quinta-feira, 17 de junho de 2021

Gabriel G Márquez - Cem Anos de Solidão (3.1) - ... puberdade antes de superar os hábitos infantis

Cem Anos de Solidão


Gabriel Garcia Márquez


(3.1)



para jomí garcía ascot 

e maría luisa elío





AURELIANO BUENDÍA E Remedios Moscote casaram-se num domingo de março, diante do altar que o Padre Nicanor Reyna fez construir na sala de visitas. Foi o clímax de quatro semanas de sobressaltos na casa dos Moscote, pois a pequena Remedios chegara à puberdade antes de superar os hábitos infantis. Apesar da mãe tê-la instruído sobre as mudanças da adolescência, numa tarde de fevereiro, irrompeu aos gritos de trine na sala onde as irmãs conversavam com Aureliano, e mostrou-lhes a calcinha manchada de uma pasta cor de chocolate. Marcou-se o prazo de um mês para o casamento. Mal houve tempo de ensiná-la a se lavar e se vestir sozinha, e a entender dos assuntos elementares de um lar. Fizeram-na urinar em tijolos quentes, para corrigir-lhe o hábito de molhar a cama. Deu trabalho convencê-la da inviolabilidade do segredo conjugal, porque Remedios estava tão aturdida e ao mesmo tempo tão maravilhada com a revelação que queria comentar com todo mundo os pormenores da noite de núpcias. Foi um esforço extenuante, mas na data prevista para a cerimônia a menina era tão experimentada nas coisas do mundo quanto qualquer das sua irmãs. O Sr. Apolinar Moscote levou-a de braço dado pela rua enfeitada de flores e guirlandas, entre o estampido dos foguetes e a música de várias bandas, e ela cumprimentava com a mão e agradecia com um sorriso aos que das janelas lhe desejavam boa sorte. Aureliano, vestido de fazenda negra, com as mesmas botinas de verniz com argolas metálicas que haveria de usar poucos anos depois diante do pelotão de fuzilamento, estava de uma palidez intensa e com um bolo duro na garganta, quando recebeu a noiva na porta da casa e a levou ao altar. Ela se comportou com tanta naturalidade, com tanta discrição, que não perdeu a compostura nem sequer quando Aureliano deixou cair a aliança ao tentar colocá-la no seu dedo. No meio do burburinho e princípio de confusão dos convidados, ela manteve levantado o braço com a mitene de renda e permaneceu com o anular estendido até que o seu noivo conseguiu parar a aliança com a botina, para que não continuasse rolando até a porta, e voltou ruborizado ao altar. A mãe e as irmãs sofreram tanto com o medo de que a menina incorresse em alguma falta durante a cerimônia que no final foram elas que cometeram a impertinência de pegá-la no colo para dar-lhe um beijo. Desde aquele dia revelou-se o senso de responsabilidade, a graça natural, o calmo domínio que sempre haveria de ter Remedios ante as circunstâncias adversas. Foi ela quem, por sua própria iniciativa, separou a melhor porção que cortou do bolo de noiva e a levou num prato com um garfo para José Arcadio Buendía. Amarrado ao tronco do castanheiro, encolhido num banquinho de madeira sob a coberta de sapé, o enorme ancião desbotado pelo sol e pela chuva teve um vago sorriso de gratidão e comeu o bolo com os dedos, mastigando um salmo ininteligível. A única pessoa infeliz naquela celebração estrepitosa, que se prolongou até o amanhecer de segunda-feira, foi Rebeca Buendía. Era a sua festa frustrada. Pelo arranjo de Úrsula, o seu casamento se devia celebrar na mesma data, mas Pietro Crespi recebera na sexta-feira uma carta com a notícia morte iminente de sua mãe. O casamento foi adiado. Pietro Crespi seguiu para a capital da província uma hora depois receber a carta, e no caminho cruzou com a mãe, que chegou pontualmente na noite de sábado e cantou no casamento de Aureliano a ária triste que tinha preparado para o casamento do filho. Pietro Crespi regressou à meia-noite do domingo para varrer as cinzas da festa, depois de ter arrebentado cinco cavalos no caminho, tentando chegar a tempo para o casamento. Nunca se averiguou quem escrevera a carta. Atormentada por Úrsula, Amaranta chorou de indignação e jurou inocência diante do altar que os carpinteiros não tinham anda acabado de desarmar.

O Padre Nicanor Reyna — que o Sr. Apolinar Moscote havia trazido do pantanal para que oficiasse o casamento — era um ancião endurecido pela ingratidão do ofício. Tinha a pele triste, quase colada aos ossos, e o ventre pronunciado e uma expressão de anjo velho que era mais de inocência que de bondade. Tinha o propósito de voltar à sua paróquia logo depois do casamento, mas se espantou com a aridez dos habitantes de Macondo, que prosperavam no escândalo, sujeitos à lei natural, sem batizar os filhos nem santificar os feriados. Pensando que em nenhuma terra fazia tanta falta a semente de Deus, decidiu ficar mais uma semana, para cristianizar circuncisos e gentios, legalizar concubinários e sacramentar moribundos. Mas ninguém lhe deu importância. Respondiam-lhe que durante muitos anos tinham ficado sem padre, arranjando os negócios da alma diretamente com Deus, e haviam perdido a malícia do pecado mortal. Cansado de pregar no deserto, o Padre Nicanor se dispôs e empreender a construção de um templo, o maior do mundo, com santos em tamanho natural e vidros de cores nas paredes, para que viesse gente até de Roma honrar a Deus no centro da impiedade. Andava por todas as partes pedindo esmolas com um pratinho de cobre. Davam-lhe muito, mas ele queria mais, porque o templo deveria ter um sino cujo clamor fizesse boiar os afogados. Suplicou tanto que perdeu a voz. Seus ossos começaram a se encher de ruídos. Num sábado, não tendo recolhido nem sequer o valor das portas, deixou-se confundir pelo desespero. Improvisou um altar na praça e, no domingo, percorreu o povoado com uma campainha, como nos tempos da insônia, convocando para a missa campal. Muitos foram por curiosidade. Outros por nostalgia. Outros para que Deus não fosse tomar como ofensa pessoal o desprezo pelo seu intermediário. De modo que às oito da manhã estava metade do povo na praça, onde o Padre Nicanor cantou os evangelhos com a voz quebrada pela súplica. No fim, quando os assistentes começaram a debandar, levantou os braços em sinal de atenção.

— Um momento — disse. — Agora vamos presenciar uma prova irrefutável do infinito poder de Deus.

O rapaz que tinha ajudado a missa levou-lhe unia xícara de chocolate espesso e fumegante que ele tomou sem respirar. Depois limpou os lábios com um lenço que tirou da manga, estendeu os braços e fechou os olhos. Então o Padre Nicanor se elevou doze centímetros do nível do chão. Foi um recurso convincente. Andou vários dias de casa em casa, repetindo a prova da levitação mediante o estímulo do chocolate, enquanto o coroinha recolhia tinto dinheiro numa urna que em menos de um mês se iniciou a construção do templo. Ninguém pôs em dúvida a origem divina da demonstração, salvo José Arcadio Buendía, que observou sem se comover o bando de gente que certa manhã se reuniu sob o castanheiro para assistir mais uma vez à revelação. Mal se endireitou um pouco no banquinho e sacudiu os ombros quando o Padre Nicanor começou a se levantar do chão junto com a cadeira em que estava sentado.

— Hoc est simplicisstmum: — disse José Arcadio Buendía — homo iste statum quartum materiae invenit.

O Padre Nicanor levantou a mão, e as quatro pernas da cadeira pousaram em terra ao mesmo tempo.

— Nego — disse. — Factum hoc existentiam Dei pro bat sine dubio.

Foi assim que se soube que era latim a endiabrada gíria de José Arcadio Buendía. O Padre Nicanor aproveitou a circunstância de ter sido a única pessoa que pudera se comunicar com ele para tratar de infundir a fé no seu cérebro transtornado. Todas as tardes se sentava junto ao castanheiro, predicando em latim, mas José Arcadio Buendía se aferrou em não admitir meandros retóricos nem transmutações de chocolate e exigiu como única prova o daguerreótipo de Deus. Nicanor levou-lhe então medalhas e figurinhas e até uma reprodução da fazenda da Verônica, mas José Arcadio Buendía repeliu-os por serem objetos artesanais sem fundamento científico. Era tão teimoso que o Padre Nicanor renunciou aos seus propósitos de evangelização e continuou a visitá-lo apenas por sentimentos humanitários. Mas então foi José Buendía quem tomou a iniciativa e tentou quebrantar a fé do sacerdote com artimanhas racionalistas. Certa ocasião em que o Padre Nicanor levou ao castanheiro um tabuleiro e uma caixa de pedras para convidá-lo a jogar damas, Arcadio Buendía não aceitou, segundo disse, porque nunca pôde entender o sentido de uma contenda entre dois adversários que estavam de acordo nos princípios. O Padre Nicanor, que nunca tinha encarado desse modo o jogo de damas, não pôde voltar a jogar. Cada vez mais assombrado com a lucidez de José Arcadio Buendía, perguntou-lhe como era possível que o mantivessem amarrado numa árvore.

— Hoc est simplicissimum: — respondeu ele — porque estou louco.

Desde então, preocupado com a sua própria fé, o padre não voltou a visitá-lo e se dedicou inteiramente a apressar a construção do templo. Rebeca sentiu renascer a esperança. O futuro estava condicionado ao término da obra, desde um domingo em que o Padre Nicanor almoçava com eles e toda família sentada na mesa falou da solenidade e do esplendor que teriam os atos religiosos quando se construísse o templo. “A mais afortunada será Rebeca”, disse Amaranta. E como Rebeca não entendeu o que ela estava querendo dizer, explicou-lhe com um sorriso inocente:

— Caberá a você inaugurar a igreja com o casamento.

Rebeca tratou de se antecipar a qualquer comentário. No passo em que ia a construção, o templo não estaria terminado antes de dez anos. O Padre Nicanor não concordou: a crescente generosidade dos fiéis permitia fazer cálculos mais otimistas. Diante da surda indignação de Rebeca, que não conseguiu acabar de almoçar, Úrsula celebrou a ideia de Amaranta e contribuiu com um acréscimo considerável para que se apressassem os trabalhos. O Padre Nicanor considerou que com outro auxílio como esse o templo estaria pronto em três anos. A partir daí Rebeca não voltou a dirigir a palavra a Amaranta, convencida de que o seu palpite não tinha tido a inocência que ela soubera aparentar. “Era o que eu podia fazer de menos grave”, replicou Amaranta na violenta discussão que tiveram aquela noite. “Assim não vou ter que te matar nestes próximos três anos.” Rebeca aceitou o desafio.

Quando Pietro Crespi soube do novo adiamento, sofreu uma crise de desilusão, mas Rebeca lhe deu uma prova definitiva de lealdade. “A gente foge quando você quiser”, disse. Pietro Crespi, entretanto, não era homem de aventuras. Carecia do temperamento impulsivo da sua noiva e considerava o respeito à palavra empenhada como um capital que não se podia desbaratar. Então Rebeca recorreu a métodos mais audazes. Um vento misterioso apagava as luzes da sala de visitas e Úrsula surpreendia os noivos se beijando no escuro. Pietro Crespi lhe dava explicações atrapalhadas sobre a má qualidade das modernas lâmpadas de alcatrão e até ajudava a instalar na sala sistemas de iluminação mais seguros. Mas outra vez falhava o combustível ou entupiam as mechas, e Úrsula encontrava Rebeca sentada nos joelhos do noivo. Acabou por não aceitar nenhuma explicação. Depositou na índia a responsabilidade da padaria e se sentou numa cadeira de balanço para vigiar a visita do noivo, disposta a não se deixar vencer por manobras que já eram velhas na sua juventude. “Coitada de mamãe”, dizia Rebeca com sarcástica indignação, vendo Úrsula bocejar de sono nas visitas. “Quando morrer vai sair penando nesta cadeira de balanço.” Ao fim de três meses de amores vigiados, amolado com a lentidão da obra que passara a inspecionar todos os dias, Pietro Crespi resolveu dar ao Padre Nicanor o dinheiro que faltava para terminar o templo. Amaranta não se impacientou. Enquanto conversava com as amigas que todas as tardes iam bordar ou tricotar na varanda tratava de conceber novas artimanhas. Um erro de cálculo botou a perder a que considerou mais eficaz: tirar as bolinhas de naftalina que Rebeca tinha colocado no seu vestido noiva antes de guardá-lo na cômoda do quarto. Fê-lo quando faltavam menos de dois meses para o término do templo. Mas Rebeca estava tão impaciente diante da proximidade do casamento que quis preparar o vestido com mais antecipação que havia previsto Amaranta. Ao abrir a cômoda e desembrulhar primeiro os papéis e depois o pano protetor, encontrou o cetim do vestido e a renda do véu e até a coroa de flor laranjeira pulverizados pelas traças. Embora estivesse certa de ter colocado no embrulho dois punhados de bolinhas de naftalina, o desastre parecia tão acidental que não se atreveu a culpar Amaranta. Faltava menos de um mês para o casamento, mas Amparo Moscote se comprometeu a costurar um novo vestido em uma semana. Amaranta sentiu-se desfalecer naquele meio-dia chuvoso em que Amparo entrou em casa envolta numa espumarada de renda, para que Rebeca fizesse a última prova do vestido. Perdeu a voz e um fio de suor gelado desceu pelo leito da sua espinha dorsal. Durante longos meses tinha tremido de pavor esperando aquela hora, porque se concebia o obstáculo definitivo para o casamento de Rebeca, estava certa de que no último instante, quando tivessem falhado todos os recursos da sua imaginação, teria coragem de envenená-la. Nessa tarde, enquanto Rebeca sufocava de calor dentro da couraça de cetim que Amparo Moscote ia formando no seu corpo com mil alfinetes e uma paciência infinita, Amaranta errou várias vezes os pontos do crochê e espetou o dedo na agulha, mas decidiu com terrível frieza que a data seria a última sexta-feira antes do casamento, e a maneira seria uma dose de ópio no café.

Um obstáculo maior, tão inevitável quanto imprevisto, obrigou-os a um novo e indefinido adiamento. Uma semana antes da data marcada para o casamento, a pequena Remédios acordou à meia-noite, ensopada por um caldo quente que explodira nas suas entranhas com uma espécie de arroto rasgante, e morreu três dias depois, envenenada pelo próprio sangue, com um par de gêmeos atravessados no ventre. Amaranta sofreu uma crise de consciência. Tinha suplicado a Deus com tanto fervor que algo de pavoroso acontecesse para não ter de envenenar Rebeca que se sentiu culpada pela morte de Remedios. Não era esse o obstáculo por que tinha suplicado tanto. Remedios tinha levado para a casa um sopro de alegria. Instalara-se com o marido perto da oficina numa alcova que decorou com as bonecas e brinquedos da sua infância recente, e a sua alegre vitalidade transbordava as quatro paredes da alcova e passava como uma ventania de boa saúde pelo corredor das begônias. Cantava desde o amanhecer. Foi ela a única pessoa que se atreveu a servir de mediadora nas discussões entre Rebeca e Amaranta. Tomou a seu cargo a dispendiosa tarefa de cuidar de José Arcadio Buendía. Levava-lhe os alimentos, assistia-o nas suas necessidades cotidianas, lavava-o com sabão e bucha, mantinha limpos de piolhos e lêndeas os cabelos e a barba, conservava em bom estado o telhadinho de sapé e o reforçava com lonas impermeáveis nos tempos de tempestades. Nos últimos meses tinha conseguido se comunicar com ele por frases em latim rudimentar. Quando nasceu o filho de Aureliano e Pilar Ternera e foi levado para a casa e batizado em cerimônia íntima com o nome de Aureliano José, Remedios decidiu que fosse considerado como seu filho mais velho. Seu instinto maternal surpreendeu Úrsula. Aureliano, por outro lado, encontrou nela a justificativa que lhe faltava para viver. Trabalhava todo o dia na oficina e Remedios lhe levava na metade da manhã uma caneca de café sem açúcar. Ambos visitavam todas as noites os Moscote. Aureliano jogava com o sogro intermináveis partidas de dominó, enquanto Remedios conversava com as irmãs ou tratava com a mãe de assuntos de gente grande. O vínculo com os Buendía consolidou no povoado a autoridade do Sr. Apolinar Moscote. Em freqüentes viagens à capital da província, conseguiu que o governo construísse uma escola para que a administrasse Arcadio, que tinha herdado o entusiasmo didático do avô. Por meio da persuasão, convenceu a maioria dos habitantes de que suas casas deviam ser pintadas de azul para a festa da independência nacional. A instâncias do Padre Nicanor, ordenou a mudança da taberna de Catarino a uma rua afastada e fechou vários lugares de escândalo que prosperavam no centro da povoação. Certa vez regressou com seis guardas armados de fuzis a quem encomendou a manutenção da ordem, sem que ninguém se lembrasse do compromisso original de não ter gente armada no povoado. Aureliano se comprazia com a eficácia do sogro. “Você vai ficar tão gordo quanto ele”, diziam os amigos. Mas o sedentarismo, que acentuou as suas maçãs do rosto e concentrou o fulgor dos seus olhos, não aumentou o seu peso nem alterou a parcimônia do seu temperamento, e pelo contrário endureceu nos seus lábios a linha reta da meditação solitária e da decisão implacável. Tão profundo era o carinho que ele e sua esposa tinham conseguido despertar na família de ambos que, quando Remedios anunciou que ia ter um filho, até Rebeca e Amaranta fizeram uma trégua para tricotar com lã azul, para o caso de vir um menino, e com lã rosa, para o caso de ser menina. Foi ela a última pessoa em quem Arcadio pensou, poucos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento. Úrsula ordenou um luto de portas e janelas fechadas, sem entrada nem saída para ninguém a não ser para assuntos indispensáveis; proibiu falar em voz alta durante um ano, e pôs o daguerreótipo de Remedios no lugar em que se velou o cadáver, com uma fita negra em diagonal e uma lâmpada de azeite acesa para sempre. As gerações futuras, que nunca deixaram apagar a lâmpada, haveriam de se desconcertar diante daquela menina de saia pregueada, botinhas brancas e laço de organdi na cabeça, que não conseguiam fazer coincidir com a imagem acadêmica de uma bisavó. Amaranta tomou conta de Aureliano José. Adotou-o como um filho que haveria de compartilhar da sua solidão e aliviá-la do ópio involuntário jogaram as suas súplicas desatinadas no café de Remedios. Pietro Crespi entrava na ponta dos pés ao anoitecer, com a fita negra no chapéu, e fazia uma visita silenciosa a uma Rebeca que parecia perder o sangue dentro do vestido negro com mangas até os punhos. Teria sido tão irreverente a simples ideia de pensar em nova data para o casamento que o noivado se converteu numa relação eterna, um amor de cansaço em que ninguém voltou a pensar, como se os apaixonados que em outros tempos estragavam as lâmpadas para se beijar tivessem sido abandonados ao arbítrio da morte. Perdido o rumo, completamente desmoralizada, Rebeca voltou a comer terra.



continua página 58...


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Leia também:

Gabriel G Márquez - Cem Anos de Solidão (1.1) - Muitos anos depois...
Gabriel G Márquez - Cem Anos de Solidão (1.2) - Quando os ciganos voltaram...
Gabriel G Márquez - Cem Anos de Solidão (1.3) - Quando o pirata Francis Drake assaltou
Gabriel G Márquez - Cem Anos de Solidão (1.4) - O pai deu-lhe com as costas da mão
Gabriel G Márquez - Cem Anos de Solidão (1.5) - O filho de Pilar Ternera
Gabriel G Márquez - Cem Anos de Solidão (1.6) - Foi Aureliano quem concebeu
Gabriel G Márquez - Cem Anos de Solidão (1.7) - O tempo aplacou o seu propósito
Gabriel G Márquez - Cem Anos de Solidão (2.1) - A nova casa...
Gabriel G Márquez - Cem Anos de Solidão (2.2) - Aureliano foi o único..
Gabriel G Márquez - Cem Anos de Solidão (2.3) - ... as suas nove noites de velório
Gabriel G Márquez - Cem Anos de Solidão (3.1) - ... puberdade antes de superar os hábitos infantis
Gabriel G Márquez - Cem Anos de Solidão (3.2) - ... Não é hora de andar pensando em casamentos



quinta-feira, 10 de junho de 2021

Ballet Nacional de España - Centenario Antonio Ruiz Soler

RESUMEN GIRA SEVILLA



Ballet Nacional de España

BNE - CENTENARIO ANTONIO RUIZ SOLER


Com a estreia do programa 'Centenário Antônio Ruiz Soler' no Teatro de la Maestranza de Sevilha, recordamos um dos bailarinos e coreógrafos que mais marcaram a evolução da dança espanhola no século XX no ano do seu centenário, obra de aquele que a Câmara Municipal nos concedeu com o prêmio Giraldillo Ciudad de Sevilla da Bienal de Flamenco, o maior prêmio de flamenco da cidade. Obrigado, Sevilla!






Antonio Ruiz Soler «el bailarín». 
- Martinete (1952)

Antônio Ruiz Soler conhecido como Antônio «o dançarino» dança um martinete no Tajo de Ronda.
Cante El Pili. "Duende e o mistério do flamenco" (1952).



Pepa Flores & Antonio "El Bailarin"  
- Zorongo Gitano & Rumba

Pepa Flores em uma com Antônio "El Bailarin" no filme "La Nueva Cenicienta" - 1964.



Josefa Flores González, mais conhecida como Marisol ou Pepa Flores, é uma atriz e cantora espanhola. Criança prodígio, Marisol fez sucesso na Espanha nos anos 1960, com filmes musicais do gênero infantil, um deles, Cabriola, dirigido pelo ator americano Mel Ferrer.

Nasceu em 04 de fevereiro de 1948 (idade 73), Málaga, Espanha


domingo, 6 de junho de 2021

Boléro de Ravel

Boléro de Ravel 

(Orchestre philharmonique de Radio France / Lionel Bringuier)


A Orquestra Filarmônica da Radio France dirigida por Lionel Bringuier executa o Bolero de Maurice Ravel. Gravado em 16 de fevereiro de 2018 no Auditório da Maison de la Radio (Paris).





Criado em 1927 por encomenda da dançarina espanhola Ida Rubinstein, Ravel, que originalmente orquestraria peças de Isaac Albeniz, optou por compor um Bolero, uma dança espanhola: “Estou particularmente interessado em que não haja nenhum engano sobre o meu Bolero. Esta é uma experiência em uma direção muito particular e muito limitada, e não se deve suspeitar que ela almeje outra coisa senão o que está almejando. Antes da primeira apresentação, avisei que havia escrito uma peça de dezessete minutos consistindo apenas em tecido orquestral sem música - um crescendo longo e progressivo. "

O Bolero de Ravel consiste em duas frases que se alternam e se repetem sem a menor mudança de ritmo ou andamento. É a adição de instrumentos uns aos outros, e o crescendo perpétuo (do sussurro ao estrondo) que produz o efeito irresistível desta peça obsedante.

Encontre todos os concertos em vídeo do France Musique em
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10 coisas que você talvez não saiba sobre o bolero de Ravel
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O bolero é devido à doença de Ravel?
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O contexto para a criação do Bolero:
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O Bolero do cinema!
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10 coisas que você pode não saber sobre Ravel:
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Biografia de Maurice Ravel
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Valery Gergiev 
London Symphony Orchestra





Maya Plisetskaya
- Bolero (choreography by Maurice Béjart)
1975




Jorge Donn
Bolero-1982.





Cinema: Retratos da Vida

(Les Uns et Les Autres) 
(Cena Inicial) - 1981




Les Uns et les autres
 
1981
Film de Claude Lelouch



quinta-feira, 3 de junho de 2021

O Brasil Nação - V2: § 85 – A finança dos republicanos “práticos” - Manoel Bomfim

  Manoel Bomfim



O Brasil Nação volume 2



SEGUNDA PARTE 
TRADIÇÕES



À glória de
CASTRO ALVES
Potente e comovida voz de revolução


capítulo 8


A Revolução Republicana



§ 85 – A finança dos republicanos “práticos”


Já foi acentuado: finança, prosperidade material, riqueza... são os fins em que os nossos políticos de qualidade consagram, ensoberbecidos, os seus sonhos, e a que, sinceramente, dão os seus esforços. É mesmo o caso único de sinceridade, em todas as suas atitudes. É bem de ver que se, nas mãos deles, a finança prestasse; se houvesse prosperidade no geral das gentes; se se contasse com acúmulo crescente de riqueza, ainda assim, não se poderia aceitar tais limitados e grosseiros efeitos como prova de geral capacidade dirigente. Consideremos, agora, que, aí mesmo, nessas materialidades a que eles exclusivamente se consagram, é que são mais sensíveis as insuficiências, os erros, desastres, até crimes, para irrecusável prova da definitiva incapacidade. Finanças de bacharéis, ignorantes de tudo que faz base à economia política, na República, elas se qualificam em déficits, empréstimos, suspensão de pagamentos, fiscalidade de carrapato, ou preguiça a roer os brotos da embaúba, a passar a sua tartigrada estupidez de uma ramagem a outra, enquanto houver embaúbas pelo capoeirão... Tome-se do parecer da receita: é um espelho, em vidro barato, onde, todavia, se retrata a degringolada, em dissipações, do que tem sido a finança republicana. No último quatriênio 1922-1925, um déficit anual, em média, de cerca de 200 mil contos, para uma receita média de 1.500:000$000. Note-se que esta política deficitária se verifica apesar de empréstimos entrados como renda, e devorados como receita ordinária, apesar de suspenso o pagamento do serviço da dívida estrangeira. Para o próximo exercício, o déficit já calculado será de 36.000 contos. Considera-se, contudo, que não se computam aí os famosos créditos extraordinários, autorizados, e que, em certos exercícios financeiros têm atingido a importância de dezenas de milhares de contos. Também constata o parecer que todos os serviços industriais do Estado têm apresentado déficit...

Empréstimos no estrangeiro, e serviço da respectiva dívida, formam um dos capítulos mais ricos em estupidez e infâmia do financismo da República. Na União: maior soma (funding é empréstimo) convertida em dívida, nos últimos vinte anos da gestão republicana do que em toda a vida anterior do país, aí compreendidos os empréstimos em vista da guerra do Paraguai; suspensão de pagamentos por um período de mais de metade da existência da República; formidável soma de empréstimos negados ao seu destino obrigado, para um emprego que chega a ser verdadeiro desvio; as rendas, uma por uma, dadas em penhor... Por fora da União, a federação veio a ser como ciosa prerrogativa, a prerrogativa de contraírem, Estados e Municipalidades, tantos empréstimos quantos obtenham, que nunca serão bastantes para os que os procuram. E, então, aí tem havido de tudo: juros acima de usura, comissões devorantes, desvios confessados, e que vão a 40, 50 % do total; contratadores ou negociadores dos empréstimos que por lá ficam a comer e gozar todo o empréstimo, sem parar na emissão dos títulos, até que a polícia os trancafia, e a justiça os condena (a justiça de lá); juros cujos pagamentos se suspendem, sem nenhuma explicação, por decênios... Agora mesmo, a Bolsa de Fundos Públicos de São Paulo oficiou a 12 Câmaras municipais que paguem os “cupons” de suas dívidas “cujos serviços não estão em dia, com grave dano do crédito público...” E, com isto, de fato, esboroou-se o famoso crédito do Brasil. O último empréstimo no estrangeiro, pelo último governo, nos últimos dias, e cujo produto se evaporou; esse foi obtido através de comissões e garantias tais, como tal juro, que só mesmo para um Estado falido.

Completa-se, este financeirismo de empréstimos, déficits e calotes, com a tributação de desvario sugador com que se fazem as receitas. O termo – tributos é usual, deles, inconscientes e atávicos, na tradicional fiscalidade de saque. A tarifa alfandegária, precioso legado de D. João, com os seus 15% ad valorem, essa é o teor, mesmo, da ignorância incurável com que eles financiam. A técnica, indispensável nessas pautas, só entra como manejos de interessados em fraudarem, ou privilegiarem-se. No mais, há erros inadmissíveis mesmo no bacharelismo vigente. Aí, como em todas as receitas, taxa-se com o intuito explícito de fazer renda. Mas, objeta-se, há um evidente comércio, apesar dos mesmos impostos. Sim: um comércio feito por profissionais... profissionais, sobretudo, em achar o meio de evitar a finta. Lembremo-nos de que, se na Capital da União o imposto é universal, pois que a fiscalidade está fora da política, nos Estados, só pagam o duro das receitas os alheios à política, sobretudo a oposição quando há heroicos para tal mister.

E nos veios dessa finança escoa-se o que seria efetiva prosperidade, como se perde o melhor da riqueza já feita; câmbio, Banco do Brasil, cobranças em ouro... são os outros símbolos da finança oficial. A República recebeu o câmbio ao par – 27, libra 9$600, e ei-lo, agora a 5 e avos, libra a quarenta e tantos mil réis. A isto, respondem imediatamente os construtores republicanos: foram as seguidas turbações políticas, levantes, revoluções formais que deram neste resultado. Não: as turbações formais, não concorreram nem com 30% para a desvalorização do dinheiro nacional. A primeira e mais sensível das depreciações veio como correspondência do financismo inicial da República, com as emissões a jorro e as subsequentes encampações. Quando Floriano começou o seu governo, sem nenhum levante, ainda, o câmbio já estava a 15. E passou todo o período do grande alagoano atormentado pela mais violenta e poderosa das guerras civis do Brasil, sem que o câmbio descesse mais de quatro pontos. Veio o prudentismo – paz, reinado da sensatez, poderio dos conservadores na República... aura da reação, garantia dos homens de bem... perseguição aos republicanos, desvirtuação essencial da política, verdadeira turbação íntima... e, o câmbio degringola numa desvalorização nunca vista até a casa dos 6. Vem o reinado da ostensiva finança, com suspensão de pagamentos, para que o câmbio possa subir, e fique nessa flutuação em torno de 10, até que se faça a economia política de brutal enfeudamento da finança aos interesses do café, cuja valorização se torna o eixo de toda a caranguejola financista: Convênio da Taubaté, Caixa de Conversão... tréguas à degringolada, até que a grande guerra dá o pretexto de nova suspensão de pagamentos, e novos empréstimos. Em verdade, na desgraça universal, a guerra foi negócio vantajoso para o Brasil: forçada restrição de importação, incremento da produção nacional, reforço de exportação... Pois bem, com isto e os milhares de dólares entrados por empréstimo, degringola o câmbio, numa queda que começou bem antes de 5 de julho de 1922, derrocada que se acentua até a atual regeneração financeira em câmbio miserável, por uma degringolada propositada, e cujas peripécias e datas são inteiramente independentes das crises de revolta armada. Desta sorte, só a filáucia coimbrense poderá explicar a definitiva desvalorização da moeda nacional pelas perturbações armadas, Aliás, nem seria preciso insistir em demonstrar o contrário, quando a renascença de agora, neste prometido Cruzeiro, de câmbio a cinco, vem patentear que toda essa finança é o encaminhamento, todo instintivo, para o atual preço do café. Que importa toda a imensa fortuna em que os brasileiros foram roubados? O câmbio, que de libra – 16$000 vem, no interregno de um decênio, a libra – 40$000, reduziu a riqueza da nação, papel-moeda ou títulos, a 30% do valor da emissão. Foi uma verdadeira espoliação, de que ninguém aproveitou, no entanto, nem o café, jubilante do câmbio baixo, nem o Estado, que continua em déficit; espoliação que corresponde ao desbarato dos empréstimos últimos, de que ela é o preço.

Para digno remate, alinhava-se, em oito dias, uma radical reforma financeira, estabilização, moeda-ouro... justificada no estafadíssimo truísmo de que o inconveniente do câmbio é a instabilidade, não a mesquinhez da taxa. Sem dúvida: quando, numa governança um tanto razoável, com um câmbio natural, expressão legítima dos fatores econômicos, fazia-se o valor do mil-réis em variações pouco sensíveis, já esperadas. Tudo ia regularmente, apesar de que esse – REAL – unidade monetária, fosse expressão de uma taxa tão rebaixada que já não é valor palpável, se não uma mera abstração, ou insignificância, que, para ser unidade, multiplica-se por mil. Pouco nos importava a formidável depreciação histórica da nossa moeda. Mas importa infinitamente que, justamente no fundo de uma nunca vista depreciação da moeda, dentro de uma crise financeira resultante principalmente dos erros políticos, adote-se como remédio o definitivo amesquinhamento da moeda, aproveitando-se esse aviltamento monetário como padrão de moeda-ouro. Aliás, só a irremissível insuficiência da finança bacharelesca pode admitir que o remédio colhesse: que o Cruzeiro, a mil-réis baratinho, será um símbolo de ouro, que teremos câmbio estável, a coberto de jogatina e de sustos. Estabilidade de câmbio e circulação metálica não são coisas a fazerem-se por simples decreto, quando a nação é pobre, isto é, sem reservas. Neste caso, ou o Estado é o próprio senhor da economia nacional (Rússia), e o pode fazer porque incorpora o mercado cambial, ou o câmbio oscilará, à mercê de uma economia inarmônica, dependente de múltiplos fatores, não fortuitos, mas dissociados e relativos, muitas vezes, a motivos superiores à economia nacional, mesmo com uma balança comercial favorável. Então, só quando se acumule riqueza e a nação seja economicamente independente, ela será senhora de sua finança, para um câmbio estável. Por enquanto, aqui, a providência servirá para impedir ao câmbio de melhorar. Cheguem, porém, dias análogos aos de 1890, 97, 1915, 1922-25... e o câmbio achará por onde descer, dos cinco em que pretendem estabilizá-lo.

Quando se criaram os impostos aduaneiros em ouro, foi, bem explicitamente, para que a finança oficial tivesse o ouro do que precisa, sem depender do câmbio. Uma parte desse ouro seria para um fundo de resgate. Destarte, retomando o serviço da dívida externa, o Tesouro estaria inteiramente fora das oscilações cambiais: iniciar-se-ia o anunciado resgate, e o Brasil viria a ser um país de moeda sã, superior à contingência de câmbios... Talvez, bem imaginado, mas sem ajuste da realidade; nem a fração-ouro, reservada ao resgate, seria valor-força para elevar o país à circulação metálica, nem os estadistas republicanos têm tenacidade, honesta e sincera, indispensável para execução de um programa. E o ouro do resgate, que já se elevaria a £ 300 milhões, foi sempre desviado para... o sorvedouro comum, pelo que houve de votar-se uma lei autorizando o desvio, já realizado.

Através de toda essa finançaria, em que o Estado se empobreceu tanto quanto se endividava, e a nação estiolava, sugada pelos impostos; inflando nessa finança, o simbólico Banco do Brasil passou da suspensão de pagamentos (inclusive depósitos) de 1900, à opulência de hoje. Apesar de quanto o tesouro já tinha ajudado ao banco periclitante, nem ele tinha crédito, nem as respectivas ações valiam coisa alguma: corrida, intervenção do Estado – a forçar os credores a deixar na carteira do falido os seus créditos, ao mesmo tempo que o Tesouro dava a sua responsabilidade aos correspondentes débitos. E, mais uma vez, derivou a fortuna do Brasil em benefício dos felizes acionistas do Banco. Daí para cá multiplicaram-se os favores, privilégios e negócios, em que os magros recursos da nação se esvaem para os cofres do estabelecimento cuja melhor função é a de ser canal escuso dos favores governamentais em dinheiro, e que, nos seus privilégios asfixiantes de crédito, pôde passar, em vinte anos, de escória bancária, à suntuosidade finançante de agora. É bem o retrato, avesso, da finança oficial.



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"Manoel Bomfim morreu no Rio aos 64 anos, em 1932, deixando-nos como legado frases, que infelizmente, ainda ecoam como válidas: 'Somos uma nação ineducada, conduzida por um Estado pervertido. Ineducada, a nação se anula; representada por um Estado pervertido, a nação se degrada'. As lições que nos são ministradas em O Brasil nação ainda se fazem eternas. Torcemos para que um dia caduquem. E que o novo Brasil sonhado por Bomfim se torne realidade."

Cecília Costa Junqueira

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Bomfim, Manoel, 1868-1932  
                O Brasil nação: vol. II / Manoel Bomfim. – 1. ed. – Rio de Janeiro: Fundação Darcy Ribeiro, 2013. 392 p.; 21 cm. – (Coleção biblioteca básica brasileira; 31).


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Leia também:

O Brasil nação - v1: Prefácio - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: Prefácio - Manoel Bomfim, o educador revolucionário
O Brasil Nação - v2: Prefácio - Manoel Bomfim, o educador revolucionário (fim)
O Brasil Nação - v2: § 50 – O poeta - Manoel Bomfim
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O Brasil Nação - v2: § 52 – De Gonçalves Dias a Casimiro de Abreu... - Manoel Bomfim
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O Brasil Nação - v2: § 59 – O novo ânimo revolucionário - Manoel Bomfim
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O Brasil Nação - v2: § 61 – A Abolição: a tradição brasileira para com os escravos - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: § 62 – Infla o Império sobre a escravidão - Manoel Bomfim
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O Brasil Nação - v2: § 64 – O passe de 1871 e o abolicionismo imperial - Manoel Bomfim
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O Brasil Nação - v2: § 66 – Abolição e República - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: § 67 – A propaganda republicana - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: § 67 – A propaganda republicana (2) - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: § 68 – A revolução para a República - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: § 69 – Mais Dejanira... e nova túnica - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: § 70 – A farda na República - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - V2: § 71 – O positivismo na República - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - V2: § 72 – A reação contra a República - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - V2: § 73 – A Federação brasileira - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - V2: § 73-a – Significação da tradição de classe  - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - V2: § 74 – A descendência de Coimbra - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - V2: § 75 – Ordem... - Manoel Bomfim


OS SERTÕES, Euclides da Cunha - O Homem: III ... O sertanejo é, antes de tudo, um forte

  OS SERTÕES 


Euclides da Cunha

Volume 1



O HOMEM




O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral.

A sua aparência, entretanto, ao primeiro lance de vista, revela o contrário. Falta-lhe a plástica impecável, o desempeno, a estrutura corretíssima das organizações atléticas.

É desgracioso, desengonçado, torto. Hércules-Quasímodo, reflete no aspecto a fealdade típica dos fracos. O andar sem firmeza, sem aprumo, quase gigante e sinuoso, aparenta a translação de membros desarticulados. Agravao a postura normalmente abatida, num manifestar de displicência que lhe dá um caráter de humildade deprimente. A pé, quando parado, recosta-se invariavelmente ao primeiro umbral ou parede que encontra; a cavalo, se sofreia o animal para trocar duas palavras com um conhecido, cai logo sobre um dos estribos, descansando sobre a espenda da sela. Caminhando, mesmo a passo rápido, não traça trajetória retilínea e firme. Avança celeremente, num bambolear característico, de que parecem ser o traço geométrico os meandros das trilhas sertanejas. E se na marcha estaca pelo motivo mais vulgar, para enrolar um cigarro, bater o isqueiro, ou travar ligeiramente conversa com um amigo, cai logo — cai é o termo — de cócoras, atravessando largo tempo numa posição de equilíbrio instável, em que todo o seu corpo fica suspenso pelos dedos grandes dos pés, sentado sobre os calcanhares, com uma simplicidade a um tempo ridícula e adorável.

É o homem permanentemente fatigado.

Reflete a preguiça invencível, a atonia muscular perene, em tudo: na palavra remorada, no gesto contrafeito, no andar desaprumado, na cadência langorosa das modinhas, na tendência constante à imobilidade e à quietude.

Entretanto, toda esta aparência de cansaço ilude.

Nada é mais surpreendedor do que vê-lo desaparecer de improviso. Naquela organização combalida operam-se, em segundos, transmutações completas. Basta o aparecimento de qualquer incidente exigindo-lhe o desencadear das energias ador- mecidas. O homem transfigura-se. Empertiga-se, estadeando novos relevos, novas linhas na estatura e no gesto; e a cabeça firma-se-lhe, alta, sobre os ombros possantes, aclarada pelo olhar desassombrado e forte; e corrigem-se-lhe, prestes, numa descarga nervosa instantânea, todos os efeitos do relaxamento habitual dos órgãos; e da figura vulgar do tabaréu canhestro, reponta, inesperadamente, o aspecto dominador de um titã acobreado e potente, num desdobramento surpreendente de força e agilidade extraordinárias.

Este contraste impõe-se ao mais leve exame. Revela-se a todo o momento, em todos os pormenores da vida sertaneja — caracterizado sempre pela intercadência impressionadora entre extremos impulsos e apatias longas.

É impossível idear-se cavaleiro mais xucro e deselegante; sem posição, pernas coladas ao bojo da montaria, tronco pendido para a frente e oscilando à feição da andadura dos pequenos cavalos do sertão, desferrados e maltratados, resistentes e rápidos como poucos. Nesta atitude indolente, acompanhando morosamente, a passo, pelas chapadas, o passo tardo das boiadas, o vaqueiro preguiçoso quase transforma o campeão que cavalga na rede amolecedora em que atravessa dous terços da existência.

Mas se uma rês alevantada envereda, esquiva, adiante, pela caatinga garranchenta, ou se uma ponta de gado, ao longe, se trasmalha, ei-lo em momentos transformado, cravando os acicates de rosetas largas nas ilhargas da montaria e partindo como um dardo, atufando-se velozmente nos dédalos inextricáveis das juremas.

Vimo-lo neste steeple chase bárbaro.

Não há contê-lo, então, no ímpeto. Que se lhe antolhem quebradas, acervos de pedras, coivaras, moitas de espinhos ou barrancas de ribeirões, nada lhe impede encalçar o garrote desgarrado, porque por onde passa o boi passa o vaqueiro com o seu cavalo...

Colado ao dorso deste, confundindo-se com ele, graças à pressão dos jarretes firmes, realiza a criação bizarra de um centauro bronco: emergindo inopinadamente nas clareiras; mergulhando nas macegas altas; saltando valos e ipueiras; vingando cômoros alçados; rompendo, célere, pelos espinheirais mordentes; precipitando-se, a toda brida, no largo dos tabuleiros...

A sua compleição robusta ostenta-se, nesse momento, em toda a plenitude. Como que é o cavaleiro robusto que empresta vigor ao cavalo pequenino e frágil, sustendo-o nas rédeas improvisadas de caroá, suspendendo-o nas esporas, arrojando-o na carreira — estribando curto, pernas encolhidas, joelhos fincados para a frente, torso colado no arção, — escanchado no rastro do novilho esquivo: aqui curvando-se agilíssimo, sob um ramalho, que lhe roça quase pela sela; além desmontando, de repente, como um acrobata, agarrado às crinas do animal, para fugir ao embate de um tronco percebido no último momento e galgando, logo depois, num pulo, o selim; — e galopando sempre, através de todos os obstáculos, sopesando à destra sem a perder nunca, sem a deixar no inextricável dos cipoais, a longa aguilhada de ponta de ferro encastoado em couro, que por si só constituiria, noutras mãos, sérios obstáculos à travessia...

Mas terminada a refrega, restituída ao rebanho a rês dominada, ei-lo, de novo caído sobre o lombilho retovado, outra vez desgracioso e inerte, oscilando à feição da andadura lenta, com a aparência triste de um inválido esmorecido.


Tipos díspares: o jagunço e o gaúcho

O gaúcho do Sul, ao encontrá-lo nesse instante, sobreolhá-lo-ia comiserado.

O vaqueiro do Norte é a sua antítese. Na postura, no gesto, na palavra, na índole e nos hábitos não há equipará-lo. O primeiro, filho dos plainos sem fins, afeito às correrias fáceis nos pampas e adaptado a uma natureza carinhosa que o encanta, tem, certo, feição mais cavalheirosa e atraente. A luta pela vida não lhe assume o caráter selvagem da dos sertões do Norte. Não conhece os horrores da seca e os combates cruentos com a terra árida e exsicada. Não o entristecem as cenas periódicas da devastação e da miséria, o quadro assombrador da absoluta pobreza do solo calcinado, exaurido pela adustão dos sóis bravios do equador. Não tem, no meio das horas tranquilas da felicidade, a preocupação do futuro, que é sempre uma ameaça, tornando aquela instável e fugitiva. Desperta para a vida amando a natureza deslumbrante que o aviventa; e passa pela vida, aventureiro, jovial, diserto, valente e fanfarrão, despreocupado, tendo o trabalho como uma diversão que lhe permite as disparadas, domando distâncias, nas pastagens planas, tendo aos ombros, palpitando aos ventos, o pala inseparável, como uma flâmula festivamente desdobrada.

As suas vestes são um traje de festa, ante a vestimenta rústica do vaqueiro. As amplas bombachas, adrede talhadas para a movimentação fácil sobre os baguais, no galope fechado ou no corcovear raivoso, não se estragam em espinhos dilaceradores de caatingas. O seu poncho vistoso jamais fica perdido, embaraçado nos esgalhos das árvores garranchentas. E, rompendo pelas coxilhas, arrebatadamente na marcha do redomão desensofrido, calçando as largas botas russilhonas, em que retinem as rosetas das esporas de prata; lenço de seda, encarnado, ao pescoço; coberto pelo sombreiro de enormes abas flexíveis e tendo à cinta, rebrilhando, presas pela guaiaca, a pistola e a faca — é um vitorioso jovial e forte. O cavalo, sócio inseparável desta existência algo romanesca, é quase objeto de luxo. Demonstra-o o arreamento complicado e espetaculoso. O gaúcho andrajoso sobre um pingo bem aperado, está decente, está corretíssimo. Pode atravessar sem vexames os vilarejos em festa.


O vaqueiro

O vaqueiro, porém, criou-se em condições opostas, em uma intermitência, raro, perturbada, de horas felizes e horas cruéis, de abastança e misérias — tendo sobre a cabeça, como ameaça perene, o Sol, arrastando de envolta no volver das estações períodos sucessivos de devastações e desgraças.

Atravessou a mocidade numa intercadência de catástrofes. Fez-se homem, quase sem ter sido criança. Salteou-o, logo, intercalando-lhe agruras nas horas festivas da infância, o espantalho das secas no sertão. Cedo encarou a existência pela sua face tormentosa. É um condenado à vida. Compreendeu-se envolvido em combate sem tréguas, exigindo-lhe imperiosamente a convergência de todas as energias.

Fez-se forte, esperto, resignado e prático.

Aprestou-se, cedo, para a luta.

O seu aspecto recorda, vagamente, à primeira vista, o de guerreiro antigo exausto da refrega. As vestes são uma armadura. Envolto no gibão de couro curtido, de bode ou de vaqueta; apertado no colete também de couro; calçando as perneiras, de couro curtido ainda, muito justas, cosidas às pernas e subindo até as virilhas, articuladas em joelheiras de sola; e resguardados os pés e as mãos pelas luvas e guarda-pés de pele de veado — é como a forma grosseira de um campeador medieval desgarrado em nosso tempo.

Esta armadura, porém, de um vermelho pardo, como se fosse de bronze flexível, não tem cintilações, não rebrilha ferida pelo Sol. É fosca e poenta. Envolve ao combatente de uma batalha sem vitórias...

A sela da montaria, feita por ele mesmo, imita o lombilho rio-grandense, mas é mais curta e cavada, sem os apetrechos luxuosos daquele. São acessórios uma manta de pele de bode, um couro resistente, cobrindo as ancas do animal, peitorais que lhe resguardam o peito, e as joelheiras apresilhadas às juntas.

Este equipamento do homem e do cavalo talha-se à feição do meio. Vestidos doutro modo não romperiam, incólumes, as caatingas e os pedregais cortantes.

Nada mais monótono e feio, entretanto, do que esta vestimenta original, de uma só cor — o pardo avermelhado do couro curtido — sem uma variante, sem uma lista sequer diversamente colorida. Apenas, de longe em longe, nas raras encamisadas, em que aos descantes da viola o matuto deslembra as horas fatigadas, surge uma novidade — um colete vistoso de pele de gato do mato ou de suçuarana com o pelo mosqueado virado para fora, ou uma bromélia rubra e álacre fincada no chapéu de couro.

Isto, porém, é incidente passageiro e raro.

Extintas as horas do folguedo, o sertanejo perde o desgarre folgazão — largamente expandido nos sapateados, em que o estalo seco das alpercatas sobre o chão se parte nos tinidos das esporas e soalhas dos pandeiros, acompanhando a cadência das violas vibrando nos rasgados — e cai na postura habitual, tosco, deselegante e anguloso, num estranho manifestar de desnervamento e cansaço extraordinários.

Ora, nada mais explicável do que este permanente contraste entre extremas manifestações de força e agilidade e longos intervalos de apatia.

Perfeita tradução moral dos agentes físicos da sua terra, o sertanejo do Norte teve uma árdua aprendizagem de reveses. Afez-se, cedo, a encontrá-los, de chofre, e a reagir, de pronto.

Atravessa a vida entre ciladas, surpresas repentinas de uma natureza incompreensível, e não perde um minuto de tréguas. É o batalhador perenemente combalido e exausto, perenemente audacioso e forte; preparando-se sempre para um recontro que não vence e em que se não deixa vencer; passando da máxima quietude à máxima agitação; da rede preguiçosa e cômoda para o lombilho duro, que o arrebata, como um raio, pelos arrastadores estreitos, em busca das malhadas. Reflete, nestas aparências que se contrabatem, a própria natureza que o rodeia — passiva ante o jogo dos elementos e passando, sem transição sensível, de uma estação à outra, da maior exuberância à penúria dos desertos incendidos, sob o reverberar dos estios abrasantes.

É inconstante como ela. É natural que o seja. Viver é adaptar-se. Ela o talhou à sua imagem: bárbaro, impetuoso, abrupto...


O gaúcho

O gaúcho, o pealador valente, é certo, inimitável numa carga guerreira; precipitando-se, ao ressoar estrídulo dos clarins vibrantes, pelos pampas, como o conto da lança enristada, firme no estribo; atufando-se loucamente nos entreveros; desaparecendo, com um grito triunfal, na voragem do combate, onde espadanam cintilações de espadas; transmudando o cavalo em projétil e varando quadrados e levando de rojo o adversário no rompão das ferraduras, ou tombando, preste, na luta, em que entra com despreocupação soberana pela vida.


O jagunço

O jagunço é menos teatralmente heroico; é mais tenaz; é mais resistente; é mais perigoso; é mais forte; é mais duro.

Raro assume esta feição romanesca e gloriosa. Procura o adversário com o propósito firme de o destruir, seja como for.

Está afeiçoado aos prélios obscuros e longos, sem expansões entusiásticas. A sua vida é uma conquista arduamente feita, em faina diuturna. Guarda-a como capital precioso. Não esperdiça a mais ligeira contração muscular, a mais leve vibração nervosa sem a certeza do resultado. Calcula friamente o pugilato. Ao riscar da faca não dá um golpe em falso. Ao apontar a lazarina longa ou o trabuco pesado, dorme na pontaria...

Se ineficaz o arremesso fulminante, o contrário enterreirado não baqueia, o gaúcho, vencido ou pulseado, é fragílimo nas aperturas de uma situação inferior ou indecisa.

O jagunço, não. Recua. Mas no recuar é mais temeroso ainda. É um negacear demoníaco. O adversário tem, daquela hora em diante, visando-o pelo cano da espingarda, um ódio inextinguível, oculto no sombreado das tocaias...


Os vaqueiros

Esta oposição de caracteres acentua-se nas quadras normais.

Assim todo sertanejo é vaqueiro. À parte a agricultura rudimentar das plantações da vazante pela beira dos rios, para a aquisição de cereais de primeira necessidade, a criação de gado é, ali, a sorte de trabalho menos impropriada ao homem e à terra.

Entretanto não há vislumbrar nas fazendas do sertão a azáfama festiva das estâncias do Sul.

Parar o rodeio é para o gaúcho uma festa diária, de que as cavalhadas espetaculosas são ampliação apenas. No âmbito estreito das mangueiras ou em pleno campo, ajuntando o gado costeado ou encalçando os bois esquivos, pelas sangas e banhados, os pealadores, capatazes e peões, preando à ilhapa dos laços o potro bravio, ou fazendo tombar, fulminando pelas bolas silvantes, o touro alçado, nas evoluções rápidas das carreiras, como se tirassem argolinhas, seguem no alarido e na alacridade de uma diversão tumultuosa. Nos trabalhos mais calmos, quando nos rodeios marcam o gado, curam-lhe as feridas, apartam os que se destinam às charqueadas, separam os novilhos tambeiros ou escolhem os baguais condenados às chilenas do domador, — o mesmo fogo que encandesce as marcas dá as brasas para os ágapes rudes de assados com couro ou ferve a água para o chimarrão amargo.

Decorre-lhes a vida variada e farta.



continua 051...


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Os Sertões, de Euclides da Cunha

Fonte: CUNHA, Euclides da. Os Sertões. São Paulo: Três, 1984 (Biblioteca do Estudante). 

Texto proveniente de: A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo Permitido o uso apenas para fins educacionais.