volume V
A Prisioneira
continuando...
continuando...
- Sim, encontrei-a há oito dias a poucos passos da casa. Por delicadeza, respondi ao seu
cumprimento. Dei alguns passos com ela. Mas nunca houve nada entre nós e jamais haverá. -
Ora, Albertine nem sequer se encontrara com essa pessoa, pela boa razão de que esta não vinha à Paris há dez meses. Mas minha amiga achava que negar completamente era pouco verossímil. De onde esse curto encontro fictício, narrado com tanta simplicidade que eu via a senhora, para dar-lhe bom dia, caminhar um pouco na sua companhia. Somente a verossimilhança havia inspirado Albertine, de modo algum o desejo de provocar ciúmes. Pois Albertine, talvez sem interesse, gostava que lhe fizessem gentilezas. Ora, se no decorrer desta narrativa já tive e ainda terei muitas oportunidades de mostrar como o ciúme reduplica o amor, foi no ponto de vista do amante que me coloquei. Porém, por menos brio que este possua, mesmo que deva morrer após a separação, não responderá a uma traição suposta com uma gentileza; ou se afastará ou, sem afastar-se, resolverá fingir indiferença. Portanto, é em pura perda para si mesma que a amante o faz sofrer tanto. Ao contrário, se dissipar com uma palavra adequada e suaves carinhos as suspeitas que o torturavam, embora bancasse o indiferente, sem dúvida o amante sentirá aquele aumento desesperado do amor a que o eleva o ciúme, porém, deixando bruscamente de sofrer, feliz, enternecido, acalmado como se é depois de uma tempestade, quando a chuva caiu e mal se percebe ainda, sob os grandes castanheiros, pingarem a longos intervalos as gotas suspensas, coloridas pelo sol que já reapareceu, não sabe ele como exprimir o seu reconhecimento àquela que o fez curar-se. Albertine sabia que eu gostava de recompensá-la por suas gentilezas, e isso talvez explicava que ela inventasse, para se inocentar, confissões naturais como essas histórias que eu não punha em dúvida, e uma das quais fora o seu encontro com Bergotte quando ele já estava morto. Até então, das mentiras de Albertine eu só conhecia aquelas que, por exemplo, contara-me Françoise em Balbec, a que não me referi apesar de me terem feito muito mal.
"Como não queria vir, ela me disse: Será que não podia dizer a ele que não me encontrou, que eu tinha saído?"
Ora, Albertine nem sequer se encontrara com essa pessoa, pela boa razão de que esta não vinha à Paris há dez meses. Mas minha amiga achava que negar completamente era pouco verossímil. De onde esse curto encontro fictício, narrado com tanta simplicidade que eu via a senhora, para dar-lhe bom dia, caminhar um pouco na sua companhia. Somente a verossimilhança havia inspirado Albertine, de modo algum o desejo de provocar ciúmes. Pois Albertine, talvez sem interesse, gostava que lhe fizessem gentilezas. Ora, se no decorrer desta narrativa já tive e ainda terei muitas oportunidades de mostrar como o ciúme reduplica o amor, foi no ponto de vista do amante que me coloquei. Porém, por menos brio que este possua, mesmo que deva morrer após a separação, não responderá a uma traição suposta com uma gentileza; ou se afastará ou, sem afastar-se, resolverá fingir indiferença. Portanto, é em pura perda para si mesma que a amante o faz sofrer tanto. Ao contrário, se dissipar com uma palavra adequada e suaves carinhos as suspeitas que o torturavam, embora bancasse o indiferente, sem dúvida o amante sentirá aquele aumento desesperado do amor a que o eleva o ciúme, porém, deixando bruscamente de sofrer, feliz, enternecido, acalmado como se é depois de uma tempestade, quando a chuva caiu e mal se percebe ainda, sob os grandes castanheiros, pingarem a longos intervalos as gotas suspensas, coloridas pelo sol que já reapareceu, não sabe ele como exprimir o seu reconhecimento àquela que o fez curar-se. Albertine sabia que eu gostava de recompensá-la por suas gentilezas, e isso talvez explicava que ela inventasse, para se inocentar, confissões naturais como essas histórias que eu não punha em dúvida, e uma das quais fora o seu encontro com Bergotte quando ele já estava morto. Até então, das mentiras de Albertine eu só conhecia aquelas que, por exemplo, contara-me Françoise em Balbec, a que não me referi apesar de me terem feito muito mal.
"Como não queria vir, ela me disse: Será que não podia dizer a ele que não me encontrou, que eu tinha saído?"
Mas os "inferiores" que nos amam, como Françoise me amava, têm prazer em ferir o nosso amor
próprio.
Depois do jantar, disse a Albertine que desejava aproveitar o fato de haver deixado a cama para
visitar alguns amigos, a Sra. de Villeparisis, a Sra. de Guermantes, os Cambremer, não sabia quantos,
mas aqueles que encontrasse em casa. Silenciei apenas os nomes a cuja residência pretendia ir, os
Verdurin. Perguntei a Albertine se não queria ir comigo. Alegou que não tinha vestido.
- E além disso, estou tão mal penteada. Você faz questão que eu continue a usar este penteado?
E, para se despedir, estendeu-me a mão com aquele modo brusco, de braço esticado, aprumando
os ombros, que tivera outrora na praia de Balbec, e que nunca mais mostrara. Este movimento esquecido
refez do corpo animado por ele o daquela Albertine que mal me conhecia ainda. Devolveu a Albertine,
cerimoniosa sob a capa da brusquidão, a sua novidade primeira, o seu mistério, e até o seu ambiente.
Enxerguei o mar por detrás daquela moça a quem jamais vira cumprimentar-me daquele modo desde que
eu voltara de Balbec.
- Minha tia acha que isso me envelhece - acrescentou com ar de tédio. -
"Tomara que esteja certa", pensei. "Tudo o que a Sra. Bontemps deseja é que Albertine, parecendo uma menina, a faça parecer mais jovem; e mais, que Albertine não lhe custe nada até o dia em que, casando comigo, lhe traga vantagens." Mas que Albertine parecesse menos jovem, menos bonita, fizesse voltarem-se menos na rua para vê-la, eis o que eu, pelo contrário, desejava. Pois a velhice de uma aia não é tranquilizadora para um amante ciumento como a velhice do rosto daquela a quem ama. Só me incomodava que o penteado que lhe pedira que adotasse pudesse parecer a Albertine uma reclusão a mais. E ainda foi este sentimento doméstico novo que não cessou de me ligar a Albertine, mesmo longe dela.
"Tomara que esteja certa", pensei. "Tudo o que a Sra. Bontemps deseja é que Albertine, parecendo uma menina, a faça parecer mais jovem; e mais, que Albertine não lhe custe nada até o dia em que, casando comigo, lhe traga vantagens." Mas que Albertine parecesse menos jovem, menos bonita, fizesse voltarem-se menos na rua para vê-la, eis o que eu, pelo contrário, desejava. Pois a velhice de uma aia não é tranquilizadora para um amante ciumento como a velhice do rosto daquela a quem ama. Só me incomodava que o penteado que lhe pedira que adotasse pudesse parecer a Albertine uma reclusão a mais. E ainda foi este sentimento doméstico novo que não cessou de me ligar a Albertine, mesmo longe dela.
Depois de dizer a Albertine, pouco disposta, segundo me confessara, a me acompanhar à casa
dos Guermantes ou dos Cambremer, que não sabia aonde iria, para a casa dos Verdurin. No momento
em que saía e que a ideia do concerto me recordou a cena da tarde: "grandessíssima puta,
grandessíssima que iria ouvir lá por despeitado, talvez do amor ciumento, mas desse modo tão bestial
como a que excetuadas as palavras, poderia fazer a uma mulher um orangotango enamorado dela. No
momento em que na rua ia chamar um fiacre, ouvi de um homem que estava sentado num frade-de
pedra; soluços reprimidos, com o rosto nas mãos, parecia jovem e fiquei surpreendido à elegância; que
parecia, pela brancura que saía da capa, que estava vestindo. Ao ouvir-me, descobriu o rosto inundado
em lágrimas, havia me reconhecido e desviou a cara. Era Morel. Compreendeu que eu o reconhecia logo,
tentando estancar as lágrimas, disse que havia parado um momento porque estava desesperado.
- Hoje mesmo insultei grosseiramente - disse ele - uma pessoa que nutro sentimentos elevados.
Foi covardia, pois ela me ama.
- Talvez esqueça com o tempo - respondi, sem pensar, falando dessa maneira dava a entender
que ouvira a cena da tarde. Mas ele estava tão absorto em suas preocupações que nem lhe ocorreu que
eu pudesse saber de alguma coisa.
- Talvez mágoas que possa esquecer - Eu e que não poderei esquecer. Tenho e noção da minha
vergonha. Mas enfim está dito, nada pode fazer que não tenha sido dito. Quando tenho raiva, não sei
mais o que faço. E isso é tão ruim para mim. Quando sinto os nervos transtornados preocupo-me.
Pois Morel como todo neurastênico preocupava-se grandemente com a saúde.
Pois Morel como todo neurastênico preocupava-se grandemente com a saúde.
Se, de tarde, eu vira um animal furioso cólera amor, agora, à noitinha, em poucas horas havia um
sentimento novo, um sentimento de vergonha, arrependimento; decorridos, todos entrecruzados uns
pelos outros pois, como todos mostrava que uma grande etapa fora vencida na evolução da besta a se
transformar em ser humano. Apesar de tudo, eu ouvia sempre besta desistir à "grandessíssima puta" e
temia uma recorrência próxima ao estado selvagem. Aliás, mal sabia o que se havia passado, e isto era
tanto mais natural quanto compreender; pois o Sr. de Charlus ignorava inteiramente que, desde alguns
dias em particular naquele dia vergonhoso, não se referia diretamente ao próprio, com o violinista. Morel
tivera nova crise de neurastenia. De fato, mesmo antes Morel havia apressado o quanto pudera, para o
mês anterior a sedução da sobrinha de Jupien, com que na qualidade de noivo, desejara que saísse a
seu gosto. Porém logo que fora um pouco longe demais em suas tentativas encontrara uma resistência
que o tinha exasperado; e sobretudo quando falara à noiva que se unisse a outras moças que o
proporcionariam. Fosse por que ela se mostrasse excessivamente casta, ou pelo contrário, se tivesse
cedido; seu desejo passou podia sair muito mais lentamente. Resolvera romper, receou que ela o
pusesse no olho do barão quando soubesse do rompimento. Pois o barão era mais moral, conquanto
vicioso, e talvez rompesse com ele. Assim, decidira há cerca de quinze dias não voltar a ver a noiva. De
repente sentindo que era melhor deixar que o Sr. de Charlus e Jupien se arranjassem e, antes de
anunciar a ruptura, resolvera sair pela rua sem destino. Fora sem dizer para onde.
O Amor, cujo desenlace o deixava um pouco triste; de modo que, embora a conduta que tivera com a sobrinha de Jupien pudesse perfeitamente superpor-se, nos menores detalhes, àquela sobre a qual teorizara diante do barão enquanto jantavam em Saint-Mars-le-Vêtu, é bem provável que fossem muito diferentes e que sentimentos menos atrozes, e que não previra em sua conduta teórica, haviam embelezado e tornado sentimental sua conduta verdadeira. O único ponto em que, ao contrário, a realidade era pior que o projeto, é que no projeto não lhe parecia possível permanecer em Paris depois de tamanha traição. Agora, "dar o fora" lhe parecia demais por uma coisa tão simples. Seria deixar o barão, que certamente ficaria furioso, e sacrificar sua situação. Perderia todo o dinheiro que lhe dava o Sr. de Charlus. A ideia de que isso era inevitável causava-lhe crises de nervos. Ficava chorando horas a fio, e, para não pensar naquilo, tomava morfina com prudência.
O Amor, cujo desenlace o deixava um pouco triste; de modo que, embora a conduta que tivera com a sobrinha de Jupien pudesse perfeitamente superpor-se, nos menores detalhes, àquela sobre a qual teorizara diante do barão enquanto jantavam em Saint-Mars-le-Vêtu, é bem provável que fossem muito diferentes e que sentimentos menos atrozes, e que não previra em sua conduta teórica, haviam embelezado e tornado sentimental sua conduta verdadeira. O único ponto em que, ao contrário, a realidade era pior que o projeto, é que no projeto não lhe parecia possível permanecer em Paris depois de tamanha traição. Agora, "dar o fora" lhe parecia demais por uma coisa tão simples. Seria deixar o barão, que certamente ficaria furioso, e sacrificar sua situação. Perderia todo o dinheiro que lhe dava o Sr. de Charlus. A ideia de que isso era inevitável causava-lhe crises de nervos. Ficava chorando horas a fio, e, para não pensar naquilo, tomava morfina com prudência.
Depois, de súbito, vinha-lhe ao espírito uma ideia que sem dúvida estava tomando vida e forma
fazia algum tempo; tal ideia era que a alternativa, a escolha entre o rompimento com a moça e a briga
total com o Sr. de Charlus talvez não fosse forçosa. Perder todo o dinheiro do barão era muito. Morel,
indeciso, mergulhou durante alguns dias em ideias negras, como as que lhe causavam a vista de Bloch.
Depois decidiu que Jupien e a sobrinha haviam tentado fazê-lo cair numa armadilha e deviam considerar
se muito felizes por ter a coisa acabado assim. Em suma, achava que a moça era culpada por ter sido tão
desajeitada, por não ter sabido prendê-lo pelos sentidos. Não só lhe parecia absurdo o sacrifício de sua
situação junto ao Sr. de Charlus, como lamentava até os jantares dispendiosos que oferecera à moça
desde que estavam noivos, e cujo custo poderia saber, como filho que era de um criado de quarto que ia
todos os meses levar o seu "livro" a meu tio. Pois livro, no singular, que significa obra impressa para o
comum dos mortais, perde esse sentido para as Altezas e os criados de quarto. Para estes, significa o
livro de contas; para os primeiros, o registro em que as visitas inscrevem seu nome. (Em Balbec, num dia
em que a princesa de Luxemburgo me dissera estar sem livro, eu ia lhe emprestar o Pescador da Islândia
e Tartarin de Tarascon, quando compreendi o que ela queria dizer: não que passaria menos
agradavelmente o tempo, mas que eu teria mais dificuldade em deixar o meu nome ao visitá-la).
Apesar da mudança do ponto de vista de Morel quanto às conseqüências de sua conduta, embora
esta lhe tenha parecido abominável dois meses antes, quando amava apaixonadamente a sobrinha de
Jupien, enquanto que de uns quinze dias para cá não cessava de repetir a si mesmo que essa conduta
era natural e louvável, cada vez mais se lhe agravava o estado de nervosismo em que há pouco
anunciara o rompimento. E estava pronto a "descarregar a cólera", senão (a não ser num acesso
momentâneo) na moça para com quem conservava aquele resto de receio, derradeiro vestígio do amor,
pelo menos no barão. Contudo, evitou falar-lhe sobre isso antes do jantar. Pois, colocando acima de mais
nada o seu próprio virtuosismo profissional, quando tinha que tocar peças difíceis como naquela noite em
casa dos Verdurin; evitava (tanto quanto possível, e já era demasiada a cena da tarde), tudo o que podia
alterar sua execução. Assim como um cirurgião apaixonado por automobilismo, deixa de dirigir quando
tem que operar. Assim, Morel, em quanto falava comigo, movia os dedos um após o outro para ver se
haviam readquirido sua flexibilidade. Se sentia uma certa dureza explicava que ainda permanecia um
pouco de nervosismo. Porém, Morel, distendia o rosto; sua fisionomia, o franzir de sobrancelhas que
parecia significar não aumentar, o rosto como alguém que procurasse não enervar-se com a insônia, ou
facilmente por uma mulher, com receio de que ainda retardasse o instante do sono ou do prazer. Assim,
desejando recuperar a serenidade como de costume. Gostaria de ter ido embora, entretanto era inútil a
partida pois, indo na direção quase da mesma casa, que a poucos minutos tendo ainda viva na lembrança
não podia deixar de sentir certo nojo em ter Morel por companhia. É bem possível que depois do amor, a
indiferença ou o ódio pela sobrinha de Jupien foram sinceros. Infelizmente não era a primeira vez que
procedia assim, e não seria a última; que ele "dava o fora" na moça a que tinha jurado amor eterno
chegando até lhe mostrar um revólver carregado e lhe dizer que daria um tiro se era o bastante covarde
para abandoná-la. Nem por isso deixava de abandoná-la em seguida e de sentir, em vez de remorso,
uma espécie de rancor. Não era a primeira vez que obrava assim nem ia ser a última, de sorte que muitas
cabeças de moças - menos esquecidas dele que delas mesmas sofreram -como sofreu muito tempo
ainda a sobrinha do Jupien, que continuou amando Morel sem deixar de lhe desprezar-,dispostas a
estalar sob o arrebatamento de uma dor interna, porque cada uma delas parecia no cérebro, como um
fragmento de uma escultura grega, um aspecto do rosto do Morel, duro como o mármore e belo como a
antiguidade, com seus cabelos em flor, seus olhos penetrantes, seu nariz reto -formando protuberância
em um crânio não destinado a recebê-la, e que não se podia operar-. Mas, à larga, estes fragmentos tão
duros acabam por cair num lugar onde não causam muitos estragos, de onde já não se movem; já não se
nota sua presença: é o esquecimento, ou o futuro indiferente.
Eu levava em mim dois produtos de minha jornada. Por uma parte, graças à calma produzida pela
docilidade de Albertina, a possibilidade e, em consequência, a resolução de romper com ela. Por outra
parte, resultado de minhas reflexões durante o tempo que passei esperando-a sentado ante o piano, a
ideia de que a arte, ao que procuraria dedicar; me esforçaria por consagrar a liberdade reconquistada,
não era algo que valesse a pena um sacrifício, algo exterior à vida, não participando de sua vaidade e de
seu vazio, pois a aparência de individualidade real obtida nas obras era devida apenas a uma ilusão
produzida pela habilidade técnica. Se a minha tarde deixara em mim outros resíduos, talvez mais
profundos, só deveriam subir bem depois à minha consciência. Quanto aos dois que eu nitidamente
sopesava, não iriam ser duradouros; pois, desde aquela mesma noite, minhas ideias sobre arte iam se
recompor da diminuição que tinham experimentado à tarde, mas em compensação, o sossego, e por
conseguinte, a liberdade que me permitiria dedicar-me a ela, ser-me-ia novamente retirado.
Como o meu carro, rodando ao longo do cais, se aproximasse da casa dos Verdurin, fi-lo parar. Com efeito, acabava de ver Brichot descer do bonde na esquina da rua Bonaparte, limpar os sapatos com um jornal velho e calçar luvas cor de pérola. Caminhei até ele. Fazia algum tempo que, tendo piorado sua doença de olhos, fora dotado-tão suntuosamente como um laboratório-de novas lentes, as quais, potentes e complicadas como instrumentos astronômicos, pareciam aparafusadas a seus olhos. Assestou em mim aquelas luzes excessivas e me reconheceu. As lentes estavam em situação primorosa. Mas, por detrás delas, percebi, minúsculo, pálido, convulsivo, expirante, um olhar longínquo colocado sob aquele potente aparelho, como, nos laboratórios por demais subvencionados para os trabalhos que neles se executam, se põe um mísero bichinho agonizante sob os aparelhos mais aperfeiçoados. Ofereci o braço ao semicego para lhe amparar os passos.
Como o meu carro, rodando ao longo do cais, se aproximasse da casa dos Verdurin, fi-lo parar. Com efeito, acabava de ver Brichot descer do bonde na esquina da rua Bonaparte, limpar os sapatos com um jornal velho e calçar luvas cor de pérola. Caminhei até ele. Fazia algum tempo que, tendo piorado sua doença de olhos, fora dotado-tão suntuosamente como um laboratório-de novas lentes, as quais, potentes e complicadas como instrumentos astronômicos, pareciam aparafusadas a seus olhos. Assestou em mim aquelas luzes excessivas e me reconheceu. As lentes estavam em situação primorosa. Mas, por detrás delas, percebi, minúsculo, pálido, convulsivo, expirante, um olhar longínquo colocado sob aquele potente aparelho, como, nos laboratórios por demais subvencionados para os trabalhos que neles se executam, se põe um mísero bichinho agonizante sob os aparelhos mais aperfeiçoados. Ofereci o braço ao semicego para lhe amparar os passos.
- Desta vez não é perto da grande Cherburgo que nós nos encontramos disse ele-, mas ao lado do
Petit Dunkerque. [Dunkerque pequena loja de novidades em Paris, no começo do século (N .do T)]- frase
que me pareceu muito aborrecida, pois não entendi o que queria dizer; todavia não ousei fazer perguntas
a Brichot, por temer ainda mais o seu desprezo do que suas explicações. Respondi que estava bastante
curioso por ver o salão em que Swann outrora se encontrava todas as noites com Odette.
- Como, o senhor conhece estas velhas histórias? - exclamou ele. -
A morte de Swann me deixara transtornado na ocasião. A morte de Swann! Swann não
desempenha nesta frase o papel de um simples genitivo. Entendo por isso a morte particular, a morte
enviada pelo destino ao serviço de Swann. Pois dizemos a morte, para simplificar, mas são tantas as
mortes quantas as pessoas. Não possuímos sentidos que nos permitam ver, correndo a toda velocidade e
em todas as direções, as mortes, as mortes ativas dirigidas pelo destino para este ou aquele. Muitas
vezes são mortes que só serão liberadas inteiramente de sua tarefa dois ou três anos após. Correm
depressa para pôr um câncer nos flancos de um Swann, e depois saem para outras tarefas, só
regressando no momento em que; tendo sido a operação dos cirurgiões, é preciso recolocar o câncer.
Depois tendo o momento em que se lê no Le Gaulois que a saúde de Swann inspirou chega o ponto em
que sua indisposição está em franco processo de cura. Então, minutos antes do último suspiro, a morte,
como uma religiosa que nos tivesse assistido momentos antes; o destruir, chega para acompanhar
nossos últimos instantes, e coroa com uma auréola suprema a criatura para sempre enregelada cujo
coração cessou um dia de bater. Como uma dessas multiplicidade de mortes, o mistério de seus circuitos,
a cor de sua écharpe; e que conferem algo de tão impressionante às linhas dos jornais: "Acabamos de
saber com vivo pesar que o Sr. Charles Swann sucumbiu ontem em seu palacete, vítima de pertinaz
moléstia. Parisiense, cujo espírito era apreciado por todos, bem como a firmeza de suas relações
escolhidas, porém fiéis. Paris, em fremente lamenta a sua falta, tanto nos meios artísticos e literários, pela
esclarecida do seu bom gosto fazia com que se sentisse bem e fosse onde fosse, afinal por todos era
admirado, como no Jockey-Club, do qual era um dos membros mais influentes. Pertencia também ao
Círculo da União e ao Clube Agrícola onde era um dos mais antigos e apresentara a sua demissão ao
círculo da rua Royale. Sua fisionomia especial como sua notável notoriedade não deixavam de excitar a
curiosidade do público em todo great event da música e da pintura, notadamente nas vernissages era
habitué fiel até seus últimos anos, quando só raramente saía de casa. Terão lugar os funerais, etc.''
Neste ponto de vista, se não somos "alguém", a ausência de título é mais rápida ainda a decomposição da morte. Sem dúvida é de tal modo conhecido a distinção de individualidade, que se é anônimo o duque de Uzes . Mas a coroa ducal por algum tempo os elementos como os daqueles espelho mantêm unidos e mal desenhadas, apreciados por Albertine. Ao passo que os nomes de forma ultramundanos, logo que eles morrem, desagregam-se, os moldes derretem-se. Vimos a Sra. de Guermantes falar de Cartier como sendo burguês, sendo o melhor amigo do duque de La Trémoïlle, um homem bastante solicitado nos meios aristocráticos. Na geração seguinte, Cartier se tornou algo tão infortunado; ou melhor engrandecessem aparentando-o com o joalheiro Cartier, e no entanto nos meios o pudessem ter confundido com o outro. Swann que talvez, ao contrário, era uma notável personalidade intelectual e artística; não teria "produzido" nada, teve a oportunidade de durar um pouco mais Swann, não Charles Swann, que conheci tão pouco quando ainda era tão jovem, embora perto do túmulo, é justamente porque este, a quem você devia considerar todavia, um imbecil, fez de você o herói de um de seus romances; e que por isso talvez você continue vivendo. Se a respeito do quadro um Tissot representa a sacada do círculo da rua Royale, onde você está entre Gallifet, Edmond de Polignac e Saint Maurice, fala-se tanto de você, é porque veem que existem alguns traços seus na personagem de Swann. [O quadro em questão representa, entre as pessoas mencionadas, a figura de Charles Haas (1832-1902), O principal modelo de Charles Swann. (N. do T)]
Em busca do tempo perdido - Philippe Willemart
- Literatura Fundamental 15
Neste ponto de vista, se não somos "alguém", a ausência de título é mais rápida ainda a decomposição da morte. Sem dúvida é de tal modo conhecido a distinção de individualidade, que se é anônimo o duque de Uzes . Mas a coroa ducal por algum tempo os elementos como os daqueles espelho mantêm unidos e mal desenhadas, apreciados por Albertine. Ao passo que os nomes de forma ultramundanos, logo que eles morrem, desagregam-se, os moldes derretem-se. Vimos a Sra. de Guermantes falar de Cartier como sendo burguês, sendo o melhor amigo do duque de La Trémoïlle, um homem bastante solicitado nos meios aristocráticos. Na geração seguinte, Cartier se tornou algo tão infortunado; ou melhor engrandecessem aparentando-o com o joalheiro Cartier, e no entanto nos meios o pudessem ter confundido com o outro. Swann que talvez, ao contrário, era uma notável personalidade intelectual e artística; não teria "produzido" nada, teve a oportunidade de durar um pouco mais Swann, não Charles Swann, que conheci tão pouco quando ainda era tão jovem, embora perto do túmulo, é justamente porque este, a quem você devia considerar todavia, um imbecil, fez de você o herói de um de seus romances; e que por isso talvez você continue vivendo. Se a respeito do quadro um Tissot representa a sacada do círculo da rua Royale, onde você está entre Gallifet, Edmond de Polignac e Saint Maurice, fala-se tanto de você, é porque veem que existem alguns traços seus na personagem de Swann. [O quadro em questão representa, entre as pessoas mencionadas, a figura de Charles Haas (1832-1902), O principal modelo de Charles Swann. (N. do T)]
continua na página 79...
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Leia também:
Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Volume 5
A Prisioneira (Prefácio)A Prisioneira (Para voltar a Albertine)
Volume 6
Em busca do tempo perdido - Philippe Willemart
- Literatura Fundamental 15
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