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sábado, 18 de janeiro de 2025

Gabriel G Márquez - Cem Anos de Solidão (18.2) - O rancor agravou-se

Cem Anos de SOLIDÃO


Gabriel Garcia Márquez


(18.2)
para jomí garcía ascot
e maría luisa elío


     O rancor agravou-se seis meses depois, quando Gastón tornou a escrever de Leopoldville, onde por fim recebera o aeroplano só para pedir que lhe mandassem o biciclo que, de tudo o que havia deixado em Macondo, era a única coisa que tinha para ele um valor sentimental. Aureliano suportou com paciência o despeito de Amaranta Úrsula, esforçou-se em demonstrar-lhe que podia ser tão bom marido na bonança como na adversidade, e as urgências cotidianas que os assediavam quando acabou o último dinheiro de Gastón criaram entre eles um vínculo de solidariedade que não era tão deslumbrante e caprichoso como a paixão, mas que serviu para que eles se amassem tanto e fossem tão felizes como nos tempos alvoroçados da libertinagem. Quando Pilar Ternera morreu estavam esperando um filho.
     Na sonolência da gravidez, Amaranta Úrsula tentou fazer uma indústria de colares de vértebras de peixe. Mas, exceção feita a Mercedes, que lhe comprou uma dúzia, não encontrou a quem vendê-los. Aureliano tomou consciência pela primeira vez de que o seu dom para línguas, a sua sabedoria enciclopédica, a sua estranha faculdade de se lembrar dos pormenores de fatos e lugares remotos e desconhecidos eram tão inúteis como o cofre de pedraria legítima de sua mulher, que na época devia valer tanto quanto todo o dinheiro de que poderiam dispor, juntos, os últimos habitantes de Macondo. Sobreviviam por milagre. Embora Amaranta Úrsula não perdesse o bom humor, nem o engenho para as travessuras eróticas, adquiriu o costume de se sentar na varanda depois do almoço, numa espécie de sesta insone e pensativa. Aureliano a acompanhava. As vezes permaneciam em silêncio até o anoitecer, um defronte do outro, olhando-se nos olhos, amando-se no sossego com tanto amor como antes se amaram no escândalo. A incerteza do futuro fez com que o coração voltasse ao passado. Viram-se a si mesmos no paraíso perdido do dilúvio, patinhando nos charcos do quintal, matando lagartixas para pendurá-las em Úrsula, brincando de enterrá-la viva, e aquelas evocações lhes revelaram a verdade de que tinham sido felizes juntos desde que tinham memória. Aprofundando o passado, Amaranta Úrsula recordou a tarde em que entrou na oficina de ourivesaria e a mãe lhe contou que o pequeno Aureliano não era filho de ninguém porque tinha sido encontrado boiando numa cestinha. Embora a versão lhes parecesse inverossímil, careciam de informações para substituí-la pela verdadeira. A única coisa de que estavam certos, depois de examinar todas as possibilidades, era de que Fernanda não tinha sido a mãe de Aureliano. Amaranta Úrsula inclinou-se a pensar que era filho de Petra Cotes, de quem só se lembrava de histórias de infâmia, e aquela suposição lhe produziu na alma uma torção de horror.
     Atormentado pela certeza de que era irmão da sua mulher, Aureliano deu uma fugida até a casa paroquial para procurar nos arquivos sebentos e furados de traças alguma pista certa da sua filiação. A certidão de batismo mais antiga que encontrou foi a de Amaranta Buendía, batizada na adolescência pelo Padre Nicanor Reyna, na época em que este andava tratando de provar a existência de Deus pela prova do chocolate. Chegou a iludir-se com a possibilidade de ser um dos dezessete Aurelianos, cujas certidões de nascimento perseguiu através de cinco tomos, mas as datas de batismo eram remotas demais para a sua idade. Vendo-o perdido em labirintos de sangue, trêmulo de incerteza, o padre artrítico que o observava da rede perguntou-lhe compassivamente qual era o seu nome.

— Aureliano Buendía — disse ele. 
— Então não se mate de procurar — exclamou o pároco com uma convicção decisiva. — Há muitos anos houve por aqui uma rua que se chamava assim e por essa época o povo tinha o hábito de pôr nos filhos os nomes das ruas. Aureliano tremeu de raiva. 
— Ah! — disse — então o senhor também não acredita. 
— Em quê? 
— Que o Coronel Aureliano Buendía fez trinta e duas guerras civis e perdeu todas — respondeu Aureliano. 
— Que o exército encurralou e metralhou três mil trabalhadores e que levou os cadáveres para jogá-los no mar num trem de duzentos vagões. 

     O pároco mediu-o com um olhar de pena.

— Ai, filho — suspirou. — Para mim bastaria estar certo de que você e eu existimos neste momento.

     De modo que Aureliano e Amaranta Úrsula aceitaram a versão da cestinha, não porque acreditassem nela, mas porque os punha a salvo dos seus terrores. A medida que avançava a gravidez iam-se transformando num ser único, integravam-se cada vez mais na solidão de uma casa a que só faltava um último sopro para desmoronar. Reduziram-se a um espaço essencial, que ia do quarto de Fernanda, onde vislumbraram os encantos do amor sedentário, até o princípio da varanda, onde Amaranta Úrsula se sentava tricotando sapatinhos e touquinhas de recém-nascido e Aureliano respondia as cartas ocasionais do sábio catalão. O resto da casa se rendeu ao assédio tenaz da destruição. A oficina de ourivesaria, o quarto de Melquíades, os remos primitivos e silenciosos de Santa Sofía de la Piedad ficaram no fundo de uma selva doméstica que ninguém teria a coragem de desbastar. Cercados pela voracidade da natureza, Aureliano e Amaranta Úrsula continuavam cultivando o orégão e as begônias e defendiam o seu mundo com demarcações de cal, construindo as últimas trincheiras da guerra imemorial entre o homem e as formigas. O cabelo comprido e descuidado, as equimoses que lhe amanheciam na cara, a inchação das pernas, a deformação do antigo e amoroso corpo de doninha tinham mudado em Amaranta Úrsula a aparência juvenil de quando chegara em casa com o viveiro de canários desafortunados e o esposo cativo, mas não lhe alteraram a vivacidade de espírito.

“Merda”, costumava rir, “quem havia de pensar que nós iríamos realmente acabar vivendo como antropófagos!” O último fio que os atava ao mundo rompeu-se no sexto mês de gravidez, quando receberam uma carta que evidentemente não era do sábio catalão. Tinha sido selada em Barcelona, mas o envelope estava escrito com tinta azul convencional, numa caligrafia administrativa, e tinha o aspecto inocente e impessoal dos recados inimigos. Aureliano arrancou-a das mãos de Amaranta Úrsula quando ela se dispunha a abri-la.

— Esta não — disse a ela. — Não quero saber o que diz. 

     Tal como ele pressentia, o sábio catalão não tornou a escrever. A carta alheia, que ninguém leu, ficou à mercê das traças no consolo onde Fernanda esquecera uma vez o seu anel de casamento e lá continuou se consumindo no fogo interior da sua má notícia, enquanto os amantes solitários navegavam contra a corrente daqueles tempos de despedidas, tempos impenitentes e aziagos, que se desgastavam no empenho inútil de fazê-los derivar para o deserto do desencanto e do esquecimento. Conscientes daquela ameaça, Aureliano e Amaranta Úrsula passaram os últimos meses de mãos dadas, terminando com amores de lealdade o filho começado com exaltações e fornicação. De noite, abraçados na cama, não se amedrontavam com as explosões terrestres das formigas, nem com o ragor das traças, nem com o silvo constante e nítido do crescimento da erva daninha nos quartos vizinhos. Muitas vezes foram acordados pelo tráfego dos mortos. Ouviram Úrsula lutando contra as leis da criação para preservar a estirpe, e José Arcadio Buendía procurando a verdade quimérica dos grandes inventos, e Fernanda rezando, e o Coronel Aureliano Buendía se embrutecendo com os enganos da guerra e os peixinhos de ouro, e Aureliano Segundo agonizando de solidão no aturdimento das farras, e então aprenderam que as obsessões dominantes prevalecem contra a morte e tornaram a ser felizes com a certeza de que eles continuariam a se amar m as suas naturezas de fantasmas, muito depois de que as outras espécies de animais futuros arrebatassem dos insetos o paraíso da miséria que os insetos estavam acabando de arrebatar dos homens. Num domingo, às seis da tarde, Amaranta Úrsula sentiu a premência do parto. A sorridente parteira das garotas que deitavam por causa da fome fez com que ela subisse na mesa da sala de jantar, montou a cavalo no seu ventre e a maltratou com galopes selvagens até que seus gritos foram silenciados pelo choro de um varão formidável. Através das lágrimas, Amaranta Úrsula viu que era um Buendía dos grandes, socado e voluntarioso como os Josés Arcadios, com os olhos abertos e clarividentes dos Aurelianos e predisposto a começar a estirpe outra vez do princípio e purificá-la dos seus vícios perniciosos e da sua vocação solitária, porque era o único em um século que tinha sido engendrado com amor. 

 — E um antropófago perfeito — disse. — Vai se chamar Rodrigo. 
— Não — contradisse o marido. — Vai se chamar Aureliano e ganhar trinta e duas guerras.  

     Depois de cortar o umbigo, a parteira pôs-se a remover com um trapo o unguento azul que lhe cobria o corpo, iluminada por Aureliano com uma lâmpada. Só quando o viraram de costas é que perceberam que ele tinha alguma coisa a mais que o resto dos homens e se inclinaram para examiná-lo. Era um rabo de porco. Não se alarmaram. Aureliano e Amaranta Úrsula não conheciam o precedente familiar nem se lembravam das pavorosas admoestações de Úrsula, e a parteira acabou de tranquilizá-los com a suposição de que aquele rabo inútil poderia ser cortado quando o menino mudasse os dentes. Depois não tiveram mais ocasião de tornar a pensar nisso, porque Amaranta Úrsula sangrava um manancial inesgotável. Tentaram socorrê-la com ataduras de teia de aranha e cinza socada, mas era como querer tapar uma fonte com as mãos. Nas primeiras horas, ela fazia esforços para conservar o bom humor. Pegava na mão do assustado Aureliano e suplicava que não se preocupasse, que gente como ela não tinha sido feita para morrer contra a vontade e rolava de rir dos recursos truculentos da parteira. Mas à medida que as esperanças abandonavam Aureliano, ela ia se fazendo menos visível, como se a estivessem apagando da luz, até que se afundou na sonolência. Na madrugada da segunda-feira trouxeram uma mulher que rezou junto à cama orações de cauterização, infalíveis em homens e animais, mas o sangue apaixonado de Amaranta Úrsula era insensível á qualquer artifício diferente do amor. De tarde, depois de vinte e quatro horas de desespero, souberam que estava morta porque o caudal se extinguiu sem auxílios e o seu perfil se afilou e as florações da cara se desvaneceram numa aurora de alabastro e tornou a sorrir. Aureliano não compreendera até então quanto gostava de seus amigos, quanta falta lhe faziam e quanto teria dado para estar com eles naquele momento. Colocou o menino na cestinha que a mãe tinha preparado para ele, tapou a cara do cadáver com uma manta e vagou sem rumo pelo povoado deserto, procurando um desfiladeiro de volta ao passado. Bateu na porta da farmácia, onde não tinha estado nos últimos tempos, e o que encontrou foi uma oficina de carpintaria. A anciã que abriu a porta com uma lâmpada na mão compadeceu-se do seu desvario e insistiu em que não, que ali nunca tinha havido uma farmácia, nem nunca havia conhecido uma mulher de colo esbelto e olhos sonhadores que se chamasse Mercedes. Chorou com a testa apoiada na porta da antiga livraria do sábio catalão, consciente de que estava pagando os prantos atrasados de uma morte que não quisera chorar no seu devido tempo para não quebrar os feitiços do amor. Quebrou os punhos contra os muros de argamassa de O Menino de Ouro, clamando por Pilar Ternera, indiferente aos luminosos discos alaranjados que cruzavam o céu e que tantas vezes tinha contemplado com uma fascinação pueril, nas noites de festa, do pátio dos socós. No último salão aberto do desmantelado bairro de tolerância, um conjunto de acordeões tocava as canções de Rafael Escalona, o sobrinho do bispo, herdeiro dos segredos de Francisco, o Homem. O dono da cantina, que tinha um braço seco e como que torrado por tê-lo levantado contra a mãe, convidou Aureliano a tomar uma garrafa de aguardente, e Aureliano convidou-o a tomar outra. O dono da cantina falou da desgraça do seu braço. Aureliano falou da desgraça do seu coração, seco e como que torrado por havê-lo erguido contra a irmã. Acabaram chorando juntos e Aureliano sentiu por um momento que a dor tinha terminado. Mas quando tornou a ficar sozinho na última madrugada de Macondo, abriu os braços na metade da praça, disposto a acordar o mundo inteiro e gritou com toda a sua alma:

— Os amigos são uns filhos da puta! 

     Nigromanta resgatou-o de um charco de vômito e lágrimas. Levou-o para o seu quarto, limpou-o, fez com que tomasse uma xícara de caldo. Acreditando que isso o consolava, riscou com um traço de carvão os inumeráveis amores que ele continuava lhe devendo e evocou voluntariamente as suas tristezas mais solitárias para não deixá-lo sozinho no pranto. Ao amanhecer, depois de um sono ruim e breve, Aureliano recobrou a consciência da sua dor de cabeça. Abriu os olhos e se lembrou da criança. Não a encontrou na cestinha. No primeiro impacto, experimentou uma explosão de alegria, pensando que Amaranta Úrsula tinha despertado da morte para se ocupar da criança. Mas o cadáver era uma montanha de pedras sob a manta. Consciente de que ao chegar tinha encontrado aberta a porta do quarto, Aureliano atravessou a varanda saturada pelos suspiros matinais do orégão e chegou à sala de jantar, onde ainda estavam os escombros do parto: a panela grande, os lençóis ensanguentados, os cestos de cinza e o torcido umbigo da criança numa fralda aberta sobre a mesa, junto à tesoura e ao fio de seda. A idéia de que a parteira voltara por causa do menino no decorrer da noite proporcionou-lhe uma pausa de sossego para pensar. Jogou-se na cadeira de balanço, a mesma em que se sentara Rebeca nos tempos originais da casa, para dar aulas de bordado, e em que Amaranta jogava xadrez chinês com o Coronel Gerineldo Márquez, e em que Amaranta Úrsula costurava a roupinha da criança; e naquele relâmpago de lucidez teve consciência de que era incapaz de aguentar sobre a sua alma o peso esmagador de tanta coisa acontecida. Ferido pelas lanças mortais das tristezas próprias e alheias, admirou a impavidez da teia de aranha nas roseiras mortas, a perseverança do mato, a paciência do ar na radiante manhã de fevereiro. E então viu a criança. Era uma pelasca inchada e ressecada que todas as formigas do mundo iam arrastando trabalhosamente para os seus canais pelo caminho de pedras do jardim. Aureliano não conseguiu se mover. Não porque estivesse paralisado pelo horror, mas porque naquele instante prodigioso revelaram-se as chaves definitivas de Melquíades e viu a epígrafe dos pergaminhos perfeitamente ordenada no tempo e no espaço dos homens: O primeiro da estirpe está amarrado a uma árvore e o último está sendo comido pelas formigas.
     Em nenhum ato da sua vida Aureliano tinha sido mais lúcido do que quando esqueceu os seus mortos e a dor dos seus mortos e tornou a pregar as portas e as janelas com as cruzes de Fernanda, para não se deixar perturbar por nenhuma tentação do mundo, porque agora sabia que nos pergaminhos de Melquíades estava escrito o seu destino. Encontrou-os intactos, entre as plantas pré-históricas e os charcos fumegantes e os insetos luminosos que tinham desterrado do quarto qualquer vestígio da passagem dos homens pela terra, e não teve serenidade para levá-los para a luz, mas ali mesmo, de pé, sem a menor dificuldade, como se estivessem escritos em castelhano sob o brilho deslumbrante do meio-dia, começou a decifrá-los em voz alta. Era a história da família, escrita por Melquíades inclusive nos detalhes mais triviais, com cem anos de antecipação. Redigira-a em sânscrito, que era a sua língua materna, e cifrara os versos pares com o código privado do imperador Augusto e os ímpares com os códigos militares lacedemônios. A proteção final, que Aureliano começava a vislumbrar quando se deixou confundir pelo amor de Amaranta Úrsula, radicava em Melquíades ter ordenado os fatos não no tempo convencional dos homens, mas concentrando tudo em um século de episódios cotidianos, de modo que todos coexistiram num mesmo instante. Fascinado pela descoberta, Aureliano leu em voz alta, sem saltos, as encíclicas cantadas que o próprio Melquíades fizera Arcadio escutar e que, na realidade, eram as predições da sua execução, e encontrou anunciado o nascimento da mulher mais bela do mundo que estava subindo ao céu de corpo e alma, e conheceu a origem de dois gêmeos póstumos que renunciavam a decifrar os pergaminhos, não só por incapacidade e inconstância, mas porque as suas tentativas eram prematuras. Neste ponto, impaciente por conhecer a sua própria origem, Aureliano deu um salto. Então começou o vento, fraco, incipiente, cheio de vozes do passado, de murmúrios de gerânios antigos, de suspiros de desenganos anteriores às nostalgias mais persistentes. Não o percebeu porque naquele momento estava descobrindo os primeiros indícios do seu ser, num avô concupiscente que se deixava arrastar pela frivolidade através de um ermo alucinado, em busca de uma mulher formosa a quem não faria feliz. Aureliano o reconheceu, perseguiu os caminhos ocultos da sua descendência e encontrou o instante da sua própria concepção entre os escorpiões e as borboletas amarelas de um banheiro crepuscular, onde um operário saciava a sua luxúria com uma mulher que se entregava a ele por rebeldia. Estava tão absorto que também não sentiu a segunda arremetida do vento, cuja potência ciclônica arrancou das dobradiças as portas e as janelas, esfarelou o teto da galeria oriental e desprendeu os cimentos. Só então descobriu que Amaranta Úrsula não era sua irmã, mas sua tia, e que Francis Drake tinha assaltado Riohacha só para que eles pudessem se perseguir pelos labirintos mais intrincados do sangue, até engendrar o animal mitológico que haveria de pôr fim à estirpe. Macondo já era um pavoroso rodamoinho de poeira e escombros, centrifugado pela cólera do furacão bíblico, quando Aureliano pulou onze páginas para não perder tempo com fatos conhecidos demais e começou a decifrar o instante que estava vivendo, decifrando-o à medida que o vivia, profetizando-se a si mesmo no ato de decifrar a última página dos pergaminhos, como se estivesse vendo a si mesmo num espelho falado. Então deu Outro salto para se antecipar às predições e averiguar a data e as circunstâncias da sua morte. Entretanto, antes de chegar ao verso final já tinha compreendido que não sairia nunca daquele quarto, pois estava previsto que a cidade dos espelhos (ou das miragens) seria arrasada pelo vento e desterrada da memória dos homens no instante em que Aureliano Babilonia acabasse de decifrar os pergaminhos e que tudo o que estava escrito neles era irrepetível desde sempre e por todo o sempre, porque as estirpes condenadas a cem anos de solidão não tinham uma segunda oportunidade sobre a terra.

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Cem Anos de Solidão (18.2) - O rancor agravou-se
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Gabriel García Márquez, escritor colombiano, nasceu em Aracataca, Magdalena, em 6 de Outubro de 1928. Depois dos estudos universitários, enveredou pelo jornalismo, área na qual atuou por anos. Escreveu para diversas publicações e mais tarde tornou-se cronista regular no El Espectador. 
Em 1959 colaborou na criação da Prensa Latina, a agência de notícias da jovem República de Cuba, que viria a abandonar em 1961 para se instalar no México, participando cada vez mais ativamente na vida política do continente. O regresso ao seu país seria entrecortado por numerosas viagens até nova saída em 1980.
A sua intensa e riquíssima carreira de escritor, com início em 1947, ao publicar os seus primeiros contos no El Espectador, culminou com o romance Cem Anos de Solidão (1967) e mereceu-lhe a atribuição do Prêmio Nobel da Literatura de 1982.
Da vasta produção do mais célebre escritor da América Latina, salienta-se, ainda: A Revoada (1955), Ninguém Escreve ao Coronel (1961), Os Funerais da Mamãe Grande (1962), A Incrível e Triste História de Cândida Eréndira e de Sua Avó Desalmada (1972), O Outono do Patriarca (1975), Crônica de Uma Morte Anunciada (1981), e O Amor nos Tempos do Cólera (1985). 

sexta-feira, 17 de janeiro de 2025

Gabriel G Márquez - Cem Anos de Solidão (18.1) - Pilar Ternera morreu na cadeira de balanço de cipó

Cem Anos de SOLIDÃO


Gabriel Garcia Márquez


(18.1)
para jomí garcía ascot
e maría luisa elío


     PILAR TERNERA morreu na cadeira de balanço de cipó, numa noite de festa, guardando a entrada do seu paraíso. De acordo com a sua última vontade, enterraram-na sem ataúde, sentada na cadeira de balanço, que foi descida com cordas por homens num buraco enorme, cavado no centro da pista de dança. As mulatas vestidas de preto, pálidas de pranto, improvisavam ofícios de trevas enquanto tiravam os brincos, os broches e os anéis, e os iam jogando na fossa, antes de que a selassem com uma lápide sem nome nem datas e lhe colocassem por cima uma montanha de camélias amazônicas. Depois de envenenar os animais, fecharam portas e janelas com tijolos e argamassa e se dispersaram pelo mundo com os seus baús de madeira, atapetados por dentro com figuras de santos, recortes de revista e retratos de namorados efêmeros, remotos e fantásticos, que cagavam diamantes ou comiam canibais ou eram coroados como reis de baralho em alto-mar.  
     Era o fim. No túmulo de Pilar Ternera, entre salmos e miçangas de putas, apodreciam os escombros do passado, os poucos que restavam depois que o sábio catalão liquidou a livraria e voltou à aldeia mediterrânea onde nascera, derrotado pela saudade de uma primavera teimosa. Ninguém poderia pressentir a sua decisão. Chegara a Macondo durante o. esplendor da companhia bananeira, fugindo de uma das tantas guerras, e não lhe ocorrera nada mais prático do que instalar aquela livraria de incunábulos e edições originais em vários idiomas, que os clientes casuais folheavam com receio, como se fossem livros de lixeira, enquanto esperavam a vez para que interpretassem os seus sonhos na casa em frente. Esteve metade da vida no abafado fundo da loja, garranchando a sua letra preciosista em tinta violeta e em folhas que arrancava de cadernos escolares, sem que ninguém soubesse ao certo o que escrevia. Quando Aureliano o conheceu, tinha dois caixotes cheios daquelas páginas disparatadas que de algum modo faziam pensar nos pergaminhos de Melquíades, e dessa época até quando foi embora deve ter enchido um terceiro, de modo que era razoável pensar que não tinha feito nada além disso, durante a sua permanência em Macondo. As únicas pessoas com quem se relacionou foram os quatro amigos, cujos piões e papagaios trocou por livros e os pôs a ler Sêneca e Ovídio quando ainda estavam na escola primária. Tratava os clássicos com uma familiaridade caseira, como se todos tivessem sido em alguma época seus companheiros de quarto, e sabia muitas coisas que simplesmente não se devia saber, como por exemplo que Santo Agostinho usava debaixo do hábito um gibão de lã que não tirou durante quatorze anos, e que Arnaldo de Villanova, o nigromante, ficou impotente desde menino por causa de uma mordida de escorpião. O seu fervor pela palavra escrita era uma urdidura de respeito solene e irreverência folgazã. Nem os seus próprios manuscritos estavam a salvo dessa dualidade. Tendo aprendido catalão para traduzi-los, Alfonso meteu um rolo de páginas nos bolsos, que sempre andavam cheios de recortes de jornal e manuais de profissões estranhas, e certa noite perdeu-os na casa das garotas que se deitavam com eles por fome. Quando o avô sábio soube, em vez de fazer o escândalo temido comentou morrendo de rir que aquele era o destino natural da literatura. Em compensação, não houve poder humano capaz de persuadi-lo a não levar os três caixotes quando regressou à sua aldeia natal, e soltou impropérios cartagineses [1] contra os inspetores da estrada de ferro que tentavam mandá-los como carga, até que conseguiu ficar com eles no vagão de passageiros. “O mundo terá acabado de se foder”, disse então, “no dia em que os homens viajarem de primeira classe e a literatura no vagão de carga.” Isso foi a última coisa que o ouviram dizer. Tinha passado uma semana negra com os preparativos finais da viagem, porque à medida que a hora se aproximava o seu humor ia-se decompondo e mudavam-se as intenções e as coisas que colocava num lugar apareciam noutro, assediado pelos mesmos duendes que atormentavam Fernanda.

— Collons — maldizia. — Estou cagando para a Lei 27 do sínodo de Londres.

     Germán e Aureliano tomaram conta dele. Ajudaram-no como a um menino, prenderam nos seus bolsos, com alfinetes de gancho, as passagens e os documentos de viagem, escreveram uma lista pormenorizada do que ele devia fazer desde que saísse de Macondo até desembarcar em Barcelona, mas assim mesmo ele jogou no lixo, sem perceber, um par de calças com a metade do seu dinheiro. Na véspera da viagem, depois de pregar os caixotes e meter a roupa na mesma mala com que tinha chegado, franziu as pálpebras de marisco, apontou com uma espécie de bênção atrevida os montes de livros com que havia sobrevivido ao exílio e disse aos amigos: 

— Deixo para vocês essa merda! 

     Três meses depois receberam um envelope grande com vinte e nove cartas e mais de cinquenta retratos, que tinham se acumulado nos ócios do alto-mar. Embora não pusesse datas, era evidente a ordem em que tinha escrito as cartas. Nas primeiras, contava com o seu humor habitual as peripécias da travessia, a vontade que lhe dera de atirar pela amurada o comissário que não lhe permitira trazer os três caixotes no camarote, a imbecilidade lúcida de uma senhora que se aterrava com o número 13, não por superstição mas porque lhe parecia um número que ficara por terminar, e a aposta que ganhara no primeiro jantar porque reconhecera na água de bordo o gosto das beterrabas noturnas das fontes de Lérida. Com o correr dos dias, entretanto, a realidade de bordo interessava-o cada vez menos e até os acontecimentos mais recentes e triviais lhe pareciam dignos de saudade, porque à medida que o navio se afastava a memória ia se tornando triste. Aquele processo de nostalgização progressiva era também evidente nos retratos. Nos primeiros parecia feliz, com a sua camisa de inválido [2] e o seu topete nevado, no encapelado outubro do Caribe. Nos últimos, era visto com um sobretudo escuro e um cachecol de seda, pálido por natureza e taciturno pela ausência, na coberta de um navio de angústia que começava a sonambular por oceanos outonais. Germán e Aureliano respondiam as suas cartas. Escreveu tantas nos primeiros meses que agora se sentiam mais perto dele do que quando estava em Macondo e quase se aliviavam da raiva de que tivesse ido embora. No princípio, mandava dizer que tudo continuava igual, que na casa onde nascera ainda havia o caracol rosado, que os arenques secos tinham o mesmo sabor sobre a torrada, que as cascatas da aldeia continuavam se perfumando ao entardecer. Eram outra vez as folhas de cadernos retomadas com garranchinhos roxos [3] , nas quais dedicava um parágrafo especial para cada um. Entretanto, e embora ele mesmo não parecesse perceber, aquelas cartas de recuperação e estímulo se iam transformando pouco a pouco em pastorais de desengano. Nas noites de inverno, enquanto fervia a sopa no fogão, desejava o calor dos fundos da loja, o zumbido do sol nas amendoeiras empoeiradas, o apito do trem na sonolência da sesta, da mesma forma como desejava em Macondo a sopa de inverno no fogão, os pregões do vendedor de café e as cotovias fugazes da primavera. Aturdido por duas saudades colocadas de frente uma para a outra como dois espelhos, perdeu o seu maravilhoso sentido de irrealidade até que terminou por recomendar a todos que fossem embora de Macondo, que esquecessem tudo o que ele ensinara do mundo e do coração humano, que cagassem para Horácio e que em qualquer lugar em que estivessem se lembrassem sempre de que o passado era mentira, que a memória não tinha caminhos de regresso, que toda primavera antiga era irrecuperável e que o amor mais desatinado e tenaz não passava de uma verdade efêmera.  
     Álvaro foi o primeiro a seguir o conselho de abandonar Macondo. Vendeu tudo, até a onça cativa que zombava dos transeuntes no quintal da sua casa, e comprou uma passagem eterna num trem que nunca acabava de viajar. Nos cartões postais que mandava das estações intermediárias, descrevia aos gritos as imagens instantâneas que tinha visto pela janela do vagão, e era como ir rasgando em tiras e jogando ao esquecimento o longo poema da fugacidade: os negros quiméricos nos algodoais da Louisiana, os cavalos alados na grama azul de Kentucky, os amantes gregos no crepúsculo infernal do Arizona, a moça de suéter vermelho que pintava aquarelas nos lagos de Michigan e que lhe deu com os pincéis um adeus não era de despedida mas de esperança, porque ela ignorava que estava vendo passar um trem sem regresso. Em seguida foram Alfonso e Germán, num sábado, com a ideia de voltar na segunda-feira, e não se soube mais deles. Um ano depois da partida do sábio catalão, o único que restava era Gabriel ainda vivendo à deriva, à mercê da eventual caridade de Nigromanta, e respondendo aos questionários do concurso de uma revista francesa, cujo maior prêmio era uma viagem a Paris. Aureliano, que era quem recebia a assinatura, ajudava-o a encher os formulários, às vezes na sua casa, e quase entre os potes de louça e o cheiro de valeriana da única farmácia que restava em Macondo, onde vivia Mercedes, a sigilosa namorada de Gabriel. Era a última coisa que ia ficando de um passado cujo aniquilamento não se consumava, que continuava se aniquilando indefinidamente, consumindo-se dentro de si mesmo, se acabando a cada minuto mas sem acabar de se acabar nunca. O povoado chegara a tais extremos de inatividade que quando Gabriel ganhou o concurso e para Paris com duas mudas de roupa, um par de sapatos e as obras completas de Rabelais, teve que fazer sinal ao maquinista a fim de que o trem se detivesse para apanhá-lo. A antiga Rua dos Turcos era agora um lugar de abandono, onde os últimos árabes se deixavam levar para a morte pelo costume milenar de se sentar à porta, embora fizesse muitos anos tinham vendido a última jarda de diagonal e nas vitrinas sombrias só restassem os manequins decapitados. A cidade da companhia bananeira, que talvez Patricia Brown tentasse evocar para os netos nas noites de intolerância e pepinos no vinagre de Prattville, Alabama, era uma planície de capim selvagem.
     O padre ancião que substituíra o Padre Angel, e cujo nome ninguém se deu o trabalho de averiguar, esperava a piedade de Deus estendido de papo para o ar numa rede, atormentado pela artrite e pela insônia da dúvida, enquanto os lagartos e as ratazanas disputavam a herança do templo vizinho. Naquele Macondo esquecido até pelos pássaros, onde a poeira e o calor se fizeram tão tenazes que dava trabalho respirar, enclausurados pela solidão e pelo amor e pela solidão do amor puma casa onde era quase impossível dormir por causa do barulho das formigas ruivas, Aureliano e Amaranta Úrsula eram os únicos seres felizes, e os mais felizes sobre a terra. Gastón voltara a Bruxelas. Cansado de esperar o avião, um dia meteu numa maleta as coisas indispensáveis e o arquivo da correspondência, e foi com o propósito de voltar por antes de que os seus privilégios fossem cedidos a um grupo de aviadores alemães que tinham apresentado às autoridades provinciais um projeto mais ambicioso que o seu. Desde a tarde do primeiro amor, Aureliano e Amaranta Úrsula tinham continuado a aproveitar os escassos descuidos do esposo , a se amar com ardores amordaçados em encontros ocasionais, e quase sempre interrompidos por regressos imprevistos. Mas quando se viram sozinhos na casa sucumbiram no dos amores atrasados. Era uma paixão insensata, alucinada, que fazia tremerem de pavor na cova os ossos de Fernanda e os mantinha num estado de excitação perpétua. Os gemidos de Amaranta Úrsula, as suas canções agônicas, estavam do mesmo jeito às duas da tarde na mesa da sala de estar e às duas da madrugada na despensa. “O que mais me aborrece”, ria, “é o tempo enorme que perdemos.” No aturdimento da paixão, viu as formigas devastando o jardim, saciando a sua fome pré-histórica nas madeiras da casa, e viu a torrente de lava viva se apoderando outra vez da varanda, só se preocupou em combatê-la quando a encontrou no quarto. Aureliano abandonou os pergaminhos, não tornou a sair de casa, e respondia de qualquer maneira às cartas sábio catalão. Perderam o sentido da realidade, a noção tempo, o ritmo dos hábitos cotidianos. Tornaram a fechar portas e janelas para não demorarem nos trâmites de desnudamento, e andavam pela casa como Remedios, a bela, sempre quis estar, e se espojavam em pelo nos barreiros do quintal, e uma tarde por pouco não se afogaram quando se amavam na caixa-d’água. Em pouco tempo fizeram mais que as formigas ruivas: quebraram os móveis da sala, rasgaram com as suas loucuras a rede que resistira aos tristes amores de acampamento do Coronel Aureliano Buendía e abriram os colchões e os esvaziaram no chão, para se sufocar em tempestades de algodão. Embora Aureliano fosse um amante tão feroz como o seu rival, era Amaranta Úrsula quem comandava com o seu engenho disparatado e a sua voracidade lírica aquele paraíso de desastres, como se tivesse concentrado no amor a indomável energia que a tataravó consagrara à fabricação de animaizinhos de caramelo. Além disso, enquanto ela cantava de alegria e morria de rir das suas próprias invenções, Aureliano ia se tornando mais absorto e calado, porque a sua paixão era ensimesmada e calcinante. Entretanto, ambos chegaram a tais extremos de virtuosismo que quando se esgotavam na exaltação tiravam melhor partido do cansaço. Entregaram-se à idolatria dos corpos, ao descobrir que os tédios do amor tinham possibilidades inexploradas, muito mais ricas que as do desejo. Enquanto ele amaciava com claras de ovo os seios eréteis de Amaranta Úrsula, ou suavizava com gordura de coco as suas coxas elásticas e o seu ventre de pêssego, ela brincava de boneca com a portentosa criatura de Aureliano e pintava-lhe olhos de palhaço com batom e bigodes de turco com lápis de sobrancelhas e armava-lhe laços de organza e chapeuzinhos de papel prateado. Uma noite se lambuzaram dos pés à cabeça com pêssegos em calda, lamberam-se como cães e se amaram como loucos no chão da varanda, e foram acordados por uma torrente de formigas carnívoras que se dispunham a devorá-los vivos.
     Nas pausas do delírio, Amaranta Úrsula respondia às cartas de Gastón. Sentia-o tão distante e ocupado que o seu regresso lhe parecia impossível. Numa das primeiras cartas, ele contou que na realidade os sócios tinham mandado o aeroplano, mas que uma agência marítima de Bruxelas o embarcara por equívoco com destino a Tanganica, onde o entregaram à dispersa comunidade dos Macondos. Aquela confusão ocasionou tantos contratempos que só a recuperação do aparelho podia demorar dois anos. Assim, Amaranta Úrsula descartou à possibilidade de um regresso inoportuno. Aureliano, por outro lado, não tinha outro contato com o mundo senão as cartas do sábio catalão e as notícias de Gabriel que recebia através de Mercedes, a farmacêutica silenciosa. No princípio eram contatos reais. Gabriel pedira o reembolso da passagem de volta para ficar em Paris, vendendo os jornais velhos e as garrafas vazias que as camareiras tiravam de um hotel lúgubre da Rua Dauphine. Aureliano podia imaginá-lo então com um suéter de gola alta que só tirava quando os terraços de Montparnasse se enchiam de namorados primaveris, e dormindo de dia e escrevendo de noite para enganar a fome, no quarto cheirando a espuma de couve-flor fervida onde haveria de morrer Rocamadour. Entretanto, as notícias se foram fazendo pouco a pouco tão incertas, e tão esporádicas e melancólicas as cartas do sábio, que Aureliano se acostumou a pensar neles pomo Amaranta Úrsula pensava no marido, e ambos ficaram boiando num universo vazio, onde a única realidade cotidiana e eterna era o amor. De repente, como um estampido naquele mundo de inconsciência feliz, chegou a notícia da volta de Gastón. Aureliano e Amaranta Úrsula abriram os olhos, sondaram as almas, se olharam na cara com a mão no coração e compreenderam que estavam tão identificados que preferiam a morte à separação. Então, ela escreveu ao marido uma carta de verdades contraditórias, na qual reiterava o seu amor e as suas ânsias de tornar a vê-lo, ao mesmo tempo que admitia como desígnio fatal a impossibilidade de viver sem Aureliano. Ao contrário do que ambos esperavam, Gastón mandou uma resposta tranquila, quase paternal, com duas folhas inteiras consagradas a preveni-los contra as veleidades da paixão e um ágrafo final com votos inequívocos de que fossem tão felizes como ele o tinha sido na sua breve experiência conjugal. Era uma atitude tão imprevista que Amaranta Úrsula se sentiu humilhada diante da ideia de ter proporcionado ao marido pretexto que ele desejava para abandoná-la à sua sorte.

continua página 248...
Cem Anos de Solidão (18.1) - Pilar Ternera morreu na cadeira de balanço de cipó
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[1] Explicação do autor à tradutora: “É uma arbitrariedade minha: suponho que a língua catalã é a mesma que se usava em Cartago, língua fenícia de mercadores malcriados. A tradução deve ser literal.”
[2] Explicação do autor à tradutora: “Vi a foto e juro que a camisa parecia de inválido, mas não sei por que: era branca, de colarinho muito grande e talvez de um número maior que o seu. É como os pijamas que vestem nas pessoas nos hospitais, como os camisolões dos bobos, enfim, como você quiser.”
[3] Ao empregar garrapatitas moradas, Gabriel García Márquez faz um jogo verbal: garrapatas é carrapato, enquanto que garrapato é garrancho. É interessante notar que para este mesmo significado existe a palavra escarabajo, que quer dizer também escaravelho. Páginas atrás, o autor se referia ao alfabeto sânscrito como “aranhinhas” e “carrapatos”. A importância contrapontística existencial dos insetos no romance é facilmente verificável. Basta lembrar as borboletas amarelas de Mauricio Babilonia, os escorpiões que rondavam o banho de Meme e de Rebeca, a entomologia de Gastón, as formigas ruivas decisivas neste capítulo final, as sanguessugas que quase matam Úrsula (v. a sua relação com os carrapatos), a mordida de escorpião que deixa Arnaldo de Vilanova impotente etc... Por outro lado, a importância existencial dos manuscritos no romance é decisiva — fundamentalmente os pergaminhos de Melquiades — e os escritos do sábio catalão, assim como a sua própria figura, funcionalmente não passam de variações dos primeiros. De modo que as garrapatitas moradas de Gabriel García Márquez assumem um significado ético na cosmovisão do romance, que ultrapassa de longe a mera metáfora sensorial da semelhança de forma expressa pelo equívoco verbal. É a não gratuidade de estilo da expressão, intraduzível, que nos obriga a esta nota. (N.T.)

quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

Gabriel G Márquez - Cem Anos de Solidão (17.2) - Fizeram-se amantes

Cem Anos de SOLIDÃO


Gabriel Garcia Márquez


(17.2)
para jomí garcía ascot
e maría luisa elío


     Fizeram-se amantes. Aureliano ocupava a manhã em decifrar pergaminhos e, na hora da sesta, ia para o quarto soporífero onde Nigromanta o esperava para lhe ensinar a fazer primeiro como as minhocas, em seguida como os caracóis e por último como os caranguejos, até que tivesse que abandoná-lo para tocaiar amores extraviados. Várias semanas se passaram antes de Aureliano descobrir que ela tinha em volta da cintura um cintinho que parecia feito com uma corda de violoncelo, mas que era duro como o aço e carecia de arremate, porque tinha nascido e crescido com ela. Quase sempre, entre amor e amor, comiam nus na cama, no calor alucinante e sob as estrelas diurnas que a ferrugem ia fazendo apontar no teto de zinco. Era a primeira vez que Nigromanta tinha um homem fixo, um machucante de planta [1] , como ela mesma dizia morrendo de rir, e começava até mesmo a ter ilusões de coração quando Aureliano lhe confiou a sua paixão reprimida por Amaranta Úrsula, que não tinha conseguido remediar com a substituição, mas pelo contrário, ela ia torcendo cada vez mais as suas entranhas, à medida que a experiência alargava o horizonte do amor. Então, Nigromanta continuou a recebê-lo com o mesmo calor de sempre, mas fez com que lhe pagasse os serviços com tanto rigor que, quando Aureliano não tinha dinheiro, punha na conta que não era feita com números, mas com riscos que ia traçando com a unha do polegar atrás da porta. Ao anoitecer, enquanto ela vagava pelas sombras da praça, Aureliano passava pela varanda como um estranho, mal cumprimentando Amaranta Úrsula e Gastón, que normalmente jantavam a essa hora, e tornava a se fechar no quarto, sem poder ler nem escrever, nem sequer pensar, por causa da ansiedade que lhe provocavam as risadas, os cochichos, as brincadeiras preliminares e, em seguida, as explosões de felicidade agônica que enchiam as noites da casa. Essa era a sua vida dois anos antes que Gastón começasse a esperar o aeroplano e continuava sendo igual na tarde em que foi à livraria do sábio catalão e se encontrou com quatro rapazes desbocados, encarniçados numa discussão sobre os métodos de matar baratas na Idade Média. O velho livreiro, conhecendo a estima de Aureliano por livros que só Beda, o Venerável, tinha lido, insistiu com uma certa malignidade paternal para que ele fosse o árbitro da controvérsia e este nem sequer tomou fôlego para explicar que as baratas, o inseto voador mais antigo sobre a terra, já era a vítima favorita das chineladas do Antigo Testamento, mas que como espécie era definitivamente refratária a qualquer método de extermínio, desde as rodelas de tomate com bórax até a farinha com açúcar, pois as suas mil seiscentas e três variedades tinham resistido à mais remota, tenaz e desapiedada perseguição que o homem jamais empreendera, desde as suas origens, contra qualquer ser vivente, inclusive o próprio homem, ao extremo de que assim como se atribuía ao gênero humano um instinto de reprodução, devia-se atribuir a ele também outro, mais definido e premente, que era o instinto de matar baratas, e que se estas tinham conseguido escapar à ferocidade humana era porque tinham se refugiado nas trevas, onde se fizeram invulneráveis pelo medo congênito do homem à escuridão, mas em compensação tornaram-se susceptíveis ao brilho do meio-dia, de modo que na Idade Média, na atualidade e pelos séculos dos séculos, o único método eficaz para matar baratas era o deslumbramento solar.
     Aquele fatalismo enciclopédico foi o princípio de uma grande amizade. Aureliano continuou se reunindo todas as tardes com os quatro debatedores, que se chamavam Álvaro, Germán, Alfonso e Gabriel, os primeiros e últimos amigos que teve na vida. Para um homem como ele, encastelado na realidade escrita, aquelas sessões atormentadas, que começavam a livraria às seis da tarde e terminavam nos bordéis ao amanhecer, foram uma revelação. Até então, não lhe ocorrera pensar que a literatura fosse o melhor brinquedo que se inventara para zombar das pessoas, como demonstrou Álvaro numa noite de farra. Algum tempo haveria de passar antes que Aureliano se desse conta de que tanta arbitrariedade tinha origem no exemplo do sábio catalão, para quem a sabedoria não valia a pena se não fosse possível se servir dela para inventar uma nova maneira de preparar o feijão.
     Na tarde em que Aureliano pontificou sobre as baratas, a discussão terminou na casa de umas garotas que se deitavam por fome, um bordel de mentira nos arrabaldes de Macondo. A proprietária era uma alcoviteira sorridente, atormentada pela mania de abrir e fechar portas. O seu eterno sorriso parecia provocado pela credulidade dos clientes, que admitiam como coisa certa um estabelecimento que não existia a não ser na imaginação, porque ali até as coisas palpáveis eram irreais: os móveis que se desarmavam ao sentar, a vitrola destripada em cujo interior havia uma galinha chocando, o jardim de flores de papel, os almanaques de anos anteriores à chegada da companhia bananeira, os quadros com litografias recortadas de revistas que nunca tinham sido editadas. Até as putinhas tímidas que vinham das vizinhanças quando a proprietária lhes avisava que haviam chegado clientes eram pura invenção. Apareciam sem cumprimentar, com os vestidinhos floridos de quando tinham cinco anos a menos, e os tiravam com a mesma inocência com que os tinham vestido, e no paroxismo do amor exclamavam assombradas que horror, olha como este teto está caindo, e imediatamente depois de ter recebido o seu peso e cinquenta centavos gastavam-no num pão com um pedaço de queijo que a proprietária vendia, mais risonha do que nunca, porque só ela sabia que nem essa comida era de verdade. Aureliano, cujo mundo atual começava nos pergaminhos de Melquíades e terminava na cama de Nigromanta, encontrou no bordelzinho imaginário uma cura de burro para a timidez. No começo não conseguia chegar a parte alguma, nos quartos onde a dona entrava nos melhores momentos do amor e fazia toda espécie de comentários sobre os encantos íntimos dos protagonistas. Mas com o tempo chegou a se familiarizar tanto com aqueles contratempos do mundo que certa noite mais aloucada que as outras se despiu na saleta de entrada e percorreu a casa equilibrando uma garrafa de cerveja sobre a sua masculinidade inconcebível. Foi ele quem pôs em moda as extravagâncias que a proprietária festejava com o seu sorriso eterno, sem protestar, sem acreditar nelas, nem mesmo quando Germán tentou incendiar a casa para demonstrar que ela não existia e mesmo quando Alfonso torceu o pescoço do papagaio e jogou-o na panela onde começava a ferver o cozido de galinha.
     Embora Aureliano se sentisse ligado aos quatro amigos por uma mesma amizade e uma mesma solidariedade, a ponto de pensar neles como se fossem um só, estava mais próximo de Gabriel do que dos outros. O vínculo nasceu na noite que ele falou casualmente do Coronel Aureliano Buendía e Gabriel foi o único que não acreditou que ele estivesse zombando de ninguém. Até a dona, que não costumava intervir conversas, discutiu com uma raivosa paixão de verdureira que o Coronel Aureliano Buendía, de quem realmente ouviu falar algumas vezes, era um personagem inventado pelo governo como pretexto para matar os liberais. Gabriel, pelo contrário, não punha em dúvida a realidade do Coronel Aureliano Buendía, porque tinha sido companheiro de armas e amigo inseparável do seu bisavô, o Coronel Gerineldo Márquez. Aquelas veleidades da memória eram ainda mais críticas quando se falava da matança dos trabalhadores. Cada vez Aureliano tocava neste ponto, não só a proprietária, mas também algumas pessoas mais velhas do que ela, repudiavam a patranha dos trabalhadores encurralados na estação e do trem de duzentos vagões carregados de mortos, e inclusive se obstinavam em afirmar o que afinal de contas tinha ficado estabelecido nos expedientes judiciais e nos textos da escola primária: que a companhia bananeira nunca existira. De modo que Aureliano e Gabriel estavam ligados por uma espécie de cumplicidade, baseada em fatos reais em que ninguém acreditava e que tinham afetado as suas vidas a ponto de ambos encontrarem à deriva, na ressaca de um mundo acabado que só restava a saudade. Gabriel dormia onde o surpreendesse a hora. Aureliano o acomodou várias vezes na oficina de ourivesaria, mas ele passava as noites em vigília, perturbado pelo tráfego dos mortos que andavam pelos quartos até amanhecer. Mais tarde recomendou-o a Nigromanta, que levava para o seu quartinho multitudinário quando estava livre e anotava-lhe as contas com risquinhos porta, nos poucos espaços disponíveis que as dívidas de Aureliano tinham deixado.
     Apesar da sua vida desorganizada, o grupo inteiro tentava fazer alguma coisa de perdurável, por insistência do catalão. Fora ele, com a sua experiência de antigo professo de letras clássicas e o seu depósito de livros raros, quem os tinha posto em condições de passar uma noite inteira procurando a trigésima sétima situação dramática, num povoado onde ninguém mais tinha interesse nem possibilidades de. além da escola primária. Fascinado pela descoberta da amizade, aturdido pelos feitiços de um mundo que lhe fora vedado pela mesquinharia de Fernanda, Aureliano abandonou o escrutínio dos pergaminhos precisamente quando começavam a se revelar para ele como predições em versos cifrados. Mas a comprovação posterior de que o tempo chegava para tudo, sem que fosse necessário renunciar aos bordéis, deu-lhe ânimo para voltar ao quarto de Melquíades, decidido a não fraquejar no seu empenho até descobrir as últimas chaves. Isso foi pelos dias em que Gastón começava a esperar o aeroplano, e Amaranta Úrsula se encontrava tão sozinha que certa manhã apareceu no quarto.

— Olá, antropófago — disse a ele. — Outra vez caverna. 

     Estava irresistível, com o seu vestido inventado e um longos colares de vértebras de savelhas que ela mesma fabricava. Tinha desistido do cordão de seda, convencida da fidelidade do marido, e pela primeira vez desde o regresso parecia dispor de um momento de lazer. Aureliano não precisaria vê-la para saber que tinha chegado. Ela se debruçou na mesa de trabalho, tão próxima e indefesa que Aureliano escutou o profundo rumor dos seus ossos, e se interessou pelos pergaminhos. Tentando vencer a perturbação, ele segurou a voz que lhe. fugia, a vida que se esvaía, a memória que se transformava num pólipo petrificado, e falou do destino levítico do sânscrito, possibilidade científica de se ver o futuro feito transparente no tempo, como se vê contra a luz o escrito no verso de papel, da necessidade de cifrar as predições para que não se derrotassem a si mesmas, e das Centúrias de Nostradamus e da destruição da Cantábria anunciada por S. Millán. De repente, sem interromper a conversa, movido por um impulso que dormia nele desde as suas origens, Aureliano colocou sua mão sobre a dela, pensando que aquela decisão final punha ao desmoronamento. Entretanto, ela lhe agarrou o indicador com a inocência carinhosa com que o fizera muitas vezes na infância e o manteve agarrado enquanto ele continuava respondendo às suas perguntas. Permaneceram assim, ligados por um indicador de gelo que não transmitia nada em nenhum sentido, até que ela acordou do seu sonho momentâneo e deu um tapa na testa. “As formigas!”, exclamou. E então se esqueceu dos manuscritos, chegou até a porta com um passo de dança e de lá mandou a Aureliano com a ponta dos o mesmo beijo com que se despedira de seu pai na tarde que a mandaram para Bruxelas.

— Depois você me explica — disse. — Eu tinha esquecido que hoje é dia de jogar cal nos formigueiros.

     Continuou indo ao quarto ocasionalmente, quando tinha alguma coisa que fazer por aqueles lados, e permanecia ali uns breves minutos, enquanto o marido continuava perscrutando o céu. Iludido com aquela mudança, Aureliano então ficava para comer em família, como não o fazia desde os primeiros meses do regresso de Amaranta Úrsula. Gastón gostou. Nas conversas de sobremesa, que costumavam se prolongar por mais de uma hora, queixava-se de que os seus sócios o estavam enganando. Haviam-lhe anunciado o embarque do aeroplano num navio que não chegava e, embora os seus agentes marítimos insistissem no fato de que ele não chegaria nunca .porque não figurava nas listas de navios do Caribe, os sócios teimavam em dizer que o despacho estava correto e até insinuavam a possibilidade de que Gastón mentisse nas cartas. A correspondência atingiu tal grau de desconfiança mútua que Gastón optou por não escrever mais e começou a sugerir a possibilidade de uma viagem rápida a Bruxelas, para esclarecer coisas e regressar com o aeroplano. Entretanto, o projeto se desvaneceu tão rapidamente quanto Amaranta Úrsula reiterou a sua decisão de não se mexer de Macondo ainda que ficasse sem marido. Nos primeiros tempos, Aureliano partilhou da ideia generalizada de que Gastón era um bobo de bicicleta e isso lhe provocou um vago sentimento de piedade. Mais tarde, quando obteve nos bordéis uma informação mais profunda sobre a natureza dos homens, pensou que a mansidão de Gastón tinha origem na paixão desatinada. Mas quando o conheceu melhor e se deu conta de que o seu verdadeiro temperamento entrava em contradição com a sua conduta submissa, imaginou a maliciosa suspeita de que até a espera do aeroplano era uma farsa. Então, pensou que Gastón não era tão bobo quanto parecia, mas pelo contrário, era um homem de uma firmeza, uma habilidade e uma paciência infinitas, que se propusera a vencer a esposa pelo cansaço da eterna complacência, do nunca lhe dizer não, do simular um assentimento sem limites, deixando-a se enredar em sua própria teia de aranha, até o dia em que não pudesse mais suportar o tédio das ilusões ao alcance da mão e ela mesma fizesse as malas para voltar à Europa. A antiga piedade de Aureliano se transformou numa aversão violenta. Pareceu-lhe tão perverso o sistema de Gastón, mas ao mesmo tempo tão eficaz, que se atreveu a prevenir Amaranta Úrsula. Entretanto, ela zombou da sua desconfiança, sem vislumbrar sequer a desagregadora carga de amor, de incerteza e de ciúmes que trazia dentro de si. Não lhe ocorrera pensar que provocara em Aureliano alguma coisa a mais que um afeto fraternal até que cortou o dedo tentando abrir uma lata de pêssegos em calda e ele se precipitou para chupar-lhe o sangue com uma avidez e uma devoção que lhe eriçaram a pele. 

— Aureliano! — ela riu, inquieta. — Você é malicioso demais para ser um bom vampiro.

     Então Aureliano transbordou. Dando beijinhos desamparados no côncavo da mão ferida, abriu os atalhos mais escondidos do coração e tirou uma tripa interminável e macerada, o terrível animal parasitário que incubara no martírio. Contou-lhe como se levantava à meia-noite para chorar de abandono e de raiva na roupa íntima que ela deixava secando no banheiro. Contou-lhe com quanta ansiedade pedia a Nigromanta que gemesse como uma gata e soluçasse no seu ouvido gastón gastón gastón, e com quanta astúcia roubava os seus vidros de perfume para encontrá-los no pescoço das garotas que se deitavam com ele por causa da fome. Espantada com a paixão daquele desabafo, Amaranta Úrsula foi fechando dedos, contraindo-os como um molusco, até que a sua mão ferida, liberta de toda a dor e de todo vestígio de misericórdia, converteu-se num nó de esmeraldas e topázios e ossos pétreos e insensíveis.

— Depravado! — disse, como se estivesse cuspindo. — ou para a Bélgica no primeiro navio que sair.

     Álvaro chegara numa dessas tardes à livraria do sábio catalão, apregoando em altas vozes a sua última descoberta: um bordel zoológico. Chamava-se O Menino de Ouro e era um imenso salão ao ar livre, por onde passeavam à vontade não menos do que duzentos socós que davam as horas com um cacarejo ensurdecedor. Nos currais de arame farpado que rodeavam a pista de dança e entre grandes camélias amazônicas havia garças coloridas, jacarés cevados como porcos, serpentes de doze chocalhos e uma tartaruga de casco dourado que mergulhava num minúsculo oceano artificial. Havia um cachorrão branco, manso e pederasta, que no entanto prestava serviços de reprodutor para que lhe dessem de comer. O ar tinha uma densidade ingênua, como se o tivessem acabado de ventar, e as belas mulatas, que esperavam sem esperança entre pétalas sangrentas e discos fora de moda, conheciam ofícios de amor que o homem deixara esquecidos no paraíso terreno. Na primeira noite em que o grupo visitou aquela estufa de ilusões, a esplêndida e taciturna anciã que vigiava a entrada numa cadeira de balanço de cipó sentiu que o tempo regressava às suas fontes primárias, quando entre os cinco que chegavam descobriu um homem ósseo, citrino, de pômulos tártaros, marcado para sempre e desde o princípio do mundo pela varíola da solidão. 
 
— Ai — suspirou — Aureliano! 

     Estava vendo outra vez o Coronel Aureliano Buendía, como o vira à luz de um lampião muito antes das guerras, muito antes da desolação da glória e do exílio do desencanto, na remota madrugada em que ele fora ao seu quarto para comunicar a primeira ordem da sua vida: a ordem de que lhe dessem sem amor. Era Pilar Ternera. Anos antes, quando completou os cento e quarenta e cinco, renunciou ao pernicioso costume de fazer as contas da sua idade e continuava vi vendo no tempo estático e marginal das lembranças, num futuro perfeitamente revelado e estabelecido, além dos futuros perturbados pelas tocaias e pelas suposições insidiosas das cartas. A partir daquela noite, Aureliano se refugiou na ternura e na compreensão compassiva da tataravó ignorada. Sentada na cadeira de balanço de cipó, ela evocava o passado, reconstruía a grandeza e o infortúnio da família e o arrasado esplendor de Macondo, enquanto Álvaro assustava os jacarés com as suas gargalhadas de estardalhaço e Alfonso inventava a história truculenta dos socós que arrancaram a bicadas os olhos de quatro clientes que tinham se portado mal na semana anterior, e Gabriel estava no quarto da mulata pensativa que não cobrava o amor com dinheiro, mas com cartas para um namorado contrabandista que estava preso do outro lado do Orenoco, porque os guardas da fronteira lhe tinham dado um purgante e o tinham sentado em seguida num penico que ficou cheio de merda com diamantes. Aquele bordel de verdade, aquela dona maternal, era o mundo com que Aureliano sonhara no seu prolongado cativeiro. Sentia-se tão bem, tão próximo da companhia perfeita, que não pensou em outro refugio na tarde em que Amaranta Úrsula esfarinhou-lhe as ilusões. Foi disposto a desabafar com palavras, a que alguém que lhe desembaraçasse os nós que lhe oprimiam o peito mas só conseguiu se soltar num pranto fluido e cálido e reparador, no colo de Pilar Ternera. Ela o deixou terminar, acariciando-lhe a cabeça com a ponta dos dedos, e sem que ele lhe tivesse revelado que estava chorando de amor, ela reconheceu imediatamente o pranto mais antigo da história do homem.

— Bem, meu filho — consolou-o — agora me diga quem é você.

     Quando Aureliano disse, Pilar Ternera emitiu um riso fundo, o velho riso expansivo que terminara por parecer um arrulho de pombo. Não havia nenhum mistério no coração de um Buendía que fosse impenetrável para ela, porque um século de cartas e de experiência lhe ensinara que a história família era uma engrenagem de repetições irreparáveis, uma giratória que continuaria dando voltas até a eternidade se não fosse pelo desgaste progressivo e irremediável do eixo. 

— Não se preocupe — sorriu. — Em qualquer lugar que esteja agora, está esperando você.

     Eram quatro e meia da tarde quando Amaranta Úrsula saiu do banho. Aureliano a viu passar diante do seu quarto com um robe de pregas delicadas e uma toalha enrolada na cabeça como um turbante. Seguiu-a quase na ponta dos pés, cambaleando da bebedeira, e entrou no quarto nupcial no momento em que ela abria o robe e tornava a fechar espantada. Fez um gesto silencioso para o quarto contíguo, cuja porta estava entreaberta, e onde Aureliano sabia que Gastón começava a escrever uma carta.

— Vá embora — disse sem voz.

     Aureliano sorriu, levantou-a pela cintura com as duas mãos como um vaso de begônias, e jogou-a de frente na cama. Com um puxão brutal, despojou-a do roupão de banho antes de que ela tivesse tempo de impedi-lo e se aproximou do abismo de uma nudez recém-lavada que não tinha um matiz de pele, uma região de pelos, um sinal escondido que ele tivesse imaginado nas trevas de outros quartos. Amaranta Úrsula se defendia sinceramente, com astúcias de fêmea sábia esquivando o escorregadio e flexível e cheiroso corpo de doninha, enquanto tentava destroncar-lhe os rins com os joelhos e picava-lhe a cara com as unhas, mas sem que ele ou ela emitissem um suspiro que não se pudesse confundir com a respiração de alguém que contemplasse o econômico crepúsculo de abril pela janela aberta. Era uma luta feroz, uma batalha de morte, que entretanto parecia desprovida de qualquer violência, porque estava feita de agressões contorcidas e evasivas espectrais, lentas, cautelosas, solenes, de modo que entre uma e outra havia tempo para que voltassem a florescer as petúnias e Gastón se esquecesse dos seus sonhos de aeronauta no quarto vizinho, como se fossem dois amantes inimigos tentando se reconciliar no fundo de um lago diáfano. No fragor do encarniçado e cerimonioso forcejar, Amaranta Úrsula compreendeu que a meticulosidade do seu silêncio era tão irracional que poderia despertar as suspeitas do marido contíguo, muito mais do que os estrépitos de guerra que tentavam evitar. Então começou a rir com os lábios fechados, sem renunciar à luta, mas se defendendo com mordidas falsas e desesquivando o corpo pouco a pouco, até que ambos tiveram consciência de ser ao mesmo tempo adversários e cúmplices, e a briga degenerou numa excitação convencional e as agressões se tornaram carícias. De repente, quase brincando, como uma travessura a mais, Amaranta Úrsula descuidou da defesa e, quando tentou reagir, assustada do que ela mesma tinha feito possível, já era tarde demais. Uma comoção descomunal imobilizou-a no seu centro de gravidade, plantou-a no lugar, e a sua vontade defensiva foi demolida pela ansiedade irresistível de descobrir o que eram os apitos alaranjados e os balões invisíveis que a esperavam do outro lado da morte. Mal teve tempo de esticar a mão e procurar às cegas a toalha e meter uma mordaça entre os dentes, para que não saíssem os gemidos de gata que já estavam rasgando as suas entranhas.

continua página 243...
Cem Anos de Solidão (17.2) - Fizeram-se amantes
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[1] Explicação do autor á tradutora: “O machucante, neste caso, é o homem que sabe proporcionar prazer a uma mulher na cama. De planta, neste caso, quer dizer e é permanente e para uso exclusivo de Nigromanta. O importante é usar em português uma expressão cujo som indique sem qualquer dúvida que Nigromanta gosta de se deitar com Aureliano devido ao seu sexo enorme.”

quarta-feira, 15 de janeiro de 2025

Gabriel G Márquez - Cem Anos de Solidão (17.1) - Amaranta Úrsula voltou

Cem Anos de SOLIDÃO


Gabriel Garcia Márquez


(17.1)
para jomí garcía ascot
e maría luisa elío


     AMARANTA ÚRSULA voltou com os primeiros anjos de dezembro [1] , puxada por brisas de veleiro, trazendo o marido amarrado pelo pescoço com um cordel de seda. Apareceu sem avisar, com um vestido cor de marfim, um colar de pérolas que batia pelos joelhos, anéis de esmeraldas e topázios, e o cabelo redondo e liso, arrematado em pontas nas orelhas, como asas de andorinha. O homem com quem se casara seis meses antes era um flamengo maduro, esbelto, com ares de navegante. Bastou empurrar a porta da sala para compreender que a sua ausência tinha sido mais prolongada e demolidora do que ela supunha.

— Meu Deus — gritou mais alegre que alarmada — bem se vê que não há mulher nesta casa! 

     A bagagem não cabia na varanda. Além do antigo baú de Fernanda com que a mandaram para o colégio, trazia duas malas-armários, mais quatro malas grandes, um saco para as sombrinhas, oito caixas de chapéus, um viveiro enorme com meia centena de canários, e o biciclo do marido desarmado dentro de um estojo especial que permitia carregá-lo como a um violoncelo. Não se permitiu sequer um dia de descanso, ao fim da longa viagem. Vestiu um batido guarda-pó de algodão que o marido trouxera junto com outros objetos de uso de motorista e empreendeu uma nova restauração da casa. Expulsou as formigas ruivas que já tinham se apoderado da varanda, ressuscitou as roseiras, arrancou as ervas daninhas pela raiz e tornou a semear fetos, orégãos e begônias nos vasos da amurada. Pôs-se à frente de um grupo de carpinteiros, serralheiros e pedreiros que consertaram as rachaduras do chão, nivelaram as portas e janelas, restauraram os móveis e branquearam as paredes por dentro e por fora, de modo que três meses depois da sua chegada respirava-se outra vez o ar de juventude e de festa que tinha existido nos tempos da pianola. Nunca se vira na casa ninguém com mais bom humor a qualquer hora e em qualquer circunstância, nem ninguém mais disposto a cantar e dançar e a jogar no lixo as coisas e os costumes deteriorados. Com uma vassourada, acabou com as lembranças funerárias e os montes de cacarecos inúteis e instrumentos de superstição que se amontoavam pelos cantos, e a única coisa que conservou, por gratidão a Úrsula, foi o retrato de Remedios na sala. “Olhem que maravilha”, gritava morrendo de rir. “Uma bisavó de quatorze anos!” Quando um dos pedreiros contou que a casa estava cheia de fantasmas e que a única maneira de espantá-los era procurar os tesouros que tinham deixado enterrados, ela respondeu às gargalhadas que não acreditava em superstições de homens. Era tão espontânea, tão emancipada, com um espírito tão moderno e livre que Aureliano não soube o que fazer com o corpo quando a viu chegar. “Que gigante!”, ela gritou, feliz, com os braços abertos. “Vejam como cresceu o meu adorado antropófago!” Antes que ele tivesse tempo de reagir, ela já havia colocado um disco no gramofone que trouxera consigo e estava tentando ensinar-lhe as danças da moda. Obrigou-o a trocar as esquálidas calças que herdara do Coronel Aureliano Buendía, deu-lhe de presente camisas juvenis e sapatos de duas cores e empurrava-o para a rua quando passava muito tempo no quarto de Melquíades.
     Ativa, miúda, indomável como Úrsula, e quase tão bela e provocante como Remedios, a bela, era dotada de um estranho instinto para se antecipar à moda. Quando recebia pelo correio os figurinos mais recentes, estes lhe serviam apenas para comprovar que não tinha errado nos modelos que inventava e que cosia na rudimentar máquina de manivela de Amaranta. Era assinante de quanta revista de moda, informação artística e música popular se publicasse na Europa, e mal passava os olhos por elas para perceber que as coisas andavam pelo mundo como ela imaginava. Não era compreensível que uma mulher com aquele espírito tivesse vindo de regresso para um povoado morto, deprimido pela poeira e pelo calor, e menos ainda com um marido que tinha dinheiro de sobra para viver bem em qualquer lugar do mundo e que a amava tanto que tinha se submetido a ser levado e trazido por ela na coleira de seda. Entretanto, à medida que o tempo passava, tornava-se mais evidente a sua intenção de ficar, pois não urdia planos que não fossem de longo prazo, nem tomava decisões que não estivessem orientadas para a obtenção de uma vida cômoda e de uma velhice tranqüila em Macondo. O viveiro dos canários demonstrava que esses propósitos não eram improvisados. Lembrando-se de que sua mãe lhe havia contado numa carta o extermínio dos pássaros, atrasara a viagem por vários meses até encontrar um navio que fizesse escala nas ilhas Afortunadas e lá selecionou vinte e cinco casais dos canários mais finos, para repovoar o céu de Macondo. Essa foi a mais lamentável das suas numerosas iniciativas frustradas. A medida que os pássaros se reproduziam, Amaranta Úrsula os ia soltando aos casais, e demoravam mais para se sentir livres do que para fugir do povoado. Em vão procurou conquistá-los com o viveiro que Úrsula construíra na primeira restauração. Em vão falsificou para eles ninhos de esparto nas amendoeiras e espalhou alpiste nos telhados e alvoroçou os cativos para que os seus cantos dissuadissem os desertores, porque estes se espantavam à primeira tentativa e davam uma volta pelo céu, só o tempo indispensável para encontrar o rumo de regresso às ilhas Afortunadas.
     Um ano depois da volta, embora não tivesse conseguido fazer nenhuma amizade nem promover nenhuma festa, Amaranta Úrsula continuava acreditando que era possível salvar aquela comunidade eleita pelo infortúnio. Gastón, seu marido, tinha cuidado para não contrariá-la, embora desde o meio-dia mortal em que descera do trem compreendesse que a determinação de sua mulher tinha sido provocada por uma miragem de saudade. Certo de que ela seria derrotada pela realidade, não se deu sequer o trabalho de armar o biciclo, mas se pôs a perseguir os ovos mais visíveis das teias de aranha que os pedreiros desprendiam e os abria com as unhas e passava horas contemplando com uma lupa as aranhinhas minúsculas que saíam do seu interior. Mais tarde, acreditando que Amaranta Úrsula continuava com as reformas para não dar o braço a torcer, resolveu armar a aparatosa bicicleta cuja roda anterior era muito maior que a posterior e se dedicou a capturar e dissecar quanto inseto aborígine encontrava nos arredores, que remetia em vidros de geleia para o seu antigo professor de história natural da Universidade de Luik, onde fizera estudos superiores de entomologia, embora a sua vocação dominante fosse a de aeronauta. Quando andava de bicicleta usava calças de acrobata, meias de velho gaiteiro e boné de detetive, mas quando andava a pé vestia linho cru, impecável, com sapatos brancos, gravata borboleta de seda, chapéu de palhinha e uma bengala de vime na mão. Tinha umas pupilas pálidas que acentuavam o seu ar de navegante e um bigodinho de pelos de esquilo. Embora fosse pelo menos quinze anos mais velho que sua mulher, os seus gostos juvenis, a sua vigilante determinação de fazê-la feliz e as suas virtudes de bom amante compensavam a diferença. Na realidade, quem visse aquele quarentão de hábitos cautelosos, com o seu cordão de seda no pescoço e a sua bicicleta de circo, não poderia pensar que tinha com a sua jovem esposa um pacto de amor desenfreado e que ambos cediam às urgências recíprocas no lugares menos adequados e onde os surpreendesse a inspiração, como o fizeram desde que começaram a se encontrar, com uma paixão que o correr do tempo e as circunstâncias cada vez mais insólitas iam aprofundando e enriquecendo. Gastón era não só um amante feroz, de uma sabedoria e uma imaginação inesgotáveis, como também talvez fosse o primeiro homem na história da espécie que tinha feito uma aterragem de emergência e por pouco não se matara com a namorada só para fazer amor num campo de violetas.
     Tinham-se conhecido três anos antes de se casarem quando o biplano esportivo em que ele fazia piruetas sobre o colégio em que Amaranta Úrsula estudava tentou uma manobra intrépida para se desviar do mastro da bandeira e a primitiva armação de lona e papel de alumínio ficou pendurada pela cauda nos cabos da energia elétrica. A partir de então, sem fazer caso da perna engessada, nos fins de semana ele ia buscar Amaranta Úrsula na pensão de religiosas onde viveu sempre, cujo regulamento não era tão severo quanto Fernanda desejava e levava-a para o seu clube de esportes. Começaram a se amar a 500 metros de altura, no ar dominical das planícies, e se sentiam mais compenetrados à medida que mais minúsculos iam fazendo os seres da terra. Ela falava de Macondo como da aldeia mais luminosa e plácida do mundo e de uma casa enorme, perfumada de orégão, onde queria viver até a velhice com um marido leal e dois filhos travessos que se chamassem Rodrigo e Gonzalo, e em hipótese alguma Aureliano e José Arcadio, e uma filha que se chamasse Virginia, e em hipótese alguma Remedios. Evocara com uma tenacidade tão ansiosa o povoado idealizado pela saudade que Gastón compreendeu que ela não ia querer casar se ele não a levasse para viver em Macondo. Concordou, como concordou mais tarde com o cordão de seda, porque pensou que era um capricho transitório que mais valia matar com o tempo. Mas quando já tinham transcorrido dois anos em Macondo e Amaranta Úrsula continuava tão contente como no primeiro dia, ele começou a dar mostras de alarme. Já por essa época havia dissecado quanto inseto era dissecável na região, falava o castelhano como um nativo e tinha decifrado todas as palavras cruzadas das revistas que recebiam pelo correio. Não tinha o pretexto do clima para apressar o regresso porque a natureza o havia dotado de um fígado colonial, que resistia sem problemas ao calor da sesta e à água com micróbios. Gostava tanto da comida crioula que uma vez comeu de enfiada oitenta e dois ovos de iguana. Amaranta Úrsula, pelo contrário, fazia vir pelo trem peixes e mariscos em caixas de gelo, carnes em lata e frutas em calda, que era a única coisa que podia comer, e continuava se vestindo à moda europeia e recebendo figurinos pelo correio, apesar de não ter onde ir nem a quem visitar e de que a estas alturas o marido carecia de humor para apreciar os seus vestidos curtos, os seus chapéus tombados para o lado e os seus colares de sete voltas. O seu segredo parecia consistir em encontrar sempre uma maneira de estar ocupada, resolvendo problemas domésticos que ela mesma criava e fazendo mal certas coisas que corrigia no dia seguinte, com uma diligência perniciosa que teria feito Fernanda pensar no vício hereditário de fazer para desfazer. O seu temperamento festivo continuava agora tão desperto que quando recebia discos novos convidava Gastón a ficar na sala até muito tarde para ensaiar as danças que as suas companheiras de colégio descreviam com desenhos e terminavam, geralmente, fazendo amor nas cadeiras de balanço austríacas ou no chão duro. A única coisa que lhe faltava para ser completamente feliz era o nascimento dos filhos, mas respeitava o pacto que tinha feito com o marido de não tê-los antes de completarem cinco anos de casados. Procurando alguma coisa com que encher as horas mortas, Gastón costumava passar a manhã no quarto de Melquíades, com o esquivo Aureliano. Satisfazia-se em evocar com ele os lugares mais íntimos da sua terra, que Aureliano conhecia como se tivesse estado nela por muito tempo. Quando Gastón lhe perguntou como tinha feito para obter informações que não estavam na enciclopédia, recebeu a mesma posta que José Arcadio: “Tudo se sabe.” Além do sânscrito Aureliano tinha aprendido inglês e francês e alguma coisa de latim e de grego. Como agora saía todas as tardes e Amaranta Úrsula tinha estabelecido uma soma semanal para os gastos pessoais, o quarto parecia uma filial da livraria do sábio catalão. Lia com avidez até altas horas da noite, embora pela forma com que se referia às suas leituras Gastón pensasse que ele não comprava os livros para se informar, mas verificar a exatidão dos seus conhecimentos e que nenhum interessava mais que os pergaminhos, aos quais dedicava melhores horas da manhã. Tanto Gastón quanto sua esposa gostariam de incorporá-lo à vida familiar, mas Aureliano era homem hermético, com uma nuvem de mistério que o tempo ia tornando mais densa. Era uma condição tão impenetrável que Gastón fracassou nos seus esforços de fazer intimidade com ele e teve que procurar outro passatempo para encher suas horas mortas. Foi por essa época que concebeu ideia de estabelecer um serviço de correio aéreo.
     Não era um projeto novo. Na realidade, tinha-o já bastante adiantado quando conheceu Amaranta Úrsula, só não era para Macondo mas sim para o Congo Belga, onde família fazia investimentos no óleo de palmeira. O casamento, a decisão de passar uns meses em Macondo para satisfazer a esposa obrigaram-no a adiá-lo. Mas quando viu que Amaranta Úrsula estava empenhada em organizar um comitê melhorias públicas e até ria dele por insinuar a possibilidade de regresso, compreendeu que as coisas ainda eram para muito tempo e voltou a entrar em contato com os seus sócios de Bruxelas, pensando que para ser pioneiro dava mesma ser no Caribe ou na África. Enquanto progrediam as gestões, preparou um campo de aterragem, na antiga região encantada, que agora parecia uma planície de pedernal esfacelado, e estudou a direção dos ventos, a geografia do litoral e as rotas mais adequadas para a navegação aérea, sem saber que a sua diligencia, tão parecida com a de Mr.Herbert, estava infundindo no povo a perigosa suspeita de que o seu propósito não era planejar itinerários e sim plantar banana. Entusiasmado com um acontecimento que, quanto mais não fosse, podia justificar o seu estabelecimento definitivo em Macondo, fez várias viagens à capital da província, entrevistou-se com as autoridades, obteve licenças e assinou contratos de exclusividade. Enquanto isso, mantinha com os sócios de Bruxelas uma correspondência parecida com a de Fernanda com os médicos invisíveis e acabou por convencê-los a embarcarem no primeiro aeroplano aos cuidados de um mecânico experimentado que o armasse no porto mais próximo e o levasse voando para Macondo. Um ano depois das primeiras mensurações e cálculos meteorológicos, confiando nas promessas repetidas dos seus correspondentes, adquirira o costume de passear pelas ruas olhando o céu, com a atenção voltada para os rumores da brisa, na espera de que aparecesse o aeroplano.
     Embora ela não tivesse notado, a volta de Amaranta Úrsula ocasionou uma mudança radical na vida de Aureliano. Depois da morte de José Arcadio, tornara-se um cliente assíduo da livraria do sábio catalão. Além disso, a liberdade de que desfrutava agora e o tempo de que dispunha despertaram-lhe uma certa curiosidade pelo povoado, que conheceu sem assombro. Percorreu as ruas empoeiradas e solitárias, examinando com um interesse mais científico do que humano o interior das casas em ruínas, as telas metálicas das janelas, furadas pela ferrugem e pelos pássaros moribundos, e os habitantes abatidos pelas lembranças. Tentou reconstruir com a imaginação o arrasado esplendor da antiga cidade da companhia bananeira, cuja piscina seca estava cheia até a boca de sapatos podres de homem e sapatilhas de mulher e em cujas casas devastadas pelo mato encontrou o esqueleto de um cão policial ainda preso a uma argola com uma corrente de aço um telefone que tilintava, tilintava, tilintava, até que ele tirou o fone do gancho, ouviu o que uma mulher angustiada remota perguntava em inglês e respondeu que sim, que a greve a terminado, que os três mil mortos tinham sido jogados mar, que a companhia bananeira tinha ido embora, e que Macondo finalmente estava em paz, há muitos anos já. Aquelas correrias levaram-no ao prostrado bairro de tolerância, onde em outros tempos queimavam-se maços de notas para animar a cumbia e que agora era um desfiladeiro de ruas mais angustiosas e miseráveis do que as outras, com algumas lanternas vermelhas ainda acesas e com os ermos salões de dança enfeitados com fiapos de guirlandas, onde as macilentas e gordas viúvas de ninguém, as bisavós francesas e as matriarcas babilônicas continuavam esperando junto às vitrolas. Aureliano não encontrou quem se lembrasse da sua família, nem mesmo do Coronel Aureliano Buendía, salvo o mais antigo dos negros antilhanos, um ancião cuja cabeça algodoada lhe dava o aspecto de um negativo de fotografia, que continuava cantando na porta da casa os salmos lúgubres do entardecer. Aureliano conversava com ele no arrevesado papiamento [2] que aprendeu em poucas semanas e às vezes partilhava o caldo de cabeças de galo que lhe preparava a bisneta, uma negra grande, de ossos sólidos, cadeiras de égua e tetas de melões vivos, e uma cabeça redonda, perfeita, encouraçada por um duro capacete de cabelos de arame, que parecia o almofre de um guerreiro medieval. Chamava-se Nigromanta. Nessa época, Aureliano vivia da venda de talheres, lampiões e outros cacarecos da casa. Quando estava sem um centimo, o que era o mais frequente, conseguia que nas cantinas do mercado lhe dessem as cabeças de galo que iam jogar no lixo e as levava a Nigromanta para que fizesse as suas sopas aumentadas com beldroegas e perfumadas com hortelã. Ao morrer o bisavô, Aureliano deixou de frequentar a casa, mas encontrava Nigromanta sob as escuras amendoeiras da praça, atraindo com os seus assovios de animal da montanha os escassos noctâmbulos. Muitas vezes acompanhou-a, falando em papiamento das sopas de cabeças de galo e outros requintes da miséria, e teria continuado a fazê-lo se ela não o tivesse feito perceber que a sua companhia lhe afugentava a clientela. Embora algumas vezes sentisse tentação e embora à própria Nigromanta tivesse parecido uma culminância natural da saudade partilhada, não se deitava com ela. De modo que Aureliano continuava sendo virgem quando Amaranta Úrsula regressou a Macondo e lhe deu um abraço fraternal que o deixou sem fôlego. Cada vez que a via, e pior ainda quando ela lhe ensinava as danças da moda, ele sentia o mesmo desamparo de esponjas nos ossos que perturbara o seu tataravô quando Pilar Ternera inventou o pretexto das cartas na despensa. Tentando sufocar o tormento, mergulhou mais a fundo nos pergaminhos e evitou os afagos inocentes daquela tia que envenenava as suas noites com eflúvios de sofrimento, mas quanto mais a evitava com mais ansiedade esperava o seu riso de cascalho, os seus uivos de gata feliz e as suas canções de gratidão, agonizando de amor a qualquer hora e nos lugares menos pensados da casa. Uma noite, a dez metros da sua cama, na mesa de ourivesaria, os esposos de ventre alucinado arrebentaram o vidro da prateleira e acabaram se amando num charco de ácido muriático. Aureliano não só não pôde dormir um minuto como passou o dia seguinte com febre, chorando de raiva. Fez-se eterna a chegada da primeira noite em que esperou Nigromanta à sombra das amendoeiras, atravessado pelas agulhas de gelo da insegurança e apertando na mão a moeda de cinquenta centavos que pedira a Amaranta Úrsula, não tanto por necessitá-los como para implicá-la, aviltá-la e prostituí-la de alguma forma com a sua aventura. Nigromanta levou-o para o seu quarto iluminado com lamparinas de mentira, para a sua cama de armar com a lona manchada pelos maus amores e para o seu corpo de cachorra brava, insensível, desalmada, que se preparou para despachá-lo como se fosse um menino assustado e se encontrou de repente com um homem cujo poder tremendo exigiu das suas entranhas um movimento de reacomodação sísmica.

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Cem Anos de Solidão (17.1) - Amaranta Úrsula voltou
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[1] No original ángeles de diciembre. Explicação do autor à tradutora: “A tradução deve ser literal, porque todo mundo sabe que em dezembro chegam os anjos. Não os viu nunca?”
[2] Copio em tradução o verbete “papiamento” do Dicionário de Términos Filológicos de Fernando Lázaro Carreter, 3ª edição corrigida, Gredos, Madrid, 1968, p. 311: 
“Língua crioula falada na ilha de Curaçao, ao norte do litoral venezuelano. Esta ilha foi incorporada à Espanha pelo seu descobridor, Alonso de Ojeda, em 1499. Em 1634 foi ocupada pelos holandeses. Era habitada, na época, por 1415 índios e 32 espanhóis. Em 1648 começou o afluxo de escravos negros que os portugueses importavam da África. Em 1795, a ilha passou para o domínio dos franceses; em 1800 foi colocada sob o protetorado inglês e, em 1802, voltou para o poderio holandês. A sua língua oficial é o holandês, mas a que se usa normalmente é o papiamento (papia, esp. ant. e portanto papear “falar”). A sua base é o crioulo negro-português que os negros trouxeram da África, misturado com o espanhol falado nas Antilhas e no litoral venezuelano. Contém também palavras holandesas (M. L. Wagner).”