sábado, 20 de junho de 2026

Dostoiévski - Os Irmãos Karamazov Livro 2 (VI. Por que tal homem existe?)

Os Irmãos Karamazov

Fiódor Dostoiévski


PRIMEIRA PARTE
LIVRO II
UMA REUNIÃO INTEMPESTIVA
VI
POR QUE TAL HOMEM EXISTE?
    
     Dimítri Fiódorovitch, jovem homem de 28 anos, de estatura média e de presença agradável, parecia, no entanto, notavelmente mais velho. Era musculoso e adivinhava-se nele uma força física considerável; no entanto, seu rosto magro, de faces chupadas, a tez dum amarelo doentio, tinha uma expressão enfermiça. Seus olhos negros, à flor da testa, mostravam um olhar vago, se bem que parecesse obstinado. Mesmo quando estava agitado e falava com irritação, seu olhar não correspondia a seu estado de alma e exprimia algo de diferente, por vezes nada em harmonia com o minuto presente. "É difícil saber em que ele pensa", costumavam dizer os que falavam com ele. Em certos dias, seu riso súbito, atestando ideias alegres e travessas, surpreendia aqueles que o acreditavam, no mesmo momento, pelos seus olhos, pensativo e tristonho. Aliás, sua expressão um pouco sofredora naquele momento nada tinha de espantoso; todo mundo estava a par de sua vida agitada e dos excessos a que se entregava naqueles últimos tempos, da mesma maneira que se conhecia a exasperação que dele se apoderava em suas discussões com seu pai, por questões de dinheiro. Circulavam na cidade anedotas a este respeito. Na verdade, era irascível por natureza, "de um espírito impetuoso e irregular", como o caracterizou numa reunião nosso juiz de paz Siemion Ivânovitch Katchálhnikov. Entrou vestido de modo elegante e irreprochável, com a sobrecasaca abotoada, de luvas pretas, a cartola na mão. Como oficial desde pouco tempo reformado, só trazia no momento os bigodes. Seus cabelos castanhos estavam cortados curtos e penteados para a frente. Caminhava a grandes passadas, com ar decidido. Tendo parado um instante na soleira da porta, passeou o olhar pela assistência e dirigiu-se diretamente ao stáriets, adivinhando nele o dono da casa. Fez-lhe uma profunda vênia e pediu-lhe a bênção. Tendo-se levantado o stáriets para dar-la, Dimítri Fiódorovitch beijou-lhe a mão com respeito e declarou com agitação e com um ar quase irritado: 

— Queira desculpar-me por me ter feito esperar tanto. Mas como insistisse em conhecer a hora da entrevista, o criado Smierdiákov, enviado por meu pai, respondeu-me duas vezes, categoricamente, que estava marcada para 1 hora. E, agora, venho a saber... 
— Não se atormente — disse o stáriets —, não é nada, o senhor está um pouco atrasado, não há mal nisso. 
— Sou-lhe muito grato e não esperava menos de sua bondade. Depois destas palavras lacônicas, Dimítri Fiódorovitch inclinou-se de novo, depois, voltando-se para o lado de seu pai, fez-lhe a mesma saudação profunda e respeitosa. Via-se que havia ele premeditado aquela saudação, com sinceridade, considerando como uma obrigação exprimir assim sua deferência e suas boas intenções. Fiódor Pávlovitch, se bem que apanhado de improviso, saiu-se à sua maneira: em resposta à saudação do filho, levantou-se de sua cadeira e retribuiu-lhe igualmente. Seu rosto se tornou grave e imponente, o que não deixava de dar-lhe um aspecto mau. Depois de ter respondido em silêncio às saudações dos presentes, Dimítri Fiódorovitch dirigiu-se com seu passo decidido para a janela e ocupou o único assento livre, não longe do Padre Paísi; inclinado sobre sua cadeira, preparou-se para escutar a continuação da conversa interrompida.

     A chegada de Dimítri Fiódorovitch passara-se em dois ou três mi nutos e a conversação prosseguiu. Mas desta vez Piotr Alieksándrovitch não creu necessário responder à pergunta premente e quase irritada do Padre Paísi. 

— Permitam-me que abandone esse assunto — declarou ele, com certa, desenvoltura mundana. — É aliás um assunto delicado. Vejam lva Fiódorovitch sorrindo para meu lado; tem provavelmente algo de curioso a dizer a esse propósito. Perguntem-lhe. 
— Não de particular — respondeu logo Ivã Fiódorovitch. — Farei somente observar que, desde muito tempo já, o liberalismo europeu em geral e mesmo nosso diletantismo liberal russo confundem frequentemente os resultados finais do socialismo com os do cristianismo. Essa conclusão extravagante é aliás um traço característico. Por outro lado, como se vê, não somente os liberais e os diletantes confundem em muitos casos o socialismo e o cristianismo, há também os gendarmes, no estrangeiro, bem entendido. A anedota parisiense do senhor é bastante característica a esse respeito, Piotr Alieksándrovitch. 
— Em geral, peço de novo permissão para abandonar o assunto — repetiu Piotr Alieksándrovitch. — Contar-lhes-ei antes outra anedota bastante interessante e bastante característica, a propósito de Ivã Fiódorovitch. Há cinco dias, numa reunião em que se achavam sobretudo senhoras, declarou ele solenemente, no curso duma discussão, que nada no mundo obrigava as pessoas a amar seus semelhantes, que não existia nenhuma lei natural ordenando ao homem que amasse a humanidade; que se o amor havia reinado até o presente sobre a terra, era isto devido não à lei natural, mas unicamente à crença das pessoas em sua imortalidade. Ivã Fiódorovitch acrescentou entre parênteses que nisso está toda a lei natural, de sorte que se destruís no homem a fé em sua imortalidade, não somente o amor secará nele, mas também a força de continuar a vida no mundo. Mais ainda, não haverá então nada de imoral, tudo será autorizado, até mesmo a antropofagia. Não é tudo: terminou afirmando que para cada indivíduo — nós agora, por exemplo — que não acredita nem em Deus, nem em sua imortalidade, a lei moral da natureza devia imediatamente tornar-se o inverso absoluto da precedente lei religiosa; que o egoísmo, mesmo levado até a perversidade, devia não somente ser autorizado, mas reconhecido como a saída necessária, a mais razoável e quase a mais nobre. De acordo com tal paradoxo, julguem o resto, senhores, julguem o que o nosso querido e excêntrico Ivã Fiódorovitch acha bom proclamar e suas intenções eventuais... 
— Com licença — exclamou de súbito Dimítri Fiódorovitch. — Se bem entendi, "a perversidade deve não somente ser autorizada, mas reconhecida como a saída mais necessária e a mais razoável de cada ateu"! É bem isto? 
— É exatamente isso — disse o Padre Paísi. 
— Haverei de lembrar-me!

     Dito isto, Dimítri Fiódorovitch calou-se tão subitamente quanto tinha tomado parte na conversa. Todos o olharam com curiosidade. 

— Será possível que o senhor encare dessa forma as consequências do desaparecimento nas pessoas da crença na imortalidade da alma? — perguntou de súbito o stáriets a Ivã Fiódorovitch. 
— Sim, afirmei-lo Não há virtude sem imortalidade. 
— É feliz se assim acredita; pode-se ser muito infeliz! 
— Por que infeliz? — objetou Ivã Fiódorovitch, sorrindo. 
— Porque, segundo toda aparência, não crê o senhor nem na imortalidade da alma, nem mesmo no que escreveu a respeito da questão da Igreja. 
— Talvez tenha o senhor razão!... No entanto, não brinquei absolutamente — confessou de modo estranho Ivã Fiódorovitch, corando imediatamente. 
— O senhor não brincou absolutamente, é verdade. Essa ideia não está ainda resolvida no seu coração e tortura-o. Mas o mártir também gosta por vezes de divertir-se com seu desespero, igualmente como para esquecê-lo. No momento, é por desespero que o senhor se diverte com artigos de revistas e com discussões mundanas, sem acreditar na sua dialética e zombando dela dolorosamente a sós consigo. Esta questão não está ainda resolvida no senhor, e é isso que causa seu tormento, porque reclama ela imperiosamente uma solução. 
— Mas pode ela ser resolvida em mim, resolvida no sentido positivo? — perguntou ainda de modo estranho Ivã Fiódorovitch, olhando o stáriets com um sorriso inexplicável. 
— Se não puder ser resolvida no sentido positivo, não o será nunca no sentido negativo; o senhor mesmo conhece essa propriedade de seu coração; é isso que o tortura. Mas agradeça ao Criador o ter-lhe dado um coração sublime, capaz de assim atormentar-se, "de meditar nas coisas celestes e procurá-las, porque nossa morada está nos céus". Que Deus lhe conceda encontrar a solução ainda aqui embaixo e abençoe os seus caminhos!

     O stáriets ergueu a mão e quis, de seu lugar, fazer o sinal-da-cruz sobre Ivã Fiódorovitch. Mas este se levantou, foi até ele, recebeu sua bênção e, tendo-lhe beijado a mão, voltou a seu lugar sem dizer uma palavra. Tinha o ar firme e sério. Essa atitude e toda a sua conversa precedente com o stáriets, que não era esperada de sua parte, impressionaram a todos por não sei que de enigmático e solene; de sorte que um silêncio geral reinou por um instante e o rosto de Aliócha exprimia quase terror. Mas Miúsov ergueu os ombros ao mesmo tempo que Fiódor Pávlovitch se levantava. 

— Divino e santo stáriets — exclamou ele, designando Ivã Fiódo rovitch —, eis meu filho bem amado, a carne de minha carne! É por assim dizer o meu muito reverencioso Karl Moor, mas eis meu outro filho que acaba de chegar, Dimítri Fiódorovitch, contra o qual exijo satisfação perante o senhor — é o irreverentíssimo Frantz Moor —, ambos tirados de Os Bandidos, de Schiller; e eu, nesta circunstância, sou o Regierender Graf von Moor! Julgue-nos e salve-nos! Temos necessidade não somente de suas preces, mas de seus vaticínios! 
— Fale duma maneira ajuizada e não comece por ofender seus próximos — respondeu o stáriets com voz extenuada. Sua fadiga aumentava e suas forças decresciam visivelmente.
— É uma comédia indigna que eu previa, ao vir aqui! — exclamou com indignação Dimítri Fiódorovitch, que também se havia erguido. — Desculpe-me, reverendo padre, sou pouco instruído e ignoro mesmo como o chamam, mas enganaram-no, e foi o senhor demasiado bom para nos conceder esta entrevista em sua casa. Meu pai tinha necessidade absoluta de escândalo. Com que fim? É negócio dele. Só age calculadamente. Mas agora creio saber por quê... 
— Todo mundo me acusa! — gritou por sua vez Fiódor Pávlovitch — inclusive Piotr Alieksándrovitch. Sim, o senhor me acusou, Piotr Alieksándrovitch! — prosseguiu, voltando-se para Miúsov, se bem que este não pensasse absolutamente em interrompe-lo. — Acusam-me de ter ocultado o dinheiro de meu filho e de não lhe ter dado um vintém sequer! Mas, pergunto-lhes, não há tribunais? Ali, Dimítri Fiódorovitch, de acordo com seus recibos, de acordo com as cartas e convênios, far-se-á a conta do que você tinha, de suas despesas e do que lhe resta! Por que evita Piotr Alieksándrovitch pronunciar-se? Dimítri Fiódorovitch não lhe é estranho. É porque estão todos contra mim; ora, Dimítri Fiódorovitch continua a dever-me, não uma pequena soma, mas vários milhares de rublos, do que posso dar as provas. Seus excessos provocam conversinhas da cidade inteira. Nas suas antigas guarnições gastou mais de 1 milhar de rublos para seduzir moças honestas; nós o sabemos, Dimítri Fiódorovitch, da maneira mais circunstanciada, e demonstrá-lo-ei... Reverendo padre, acreditaria o senhor que fez com que se apaixonasse por ele uma moça das mais distintas, de excelente família com fortuna, filha de seu antigo chefe, um bravo coronel que serviu meritoriamente à pátria, condecorado com o colar de Santa Ana com gládios? Essa moça, que ele comprometeu, oferecendo-se para casar com ela, mora agora aqui, órfã, é sua noiva, e aos olhos dela frequenta ele uma sereia. Se bem que esta última tenha vivido em união livre com um homem respeitável, mas de caráter independente, é uma fortaleza inexpugnável para todos, tal como uma mulher legítima, porque ela é virtuosa, sim, meus reverendos padres, ela é virtuosa! Ora, Dimítri Fiódorovitch quer abrir aquela fortaleza com uma chave de ouro, eis por que faz-se de bravo agora comigo, quer subtrair-me dinheiro, já gastou milhares de rublos por causa dessa sereia; além disso anda pedindo dinheiro emprestado sem cessar, e a quem, sabem os senhores? Devo dizê-lo ou não, Mítia? 
— Cale-se! — exclamou Dimítri Fiódorovitch. — Espere que eu me retire, evite enodoar na minha presença a mais nobre das moças... Ê já uma vergonha para ela que tenha ousado fazer alusão a isso... Não o tolerarei!

     Estava sufocado. 

— Mítia, Mítia! — gritou Fiódor Pávlovitch, nervoso e fazendo força para chorar. — E a bênção paterna, que fazes dela? Se eu te amaldiçoar, que acontecerá? 
— Tartufo sem-vergonha! — rugiu Dimítri Fiódorovitch. 
— É assim que trata a seu pai, a seu pai! Como o fará aos outros? Escutem, senhores, há aqui um homem pobre, mas honrado; capitão reformado, que foi dispensado em consequência de uma desgraça, mas não em virtude de um julgamento, de reputação intata, sobrecarregado de numerosa família. Há três semanas, o nosso Dimítri Fiódorovitch agarrou o pela barba num botequim, arrastou-o pela rua e surrou-o em público, pela mera razão de estar esse homem secretamente encarregado de meus interesses em determinado negócio. 
— Mentira tudo isso! Aparentemente é verdade, no fundo, pura mentira! — disse Dimítri Fiódorovitch, tremendo de cólera. — Meu pai, não justifico minha conduta; sim, convenho publicamente que fui brutal para com esse capitão. Agora lamento isso e minha brutalidade me causa horror, mas esse capitão, encarregado de seus negócios, foi procurar aquela pessoa que o senhor chama de sereia e lhe propôs de parte do senhor avalizar minhas promissórias, que estão em seu poder, a fim de perseguir-me e mandar-me prender, no caso de apertá-lo eu demais a propósito de nosso ajuste de contas. Se o senhor quer atirar-me na prisão é unicamente por ciúme dela, porque o senhor mesmo começou a andar em roda dessa mulher — estou ao corrente de tudo. Ela só fez rir, está ouvindo? E foi zombando do senhor que o repeliu. Tal é, meus reverendos padres, esse homem, esse pai que censura a má conduta de seu filho. Os senhores, que são testemunhas, perdoem minha cólera, mas pressentia eu que esse pérfido velho os convocara a todos aqui para provocar um escândalo. Vim na intenção de perdoar, se ele me estendesse a mão, de perdoar-lhe e de pedir-lhe perdão! Mas como acaba ele de insultar não somente a mim, mas à moça mais nobre, cujo nome não ouso pronunciar em vão, porque a respeito, decidi desmascará-lo publicamente, se bem que seja meu pai.

     Não pôde continuar. Seus olhos faiscavam, respirava com dificuldade. Todos os presentes estavam emocionados, exceto o stáriets, todos se haviam levantado, agitados. Os religiosos olhavam com olhar severo, mas aguardavam a vontade do stáriets. Este último estava pálido, não de emoção, mas de fraqueza doentia. Um sorriso suplicante desenha va-se em seus lábios; erguia por vezes a mão como para conter aqueles furiosos. Teria podido, com um só gesto, pôr fim à cena; mas parecia esperar qualquer coisa e olhava fixamente, como se quisesse ainda com preender um ponto que lhe teria escapado. Por fim, Piotr Alieksándrovitch sentiu-se definitivamente humilhado, atingido na sua dignidade. 

— No escândalo que acaba de desenrolar-se, somos todos culpados! — declarou ele, apaixonadamente. — Mas não previa tudo isso vindo aqui, se bem que soubesse com quem tratava... É preciso acabar com isso sem tardar. Meu reverendo padre, fique certo de que não conhecia eu exatamente todos os detalhes revelados aqui, não queria acreditar neles e fico conhecendo-os pela primeira vez. O pai está com ciúmes de seu filho por causa de uma mulher de má vida e entende-se com essa criatura para lançá-lo na prisão... E é em semelhante companhia que me fizeram vir aqui... Enganaram-me, declaro ter sido enganado tanto quanto os outros... 
— Dimítri Fiódorovitch! — gritou de súbito Fiódor Pávlovitch, com uma voz que não era a sua. — Se não fosse você meu filho, eu o desafiaria agora mesmo a um duelo... a pistola, a três passos... através de um lenço, através de um lenço — terminou ele, sapateando.

     Há nos velhos mentirosos que representaram comédia a vida inteira momentos em que entram de tal maneira em seu papel que tremem e choram com verdadeira emoção, se bem que no mesmo instante possam dizer a si mesmos (ou logo depois): 'Tu mentes, velho descarado, és um ator - mesmo agora, malgrado tua santa cólera".
     Dimítri Fiódorovitch ficou sombrio, mirando seu pai com um desprezo indizível. Eu pensava... — disse ele em voz baixa — eu pensava voltar ao país natal com aquele anjo, minha noiva, para cuidar da velhice dele, e que vejo? Um debochado luxurioso e um vil comediante! 

— A um duelo! — gritou de novo o velho, ofegante e babando a cada palavra. — Quanto ao senhor, Piotr Alieksándrovitch Miúsov, fique sabendo que em toda a sua linhagem não há talvez mulher mais nobre e mais honesta — está entendendo? —, mais honesta do que essa criatura, como se permitiu o senhor chamá-la ainda há pouco! Quanto a você, Dimítri Fiódorovitch, que substituiu sua noiva por essa "criatura*', você mesmo julgou que sua noiva não valia a sola dos sapatos dela! 
— É vergonhoso! — deixou escapar o Padre Iósif. 
— É vergonhoso e infame! — gritou com uma voz juvenil, trêmula de emoção, o rosto rubro, Kolgánov, que havia até então guardado silêncio. 
— Por que tal homem existe? — rugiu surdamente Dimítri Fiódorovitch, a quem a cólera quase enlouquecia. Ergueu os ombros a ponto de parecer corcunda. — Não, dizei-me, pode-se permitir ainda que ele desonre a terra? — Lançou um olhar circundante e apontou para o velho com a mão. Falava num tom lento, medido. 
— Estais ouvindo, monges, estais ouvindo o parricida?! — exclamou Fiódor Pávlovitch, dirigindo-se ao Padre Iósif. — Eis a resposta ao vosso "Ê vergonhoso!" Que é que é vergonhoso? Essa "criatura", essa "mulher de má vida" é talvez mais santa que vós todos, senhores religiosos, que tratais de vossa salvação! Ela caiu talvez na sua juventude, vítima do meio, mas "muito amou". Ora, o Cristo também perdoou aquela que muito amou... 
— O Cristo não perdoou tal amor... — deixou escapar em sua impaciência o manso Padre Iósif. 
— Não, foi esse amor mesmo, monges, esse mesmo. Cuidais de vossa salvação comendo couves e vos acreditais sábios. Comeis cadozes, um por dia, e pensais poder comprar Deus com cadozes. 
— É intolerável, intolerável! — ouviu-se de todos os lados.

     Mas essa cena escandalosa cessou da maneira mais inesperada. De súbito, o stáriets se levantou. Alieksiéi, que quase enlouquecera de medo por ele e por todos, pôde, no entanto, segurá-lo pelo braço. O stáriets dirigiu-se para o lado de Dimítri Fiódorovitch e, ao chegar bem perto, ajoelhou-se diante dele. Aliócha pensou que ele tivesse caído de fraqueza, mas não era nada disso. Uma vez de joelhos, o stáriets prosternou-se aos pés de Dimítri Fiódorovitch numa profunda saudação, precisa e consciente; sua testa aflorou mesmo a terra. Aliócha ficou de tal maneira estupefato que nem mesmo o ajudou a levantar-se. Um leve sorriso pairava-lhe nos lábios. 

— Perdoem, perdoem todos! — disse ele, saudando seus hóspedes para todos os lados.

     Dimítri Fiódorovitch ficou alguns instantes como que petrificado: prosternar-se diante dele! Que significava aquilo? Por fim exclamou: "Ô Deus!", cobriu o rosto com as mãos e lançou-se para fora do quarto. Todos os hóspedes seguiram-no em fila, tão perturbados que se esqueceram de despedir-se do dono da casa e de cumprimentá-lo. Somente os religiosos se aproximaram para receber-lhe a bênção. 

— Por que se prosternou ele? Será algum símbolo? — Fiódor Pávlovitch, de súbito acalmado, procurava assim travar uma conversa, não ousando, aliás, dirigir-se a alguém em particular. Transpunham naquele momento a cerca do eremitério. 
— Não respondo por alienados — respondeu logo Piotr Alieksándrovitch, com aspereza. — Mas, em compensação, desembaraço-me de sua companhia, Fiódor Pávlovitch, e acredite que é para sempre. Onde está aquele monge de há pouco?...

     "Aquele monge", isto é, o que os havia convidado a jantar com o padre abade, não se fizera esperar. Encontrara os hóspedes a tempo, no momento em que estes desciam o patamar, como se tivesse estado todo o tempo à espera deles.

— Tenha a bondade, reverendo padre, de assegurar ao padre abade o meu profundo respeito e apresentar-lhe minhas desculpas; em consequência de circunstâncias imprevistas, é-me impossível, malgrado todo o meu desejo, aceitar o convite — declarou Piotr Alieksándrovitch ao monge, com irritação. 
— A circunstância imprevista sou eu! — interveio logo Fiódor Pávlovitch. — Escute, meu padre, é que Piotr Alieksándrovitch não quer ficar a meu lado, senão iria agora mesmo. Vá, Piotr Alieksándrovitch, não deixe de ir à casa do padre abade, e bom apetite! Fique sabendo que sou eu que me escapulo e não o senhor. Volto para casa, lá poderei comer, aqui, sinto-me incapaz, meu bem-amado parente. 
— Não sou seu parente, jamais o fui, vil indivíduo. 
— Disse isto de propósito para fazer-lhe raiva, porque o senhor repudia este parentesco embora seja meu parente, malgrado seus ares de importância, provar-lhe-ei pelo almanaque eclesiástico; enviar-te-ei o carro, Ivã, fica também, se quiseres. Piotr Alieksándrovitch, as conveniências lhe ordenam que se apresente em casa do padre abade; é preciso pedir desculpas das tolices que cometemos lá. 
 — É verdade que se vai embora? Não está mentindo? 
— Piotr Alieksándrovitch, como o ousaria eu depois do que se passou? Deixei-me arrebatar, senhores, perdoem-me. Além disso, estou transtornado! E tenho vergonha. Senhores, pode-se ter o coração de Alexandre da Macedônia ou o de um cãozinho. Eu me assemelho ao cãozinho Fidelhka. Tornei-me tímido. Pois bem! Como ir ainda jantar depois de tal leviandade, encher-me dos assados do- mosteiro? Tenho vergonha, não posso, desculpem-me! 

     "O diabo sabe de que é ele capaz! Não terá ele a intenção de nos enganar?" Miúsov parou, irresoluto, seguindo com um olhar perplexo o palhaço que se afastava. Este voltou-se e, vendo que Piotr Alieksándrovitch o observava, enviou-lhe com a mão um beijo. 

— Vai à casa do padre abade? — perguntou Miúsov a Ivã Fiódorovitch, num tom brusco. 
— Por que não? Ele mandou convidar-me especialmente desde ontem. 
— Por desgraça, sinto-me verdadeiramente quase obrigado a com parecer a esse maldito jantar — continuou Miúsov no mesmo tom de irritação amarga, sem mesmo tomar cuidado com o mongezinho que o ouvia. — É preciso pelo menos desculpar-nos do que se passou e explicar que não fomos nós... Que pensa disto? 
— Sim, é preciso explicar que não fomos nós. Além disso, meu pai não estará lá — observou Ivã Fiódorovitch. 
— Era só o que faltava que seu pai estivesse lá! Maldito jantar.

     No entanto todos para ele se dirigiam. O mongezinho escutava em silêncio. Ao atravessar o bosque, fez notar que o padre abade esperava desde muito tempo e estava atrasado mais de meia hora. Não lhe responderam. Miúsov mirava Ivã Fiódorovitch com um ar cheio de ódio.

"Ele vai ao jantar como se nada se tivesse passado", pensava ele. "Uma testa de bronze e uma consciência de Karamázov!" 
 
continua na página 77...
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Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, nascido em Moscou, 11 de novembro de 1821 — falecido em São Petersburgo, 9 de fevereiro de 1881, foi um escritor, filósofo e jornalista russo. É considerado por muitos um dos maiores romancistas e pensadores da história, bem como um dos maiores «psicólogos» que já existiu, ao considerar a designação e etimologia mais ampla do termo, como investigador da psique.
Os Irmãos Karamazov é um romance de Fiódor Dostoiévski, escrito em 1879, uma das mais importantes obras das literaturas russa e mundial, ou, conforme afirmou Freud: "a maior obra da história". Freud considera esse romance, juntamente com Édipo Rei e Hamlet, três importantes livros a respeito do embate pai e filho, e retratam o complexo de Édipo.

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