "a maior obra da história". Freud considera esse romance, juntamente com Édipo Rei e Hamlet, três importantes livros a respeito do embate pai e filho, e retratam o complexo de Édipo.

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