sábado, 26 de setembro de 2026

Massa e Poder - A Ordem: Castrações religiosas: os skoptsys

Elias Canetti

A ORDEM

     Castrações religiosas: os skoptsys

          Sabe-se de alguns cultos religiosos que são celebrados com tanta intensidade que acabam induzindo à prática de castrações. Na Antiguidade, os sacerdotes da Grande Mãe Cibele eram conhecidos por esse motivo. Existiram milhares deles que num ataque de frenesi se castraram em homenagem à sua deusa. Em Comana, nas imediações do Ponto, onde se erguia um célebre santuário dedicado à deusa, dez mil seres humanos estavam a seu serviço nessas condições. Não eram apenas homens que se consagravam dessa forma. Mulheres que queriam expressar sua veneração emputavam os seios e se incorporavam à corte da deusa. Em sua obra Sobre a Deusa Síria, Luciano narra como os fiéis caem em delírio durante uma reunião e como um deles, cuja vez havia chegado, se castra. É um sacrifício que ele oferece à deusa para demonstrar-lhe de uma vez por todas o quanto a ama e que nenhum outro amor terá lugar em sua vida.
     A mesma prática se conhece também em relação à seita russa dos skoptsys, as "pombas brancas", cujo fundador, Silivanov, causou nos tempos da imperatriz Catarina II a maior das sensações devido ao êxito de suas pregações. Sob sua influência, centenas, talvez milhares de homens se castraram, e mulheres amputaram os seios como prova de sua fé. É impossível supor que exista alguma conexão histórica entre estas duas configurações religiosas. Esta última seita se originou a partir do Cristianismo russo, cerca de 1500 anos depois de terem terminado os excessos dos sacerdotes frígio-sírios.
     Os skoptsys se distinguem pela concentração sobre um escasso número de mandamentos e de proibições e também por constituírem pequenos grupos de prosélitos que se conhecem muito bem entre si. Concentrada ao máximo está também sua disciplina — o reconhecimento e a adoração de um Cristo vivo entre eles.
     Eles temem a distração causada pelos livros e quase não leem. Na Bíblia são poucas as passagens que significam alguma coisa para eles.
     Sua vida comunitária é muito densa, protegida por diversas maneiras mediante juramentos sagrados. O segredo desempenha para eles um papel extraordinário e decisivo. Sua atividade cultural se desenvolve principalmente à noite, isolada e oculta do mundo exterior. O centro de sua vida reside na quilo que eles devem guardar da maneira mais secreta: a castração, que eles chamam branqueamento.
     Mediante esta operação eles devem transformar-se em anjos puros e brancos. E passam a viver já na terra como se estivessem no céu. A complicada veneração que têm uns em relação aos outros, suas reverências e adorações, seus elogios mútuos são semelhantes àqueles que os anjos deveriam ter entre si.
     A mutilação à qual devem submeter-se tem o caráter rígido de uma ordem. Trata-se de uma ordem que vem de cima; eles a extraíram de certas frases de Cristo nos Evangelhos e também de uma frase dita por Deus a Isaías.
     Eles recebem esta ordem com uma força tremenda e é com esta mesma força que devem transmiti-la. A teoria do aguilhão pode muito bem ser aplicada a eles. A ordem neste caso é executada no próprio receptor. Faça ele o que fizer, o que realmente deve fazer é castrar-se.
     Para esclarecer as coisas, será necessário revisar uma série de ordens de índole especial.
     Considerando que se trata de ordens que são dadas dentro do âmbito de uma disciplina rígida, elas podem ser comparadas às ordens militares. Também o soldado é educado para expor-se ao perigo. Todo o seu treinamento serve para que ele no fim se apresente diante do inimigo, mesmo quando este o ameaça de morte. O fato de ele próprio tentar matá-lo não é reais importante do que sua resistência; sem esta, ele jamais seria capaz de realizar seu intento.
     O soldado, exatamente como o skoptsy, se oferece como vítima. Ambos têm esperança de sobreviver, mas contam com a possibilidade de serem feridos, com a dor, o sangue e a mutilação. Pela batalha o soldado espera tornar-se vencedor. pela castração o skoptsy se transforma em anjo e tem direito ao céu, no qual a partir desse momento ele já passa a viver.
     Mas trata-se dentro desta disciplina de uma ordem secreta, e assim ela somente é comparável à situação na qual se encontra quem está sob comando militar e que deve executar sozinho uma ordem secreta, sem que ninguém saiba do assunto. Para atingir esta finalidade ele não pode ser reconhecível pelo uniforme, devendo portanto disfarçar-se. O uniforme do skoptsy, aquilo que o iguala aos demais aos quais pertence, é sua castração, e esta por sua própria natureza permanece sempre secreta, não podendo jamais ser revelada.
     Seria possível dizer, portanto, que o skoptsy se assemelha a um membro daquela temida seita dos assassins, ao qual um superior ordenou um assassinato de que ninguém jamais terá conhecimento. Mesmo quando a execução é levada a termo, pessoa alguma ficará sabendo como foi realizada. A vítima pode ser atingida e o assassino capturado depois do ato; mesmo assim jamais se esclarecerá o procedimento propriamente dito. A ordem neste caso é uma sentença de morte e está desta forma muito próxima de sua origem biológica. O emissário é enviado a uma morte certa, mas isto não é levado em consideração, pois sua morte, que ele aceita voluntariamente, é usada para se atingir outra pessoa, a vítima escolhida. A ordem se amplia transformando-se numa dupla sentença de morte: uma delas não é formulada, apesar de se contar com ela; a outra é apontada com consciência clara e plena. O aguilhão, que pereceria com o subordinado, é desta forma utilizado antes de desaparecer.
     Os mongóis têm uma expressão muito gráfica para designar este matar precipitado, antes de a própria pessoa ser morta. Os heróis, em sua História Secreta, dizem de um inimigo que querem matar no último instante antes de morrer: "Eu o levarei comigo como travesseiro".
     Mas, se com esta consideração a respeito dos assassins nós conseguimos nos aproximar da situação do skoptsy, mesmo assim ainda não conseguimos apreendê-la com precisão. Pois o skoptsy é obrigado a atingir ou a mutilar sua própria pessoa, A ordem que ele aceitou somente pode ser executada em si mesmo, e somente executando esta ordem é que ele se transforma num membro efetivo do seu exército secreto.
     Não podemos deixar-nos confundir neste diagnóstico pelo fato de que a castração na maioria das vezes é realizada por outras pessoas. Seu sentido reside no fato de que é o próprio indivíduo quem se oferece voluntariamente à castração. Uma vez que ele se declarou disposto a permitir que isso aconteça, perde importância o como é feito. Posteriormente ele irá querer transmitir isso de todas as maneiras; seu aguilhão para tanto permanece sempre igual, uma vez que ele recebeu a ordem a partir de fora para dentro.
     Mesmo se, como é de se supor, houve uma primeira pessoa que começou a efetuar a operação em si mesma, ela também agiu em função de uma suposta ordem celeste. Ela está firmemente convencida disto. As passagens bíblicas que utiliza para converter outras pessoas são as que a levaram à conversão; ela transmite exatamente o que recebeu.
     O aguilhão adquire neste caso a forma visível de uma cicatriz física. Ela é menos secreta do que o aguilhão habitual da ordem. No entanto, ela permanece secreta diante de todos os que não pertencem à seita.
  
continua na página 181...
____________________

Leia também:

Massa e Poder - A Ordem: Castrações religiosas: os skoptsys 
____________________

ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994. 
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) e O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de Marrakech, Festa sob as bombas e Sobre a morte.
_______________________

Copyright @ 1960 by Claassen Verlag GmbH, Hamburg
Copyright @ 1992 by Claassen Verlag GmbH, Hildescheim
Título original Masse und Macht

"Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido."

__________________

e você... conhece alguém que em meio a nossa danação geral em 2020, 2021 e 2022, NÃO sentiu empatia por nós, os sobreviventes, nem mesmo pelos nossos mortos e mortas, e apenas repetia: NÃO sou coveiro!?
__________________

e perguntas sem resposta te incomodam?

Nenhum comentário:

Postar um comentário