terça-feira, 9 de junho de 2026

Dostoiévski - Os Irmãos Karamazov Livro 2 (II. Um velho palhaço)

Os Irmãos Karamazov

Fiódor Dostoiévski


PRIMEIRA PARTE
LIVRO II
UMA REUNIÃO INTEMPESTIVA
II
UM VELHO PALHAÇO
    
     Entraram quase ao mesmo tempo que o stáriets, que, desde a chegada deles, havia saído de seu quarto de dormir. Na cela, tinham sido precedidos por dois religiosos do eremitério: um era o padre bibliotecário, o outro o Padre Paísi, doente, malgrado sua idade pouco avançada, mas erudito, segundo se dizia. Achava-se ainda ali um rapaz (ficou de pé todo o tempo), parecendo ter 22 anos de idade, de sobrecasaca, seminarista e futuro teólogo, protegido pelo mosteiro e pela confraria. Era de estatura bastante elevada, tinha o rosto fresco, os pômulos salientes, com olhinhos castanhos de olhar inteligente. Seu rosto exprimia deferência, mas sem obsequiosidade. Não cumprimentou os visitantes, considerando-se não como igual deles, mas como um subalterno.
     O stáriets Zósima apareceu, em companhia de um noviço e de Aliócha. Os religiosos levantaram-se, fizeram-lhe profunda reverência, com os dedos tocando a terra, receberam sua bênção, beijaram-lhe a mão. A cada um deles, o stáriets respondeu com uma reverência semelhante, com os dedos tocando a terra, pedindo-lhes por sua vez sua bênção. Aquela cerimônia, marcada de grande seriedade, nada tendo da etiqueta vulgar, exalava uma espécie de emoção. No entanto, pareceu a Miúsov que aquilo se fazia com uma finalidade de sugestão premeditada. Conservava-se à frente de seus companheiros. Teria sido conveniente, quaisquer que fossem suas ideias — e por simples polidez, para se conformar com os usos —, que se aproximassem do stáriets para receber sua bênção, se não para beijar-lhe a mão. Foi no que pensara na véspera, mas as reverências e os beijos dos monges fizeram-no mudar de resolução. Fez uma reverência grave e digna, de homem da sociedade, e foi sentar-se. Fiódor Pávlovitch fez a mesma coisa, macaqueando dessa vez Miúsov. A saudação de Ivã Fiódorovitch foi das mais corteses, mas também ele conservou seus braços ao longo dos quadas. Quanto a Kolgánov, tal era sua confusão que não fez saudação nenhuma. O stáriets deixou recair sua mão prestes a abençoá-los e convidou todos a sentarem-se. O sangue subiu às faces de Aliócha, estava envergonhado. Seus maus pressentimentos realizavam-se.
     O stáriets tomou lugar num pequeno diva de couro — móvel bastante antigo — e fez seus visitantes sentarem-se perto da parede em frente, em quatro cadeiras de acaju, recobertas de couro bastante surrado. Os religiosos instalaram-se de lado, um na porta, outro na janela. O seminarista, Aliócha e o noviço ficaram de pé. A cela não era vasta e mostrava certo ar de coisa velha. Continha somente alguns móveis e objetos grosseiros, pobres, o estritamente necessário. Dois jarros de flores na janela; a um canto, numerosos ícones; um deles representava uma Virgem de grandes dimensões, pintada provavelmente muito tempo antes do Raskol.5 Uma lâmpada ardia diante dela. Não longe, dois outros ícones de revestimentos cintilantes, depois dois querubins esculpidos, pequenos ovos de porcelana, um crucifixo de marfim, com uma Mater Dolorosa que o abraçava, e algumas gravuras estrangeiras, reproduções de grandes pintores italianos dos séculos passados. Ao lado dessas obras de valor, exibiam-se litografias russas para uso do povo, representando santos, mártires, prelados, as quais se vendiam por alguns copeques em todas as feiras. Miúsov lançou uma olhadela rápida sobre aquelas imagens, depois fixou seu olhar no stáriets. Respeitava sua maneira de ver, fraqueza desculpável, seguramente, se se considerar que já tinha cinqüenta anos, idade em que um homem do mundo, inteligente e opulento, leva-se sempre mais a sério, por vezes mesmo contra a sua vontade. 
     Desde o começo, o stáriets causara-lhe desagrado. Havia efetivamente em sua figura algo que teria desagradado a muitos outros que não apenas a Miúsov. Era um homenzinho curvado, de pernas muito fracas, de sessenta anos somente, mas que parecia ter dez anos mais, por causa de sua doença. Todo o seu rosto, aliás bastante seco, estava sulcado de pequenas rugas, sobretudo em redor dos olhos. Tinha os olhos claros, não muito grandes, vivos e brilhantes como dois pontos luminosos. Seus cabelos grisalhos chegavam-lhe apenas às têmporas; sua barba, pequena e rala, acabava em ponta; os lábios, delgados como duas correias, sorriam frequentemente; o nariz agudo lembrava um pássaro.

"Segundo toda a aparência, uma alma malévola e arrogante", pensou. Em geral, estava muito descontente consigo mesmo.

     O soar da hora ajudou o início do diálogo. Um pequeno relógio de pesos bateu doze pancadas. 

— A hora exata — exclamou Fiódor Pávlovitch — e meu filho Dimítri Fiódorovitch que não chega! Peço-lhe desculpas por ele, santo stáriets! (Aliócha estremeceu ao ouvir aquelas palavras de "santo stáiets".) Sou sempre pontual, dentro do minuto, lembrando-me de que a pontualidade é a polidez dos reis. 
— No entanto, o senhor não é nenhum rei — resmungou Miúsov, incapaz de conter-se. 
— Ê verdade, não o sou. E imagine, Piotr Alieksándrovitch, que eu mesmo o sabia, palavra! E falo sempre assim, fora de propósito! Vossa Reverência — exclamou ele, de súbito, num tom patético — tem diante de si um verdadeiro palhaço. É minha maneira de apresentar-me. Um velho hábito, ai de mim! Ora, se falo por vezes fora de propósito, é intencionalmente, com o fim de fazer rir e ser agradável. É preciso ser agradável, não é verdade? Há sete anos, cheguei a uma cidadezinha para tratar duns negocinhos, umas contas a meias com uns negociantezinhos. Fomos à casa do isprávnik, uma vez que tínhamos algo a pedir-lhe e para convidá-lo a comer conosco. Aparece o isprávnik: era um homem de alta estatura, gordo, louro e carrancudo — os indivíduos mais perigosos em semelhante caso, pois a bílis os atormenta. Abordo-o com a desenvoltura de um homem do mundo: "Senhor Isprávnik", disse eu, "o senhor será talvez, por assim dizer, o nosso Naprávnik?" "Que Naprávnik?", perguntou ele. Vi imediatamente que aquilo não pegava, que ele continuava todo grave; obstinei-me: "É uma brincadeira, quis tornar todos alegres, porque o Senhor Naprávnik é um chefe de orquestra conhecido; ora, para a harmonia de nosso empreendimento, precisamos justamente duma espécie de chefe de orquestra". A explicação e a comparação eram razoáveis, não? "Perdão", disse ele, "sou isprávnik e não permito que se façam trocadilhos a respeito de minha profissão." Volta as costas e retira se. Corro atrás dele, gritando: "Sim, sim, o senhor é isprávnik e não Naprávnik". "Não", replicou ele, "o senhor disse, sou Naprávnik." Imaginem que isso fez fracassar nosso negócio! Nem por isso me emendei. Prejudico me por causa de minha amabilidade! Certa vez, há muitos anos, dizia eu a uma personagem importante: "Sua esposa é uma mulher coceguenta", no sentido de ser muito sensível em questões de honra, de qualidades morais, por assim dizer, ao que ele me replica: "O senhor lhe fez cócegas?" Não pude conter-me, banquemos o amável, pensei: "Sim, fiz-lhe cócegas"; mas então quem me fez cócegas foi ele... Aconteceu há muito tempo, por isso não tenho vergonha de contá-lo; é sempre assim que causo prejuízo a mim mesmo. 
— É está causando agora — murmurou Miúsov, com desagrado. O stáriets examinava um a um, em silêncio. 
— Deveras? Imagine que já o sabia, Piotr Alieksándrovitch, e, até mesmo, saiba que pressentia o que faço, desde que comecei a falar, e até mesmo, saiba-o, pressentia que seria o senhor o primeiro a observar-me isso. Nesses momentos, quando vejo que minhas pilhérias não dão resultado, reverendíssimo senhor, minhas bochechas começam a dessecar se na direção das gengivas, tenho quase como uma convulsão; isto remonta à minha mocidade, quando era parasita em casa dos nobres e ganhava meu pão por meio dessa habilidade. Sou um palhaço autêntico, inato, reverendíssimo senhor, a mesma coisa que um idiota; não nego que um espírito mau more talvez em mim, bem modesto, cm todo caso; se fosse mais importante, ter-se-ia alojado em outra parte, somente não no senhor, Piotr Alieksándrovitch, porque o senhor não é importante. Em compensação, creio, creio em Deus. Nestes últimos tempos, tinha dúvidas; mas agora espero sublimes palavras. Pareço-me com o filósofo Diderot, reverendíssimo senhor. Sabe o senhor, santíssimo padre, como se apresentou ele diante do metropolita Platon, no reinado da Imperatriz Catarina? Entrou e largou sem mais: "Não há Deus**. Ao que o grande prelado respondeu, de dedo erguido: "O insensato disse em seu coração: 'não há Deus!*** Imediatamente Diderot lançou-se a seus pés: "Creio", exclamou ele, "e quero ser batizado”. Batizaram-no ali mesmo. A Princesa Dachkova foi a madrinha, e Potiomkin o padrinho... 
— Fiódor Pávlovitch, é intolerável! Porque o senhor mesmo sabe que está mentindo e que essa estúpida anedota é falsa; por que fazer-se malicioso? — proferiu com voz trêmula Miúsov, que já não se podia conter. 
— Toda a minha vida pressenti que era isso uma mentira! — exclamou Fiódor Pávlovitch, entusiasmando-se. — Em compensação, senhores, dir-lhes-ei toda a verdade. Eminente stáriets, perdoe-me, eu mesmo Inventei esse fim, ainda há pouco, com o batismo de Diderot; isto jamais me ocorrera antes. Inventei-o para dar certo ar picante ao caso. Se me faço de malicioso, Piotr Alieksándrovitch, é para ser mais gentil. De resto, por vezes, não sei eu mesmo por quê. Quanto a Diderot, ouvi contar isto: "O insensato disse..." umas vinte vezes na minha juventude, pelos proprietários de terras do país, quando morava entre eles; ouvi-o dizer, Piotr Alieksándrovitch, de sua própria tia, Mavra Fomínichna. Até agora, estão todos persuadidos de que o ímpio Diderot fora à casa do metropolita Platon para discutir a existência de Deus...

     Uy Miúsov levantara-se, não somente porque perdera a paciência, mas achava-se fora de si. Estava furioso e compreendia que isso o tornava ridículo. Com efeito, passava-se na cela algo de intolerável. Havia quarenta ou cinquenta anos, ainda no tempo dos precedentes stártsi, os visitantes reuniam-se naquela cela, mas sempre com a mais profunda veneração. Quase todos quantos eram admitidos compreendiam que lhes era concedido um insigne favor. Muitos, dentre eles, punham-se de joelhos e assim ficavam durante toda a visita. Pessoas de posição elevada, eruditos e até mesmo livres-pensadores, vindos, quer por curiosidade, quer por qualquer outro motivo, achavam um dever o testemunhar ao stáriets profunda deferência e grandes atenções, durante toda a entrevista — quer fosse pública ou privada —, tanto mais quanto não havia questão de dinheiro. Só havia o amor e a bondade, em presença do arrependimento e da sede de resolver algum difícil problema moral ou uma crise da vida do coração. Assim, as piadas a que se entregara Fiódor Pávlovitch, chocantes em tal lugar, haviam provocado o embaraço e o espanto das testemunhas, em todo caso, de várias dentre elas. Os religiosos, que permaneciam impassíveis, fixavam sua atenção no que iria dizer o stáriets, mas pareciam já prestes a levantar-se como Miúsov. Aliócha tinha vontade de chorar e curvava a cabeça. Toda a sua esperança repousava em seu irmão Ivã, o único cuja influência seria capaz de deter seu pai, e estava estupefato por vê-lo sentado, imóvel, de olhos baixos, aguardando com curiosidade o desenlace daquela cena, como se fosse completamente estranho a ela. Era impossível a Aliócha olhar para Rakítin (o seminarista), com o qual vivia quase em intimidade: conhecia seus pensamentos (era, aliás, o único a conhecê-los em todo o mosteiro).

— Desculpe-me... — começou Miúsov, dirigindo-se ao stáriets — se pareço tomar parte nessa indigna pilhéria. Errei ao acreditar que, até mesmo um indivíduo da qualidade de Fiódor Pávlovitch, visitando uma personalidade tão respeitável, saberia compreender suas obrigações ... Não pensava que seria preciso desculpar-me por ter vindo com ele...  

     Piotr Alieksándrovitch não acabou e, todo confuso, queria sair já do quarto. 

— Não se inquiete, rogo-lhe — disse o stáriets, que, erguendo-se sobre seus pés débeis, pegou Piotr Alieksándrovitch pelas duas mãos e obrigou-o a tornar a sentar-se. — Acalme-se, rogo-lhe. O senhor é meu hóspede.  

     Dito isto, e após uma reverência, voltou a sentar-se no diva.

— Eminente stáriets, diga-me, será que minha vivacidade o ofende? — exclamou, de repente, Fiódor Pávlovitch, agarrando-se nos dois braços da poltrona, como prestes a saltar, de acordo com a resposta que recebesse. 
— Rogo-lhe igualmente que não se inquiete e não se constranja — declarou o stáriets com majestade. — Não se constranja, esteja como que em sua casa. Sobretudo não tenha tanta vergonha de si mesmo, porque todo o mal vem daí. 
— Completamente como em minha casa? Isto é, ao natural? Oh! é demais, é muito demais. Aceito, porém, com enternecimento! Sabe, meu venerando padre? Não me leve a mal mostrar-me ao natural, é por demais arriscado... eu mesmo não chego a esse ponto. Digo isto para que o senhor se previna. Pois bem! o resto está ainda enterrado nas trevas do desconhecido, se bem que alguns quisessem enforcar-me. Isto dirige-se ao senhor, Piotr Alieksándrovitch; quanto ao senhor, santa criatura, eis o que declaro: "Estou transbordante de entusiasmo!" — Levantou-se e, de braços para o ar, proferiu: 
— "Bendito o ventre que te concebeu e benditos os peitos que te amamentaram, os peitos sobretudo!" Com aquela sua observação de há pouco: "Não tenha tanta vergonha de si mesmo, porque todo o mal vem daí", o senhor como que me transpassou e leu em mim. Justamente, quando me dirijo às pessoas, parece-me que sou a mais vil de todas e que todo mundo me toma por um palhaço; então digo a mim mesmo: "Sejamos palhaço, não temo vossa opinião, porque vós sois todos, até o derradeiro, mais vis do que eu!" Eis por que sou palhaço, por vergonha, eminente padre, por vergonha. Somente por timidez é que me faço de valentão. Porque se estivesse certo, ao entrar, de que todos me acolheriam como um ser simpático e ajuizado, meu Deus!, como eu seria bom! Mestre — pôs-se de repente de joelhos —, que é preciso fazer para ganhar a vida eterna? 

     Mesmo então, era difícil saber se brincava ou cedia ao enternecimento. O stáriets ergueu os olhos para ele e declarou, sorrindo:
     Há muito tempo que o senhor mesmo sabe o que é preciso fazer; não lhe falta senso: não se entregue à embriaguez e à intemperança de linguagem; não se entregue à sensualidade, sobretudo ao amor ao dinheiro; e feche seus botequins de bebida, pelo menos dois ou três, se não pode fechá-los todos. * Mas sobretudo, antes de tudo, não minta.

— É a propósito de Diderot que o senhor diz isso? 
— Não, não é a propósito de Diderot. Sobretudo não minta ao senhor mesmo. Aquele que mente a si mesmo e escuta sua própria mentira vai ao ponto de não mais distinguir a verdade, nem em si, nem em torno de si; perde pois o respeito de si e dos outros. Não respeitando ninguém, deixa de amar; e para se ocupar, e para se distrair, na ausência de amor, entrega-se às paixões e aos gozos grosseiros; chega até a bestialidade em seus vícios, e tudo isso provém da mentira contínua a si mesmo e aos outros. Aquele que mente a si mesmo pode ser o primeiro a ofender-se. É por vezes bastante agradável ofender a si mesmo, não é verdade? Um indivíduo sabe que ninguém o ofendeu, mas que ele mesmo forjou uma ofensa e mente para embelezar, enegrecendo de propósito o quadro, que se ligou a uma palavra e fez dum montículo uma montanha — ele próprio o sabe, portanto é o primeiro a ofender-se, até o prazer, até experimentar uma grande satisfação, e por isso mesmo chega ao verdadeiro ódio... Mas levante-se, sente-se, rogo-lhe; isto também é um gesto falso... 
— Bem-aventurado! Deixai-me beijar-vos a mão. — Fiódor Pávlovitch levantou-se e pousou os lábios sobre a mão descarnada do stáriets. — Justamente, justamente, ofender-se a si mesmo causa prazer. O senhor disse-o tão bem, como jamais o ouvi dizer. Justamente, justamente, senti prazer em toda a minha vida com as ofensas, por um sentimento de estética, porque ser ofendido não somente causa prazer, mas por vezes é belo. Eis o que o senhor esqueceu, eminente stáriets: a beleza! Notá-lo-ei no meu caderninho! Quanto a mentir, não faço senão isso em toda a minha vida, a cada dia e a cada hora. Na verdade, sou mentira e o pai da mentira! Aliás, creio que não é o pai da mentira, embaraço-me nos textos, pois bem, o filho da mentira, e isto basta. Somente... meu anjo... pode-se por vezes florear a respeito de Diderot! Isto não faz mal, ao passo que certas palavras podem fazer mal. Eminente stáriets, a propósito, recordo-me de que, há três anos, tinha prometido a mim mesmo vir aqui informar-me e descobrir com insistência a verdade; peça somente a Piotr Alieksándrovitch que não me interrompa. Eis de que se trata. É verdade, reverendo padre, o que se conta em alguma parte das Vidas dos Santos, a respeito dum santo taumaturgo, que sofreu o martírio pela fé e, depois de ter sido decapitado, ergueu do chão sua cabeça e, "beijando-a delicadamente", a carregou muito tempo em seus braços? É verdade ou não, meus padres? 
— Não, não é verdade — disse o stáriets
— Não há nada de semelhante em nenhuma Vidas dos Santos. A propósito de que santo diz o senhor que se relata esse fato? — perguntou um religioso, o padre bibliotecário. 
— Ignoro qual. Não tenho conhecimento disso. Induziram-me em erro. Ouvi-o dizer e sabe por quem? Por esse mesmo Piotr Alieksándrovitch Miúsov, que ainda há pouco se zangava a respeito de Diderot; era ele quem contava isso. 
— Jamais lhe contei isso, pela razão muito justa de que não converso nunca com o senhor. 
— É verdade que não contou isso a mim, mas numa reunião social em que me encontrava há quatro anos. Se lembrei o fato, é que o senhor abalou minha fé com essa narrativa cômica. Piotr Alieksánrovitch. O senhor de nada sabia, mas voltei para minha casa com a fé abalada e desde então vacilo cada vez mais. Sim, Piotr Alieksándrovitch, foi o senhor causa duma grande queda. Ê coisa bem diversa de Diderot!

     Fiódor Pávlovitch acalorava-se duma maneira patética, se bem que fosse evidente para todos que ele de novo não fazia senão exibir-se. Mas Miúsov estava exacerbado. 

— Que absurdo, como tudo isso, aliás! — murmurou ele. — Talvez tenha-o dito uma vez, na verdade... mas não ao senhor. Falaram-me disso. Ouvi em Paris um francês contar que se lê entre nós este episódio na missa, nas Vidas dos Santos, Foi um erudito que tem especialmente estudado a estatística da Rússia... há muito tempo. Quanto a mim, não lia as Vidas dos Santos e não as lerei... Pode-se bem dizer coisas durante o jantar... Nós estávamos jantando, então... 
— Sim, os senhores estavam jantando então e eu perdi a fé! — disse para aborrecê-lo Fiódor Pávlovitch. 
— Que me importa sua fé! — ia gritar Miúsov, mas conteve-se e proferiu com desprezo: — O senhor emporcalha literalmente tudo quanto toca.

     O stáriets levantou-se de repente.

— Desculpem-me, senhores, deixá-los a sós por alguns minutos — disse ele, dirigindo-se a todos os visitantes —, mas já me esperavam antes da chegada dos senhores. Quanto ao senhor, abstenha-se de mentir — acrescentou, voltando-se para Fiódor Pávlovitch, com o rosto alegre.

     Saiu da cela. Aliócha e o noviço lançaram-se a ajudá-lo a descer a escada. Aliócha sufocava; sentia-se feliz por sair, feliz igualmente por ver o stáriets alegre e não ofendido. O stáriets dirigia-se para a galeria, a fim de abençoar aquelas que o esperavam, mas Fiódor Pávlovitch deteve-o às portas da cela. 

— Bem-aventurado! — exclamou ele, sentimentalmente. — Permita me que lhe beije ainda uma vez a mão! Com o senhor, pode-se conversar, pode-se viver. O senhor pensa que minto sempre assim e que banco de palhaço? Era para verificar se se pode viver com o senhor, se há lugar para minha humildade ao lado de sua altivez. Passo-lhe um certificado de sociabilidade! Agora, nem mais uma palavra. Vou sentar-me e ficar em silêncio. Cabe ao senhor falar, Piotr Alieksándrovitch, o senhor passa a ser a personagem principal... por dez minutos.

continua na página 43...
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Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, nascido em Moscou, 11 de novembro de 1821 — falecido em São Petersburgo, 9 de fevereiro de 1881, foi um escritor, filósofo e jornalista russo. É considerado por muitos um dos maiores romancistas e pensadores da história, bem como um dos maiores «psicólogos» que já existiu, ao considerar a designação e etimologia mais ampla do termo, como investigador da psique.
Os Irmãos Karamazov é um romance de Fiódor Dostoiévski, escrito em 1879, uma das mais importantes obras das literaturas russa e mundial, ou, conforme afirmou Freud: "a maior obra da história". Freud considera esse romance, juntamente com Édipo Rei e Hamlet, três importantes livros a respeito do embate pai e filho, e retratam o complexo de Édipo.

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