quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Dostoiévski - Os Irmãos Karamazov Livro 3 (XI. Outra reputação perdida)

Os Irmãos Karamazov

Fiódor Dostoiévski


PRIMEIRA PARTE
LIVRO III
OS SENSUAIS
X
OUTRA REPUTAÇÃO PERDIDA
 
     Da cidade ao mosteiro era apenas 1 versta. Aliócha caminhava rapidamente pela estrada, deserta àquela hora. Era quase noite e difícil, a trinta passos, distinguir os objetos. Em meio do caminho, no centro duma encruzilhada, elevava-se um salgueiro isolado, sob o qual percebia-se um vulto. Mal Aliócha chegara àquele local, o vulto destacou-se da árvore e lançou se a ele gritando:

— A bolsa ou a vida! 
— Como, és tu, Mítia! — exclamou, espantado, Aliócha, bastante comovido. 
— Ah! ah! não esperavas por isto, hein? Perguntava a mim mesmo onde esperar-te. Perto da casa dela? Há três caminhos que partem dali e eu podia não te encontrar. Tive a idEia afinal de esperar-te aqui, porque devias necessariamente passar por esta estrada, uma vez que não há outra para ir ao mosteiro. Pois bem, dize-me a verdade, esmaga-me como a uma barata... Que tens, então?
— Não é nada, irmão... É o medo! Ah! Dimítri! Ainda há pouco, esse sangue de nosso pai (Aliócha pôs-se a chorar, desde muito tinha vontade disso, parecia-lhe que alguma coisa se dilacerava dentro dele). Tu quase o mataste... tu o amaldiçoaste... e eis que agora... aqui... fazes brincadeira... a bolsa ou a vida!
— Ah! sim. Pois bem! É indecente? Não convém isto à situação?
— Mas não, dizia isto...
— Espera, olha essa noite; vê como está sombria, aquelas nuvens, esse vento que se levantou. Oculto sob o salgueiro, esperava-te e, de repente, disse a mim mesmo (Deus me seja testemunha!): "Que adianta sofrer ainda, por que esperar? Eis um salgueiro, tenho meu lenço e minha camisa, a corda ficaria trançada em breve, com meus suspensórios ainda por cima... A terra ficaria livre de mim, não mais a desonraria com a minha presença!" E eis que ouço os teus passos. Senhor, foi como se um raio descesse sobre mim! "Há pois um homem a quem amo, ei-lo, esse homenzinho, o meu querido irmãozinho, a quem amo mais que tudo no mundo e é o único a quem amo!" Tão vivo era meu afeto naquele minuto que pensei: "Vou atirar-me ao seu pescoço!" Mas veio-me uma idEia estúpida: "Para diverti-lo, vou fazer-lhe medo". E gritei como um imbecil: "A bolsa!" Perdoa minha tolice; é absurdo, mas no fundo da alma... sou bom... Pois bem! com o diabo! Fala pois, que houve lá? Que foi que ela disse? Esmaga-me, bate-me, não me poupes! Ela está exasperada? 
— Não... não é totalmente isto, Mítia. Encontrei as duas.
— Quais duas?
— Grúchenhka em casa de Catarina Ivânovna.

     Dimítri ficou estupefato. 

— É impossível! — exclamou. — Deliras! Grúchenhka em casa dela? 

     Numa narrativa despida de artifício, mas não de clareza, expôs Aliócha o essencial do que se passara, acrescentando-lhe suas próprias impressões. Seu irmão escutava-o em silêncio, fixando-o com um ar impassível, mas Aliócha via claramente que ele já havia compreendido tudo, elucidado todo o caso. À medida que a narrativa avançava, seu rosto tornava-se não sombrio, mas ameaçador. Franzia o cenho, de dentes cerrados, o olhar ainda mais fixo, mais terrível na sua obstinação... A mudança súbita que ocorreu em seu rosto encolerizado foi por isso mesmo totalmente inesperada; seus lábios crispados distenderam-se, e Dimítri Fiódorovitch explodiu na gargalhada mais irresistível e mais franca. Ficou um bom momento sem poder falar, à força de rir.

— De modo que ela não lhe beijou a mão! Fugiu sem beijar-lhe a mão! — exclamou ele num arrebatamento mórbido, que se teria podido qualificar de impudente, se não fosse tão ingênuo. 
— E a outra chamou-a de teoriza? É uma mesmo! Devia subir ao cadafalso! Certamente, estou de acordo; deveriam tê-lo feito desde muito. Mas não é tudo, irmão, é preciso em primeiro lugar recuperar a saúde. Ela está toda inteira nesse beijo de mão, aquela rainha da impudência, aquela criatura infernal! É a rainha de todas as fúrias que se possam imaginar! De encher de entusiasmo, de certa maneira! Partiu para sua casa? Agora mesmo... corro até lá. Aliócha, não me acuses, convenho que seria pouco o estrangulá-la...
— E Catarina Ivânovna? — perguntou tristemente Aliócha. 
— Também a compreendo, como até agora tenho compreendido! Ê a descoberta das quatro partes do mundo, das cinco, quero dizer! Tal passo que deu! Ê bem a mesma Catarina, a pensionista que não receia ir ter com um oficial grosseiro, com o nobre desígnio de salvar seu pai, arriscando-se a ser insultada! Mas essa altivez, essa sede do perigo, esse desafio ao destino, até os derradeiros limites!... Sua tia, dizes, queria impedi-la? É uma mulher despótica, irmã daquela generala de Moscou; fazia muito embaraço, mas seu marido foi acusado de malversações, perdeu tudo, seus bens e o resto, sua orgulhosa esposa teve de baixar o tom. De modo que retinha ela Cátia, mas esta não a escutou. "Posso tudo vencer, tudo me é submetido, enfeitiçarei Grúchenhka, se quiser. " Acreditava bem nisso decerto, e forçou seu talento. De quem a culpa? Pensas que tenha sido intencionalmente que beijou por primeira a mão de Grúchenhka, por cálculo e por astúcia? Não, deixou se enfeitiçar nada mais nada menos por Grúchenhka, isto é, não por ela, mas pelo seu sonho, pelo seu desejo, muito simplesmente, porque esse sonho, esse desejo eram os seus! Aliócha, como pudeste escapar a semelhantes mulheres? Fugiste, arrepanhando a batina, hein? Ah! ah! ah! 
— Irmão, não pensaste, creio, na ofensa que fizeste a Catarina Ivânovna contando a Grúchenhka sua visita à tua casa; Grúchenhka lançou-lhe em rosto que "ela ia furtivamente traficar seus encantos". Há pior injúria, meu irmão?

     A ideia de que seu irmão se rejubilava com a humilhação de Catarina Ivânovna atormentava Aliócha, embora sem razão, evidentemente.

— Ah! sim! — disse Dimítri, franzindo as sobrancelhas e batendo na testa. Somente agora se dava conta, se bem que Aliócha tivesse tudo contado ao mesmo tempo, a injúria e o grito de Catarina Ivânovna: "Seu irmão é um canalha!" — Sim, com efeito, devo ter falado a Grúchenhka daquele "dia fatal", como diz Cátia. Deveras, contei-lhe, lembro-me! Foi em Mókroie, enquanto os ciganos cantavam; estava embriagado... Mas então eu soluçava, rezava de joelhos diante da imagem de Cátia. Grúchenhka compreendia-o, ela mesma chorava... Ah! diabos! poderia ser de outro modo agora? Ela chorava então, agora crava um punhal no coração. Eis as mulheres!

     Pôs-se a refletir, de cabeça baixa. — Sim, sou um verdadeiro canalha — proferiu ele, de súbito, com voz sombria. — Que tenha chorado ou não, tanto faz. Conta-lhe que aceito o qualificativo, se isto pode consolá-la. Pois bem! chega, de que serve tagarelar? Não é divertido. Sigamos cada qual nossa estrada. Não quero mais rever-te antes do derradeiro momento. Adeus, Alieksiéi!
     Apertou fortemente a mão de Aliócha e, sem erguer a cabeça, como um evadido, caminhou a grandes passadas para a cidade. Aliócha acompanhou-o com o olhar, não podendo crer que tivesse ele partido deveras.

— Espera, Alieksiéi, ainda uma confissão, para ti somente! (Dimítri retrocedera. ) — Olha-me bem no rosto: aqui, vês tu, aqui, uma infâmia execrável se prepara. (Ao dizer isto, Dimítri batia no peito com um ar estranho, como se a infâmia estivesse depositada em seu peito ou suspensa ao seu pescoço. ) Já me conheces como um canalha chapado. Mas, fica sabendo, o que quer que eu tenha feito, o que quer que possa fazer no futuro, nada se compara em baixeza com a infâmia que trago no meu peito e que poderia reprimir, mas não o farei, fica sabendo. Prefiro cometê-la. Tudo te contei há pouco, exceto isto, não tinha coragem! Posso ainda deter-me e, dessa maneira, recuperar amanhã a metade de minha honra, mas não renunciarei a isto, cumprirei meu negro desígnio, poderás ser testemunha de que falo disso antecipadamente e cientemente. Perdição e trevas! Inútil explicar-te, sabê-lo-ás a seu tempo. A lama é uma verdadeira fúria! Adeus. Não rezes por mim, não sou digno e não tenho necessidade de oração nenhuma... Sai de meu caminho!...

     Afastou-se desta vez, definitivamente. Aliócha seguiu para o mosteiro.  

"Como! Não o verei mais? Que é que ele diz?" Isto pareceu-lhe esquisito. "Amanhã, sem falta, vou pôr-me à sua procura. Que quis ele dizer?"

     Contornou o mosteiro e seguiu diretamente para o eremitério atra- vés do bosque de pinheiros. Abriram-lhe, se bem que não deixassem entrar ninguém àquela hora. Entrou na cela do stáriets, com o coração palpitante.

"Por que partira ele? Por que o haviam enviado ao mundo? Aqui, a paz, a santidade; lá, a perturbação, as trevas nas quais a gente se perde... "

     Na cela encontravam-se o noviço Porfírio e um religioso, o Padre Paísi, que o dia inteiro viera a cada hora saber notícias do Padre Zósima. Seu estado piorava, como veio a saber Aliócha, com espanto. A conversa habitual da noite com a comunidade não pudera realizar-se daquela vez. Comumente, à noite, após o ofício, a comunidade, antes de ir repousar, reunia-se na cela do stáriets; cada qual lhe confessava bem alto suas faltas do dia, os sonhos culpados, as ideias, as tentações, até as rusgas entre monges, se alguma ocorrera. confessavam, de joelhos. O stáriets Outros se absolvia, acalmava, ensinava, impunha penitências, abençoava e despedia. Era contra essas "confissões" fraternais que se levantavam os adversários do stáriets, dizendo que era aquilo uma profanação da confissão, como sacramento, quase um sacrilégio, se bem que fosse coisa bem diversa. Haviam mesmo feito denúncia à autoridade diocesana de que não somente aquelas confissões não atingiam o seu fim, mas eram na realidade uma fonte de pecados e de tentações. A muitos, na comunidade, repugnava ir à casa do stáriets e ali apareciam de má vontade, a fim de não passarem por orgulhosos e revoltados de espírito. Contava-se que certos monges, ao irem à confissão da noite, entendiam-se entre si de antemão: "Direi que me zanguei contra ti esta manhã, tu o confirmarás", isto a fim de ter alguma coisa que dizer e ver-se livre daquilo. Aliócha sabia que as coisas se passavam por vezes assim. Sabia também que alguns se indignavam bastante contra o costume segundo o qual as cartas, mesmo dos pais, recebidas pelos solitários, eram levadas em primeiro lugar ao stáriets, para que ele as abrisse e lesse antes de seus destinatários.  
     Supunha-se, bem entendido, que essas práticas deviam realizar-se livremente e sinceramente, de todo o coração, com um fim de edificação salutar e de submissão voluntária; de fato, acontecia que, longe de serem sinceras, não eram senão fingidas. Mas os mais idosos e os mais experimentados da comunidade persistiam em sua ideia, estimando que "os que tinham transposto o recinto para cuidar sinceramente de sua salvação encontravam naquela obediência e naquela abdicação de si mesmos um proveito dos mais salutares; mas que os que murmuravam com repugnância não tinham a vocação e melhor teriam feito se tivessem ficado no mundo. O pecado e a tentação vos tocaiam não somente no mundo, mas no santuário, melhor valia não se prestar a isso".

— Está enfraquecendo, sonolento — murmurou o Padre Paísi a Aliócha. — É difícil despertá-lo. E para quê? Acordou por uns cinco minutos e pediu que se transmitisse sua bênção à comunidade, cujas preces solicita. Amanhã de manhã, tem intenção de comungar de novo. Lembrou-se de ti, Aliócha, informou-se de onde estavas, disseram-lhe que havias partido para a cidade. "Minha bênção o acompanhe ali; seu lugar é lá e não aqui. " És o objeto de seu amor e de sua solicitude, compreendes essa honra? Mas por que te marca ele um estágio no mundo? Será que pressente alguma coisa no teu destino? Se voltares ao mundo, é para cumprir uma tarefa imposta pelo teu stáriets, compreende-o, Alieksiéi, e não para te entregares à agitação vã e às obras do século... 

     O Padre Paísi saiu. Alieksiéi não duvidava de que o fim do stáriets estivesse próximo, muito embora pudesse viver ainda um dia ou dois. Jurou a si mesmo, malgrado os compromissos tomados para com seu pai, as senhoras Khokhlakovi, seu irmão, Catarina Ivânovna, não deixar o mosteiro no dia seguinte e ficar junto do stáriets até seu derradeiro momento. Seu coração abrasava-se de amor e censurava-se amargamente ter podido esquecer um instante, lá embaixo, aquele que deixara em seu leito de morte e a quem venerava acima de tudo. Passou para o quarto de dormir, ajoelhou-se, prosternou-se diante da cama dele. O stáriets repousava tranquilamente, mal se ouvia sua respiração. Seu rosto estava calmo.
     Voltando ao quarto vizinho, onde tivera lugar a recepção da manhã, contentou-se Aliócha com tirar suas botas e estendeu-se sobre o estreito e duro diva de couro onde se acostumara a dormir, valendo-se apenas de um travesseiro. Desde muito tempo renunciara ao colchão de que falava seu pai. Só fazia tirar sua batina, que lhe servia de coberta. Antes de adormecer, ajoelhou-se e pediu a Deus numa prece fervorosa que o esclarecesse, ansioso por tornar a encontrar o apaziguamento que experimentava sempre outrora, depois de ter louvado e glorificado a Deus, como o fazia comumente na sua prece da noite. A alegria que o invadia proporcionava-lhe um sono leve e tranquilo. Enquanto rezava, sentiu em seu bolso o envelopinho cor-de-rosa, entregue pela criada de Catarina Ivânovna, que o alcançara na rua. Ficou perturbado, mas acabou sua prece. Depois abriu o envelope, com alguma hesitação. Continha um bilhete a ele dirigido, assinado por Lisa, a filha da Senhora Khokhlakova, que zombara dele pela manhã, na presença do stáriets.

   Alieksiéi Fiódorovitch:
   Escrevo-lhe às ocultas de todos e de minha mãe, e sei que isto não está bem. Mas não posso viver mais tempo sem dizer-lhe o que me nasceu no coração e que ninguém, a não ser nós dois, deve saber até nova ordem. Dizem que o papel não cora, que engano! Asseguro-lhe que estamos agora bem corados um e outro. Querido Aliócha, eu o amo, eu o amo desde minha infância, desde Moscou, quando era você bem diferente do que é agora. Elegi-o em meu coração para me unir a você e acabarmos nossos dias juntos. Bem entendido, com a condição de que deixe você o mosteiro. Quanto à nossa idade, esperaremos tanto quanto a lei o exija. Daqui até lá, estarei restabelecida, andarei, dançarei. Isto não tem dúvida nenhuma. Vê você que calculei tudo, mas há uma coisa que não posso imaginar: que pensará você de mim lendo estas linhas? Rio, brinco, fi-lo zangar-se há pouco, mas asseguro-lhe que antes de pegar da pena rezei diante da imagem da Virgem, quase chorando. Meu segredo está em suas mãos e quando você vier, amanhã, não sei como poderei encará-lo. Alieksiéi Fiódorovitch, que acontecerá, se não puder impedir-me de rir ao vê-lo, como esta manhã? Você me tomará por uma zombadora implacável e duvidará de minha carta. Assim, suplico-lhe, meu querido, que não me olhe demasiado o rosto quando vier, porque pode acontecer que rebente a rir à vista de sua batina comprida... Já agora, meu coração fica gelado só de pensar nisso; para começar, lance seus olhares para mamãe ou para a janela... Eis que lhe escrevi uma carta de amor. Meu Deus, que fiz eu? Aliócha, não me despreze; se agi mal e o magoo, desculpe-me. Agora, a sorte de minha reputação, talvez perdida, está entre suas mãos. Haverei de chorar hoje por certo. Adeus, até essa entrevista terrível... 
PS. — Aliócha, venha sem falta, sem falta. Lisa.

     Aliócha leu duas vezes aquela carta com surpresa, ficou pensativo, depois riu docemente de prazer. Estremeceu, aquele riso lhe parecia culpado. Mas, ao fim de um instante, repetiu o mesmo riso feliz. Tornou a pôr a carta no envelope, fez um sinal da cruz e deitou-se. Sua alma havia reencontrado a calma. 

 "Senhor, perdoa-lhes a todos, protege esses infelizes e agitados, guia-os, mantém-nos no bom caminho. Tu que és o amor, concede a todos a alegria!"

     E Aliócha adormeceu num sono tranquilo. 

continua na página 229...
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Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, nascido em Moscou, 11 de novembro de 1821 — falecido em São Petersburgo, 9 de fevereiro de 1881, foi um escritor, filósofo e jornalista russo. É considerado por muitos um dos maiores romancistas e pensadores da história, bem como um dos maiores «psicólogos» que já existiu, ao considerar a designação e etimologia mais ampla do termo, como investigador da psique.
Os Irmãos Karamazov é um romance de Fiódor Dostoiévski, escrito em 1879, uma das mais importantes obras das literaturas russa e mundial, ou, conforme afirmou Freud: "a maior obra da história". Freud considera esse romance, juntamente com Édipo Rei e Hamlet, três importantes livros a respeito do embate pai e filho, e retratam o complexo de Édipo.

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