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sábado, 22 de agosto de 2026

Tolstói - A Felicidade Conjugal (2ªParte: 4 - A casa vazia)

A Felicidade Conjugal

Liev Tolstói

Segunda Parte
4

     A casa vazia, há muito não aquecida, de Nikólskoie reviveu, porém não reviveu aquilo que a habitava. Mamãe não existia mais e estávamos a sós, frente a frente. Mas agora não precisávamos da solidão, ela até nos constrangia. O inverno foi tanto pior para mim que eu estive doente e só me refiz após o nascimento do meu segundo filho. As minhas relações com o marido continuavam também a ser friamente amistosas, como nos tempos da nossa vida na cidade, mas, na aldeia, cada taco do assoalho, cada parede e cada divã lembravam-me o que ele era para mim e o que eu perdera. Havia entre nós como que uma ofensa não perdoada, era como se ele me castigasse por algo e fingisse não o perceber. Não havia por que pedir perdão: ele me castigava apenas não se entregando a mim totalmente, não me dando toda a sua alma, como outrora; mas não a entregava também a nada nem a ninguém, como se não a tivesse mais. Às vezes, vinha-me à mente que ele apenas fingia ser assim, a fim de me atormentar, mas que nele estava ainda vivo o sentimento de antes, e eu procurava suscitá-lo. Mas, todas as vezes, parecia evitar a franqueza, como se me suspeitasse de fingimento e temesse, como ridícula, toda sensibilidade. O seu olhar e o tom da sua voz diziam: sei tudo, tudo, não há o que dizer; sei também tudo o que tu queres dizer. E também sei que dirás uma coisa e farás outra. A princípio, eu ficava ofendida com este medo da sinceridade, mas depois habituei-me à ideia de que não era insinceridade, e sim falta de uma necessidade de ser sincero. Agora, a minha língua não se moveria para lhe dizer de repente que o amava, ou para lhe pedir que rezasse comigo umas orações, ou então chamá-lo para ouvir-me tocar piano. Já se podia perceber entre nós determinadas relações de conveniência. Vivíamos cada um do seu lado. Ele com as suas ocupações, nas quais eu não precisava e não queria agora participar, eu com o meu ócio, que não o ofendia nem entristecia, como outrora. As crianças ainda eram demasiado pequenas e não podiam unir-nos.
     Chegou, porém, a primavera, Kátia e Sônia vieram ao campo, a fim de passar o verão, nossa casa em Nikólskoie entrou em reforma e mudamos para Pokróvskoie. Ali, era a mesma casa velha com terraço, com a mesa dobradiça e um piano no salão claro, com o meu antigo quarto de cortinas brancas, com os meus sonhos de moça, que pareciam esquecidos ali. Havia neste pequeno quarto duas caminhas: uma que fora minha, e na qual eu de noite fazia o sinal da cruz sobre o gorducho Kokocha¹, de braços e pernas espalhados, e a outra pequena, sobre a qual o rostinho de Vânia² espiava dentre os cueiros. Depois de fazer sobre eles o sinal da cruz, eu muitas vezes parava em meio ao quieto quartinho, e de súbito erguiam-se de todos os cantos, das paredes, das cortinas, antigas e esquecidas visões da mocidade. Vozes de outrora entoavam canções de moça. E onde estavam aquelas visões? Onde estavam as canções queridas e suaves? Realizara-se tudo o que eu mal ousara esperar. Os sonhos imprecisos, confusos, tornaram-se realidade; e a realidade transformou-se numa vida pesada, difícil, sem alegria. E tudo era como dantes: viam-se pela janela o mesmo jardim, a mesma área, o mesmo caminho, o mesmo banco ali sobre a ravina, os mesmos cantos de rouxinol vinham do açude, os mesmos lilases apareciam em plena floração, e a mesma lua estava parada sobre a casa; no entanto, tudo se transformara de modo tão terrível, tão impossível! Era tão frio tudo o que podia ter sido tão próximo e querido! Tal como outrora, estou sentada com Kátia na sala de visitas, conversando a respeito dele. Mas Kátia ficou enrugada, amarelou, os olhos não lhe brilham mais de esperança e alegria, mas expressam comiseração, tristeza e simpatia. Não nos extasiamos mais com ele, como em outros tempos, nós o julgamos, não nos espantamos com o porquê e o para quê de sermos tão felizes, e não pretendemos, como outrora, contar a todo mundo aquilo que estamos pensando; ficamos murmurando como conspiradoras, e, pela centésima vez, perguntamos uma à outra por que tudo se transformou tão tristemente. E ele é sempre o mesmo, apenas se tornou mais funda a ruga que tem entre as sobrancelhas, possui mais cabelos grisalhos nas têmporas, mas o seu olhar profundo e atento está continuamente afastado de mim por uma nuvem que o tolda. Eu sou a mesma, porém não há em mim amor, nem desejo de amor. Não há necessidade de trabalho, nem satisfação comigo mesma. E parecem-me tão distantes e impossíveis os antigos êxtases religiosos, o antigo amor por ele, a antiga plenitude da existência. Eu não compreenderia agora aquilo que antes me parecia tão claro e justo: ser uma felicidade viver para outrem. Por que para outrem, quando não se tem vontade de viver mesmo para si?

[1] Diminutivo brincalhão de Nikolai. (N. do T.)
[2] Diminutivo de Ivan. (N. do T.)

     Eu abandonara completamente a música desde que nos mudamos para Petersburgo; mas agora o velho piano, os velhos cadernos de notas, atraíram-me novamente.
     De uma feita, sentindo-me adoentada, fiquei sozinha em casa; Kátia e Sônia foram com ele a Nikólskoie, a fim de olhar a construção. A mesa estava posta para o chá, fui para baixo e, esperando-os, sentei-me ao piano. Abri a sonata Quasi una fantasia e pus-me a tocá-la. Não se via nem se ouvia ninguém, as janelas estavam abertas para o jardim; e ressoaram na sala os sons conhecidos, de uma dolência solene. Terminada a primeira parte, espiei de todo inconsciente, por um velho costume, para o canto em que ele costumava ficar sentado, ouvindo-me. Mas ele não estava; a cadeira, há muito não mexida, permanecia no mesmo canto; via-se pela janela um tufo de lilases sobre o poente claro, e o frescor noturno jorrava pelas janelas abertas. Apoiei ambos os braços sobre o piano, fechei o rosto com as mãos e fiquei pensativa. Passei muito tempo sentada assim, lembrando com sofrimento o passado, o irreversível, e inventando timidamente algo novo. Mas parecia não existir mais nada pela frente, era como se eu nada mais desejasse nem esperasse. “Será possível que já vivi minha vida?” — pensei, soergui horrorizada a cabeça e, procurando esquecer e não pensar, pus me novamente a tocar, e sempre o mesmo andante. “Meu Deus! — pensei — Perdoa-me se eu sou culpada, ou devolve-me tudo o que eu tinha de tão belo em meu íntimo, ou então ensina-me o que fazer e como viver agora.” Rodas ressoaram sobre o capim, vozes conhecidas e cautelosas ouviram-se à entrada da casa, depois sobre o terraço, calando-se em seguida. Mas foi um sentimento diferente dos de outrora que respondeu ao som desses passos conhecidos. Quando terminei, os passos ouviram-se atrás de mim e certa mão pousou-me no ombro.

— Como foste inteligente em tocar esta sonata — disse ele. 

     Continuei calada. 

— Não tomaste chá?

     Meneei negativamente a cabeça e não me voltei para ele, a fim de não revelar os sinais de perturbação, que me ficaram no rosto. 

— Elas virão nesse instante; o cavalo começou a fazer das suas, e elas vêm a pé desde a estrada principal — disse ele. 

— Vamos esperá-las — retruquei, e saí para o terraço, esperando que me seguisse; mas ele perguntou pelas crianças e foi vê-las. Novamente a sua presença, a sua voz singela, bondosa, desmentiu que eu tivesse perdido algo. O que mais eu tinha a desejar? Ele era bondoso, de gênio brando, bom marido, bom pai, eu mesma não sabia o que mais me faltava. Saí para o balcão e sentei-me sob a lona do terraço, sobre o mesmo banco em que estivera sentada no dia da nossa declaração. O sol já se pusera, começava a escurecer, uma nuvenzinha escura de primavera estava suspensa sobre a casa e o jardim; somente atrás das árvores via-se uma faixa limpa de céu, com o poente que se apagava e uma estrelinha noturna, que acabava de se acender. A sombra da nuvenzinha leve pairava sobre todas as coisas, e tudo estava à espera da suave chuva de primavera. O vento imobilizara-se, não se movia uma folha, um talo de erva, o aroma do lilás e da cerejeira-brava pairava tão intenso no jardim e sobre o terraço, como se todo o ar florisse, e, por ondas, ora enfraquecia de repente, ora se fortalecia, de modo que dava vontade de fechar os olhos, não ver nem ouvir nada, e só sentir esse doce aroma. As dálias e tufos de roseiras, ainda sem flores, alongados e imóveis no seu canteiro negro e revolvido, pareciam subir lentamente sobre os seus brancos e lisos tutores; rãs coaxavam, em uníssono e com um som penetrante, no fundo da ravina, esgoelando-se como se fossem os seus últimos gritos antes da chuva, que as enxotaria para a água. Um indefinido som aquático, fino e incessante, pairava sobre este grito. Rouxinóis dialogavam a intervalos, e ouvia-se como voavam sobressaltados de um lugar a outro. Novamente nesta primavera, um rouxinol tentou instalar-se na moita sob a janela, e, quando eu saí, ouvi que ele se mudara para além da alameda, onde trinara uma vez e calara se, igualmente em expectativa de chuva.

     Era em vão que eu procurava acalmar-me: esperava e desejava algo. 
     Ele voltou de cima e sentou-se a meu lado.

— Parece que elas vão se molhar. 
— Sim — retruquei, e ficamos muito tempo calados.

     No entretanto, na ausência de vento, a nuvem descia cada vez mais; tudo se tornava mais quieto, mais cheiroso e imóvel, e de repente uma gota caiu e como que saltou sobre o toldo de lona do terraço, uma outra esfacelou-se sobre o pedregulho do caminho; houve um estalo sobre as bardanas e gotejou uma chuvinha graúda, fresca, cada vez mais forte. Rãs e rouxinóis calaram-se de todo, apenas o som fino, aquático, ainda que parecesse mais distante por causa da chuva, mantinha-se sempre parado no ar, e certo pássaro, provavelmente escondido entre as folhas secas, perto do terraço, soltava com regularidade duas notas monótonas. Ele se levantou e quis afastar-se. 

— Aonde vais? — perguntei, retendo-o. — É tão bom aqui. 
— É preciso mandar para elas um guarda-chuva e galochas. 
— Não precisa, a chuva já vai passar.

     Concordou e ficamos junto à balaustrada do terraço. Apoiei a mão numa barra molhada, escorregadia, e pus a cabeça para fora. A chuvinha fresca borrifou-me irregularmente os cabelos e o pescoço. Clareando e tornando-se mais rala, a nuvenzinha desfazia-se em água sobre nós; o som regular da chuva foi substituído por umas gotas espaçadas, caídas de cima e das folhas. Embaixo, novamente coaxaram as rãs, rouxinóis tornaram a se sacudir e passaram a responder um ao outro, de dentro das moitas molhadas, ora de um, ora de outro lado. Tudo se aclarou na nossa frente.

— Que bom! — disse ele, sentando-se sobre a balaustrada e passando a mão sobre os meus cabelos molhados. 

     Esse carinho singelo atuou sobre mim como uma censura, tive vontade de chorar. 

— Do que mais precisa o homem? — disse ele. — Estou agora tão contente que não preciso de nada, completamente feliz!

“Não foi assim que falaste um dia sobre a tua felicidade — pensei. — Por maior que ela fosse, dizias, querias algo mais e mais. E agora estás tranquilo e satisfeito, enquanto eu tenho na alma como que um arrependimento inconfessado e lágrimas não choradas.”

— Também me sinto bem — disse eu —, mas dá tristeza justamente o fato de que tudo seja tão bom diante de mim. Dentro, tenho tanta incoerência, tudo é tão incompleto, há tanto desejo de algo; e aqui, tudo é tão belo e sossegado. Será possível que também em ti uma angústia não se acrescente ao deleite com a natureza, como se quisesses algo impossível e lamentasses algo que passou?

     Ele retirou a mão da minha cabeça e calou-se algum tempo. 

— Sim, antes isto me acontecia também, principalmente na primavera — disse ele, como que lembrando alguma coisa. — Também eu passei noites sentado, querendo e esperando algo, e eram noites boas!... Mas, então, tudo estava pela frente, e agora tudo ficou para trás; agora, basta-me o que tenho, e sinto-me bem — concluiu com um tom convictamente descuidado, a tal ponto que, embora me fosse muito doloroso ouvir isto, acreditei que dizia verdade.
— E não te faz falta nada? — perguntei. 
— Nada que seja impossível — respondeu ele, adivinhando o meu sentimento. — Quanto a ti, estás aí molhando a cabeça — acrescentou, acariciando-me como a uma criança, passando-me novamente a mão sobre os cabelos —, invejas as folhas e a erva, porque são molhadas pela chuva, gostarias de ser a erva, a folhagem, a chuva. E eu apenas me alegro com elas, como me alegro com tudo o que é belo, jovem e feliz no mundo. 
— E não lamentas nada do que passou? — continuei a perguntar, percebendo em meu coração um sentimento cada vez mais penoso.

     Ficou pensativo e tornou a calar-se. Vi que procurava responder com toda franqueza. 

— Não! — respondeu ele, lacônico. 
— Não é verdade! Não é verdade! — disse eu, voltando-me para ele e fitando-o nos olhos. — Não lamentas o passado? 
— Não! — repetiu. — Sou grato por ele, mas não o lamento. 
— Mas não gostarias de fazê-lo voltar?

     Ele virou a cabeça e pôs-se a olhar para o jardim. 

— Não quero isso, como não quero que me cresçam asas — disse. — Não se pode! 
— E não corriges o passado? Não censuras a ti mesmo ou a mim? 
— Nunca! Tudo aconteceu para melhor. 
— Escuta! — disse eu, tocando-lhe o braço, para que se voltasse para mim. — Escuta: por que nunca me disseste o que querias, para que eu vivesse exatamente de acordo com a tua vontade, por que me deste liberdade, que eu não sabia usar, por que deixaste de me ensinar? Se quisesses, se me orientasses de outro modo, não teria acontecido nada, nada — disse eu, com uma voz em que se expressava cada vez mais fortemente uma fria mágoa e censura, em lugar do antigo amor. 
— O que não teria acontecido então? — perguntou surpreso, virando-se na minha direção. — Está tudo bem. Muito bem — acrescentou com um sorriso.

“Será possível que ele não compreenda ou, o que é pior ainda, não queira compreender?” — pensei e lágrimas apareceram-me nos olhos.

— Não, deixa-me falar até o fim... Tiraste-me a tua confiança, o amor, a consideração até; porque eu não acreditarei que me ames agora, depois do que aconteceu. Não, preciso dizer de uma vez tudo o que me atormenta há muito tempo — interrompi-o novamente. — Serei eu culpada porque não conhecia a vida, e tu me deixaste sozinha em minha busca?... Serei culpada porque nesse momento, quando eu mesma compreendi o que é preciso, quando eu, vai fazer um ano já, bato-me por voltar para junto de ti, tu me repeles, como se não compreendesses o que eu quero, e tudo se passa de tal modo que não se pode censurar-te nada, e eu sou culpada e infeliz ao mesmo tempo?! Sim, queres atirar-me de novo num tipo de existência que poderia ter feito a minha infelicidade e a tua. 
— Mas como foi que eu te mostrei isso? — perguntou ele, com espanto e um susto sincero. — Não disseste ainda ontem, e não dizes sempre, que não consigo viver aqui e que, no inverno, devemos viajar novamente para Petersburgo, que me é odiosa? — continuei. — Em lugar de me apoiar, evitas toda franqueza, toda palavra sincera, carinhosa, comigo. E depois, quando eu tiver caído de vez, vais censurar-me e alegrar-te com a minha queda. 
— Espera, espera — disse ele com severidade e frieza —, é ruim o que dizes agora. Isto apenas demonstra que estás mal disposta em relação a mim, que tu não... 
— Que eu não te amo? Fala! Fala! — concluí, e lágrimas correram me dos olhos. Sentei-me num banco e tapei o rosto com um lenço.

“Aí está como ele me compreendeu!” — pensei, procurando conter os soluços, que me comprimiam. “Está acabado o nosso amor de outros tempos” — dizia-me certa voz no coração. Ele não se aproximou de mim, não me consolou. Estava ofendido com o que eu dissera. A sua voz era tranquila e seca.

— Não sei o que me censuras — começou ele. — Se é o fato de que te amei menos que antes... 
— Amou! — disse eu para dentro do meu lenço, e lágrimas amargas escorreram sobre este, em maior abundância ainda. 
— Nisso têm culpa o tempo e nós mesmos. Cada época tem o seu amor... — Calou-se um pouco. — Dizer-te toda a verdade, já que tu queres franqueza? Assim como naquele ano em que eu apenas te conheci, passei noites sem dormir, pensando em ti e criando eu mesmo o meu amor, e este amor crescia-me mais e mais no coração, exatamente do mesmo modo em Petersburgo e no estrangeiro eu passei noites terríveis de insônia, rompendo, destruindo este amor, que me atormentava. Eu não o destruí, mas destruí somente aquilo que me torturava, acalmei-me, e, apesar de tudo, amo ainda, mas é um outro amor. 
— Sim, chamas isto de amor, mas é uma tortura — disse eu. — Por que me permitiste viver no mundo, se ele te parecia tão pernicioso que deixaste de me amar por causa dele? 
— Não foi o mundo, minha amiga — disse ele. 
— Por que não usaste a tua autoridade — prossegui —, não me amarraste, não me mataste? Seria melhor para mim agora que privar-me de tudo o que constituía a minha felicidade, seria bom para mim, eu não teria vergonha. 

     Tornei a romper em pranto e escondi o rosto.
     Nesse ínterim, alegres e molhadas, Kátia e Sônia entravam no terraço, falando alto e rindo; mas, vendo-nos, silenciaram e saíram no mesmo instante.
     Passamos ainda muito tempo calados; acabei de chorar as minhas lágrimas e me senti aliviada. Olhei para ele. Estava sentado, a cabeça apoiada no braço, e queria dizer algo, em resposta ao meu olhar, mas apenas suspirou pesadamente e tornou à posição anterior.
     Aproximei-me dele e afastei-lhe o braço. Seu olhar voltou-se pensativo para mim.

— Sim — disse ele, como que dando prosseguimento à sua reflexão. — Todos nós, e particularmente vós mulheres, devemos viver sozinhos todo o absurdo da existência, a fim de voltar à própria vida; e não se pode crer em outra coisa. Ainda estavas longe de ter vivido então todo o absurdo simpático e encantador com que eu me extasiava em ti; e eu te deixei acabar de vivê-lo e senti não ter o direito de te constranger, embora para mim o tempo já tivesse passado havia muito. 
— Mas, se me amava, por que vivias comigo e me deixavas viver este absurdo? — disse eu. 
— Porque, ainda que quisesses acreditar em mim, não o conseguirias; devias conhecê-lo por ti mesma, e o conheceste. 
— Tu argumentavas, argumentavas muito — disse eu. — Amavas pouco.

     Calamo-nos de novo por algum tempo.

— É cruel o que acabaste de dizer, mas é verdade — disse ele, erguendo-se de repente e pondo-se a caminhar pelo terraço — sim, é verdade. Fui culpado! — acrescentou, parando em frente de mim. — Eu não devia permitir-me amar-te, ou devia amar com mais simplicidade, sim. 
— Esqueçamos tudo — disse eu timidamente. 
— Não, o que passou, não há de voltar, é impossível fazê-lo voltar — e, ao dizer isso, a sua voz abrandou-se. 
— Tudo já voltou — disse eu, pondo-lhe a mão no ombro.

     Afastou a minha mão e apertou-a.

— Não, eu estava mentindo, ao dizer que não lamento o passado; não, eu lamento, eu choro aquele amor passado, que não existe nem pode existir mais. Quem é culpado disso? Não sei. Sobrou o amor, mas não aquele, sobrou o seu lugar, mas o amor ficou totalmente dolorido, não tem mais força nem suculência, ficaram as recordações e a gratidão, mas... 
— Não fales assim... — interrompi-o. — Que tudo seja de novo como antes... Bem que isto pode ser assim? Não é mesmo? — perguntei, fitando-o nos olhos. Mas eles eram límpidos, tranquilos, e olhavam dentro dos meus sem profundidade.

     Enquanto eu falava, senti que já era impossível aquilo que eu queria e que pedia a ele. Teve um sorriso tranquilo, humilde, o que me pareceu senil

— Como és jovem ainda e como sou velho — disse ele. — Em mim, não existe mais aquilo que procuras; para quê se enganar? — acrescentou, continuando a sorrir do mesmo jeito.

     Coloquei-me em silêncio ao seu lado, e senti maior tranquilidade interior.

— Não procuremos repetir a vida — prosseguiu ele —, não mintamos a nós mesmos. E quanto ao fato de não termos mais os sobressaltos e inquietações de outros tempos, que seja graças a Deus! Não temos o que procurar, nem motivo para ficar perturbados. Já encontramos, e coube-nos felicidade bastante. Agora, já temos que nos apagar e dar caminho aí está a quem — disse, apontando a ama que se acercara com Vânia e parara à porta do terraço. — Assim é, querida amiga — concluiu, inclinando para si a minha cabeça e beijando-a. Quem me beijava não era um amante, mas um velho amigo. E do jardim erguia-se cada vez mais intensamente e com maior doçura o frescor cheiroso da noite, os sons e o silêncio tornavam-se cada vez mais solenes, as estrelas acendiam-se no céu com maior frequência. Olhei-o e, de repente, senti a alma leve, era como se me tivessem tirado o nervo moral doente, que me obrigara a sofrer. Percebi de repente, com nitidez e tranquilidade, que o sentimento daquele tempo passara irrevogavelmente, assim como o próprio tempo, e que fazê-lo voltar seria não só impossível, mas até penoso e constrangedor. E ademais, seria mesmo tão bom aquele tempo que me parecia tão feliz? E tudo isso acontecera havia tanto, tanto tempo!
— Mas já está na hora do chá! — disse ele e fomos juntos para a sala de visitas. À porta, encontrei novamente a ama com Vânia. Tomei nos braços a criança, cobri as suas perninhas vermelhas e desnudas, apertei a contra mim e beijei-a, mal encostando os lábios. Como que dormindo, ele moveu a mãozinha de dedos enrugados e muito afastados e abriu os olhinhos turvos como se procurasse ou lembrasse algo; de repente, esses olhinhos detiveram-se sobre mim, faiscou neles um fagulha de pensamento, os labiozinhos rechonchudos, arrepanhados, começaram a mexer-se e abriram-se num sorriso. “É meu, meu, meu!” — pensei com uma tensão feliz em todos os membros, apertando-o ao peito e contendo-me a custo, para não lhe causar dor. E pus-me a beijar-lhe as perninhas frias, a barriguinha, os braços e a cabecinha em que mal despontavam cabelos. Meu marido aproximou-se de mim, fechei depressa o rosto da criança e tornei a descobri-lo.

— Ivan Sierguiéitch!¹ — disse meu marido, tocando-o com o dedo abaixo do queixinho. Mas, novamente, cobri depressa Ivan Sierguiéitch. Ninguém além de mim devia olhá-lo por muito tempo. Olhei para meu marido, os seus olhos riam, fitando os meus, e pela primeira vez, depois de muito tempo, eu sentia leveza e alegria ao olhá-los.

[1] Corruptela de Sierguiéievitch. (N. do T.)

     A partir desse dia, terminou o meu romance com meu marido; o sentimento antigo tornou-se uma recordação querida, algo impossível de trazer de volta, e o novo sentimento de amor aos filhos e ao pai dos meus filhos deu início a uma nova vida, de uma felicidade completamente diversa, e que ainda não acabei de viver...

Fim...


POSFÁCIO 
Boris Schnaiderman

     Esta novela, Felicidade conjugal, publicada em 1859, pode surpreender o leitor acostumado com a pregação insistente por Tolstói de seu sistema ético-religioso. Com efeito, na mesma época em que a escreveu entregava-se com insistência à elaboração de textos moralizantes.
     Assim, anotava em seu diário, em 1852: “Decididamente, não posso escrever sem objetivo e sem esperança de utilidade”. E em 1855, tratava ali do “bem que eu posso fazer com os meus livros”. Estas cogitações chegavam à obsessão. Basta lembrar que, em plena Guerra da Crimeia, sob o bombardeio inimigo e em meio às privações provocadas pelo assédio anglo-francês, entregou-se à ideia de fundar uma nova religião, “que corresponda ao desenvolvimento da humanidade, uma religião de Cristo, mas purificada da fé e do mistério, e que dê a bem-aventurança na terra”.
     Depois disso, torna-se muito compreensível que, durante a correção das provas desta novela, tenha escrito: “É uma ignomínia vergonhosa”. Mas, ao mesmo tempo, felizmente, não eliminou esta “ignomínia”.
     Creio que na base desta oscilação encontra-se uma dualidade tolstoiana sobre a qual já escrevi mais de uma vez. Ele era um moralista feroz, implacável, mas, ao mesmo tempo, sabia como ninguém expressar a atração do carnal e as grandes fraquezas humanas tinham nele um observador genialmente perspicaz. Vejam-se nesta novela as páginas 94 a 98 do capítulo III, da segunda parte, onde a personagem feminina se sente atraída por um marquês italiano. 
     Ora, esta contraparte com descrição muito compreensiva das vacilações inerentes ao humano é uma constante em boa parte da obra de Tolstói. Mesmo Anna Kariênina, onde o adultério é condenado com “uma crueldade magnífica”, segundo a expressão feliz de Eisenstein, contém páginas em que se trata com simpatia o irmão de Anna, que “trai constantemente a mulher, mas com naturalidade, como algo que não pode ser diferente, como um comportamento que faz parte do fluxo da existência”, conforme escrevi um dia¹.É verdade que, nos últimos anos de vida, radicalizou-se a atitude moralizante de Tolstói, chegando então ao paroxismo, conforme se constata particularmente em A Sonata a Kreutzer². Mas Felicidade conjugal constitui um dos momentos em que está menos imerso em seu delírio de pregador, quando ele se torna realmente insuperável.

[1] Boris Schnaiderman, Tolstói: antiarte e rebeldia (Coleção Encanto Radical), São Paulo, Brasiliense, 1983, p. 63 [este ensaio foi republicado como posfácio a Lev Tolstói, Khadji-Murát, tradução, prefácio e notas de Boris Schnaiderman, São Paulo, Editora 34, 2017].
[2] Ver Lev Tolstói, A Sonata a Kreutzer, tradução, posfácio e notas de Boris Schnaiderman, São Paulo, Editora 34, 2007. 

     Esta novela se diferencia de outros escritos de Tolstói, sobretudo na postura perante as injunções da moral. Assim, escreveria no diário, em 1889: “Vivemos no reino da devassidão e das mulheres. As mulheres movem tudo”. Mas, em Felicidade conjugal, temos (p. 86) um pensamento da personagem central: “Ah! Então é este o poder do marido — pensei. — Ofender e humilhar uma mulher sem nenhuma culpa. Nisso é que consistem os direitos do marido, mas eu não me submeterei a eles”. Realmente, impressiona a passagem de uma atitude compreensiva, humana, que até consegue captar um momento de revolta contra a prepotência masculina, ao tom ranzinza e rabugento de A Sonata a Kreutzer, que é, no entanto, magistral como obra de obsessão e delírio.
     Na edição que tenho de Felicidade conjugal¹ há uma nota: “Segundo testemunho do próprio Tolstói, serviu de fundamento à concepção literária desse romance a história das suas relações pessoais com V. V. Arsiênieva”², isto é, a moça com quem tivera um envolvimento amoroso antes de seu noivado e casamento com Sófia Behrs, que é sempre lembrada como Sófia Tolstaia, a condessa.

[1] Lev Tolstói, Obras reunidas em 12 volumes, Moscou, Goslitizdát (Editora Estatal de Obras da Literatura), 1956, vol. 3.
[2] Siemiéinoie schástie (Felicidade conjugal), em op. cit., p. 397.

     Na verdade, esta informação só pode ser aceita cum granum salis, pois a sucessão dos fatos autobiográficos nesta novela é bem tênue. Foi tudo vivido no plano da fantasia e da fabulação literária. Na vida real, não aconteceu nada que se aproximasse sequer da trama arquitetada. Aliás, Tolstói se orgulhava de sua capacidade de fabulação e, em diversas ocasiões, manifestou-se contra a cópia pura e simples, na ficção, dos acontecimentos da vida real.
     Todavia, é muito comum esta leitura exageradamente biográfica de algumas de suas obras. Assim, os romances Infância, Adolescência e Juventude, planejados como parte de uma tetralogia, que não chegou a completar, foram às vezes editados no Ocidente com a designação Memórias, o que é um absurdo.
     Em Felicidade conjugal, provoca até estranheza a ausência de certa problemática russa da época. Visto que o texto é de 1859, os fatos ali narrados decorrem no período em que se articulavam as grandes reformas do reinado de Alexandre II, inclusive a libertação dos servos da gleba, que ocorreria em 1861. No entanto, os camponeses da novela aparecem sem maior destaque, sem qualquer referência à “questão camponesa”, tema candente na época. Ora, Tolstói estava então muito envolvido com esta problemática e participava ativamente das assembleias da nobreza rural no distrito de Tula, onde ficava sua propriedade, Iásnaia Poliana.
     Também, a estada das personagens numa estação de águas no exterior não suscitou qualquer das reações indignadas do escritor à vida burguesa do Ocidente.
     A ação da novela se concentra no cotidiano de um casal da nobreza, sem quaisquer preocupações sociais ou políticas. Não procuremos ver em Sierguiéi Mikháilovitch um reflexo de Tolstói, pois ele não aguentaria semelhante comparação. Ao aceitar esta narrativa pura e simplesmente, sem maiores aprofundamentos históricos, veremos que nisso está a sua grandeza, sua contribuição específica. Quem quiser procure em outras obras de Tolstói sua vivência atormentada da Rússia na época. Pois temos de reconhecer: o humano e o literário encontram nesse texto o seu máximo de expressão.

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Primeira Parte:
Segunda Parte: 
3 - A partir desse dia / 4 - A casa vazia  
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Liev Tolstói é um escritor russo nascido em 9 de setembro de 1828 e morreu em 20 de novembro 1910. De família aristocrata, ficou órfão de pai e mãe ainda na infância. Mais tarde, iniciou a Faculdade de Direito, mas abandonou o curso logo depois, e participou da Guerra da Crimeia. Seu sucesso como escritor ocorreu já com a publicação de suas três primeiras obras, uma trilogia composta pelos livros Infância, Adolescência e Juventude. No entanto, suas obras mais conhecidas são Guerra e Paz (entre 1865 e 1869) e Anna Karenina (entre 1875 e 1878).
Liev Tolstói, um dos maiores romancistas da literatura mundial, deixou um legado incomparável com suas obras-primas. Suas narrativas transcendem o tempo e continuam a ressoar com leitores de todas as gerações. Tolstói aborda temas como amor, guerra, moralidade e redenção, oferecendo uma rica reflexão sobre a condição humana.
Em 1862 casa-se com Sófia Andréievna Behrs, então com dezessete anos, com quem teria treze filhos. 

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Título original: Semeynoye Schast'ye (1859)
Tradução: Luís Cardoso (1861-?)
2014 © Centaur Editions
centaur.editions@gmail.com

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Tolstói - A Felicidade Conjugal (2ªParte: 3 - A partir desse dia)

A Felicidade Conjugal

Liev Tolstói

Segunda Parte
3

     A partir desse dia, transformaram-se completamente nossa vida e nossas relações. Não sentíamos o mesmo prazer de outrora em ficar a sós. Havia problemas que evitávamos com circunlóquios, e conversávamos mais facilmente em presença de um terceiro. Apenas se abordava a nossa vida na roça ou num baile, ficávamos atordoados e com vergonha de olhar um para o outro. Era como se ambos sentíssemos o lugar onde ficava o abismo que nos separava, e temêssemos aproximar nos dele. Eu estava certa de que ele era orgulhoso e irritadiço e que devia tomar cuidado, a fim de não tocar nas suas fraquezas. Ele tinha certeza de que eu não podia viver longe da sociedade, que a vida rural não me aprazia e que era preciso submeter-se a este gosto infeliz. Ambos evitávamos conversas diretas sobre esses temas, e fazíamos juízo falso um sobre o outro. Havia muito tempo já que deixáramos de ser um para o outro a pessoa mais perfeita do mundo, já fazíamos comparações com gente conhecida e, em segredo, julgávamos um ao outro. Fiquei adoentada antes do dia da partida e, em lugar de irmos para o campo, mudamo-nos para nossa casa de veraneio, nas proximidades, de onde meu marido viajou sozinho para junto da mãe. Quando ele estava de partida, eu já me restabelecera o suficiente para acompanhá-lo, mas ele convenceu-me a ficar ali, como se temesse pela minha saúde. Percebi que o seu temor não era pela saúde, mas que estava com medo de que não viveríamos bem no campo; não insisti muito e fiquei. Na sua ausência, senti vazio e solidão, mas, quando voltou, percebi que ele não acrescentava mais à minha vida o que lhe acrescentara outrora. As nossas relações de antes, quando todo pensamento ou impressão não comunicados a ele pesavam-me como um crime, quando toda ação, toda palavra dele pareciam-me um exemplo de perfeição, quando, de alegria, dava-nos vontade de rir, ao olharmo-nos, essas relações transformaram se tão imperceptivelmente que nem o notamos. Apareceram para cada um de nós interesses e preocupações próprios, específicos, e que não tentávamos mais fazer comuns. Deixou de confundir-nos o fato de cada um ter o seu mundo isolado, estranho para o outro. Acostumamo-nos com esta ideia, e um ano depois até deixamos de ficar atordoados, quando nos encarávamos. Desapareceram completamente os seus acessos de alegria na minha presença, o comportamento juvenil, desapareceram o seu perdão e indiferença em relação a tudo, que antes me indignavam, não lhe apareceu mais o olhar profundo que, antes, sempre me deixava confusa e me alegrava, sumiram as orações, os êxtases em comum, deixamos até de ver-nos com frequência, ele estava continuamente de viagem, e não temia, não lamentava deixar-me sozinha; eu aparecia continuamente na sociedade, onde não precisava dele. 
     Não havia mais entre nós cenas e desavenças, eu procurava agradar lhe, ele satisfazia todas as minhas vontades, e parecíamos amar-nos.
     Quando ficávamos a sós, o que já acontecia raramente, eu não experimentava alegria, nem perturbação, nem encabulamento, como se estivesse a sós comigo mesma. Eu sabia muito bem que ele era o meu marido, não algum homem novo, desconhecido, mas um homem bom, o meu marido, que eu conhecia como a mim mesma. Estava certa de saber tudo o que ele faria e diria, e como olharia; e se ele fazia algo ou olhava de maneira diversa da que eu esperava, tinha a impressão de que fora ele quem se enganara. Não esperava dele nada. Numa palavra, era meu marido e nada mais. Parecia-me que tudo devia ser assim mesmo, que não existiam relações de outro tipo e que elas nunca existiram entre nós. Quando ele partia, sobretudo nos primeiros tempos, eu me sentia solitária, assustava-me, na sua ausência sentia mais intensamente a significação do seu apoio para mim; quando ele chegava, atirava-me de alegria ao seu pescoço, embora duas horas depois esquecesse completamente essa alegria e não tivesse mais o que falar com ele. Apenas nos momentos de uma ternura quieta, moderada, que havia entre nós, eu tinha a impressão de que algo não estava bem, que algo me machucava o coração, e parecia-me ler o mesmo nos seus olhos. Eu sentia essa fronteira da ternura que ele agora como que não queria, e que eu não podia transpor. Isso entristecia-me às vezes, mas não havia tempo para se ficar pensando fosse no que fosse, e eu procurava esquecer essa tristeza da mudança confusamente percebida, entregando-me a divertimentos que estavam continuamente à minha disposição. A vida de sociedade, que a princípio me deixou ofuscada com o brilho e com as lisonjas ao amor-próprio, logo apossou-se totalmente dos meus gestos, tornou-se um hábito, impôs-me suas cadeias e ocupou em minha alma todo o lugar disponível ali para o sentimento. Agora, nunca mais ficava a sós comigo mesma e temia pensar na minha situação. Todo o meu tempo, desde tarde da manhã até tarde da noite, estava ocupado e não me pertencia, mesmo que eu não saísse de casa. Isto não me alegrava nem entediava mais, mas dava a impressão de que tudo sempre devia ser assim e não de outra maneira.
     Passaram-se três anos, no decorrer dos quais as nossas relações permaneceram as mesmas, como que se detiveram, estratificaram-se, e não podiam já tornar-se melhores ou piores. Nesses três anos, houve em nossa vida familiar dois acontecimentos importantes, mas que não alteraram a minha existência. Foram o nascimento de meu primeiro filho e a morte de Tatiana Siemiônovna. Nos primeiros tempos, o sentimento maternal apossou-se de mim com tamanha força e causou-me um êxtase tão inesperado que eu pensei estar em vias de iniciar-se para mim uma vida nova; mas, decorridos dois meses, quando tornei a frequentar a sociedade, este sentimento, diminuindo sempre, transformou-se num hábito e na fria execução de um dever. O meu marido, pelo contrário, por ocasião do nascimento de nosso primeiro filho, voltou a ser o homem tranquilo, pacato e caseiro de antes e transferiu para a criança toda a sua ternura e alegria de outros tempos. Muitas vezes, ao entrar de vestido de baile no quarto da criança, a fim de fazer sobre esta o sinal da cruz, antes que adormecesse, e encontrando ali meu marido, eu notava o seu olhar como que de censura e severamente atento, fixo em mim, e ficava envergonhada. Horrorizava-me de repente com a minha indiferença pela criança e perguntava de mim para mim: “Serei eu pior que as outras mulheres? Mas o que fazer? Amo o meu filho, mas não posso ficar sentada com ele dias a fio, tenho tédio; e de modo algum vou fingir”. A morte da mãe causou-lhe grande aflição; conforme dizia, era lhe penoso, depois disso, viver em Nikólskoie, e embora eu a lastimasse e partilhasse o desgosto do meu marido, era-me agora mais agradável, mais tranquilo, viver no campo. Passamos a maior parte daqueles três anos na cidade, eu ia à aldeia somente por dois meses, e no terceiro ano viajamos para o estrangeiro.
     No verão íamos a estações de águas.
     Eu tinha então vinte e um anos, as nossas finanças, pensava, eram florescentes, e da vida familiar eu não exigia nada além daquilo que ela me dava; todos os nossos conhecidos pareciam gostar de mim; tinha boa saúde, os meus vestidos eram os melhores na estação de águas, eu sabia que era bonita, o tempo estava lindo, cercava-me uma atmosfera de elegância e beleza e eu me sentia muito alegre. Não era a mesma alegria que em Nikólskoie, quando eu sentia ser feliz no próprio imo, feliz por ter merecido essa felicidade, que o meu sentimento era grande, mas devia ser ainda maior, quando sentia desejar mais e mais felicidade. Então, era outra coisa; mas, mesmo nesse verão, eu me sentia bem. Não queria nada, não esperava nada, não temia nada, minha vida, parecia me, estava repleta, e minha consciência parecia tranquila. Entre a mocidade dessa estação não havia nenhum homem que eu distinguisse dos demais de algum modo, ou mesmo do velho príncipe K., nosso embaixador, e que me fazia a corte. O jovem e o velho, o inglês muito louro e o francês de barbicha, todos eram iguais para mim, mas todos indispensáveis. Eram todos vultos por igual indiferentes, que formavam a alegre atmosfera de vida ao redor de mim. Apenas um deles, o marquês italiano D., chamou minha atenção mais que os restantes, graças à ousadia com que expressou o seu entusiasmo por mim. Não perdia nenhuma ocasião de estar comigo, de dançar, de passear comigo a cavalo, de acompanhar-me ao cassino etc. e de dizer-me que eu era bela. Vi-o da janela algumas vezes, nas proximidades de nossa casa, e o olhar fixo, frequentemente desagradável, dos seus olhos brilhantes obrigava me a enrubescer e a desviar o rosto. Era moço, bonito, elegante e, sobretudo, lembrava o meu marido pelo sorriso e pela expressão da fronte, embora fosse muito mais belo. Ele espantava-me com esta semelhança, ainda que tivesse de modo geral, nos lábios, no olhar, no queixo comprido, em lugar da encantadora expressão de bondade e de tranquilidade ideal de meu marido, algo animal e grosseiro. Eu supunha então que ele me amasse apaixonadamente, e pensava nele às vezes, com uma orgulhosa comiseração. Queria às vezes acalmá-lo, levá-lo a um tom de confiança tranquila, meio amigável, mas ele repelia abruptamente todas essas tentativas e continuava a perturbar-me desagradavelmente com a sua paixão inconfessada, mas sempre pronta a confessar-se. Embora não desse conta disso a mim mesma, eu temia aquele homem e, contra a minha vontade, pensava nele com frequência. O meu marido conhecia-o e tratava-o com frieza e altivez, de maneira ainda mais acentuada do que em relação aos nossos demais conhecidos, para os quais ele era apenas o marido de sua mulher. No fim da estação, adoeci e passei duas semanas sem sair de casa. Quando, depois da doença, saí pela primeira vez à noitinha a fim de ouvir música, soube que, na minha ausência, chegara Lady S., havia muito esperada e famosa pela sua beleza. Formou-se junto a mim um círculo, fui recebida com satisfação, mas o círculo formado junto à leoa recém-chegada era ainda melhor. À minha volta, todos só falavam dela e da sua beleza. Ela me foi mostrada, e realmente era encantadora, mas impressionou-me desfavoravelmente a presunção em seu rosto, e eu disse isto. Nesse dia, pareceu-me aborrecido tudo o que antes era tão alegre. No dia seguinte, Lady S. organizou uma excursão a um castelo, mas recusei-me a participar. Quase ninguém ficou para me fazer companhia, e tudo se alterou definitivamente aos meus olhos. Tudo e todos me pareceram estúpidos e enfadonhos, quis chorar, terminar o quanto antes a cura de águas e regressar à Rússia. Tinha no íntimo certo sentimento mau, mas eu ainda não o confessava a mim mesma. Alegando que estava fraca, deixei de aparecer em sociedade numerosa, somente de manhã ia de raro em raro tomar as águas, sozinha, ou visitava as redondezas, na companhia de L. M., uma russa minha conhecida. Meu marido fora passar alguns dias em Heidelberg, onde esperaria o fim de meu tratamento, a fim de voltarmos para a Rússia, e raramente vinha visitar-me.
     De uma feita, Lady S. atraiu toda a sociedade para uma caçada e, depois do jantar, L. M. e eu fomos visitar o castelo. Enquanto avançávamos a passo em nossa caleça, sobre a estrada tortuosa de macadame, em meio aos castanheiros seculares, entre os quais se viam ao longo as bonitas e elegantes redondezas de Baden-Baden, iluminadas pelo poente, começamos a conversar a sério, como jamais o fizéramos. L. M., que eu conhecia desde muito tempo, apareceu-me então pela primeira vez como uma mulher boa, inteligente, com quem se podia falar a respeito de tudo e de quem era agradável ser amiga. Falamos de família, de filhos, do vazio daquela vida na estação de águas, tivemos vontade de voltar para a Rússia, para a aldeia, e sentimos ao mesmo tempo tristeza e bem-estar. Sob o influxo deste mesmo sentimento sério, penetramos no castelo. Entre os seus muros, havia sombra, frescor; em cima, sobre as ruínas, cintilava o sol, ouviam-se passos e vozes. Pela porta, como se fosse moldura, via-se o panorama de Baden, belo, mas frio para nós, russos. Sentamo-nos para descansar e olhamos em silêncio o sol que se punha. As vozes ressoaram com maior nitidez, e eu tive a impressão de distinguir o meu sobrenome. Comecei a prestar atenção e involuntariamente ouvi tudo o que se dizia. As vozes eram conhecidas: tratava-se do marquês D. e de um francês, seu amigo, e que eu conhecia também. Falavam de mim e de Lady S. O francês comparava-me com ela e pormenorizava a beleza de ambas. Não dizia nada de ofensivo, mas o sangue afluiu-me ao coração, quando distingui as suas palavras. Explicava minuciosamente o que eu tinha de bonito e o que havia de bonito em Lady S. Eu tinha já um filho, e Lady S. estava com dezenove anos; eu tinha trança mais bela, mas, em compensação, Lady possuía um vulto mais gracioso; Lady era uma grande dama, enquanto esta “sua — disse ele — é mais ou menos uma dessas princesinhas russas que deram para aparecer aqui com tanta frequência”. Concluiu dizendo que eu fazia muito bem não tentando lutar com Lady S., e que em Baden-Baden, eu estava morta e enterrada.

— Tenho pena dela. 
— Só se ela não quiser consolar-se com você — acrescentou ele, com um riso alegre e cruel. 
— Se ela partir daqui, vou segui-la — disse rudemente uma voz com sotaque italiano. 
— Que feliz mortal! Ele ainda pode amar! — riu o francês. 
— Amar! — disse a voz e calou-se um pouco. — Eu não posso deixar de amar! Sem isto, não há vida. Fazer da vida um romance é o que pode haver de bom. O meu romance nunca se interrompe no meio, e também este eu hei de levar ao fim. 
— Bonne chance, mon ami¹ — disse o francês.

[1] Em francês no original: “Boa sorte, meu amigo”. (N. do T.)

     Não ouvimos mais nada, pois eles dobraram uma esquina, e os seus passos ressoaram do outro lado. Desciam a escada e, instantes mais tarde, surgiram por uma porta lateral e ficaram muito surpreendidos ao encontrar-nos. Corei quando o marquês D. aproximou-se de mim e fiquei com medo quando, ao sairmos do castelo, ele me deu o braço. Não podia recusá-lo, e dirigimo-nos para a caleça, seguindo L. M., que ia na frente com o amigo dele. Eu estava ofendida com o que dissera de mim o francês, embora tivesse consciência, secretamente, de que ele apenas nomeara o que eu mesma sentia; mas as palavras do marquês surpreenderam-me e deixaram-me indignada com a sua brutalidade. Atormentava-me o pensamento de que eu ouvira as suas palavras e que, apesar disso, ele não me temia. Tinha asco de senti-lo tão perto; e, sem olhar para ele, sem lhe responder, procurando segurar o braço de modo a não sentir o contato, caminhei apressada atrás de L. M. e do francês. O marquês dizia algo sobre a vista magnífica, sobre a felicidade inesperada de me encontrar e alguma coisa mais, porém eu não o ouvia. Nessa ocasião, pensava em meu marido, no filho, na Rússia; envergonhava-me de algo, queria algo, e apressava-me para chegar o quanto antes ao meu quarto solitário no Hôtel de Bade, a fim de refletir bem, em liberdade, em tudo o que acabara de se levantar em meu íntimo. Mas L. M. caminhava suavemente, ainda estávamos longe da caleça, e o meu cavalheiro, parecia-me, diminuía obstinadamente o passo, como que tentando deter-me. “Não pode ser!” — pensei e apressei-me decididamente. Mas sem dúvida alguma ele me retinha, e até me apertava o braço. L. M. dobrou uma curva da estrada e ficamos completamente a sós. Tive medo.

— Desculpe — disse eu com frieza e tentei retirar o braço, mas a renda da minha manga prendeu-se num botão dele. O marquês inclinou para mim o peito, pôs-se a separar a manga do botão, e os seus dedos sem luva tocaram-me o braço. Um sentimento novo para mim, não sei se de horror, não sei se de prazer, percorreu-me frígido a espádua. Olhei-o, a fim de expressar com um olhar frio todo o desprezo que sentia por ele; porém o meu olhar expressou outra coisa: susto e perturbação. Os seus olhos incendiados, úmidos, bem junto ao meu rosto, olhavam-me apaixonados, o meu pescoço, o meu peito, as suas mãos mexiam em meu braço, pouco acima do punho, os seus lábios abertos diziam algo, diziam que ele me amava, que eu era tudo para ele, e esses lábios aproximavam-se de mim, as suas mãos apertavam-me os braços com mais força e queimavam-me. O fogo percorria-me as veias, minha visão obscurecia-se, eu tremia, e as palavras, com que eu queria detê-lo, secavam-se na garganta. De repente, senti um beijo sobre a face e, toda trêmula e fria, estaquei, olhando para ele. Sem forças para falar, nem para me mexer, horrorizada, eu esperava e desejava algo. Tudo isso durou um instante. Mas esse instante foi terrível! Nesse instante, eu o via inteiro e tão bem. O seu rosto era tão compreensível para mim: essa testa abrupta e baixa, que lhe aparecia sob o chapéu de palha e que lembrava a testa de meu marido, esse nariz bonito, reto, de narinas dilatadas, esses bigodes compridos, untados, em ponta, essa barbicha, essas faces bem escanhoadas e esse pescoço queimado.

     Odiava-o e temia-o, ele me era tão estranho; mas, nesse momento, repercutiam tão fortemente em meu íntimo a perturbação e a paixão desse homem odioso, estranho para mim! Eu queria tão incoercívelmente entregar-me aos beijos dessa boca rude e bonita, ao carinho dessas mãos brancas de veias finas e com anéis nos dedos. Tinha tanta vontade de me atirar de cabeça no abismo de repente aberto, e que me atraía, o abismo das delícias proibidas...

“Sou tão infeliz — pensei —, pois bem, que mais e mais desgraças se acumulem sobre a minha cabeça.”

     Ele me envolveu com um dos braços e abaixou-se para o meu rosto. “Que mais e mais vergonha e pecado se acumulem sobre a minha cabeça.”

Je vous aime² — murmurou ele com uma voz que era tão parecida com a voz de meu marido. Lembrei-me de meu marido e do filho como criaturas queridas, que tivessem existido havia muito tempo e com as quais eu tivesse acabado qualquer relação. Mas eis que ressoou além da curva a voz de L. M., que me chamava. Voltei a mim, desvencilhei o braço e, sem olhar para ele, quase corri na direção de L. M. Sentamo-nos na caleça e somente então olhei-o. Tirara o chapéu e perguntava algo, sorrindo. Não compreendia a repugnância inexprimível que eu sentia por ele nesse instante.

[2] Em francês no original: “Eu te amo”. (N. do T.)

     Minha vida pareceu-me tão infeliz, o futuro tão sem esperança, o passado tão negro! L. M. falava comigo, mas eu não compreendia suas palavras. Tinha a impressão de que ela falava comigo unicamente por compaixão, a fim de ocultar o desprezo que eu suscitava nela. Em cada palavra, em cada olhar seu, eu parecia perceber esse desprezo e uma comiseração ofensiva. Aquele beijo queimava-me a face com a vergonha, e era insuportável para mim a lembrança de meu marido e do filho. Ficando sozinha no quarto, eu esperava refletir sobre a minha situação, mas tinha medo de estar sozinha. Não acabei de tomar o chá que me serviram, e, eu mesma sem saber para quê, com uma pressa febril, pus-me no mesmo instante a arrumar as malas para viajar naquela noite para Heidelberg, a fim de reunir-me a meu marido.
     Quando me sentei com a empregada no vagão vazio, quando o trem partiu e recebi ar fresco pela janela, comecei a voltar ao normal e a representar melhor, para mim mesma, meu passado e meu futuro. Toda a minha vida de casada, desde o dia de nossa mudança para Petersburgo, apareceu-me de repente sob uma luz nova e depositou-se sobre a minha consciência como uma censura. Pela primeira vez, lembrei vivamente os nossos primeiros tempos na aldeia, os nossos projetos, pela primeira vez surgiu-me na cabeça a pergunta: quais foram, afinal, as alegrias dele no decorrer de todo esse tempo? E me senti culpada perante ele. “Mas por que ele não me deteve, por que foi insincero comigo, por que evitou explicações, por que me ofendeu? — perguntei a mim mesma. — Por que não utilizou sobre mim o poderio do seu amor? Ou não me amava?” Mas, por mais culpa que ele tivesse, o beijo de um homem estranho estava ali sobre a minha face, e eu o sentia. Quanto mais eu me aproximava de Heidelberg, mais nitidamente imaginava o meu marido e tanto mais terrível me parecia a próxima entrevista. “Vou dizer-lhe tudo, tudo, resgatarei tudo perante ele com lágrimas de arrependimento — pensei — e ele há de me perdoar.” Mas eu mesma não sabia o que era aquele “tudo” que eu lhe diria, e não acreditava em que ele me perdoasse.
     Mas apenas entrei no quarto de meu marido e vi o seu rosto tranquilo, ainda que surpreendido, senti que não tinha nada a dizer-lhe, não tinha o que confessar nem motivo para lhe pedir perdão. A aflição inconfessada e o arrependimento deviam conservar-se dentro de mim.

— Como foi que tiveste esta ideia? — disse ele. — Imagina que eu pretendia ir amanhã para junto de ti. — Mas, examinando mais de perto o meu rosto, pareceu assustar-se. — O que tens? O que te aconteceu? 
— Nada — respondi, mal contendo as lágrimas. — Vim de vez. Vamos para casa, para a Rússia, nem que seja amanhã.

     Olhou-me bastante tempo, em silêncio e com atenção.

— Mas conta-me o que te aconteceu. — disse.

     Corei sem querer e baixei os olhos. Nos dele faiscou um sentimento de ofensa e ira. Assustei-me com os pensamentos que podiam acudir-lhe à mente, e disse com uma força de fingimento que nem suspeitava em mim:

— Não aconteceu nada, apenas senti tristeza e tédio sozinha, e pensei muito em ti e em nossa vida em comum. Faz tanto tempo que sou culpada diante de ti! Por que viajas comigo para lugares que não te atraem? Faz muito tempo que sou culpada diante de ti — repeti, e lágrimas voltaram-me aos olhos. — Vamos para a roça, e que seja para sempre.
— Ah! meu bem, livra-me de cenas sentimentais — disse ele com frieza —, é excelente que tu queiras ir para a roça, inclusive porque estamos com pouco dinheiro; mas, quanto a viver lá para sempre, é apenas um sonho. Eu sei que não vais tolerar. E agora, toma o teu chá, isto será melhor — concluiu, erguendo-se para chamar o garção.

     Eu imaginava tudo o que ele podia estar pensando a meu respeito, e ofendi-me com os pensamentos terríveis que atribuí a ele, quando encontrei, fixo em mim, o seu olhar indeciso e como que envergonhado. Não! Ele não queria e não podia compreender-me! Eu disse que ia olhar a criança, e afastei-me dele. Tive vontade de ficar sozinha e chorar, chorar, chorar...


Continua na página 101...
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Primeira Parte:
Segunda Parte: 
3 - A partir desse dia / 4 - A casa vazia  
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Liev Tolstói é um escritor russo nascido em 9 de setembro de 1828 e morreu em 20 de novembro 1910. De família aristocrata, ficou órfão de pai e mãe ainda na infância. Mais tarde, iniciou a Faculdade de Direito, mas abandonou o curso logo depois, e participou da Guerra da Crimeia. Seu sucesso como escritor ocorreu já com a publicação de suas três primeiras obras, uma trilogia composta pelos livros Infância, Adolescência e Juventude. No entanto, suas obras mais conhecidas são Guerra e Paz (entre 1865 e 1869) e Anna Karenina (entre 1875 e 1878).
Liev Tolstói, um dos maiores romancistas da literatura mundial, deixou um legado incomparável com suas obras-primas. Suas narrativas transcendem o tempo e continuam a ressoar com leitores de todas as gerações. Tolstói aborda temas como amor, guerra, moralidade e redenção, oferecendo uma rica reflexão sobre a condição humana.
Em 1862 casa-se com Sófia Andréievna Behrs, então com dezessete anos, com quem teria treze filhos. 

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Título original: Semeynoye Schast'ye (1859)
Tradução: Luís Cardoso (1861-?)
2014 © Centaur Editions
centaur.editions@gmail.com

domingo, 2 de agosto de 2026

Tolstói - A Felicidade Conjugal (2ªParte: 2 - A nossa viagem para Petersburgo)

A Felicidade Conjugal

Liev Tolstói

Segunda Parte
2

     A nossa viagem para Petersburgo, a semana passada em Moscou, os parentes dele e os meus, a instalação no apartamento novo, a estrada, as novas cidades, os rostos novos — tudo isso passou como um sonho. Tudo isso era tão variado, novo, alegre, tudo isso aparecia tão cálida e intensamente iluminado pela sua presença, pelo seu amor, que a pacata vida de roça pareceu-me algo muito distante no tempo e insignificante. Para meu grande espanto, em lugar da altivez mundana e da frieza que eu esperara encontrar nas pessoas, todos me recebiam com um carinho tão sincero, com tamanha alegria (não só os parentes, mas também os estranhos) que, segundo parecia, todos eles só haviam pensado em mim e era só a mim que esperavam, para que eles mesmos também se sentissem bem. De maneira igualmente inesperada para mim, apareceram para meu marido muitos conhecidos mesmo no círculo da sociedade que me parecia mais elevado, e dos quais ele nunca me falara; e frequentemente era-me estranho e desagradável ouvir dele juízos severos sobre algumas dessas pessoas, que me pareciam tão bondosas.
     Eu não podia compreender por que ele os tratava tão secamente e por que evitava muitas relações que me pareciam lisonjeiras. No meu entender, quanto mais pessoas bondosas se conhecesse, melhor, e todos eram bondosos.

— Está vendo como nos instalaremos? — disse ele, antes de deixarmos a aldeia — Aqui, somos pequenos Cresos, e lá seremos nada ricos, e por isso devemos morar na cidade somente até a Semana Santa e não frequentar a sociedade, senão vamos encalacrar-nos; e também para ti eu não gostaria... 
— Para quê a sociedade? — respondia eu. — Vamos apenas visitar os parentes, frequentar teatros, assistir à ópera, ouvir boa música, e, antes da Páscoa, voltaremos para o campo.

     Mal chegamos a Petersburgo, porém, estes planos ficaram esquecidos. Encontrei-me de repente num mundo tão novo e feliz, fui envolvida por tantas alegrias, interesses tão novos surgiram diante de mim, que renunciei num átimo, ainda que inconscientemente, a todo o meu passado e a todos os projetos desse passado. “Aquilo foi tudo à toa, umas brincadeiras; ainda não começara; mas eis a vida de verdade! E o que mais vai acontecer?” — pensava eu. A inquietação e um começo de angústia, que me perturbavam na roça, desapareceram por completo, num instante, como que por milagre. O amor pelo marido tornou-se mais repousado, e ali nunca me acudiu à mente a pergunta de se ele me amava menos. Ademais, eu não podia duvidar de seu amor, qualquer pensamento meu era compreendido imediatamente, qualquer sentimento partilhado, qualquer vontade satisfeita por ele. A sua tranquilidade desaparecera ali ou não me irritava mais. Além disso, eu sentia que, além do seu amor por mim, ele também se extasiava comigo. Frequentemente, depois de uma visita, de travar relações com alguém ou de uma recepção em nossa casa, quando eu, tremendo interiormente, com medo de errar, cumpria a função de dona de casa, ele dizia: “Mas que menina! Que bonito! Não se atemorize. Palavra que está bom!”. E eu ficava muito contente. Pouco depois da nossa chegada, ele escrevera uma carta à mãe, e, quando me chamou para acrescentar umas linhas, não quis deixar ler o que escrevera, em consequência do que eu naturalmente o exigi e li. “A senhora não reconhecerá Macha — escrevia ele — e eu mesmo não a reconheço. De onde lhe vem esta simpática e graciosa confiança em si, esta afabilidade, e mesmo uma inteligência típica da sociedade, além do jeito amável? E tudo isso simples, agradável, bonachão. Todos estão entusiasmados com ela, e eu mesmo não me canso de extasiar-me, e, se fosse possível, amá-la-ia mais ainda.”

“Ah! Então, assim é que eu sou!” — pensei. E senti bem-estar e alegria, pareceu-me até que o amava ainda mais. O meu êxito junto a todas as nossas relações foi completamente inesperado para mim. De todos os lados me diziam ora que eu agradara particularmente ao titio, ora que a tia estava completamente louca por mim, um me dizia que em Petersburgo não havia mulheres como eu, uma outra me afirmava que me bastava querer para me tornar a mulher mais fina da sociedade. Sobretudo uma prima de meu marido, a princesa D., mulher da sociedade já entrada em anos, e que de repente se apaixonara por mim, dizia-me mais que todos coisas lisonjeiras, que me faziam girar a cabeça. Quando, da primeira vez, a prima convidou-me para um baile e pediu isso a meu marido, ele dirigiu-se a mim e, com um sorriso ladino, quase imperceptível, perguntou se eu queria ir. Acenei afirmativamente a cabeça e senti que corava.

— Parece uma criminosa confessando o que tem vontade de fazer — disse ele, com um riso bonachão. 
— Mas tu dizias que nós não podemos frequentar a sociedade, e também não gostas disso — respondi, sorrindo e dirigindo-lhe um olhar súplice. 
— Se tens muita vontade, vamos — disse ele. 
— É melhor ficar em casa, palavra. 
— Mas queres? Muito? — tornou ele a perguntar.

     Não respondi.

— A sociedade ainda não é grande mal — prosseguiu —, mas o que é ruim e feio são os desejos sociais insatisfeitos. Temos que ir sem falta, e iremos — concluiu decidido. 
— Para ser sincera contigo — retruquei —, eu desejava este baile mais que tudo no mundo.

     Fomos, e o prazer que experimentei superou todas as minhas expectativas. No baile, ainda mais que antes, tive a impressão de ser o centro, junto ao qual tudo se movimentava, que somente para mim estava iluminado aquele grande salão, tocava a música e se reunira toda aquela gente, que se extasiava comigo. Todos, a começar pelo cabeleireiro e pela empregada e acabando com os dançarinos e com os velhos que cruzavam o salão, pareciam dizer-me ou dar-me a entender que me amavam. A opinião geral que se formou a meu respeito nesse baile, e que me foi transmitida pela prima, consistia em que eu era de todo diferente das demais mulheres e que havia em mim algo peculiar, da roça, singelo e encantador. Este êxito lisonjeou-me tanto que eu disse francamente ao meu marido como gostaria de nesse ano ir ainda a uns dois ou três bailes, “e isso para me fartar bem deles”, acrescentei, com uma dose de fingimento íntimo.
     Meu marido concordou de bom grado e, nos primeiros tempos, acompanhou-me com evidente prazer, alegrando-se com os meus êxitos e, segundo parecia, completamente esquecido do que afirmara antes, ou tendo renunciado a isso.
     Ulteriormente, tornou-se claro que ele se aborrecia e achava penosa a vida que levávamos. Mas eu tinha mais em que pensar; mesmo notando às vezes o seu olhar atento e sério, fixado interrogativamente em mim, eu não lhe compreendia a significação. Estava tão ofuscada com este amor que eu, parecia-me, subitamente despertara em todos os estranhos, com este ar de elegância, de prazer e de novidade, que eu respirava ali pela primeira vez, a tal ponto desaparecera de súbito a influência moral dele, que me esmagava, era para mim tão agradável não só igualar-me a ele nesse mundo, mas até colocar-me acima dele, e por isso amá-lo ainda mais, de modo mais independente, que eu não conseguia compreender o que ele podia ver de desagradável para mim na vida em sociedade. Eu experimentava o sentimento novo para mim de orgulho e autossatisfação, quando, entrando num baile, via todos os olhos dirigidos para mim, e quando ele, como que se constrangendo de confessar perante a multidão a sua posse sobre mim, apressava-se a deixar-me e perdia-se na turba negra dos fraques. “Espere! — pensava eu com frequência, procurando com os olhos, no fundo do salão, o seu vulto não notado, às vezes expressando tédio — espere! — pensava — chegaremos em casa e compreenderás e verás para quem eu me esforcei em ser bonita e brilhante, e o que eu amo em tudo o que me rodeia esta noite.” Eu mesma tinha sinceramente a impressão de que os meus êxitos alegravam-me unicamente por causa dele, para que eu estivesse em condições de sacrificá-los por ele. A vida em sociedade, pensava eu, só podia tornar-se nociva se eu me sentisse atraída por algum dos homens que eu encontrava ali e assim despertasse o ciúme do meu marido; mas ele confiava tanto em mim, parecia tão tranquilo e indiferente, e eu via todos aqueles jovens tão insignificantes em comparação com ele, que mesmo o único, a meu ver, perigo da sociedade não me atemorizava. Mas, não obstante isso, a atenção de muitos homens que encontrava dava-me prazer, lisonjeava o meu amor-próprio, obrigava a pensar que havia certo mérito em meu amor pelo meu marido, e tornava a minha maneira de tratá-lo mais autoconfiante e como que mais descuidada.

— Eu te vi conversar muito animado com N. N. — disse eu de uma feita em que voltávamos de um baile, ameaçando-o com o dedo e nomeando uma das damas conhecidas de Petersburgo, com quem ele realmente conversara aquela noite. Eu dissera-o para sacudi-lo um pouco, pois estava particularmente silencioso e entediado. 
— Ah, para que falar assim? E ainda mais tu, Macha! — deixou ele escapar entre os dentes, com uma careta, que parecia causada por uma dor física. — Como isso não combina conosco! Deixa isso para os demais; estas relações falsas podem estragar as nossas verdadeiras, e eu ainda tenho a esperança de que voltemos às verdadeiras.

     Envergonhei-me e fiquei calada.

— Vão voltar essas relações, Macha? Qual é a tua impressão? — perguntou ele. 
— Elas nunca se estragaram, nem vão se estragar — disse eu, e era justamente a minha opinião na época. 
— Deus queira — disse ele —, pois já é tempo de voltarmos para o campo.

     Mas ele só me disse isso uma vez, o resto do tempo parecia-me sentir-se tão bem como eu, que experimentava tamanha alegria e contentamento. E se às vezes ele se aborrece — consolava-me eu —, também eu me entediei por sua causa na roça; e se as nossas relações chegaram a modificar-se um pouco, tudo voltará a ser como antes, logo que fiquemos a sós com Tatiana Siemiônovna, em nossa casa de Nikólskoie.
     Assim decorreu o inverno, imperceptivelmente para mim, e, contrariamente aos nossos planos, passamos em Petersburgo mesmo a Semana Santa. Na semana seguinte, quando já nos preparávamos para viajar, as malas feitas, meu marido, que estava comprando presentes e objetos para amenizar a vida na aldeia, encontrava-se num estado de ânimo particularmente carinhoso e alegre. A prima inesperadamente veio visitar-nos e pediu que ficássemos até sábado, a fim de ir à recepção da condessa R. Ela dizia que esta insistia muito na minha presença, que o príncipe M., então em Petersburgo, ainda no baile anterior manifestara a intenção de conhecer-me, somente por isso ia à recepção, e dizia que eu era a mulher mais bonitinha de toda a Rússia. A cidade inteira estaria lá, e, numa palavra, seria muito feio se eu não comparecesse.
     Meu marido estava então na outra ponta da sala de visitas, conversando com alguém.

— Então, virá, Marie? — perguntou a prima. 
— Nós queríamos voltar depois de amanhã para a roça — respondi vacilante, depois de dirigir um olhar ao meu marido. Os nossos olhos encontraram-se, ele virou apressadamente o rosto. 
— Vou convencê-lo a ficar — disse a prima — e nós vamos deixar todo mundo tonto no sábado. Certo? 
— Isso estragaria os nossos planos, e nós já fizemos as malas — respondi, começando a render-me. 
— Seria melhor que ela fosse esta noite saudar o príncipe — disse o meu marido da outra ponta da sala, num tom de irritação contida, que eu nunca lhe ouvira. 
— Ah! Ele está enciumado, é a primeira vez que vejo isso — riu a prima. — Mas não é por causa do príncipe, Sierguiéi Mikháilovitch, que eu a estou convencendo, é por causa de nós todos. Como a condessa R. insistiu em que ela viesse! 
— Depende dela — disse meu marido com frieza e saiu. 

     Vi que estava mais perturbado que de costume; isto me atormentou e eu não disse nada à prima. Apenas ela partiu, fui ter com o meu marido. Ele estava caminhando pensativo de um canto a outro e não me viu nem ouviu entrar na sala nas pontas dos pés.

“Ele já está imaginando a nossa querida casa de Nikólskoie — pensei, olhando para ele —, o café matinal na clara sala de visitas, os campos, os mujiques, os serões na sala de repouso e as misteriosas ceias noturnas. Não! — decidi comigo mesma — Vou trocar todos os bailes do mundo e a lisonja de todos os príncipes pela sua alegre perturbação, pelos seus suaves carinhos.” Quis dizer-lhe que não iria à recepção, que não tinha vontade, quando, de repente, ele se voltou e, vendo-me, ficou sombrio e mudou a expressão humilde e pensativa do rosto. Seu olhar tornou a expressar penetração, sabedoria e uma serenidade protetora. Não queria que eu visse nele uma pessoa comum; precisava apresentar se sempre perante mim como um semideus sobre um pedestal.

— O que queres, minha amiga? — perguntou, voltando-se descuidada e tranquilamente para mim.

     Não respondi. Fiquei magoada porque ele escondia-se de mim, porque não queria permanecer do jeito como eu o amava.

— Queres ir sábado à recepção? — perguntou-me. 
— Eu queria — respondi —, mas isso não te agrada. E além disso, as malas já estão feitas — acrescentei.

     Nunca ele me olhara com tamanha frieza, nunca falara comigo tão friamente.

— Não vou partir antes de terça-feira, e mandarei desfazer as malas — disse ele —, por isso podes ir, se tens vontade. Vai, por favor. Eu não vou partir.

     Tal como sempre nas ocasiões de perturbação, pôs-se a caminhar nervoso pelo quarto, sem olhar para mim.

— Decididamente, não te compreendo — disse eu, parada no mesmo lugar e seguindo-o com os olhos —, dizes que estás sempre tão calmo (ele jamais o dissera). Por que falas comigo de modo tão estranho? Estou pronta a sacrificar por ti este prazer, e tu me exiges, com um tom irônico que nunca usaste comigo, que eu vá. 
— E então?! Tu fazes sacrifício (deu uma entonação peculiar a essa frase), e eu faço sacrifício também, o que pode haver de melhor? A luta da grandeza de alma. Para que então felicidade conjugal?

     Era a primeira vez que eu lhe ouvia palavras tão exasperadamente zombeteiras. A sua zombaria não me envergonhou, mas ofendeu-me, e a exasperação não me assustou, mas comunicou-se a mim. Era ele quem me dizia isso, ele que sempre temera uma frase que pudesse prejudicar as nossas relações, ele que era sempre simples e franco? E por quê? Exatamente porque eu quisera sacrificar-lhe um prazer, no qual não podia ver nada de ruim, e porque um instante antes disso eu o compreendia e amava tanto. Trocaram-se os nossos papéis: ele evitava as palavras simples e diretas, enquanto eu as procurava.

— Tu mudaste muito — disse eu, depois de um suspiro. — Em que sou culpada diante de ti? Não é essa recepção e sim algo mais velho e diferente que tens contra mim no coração. Para quê a insinceridade? Não eras tu quem a temia tanto em outros tempos? Deves dizer francamente: o que tens contra mim? — “O que terá para dizer?” — pensei, lembrando envaidecida que não tinha nada a me censurar em todo aquele inverno.

     Fui para o centro do quarto, de modo que ele precisava passar perto de mim, e fiquei olhando para ele. “Vai aproximar-se, abraçar-me, e tudo estará acabado” — acudiu-me à mente e tive até pena de que não fosse mais necessário demonstrar-lhe que não tinha razão. Mas ele parou na extremidade do quarto e me olhou.

— Continuas não compreendendo? — perguntou.
— Não. 
— Neste caso, vou dizer-te uma coisa. Tenho nojo, pela primeira vez tenho nojo do que sinto e não posso deixar de sentir. — Deteve-se, aparentemente assustado com o som rude da sua voz. 
— E então? — perguntei, com lágrimas de indignação. 
— Tenho nojo porque o príncipe achou-te bonitinha e porque, por causa disso, corres ao encontro dele, esquecendo o marido, a ti mesma, a dignidade de mulher, e não queres compreender o que deve sentir em teu lugar o teu marido, se em ti mesma não existe sentimento de dignidade; pelo contrário, vens dizer ao marido que fazes sacrifício, isto é, “apresentar-me perante Sua Alteza é uma grande felicidade para mim, mas eu a sacrifico”.

     Quanto mais ele falava, mais se inflamava com o som da própria voz, que soava com um tom áspero, grosseiro, mordaz. Eu nunca o vira nem esperara ver desse jeito; o sangue afluiu-me ao coração, eu tinha medo, mas ao mesmo tempo perturbava-me um sentimento de vergonha imerecida e de amor-próprio ofendido, e vinha-me uma vontade de vingar-me do meu marido.

— Eu já o esperava há muito — disse —, fala, fala. 
— Não sei o que esperavas — prosseguiu ele —, quanto a mim, podia esperar o pior, vendo-te diariamente nessa lama e ociosidade, em meio ao luxo da sociedade estúpida; e acabei por compreender... Compreendi o seguinte: hoje, senti vergonha e dor como nunca; dor por mim, quando a tua amiga penetrou-me no coração com as suas mãos sujas e pôs-se a falar de ciúme, do meu ciúme, e por quem? Por um homem que nem eu nem tu conhecemos. E tu, como se fosse de propósito, não queres compreender-me e queres sacrificar-me o quê?... Tenho vergonha por ti, pela tua humilhação!... Uma sacrificada! — repetiu ele.

“Ah! Então é este o poder do marido — pensei. — Ofender e humilhar uma mulher sem nenhuma culpa. Nisso é que consistem os direitos do marido, mas eu não me submeterei a eles.”

— Não, eu não sacrifico nada a ti — disse eu, sentindo dilatarem-se desmesuradamente as narinas e o sangue abandonar-me o rosto. — Vou sábado à recepção, vou sem falta. 
— E que Deus te conceda grande prazer, mas tudo está acabado entre nós dois! — gritou ele, já num acesso de incontido furor. — Mas tu não vais me atormentar mais. Fui um tolo porque... — começou novamente, mas tremeram-lhe os lábios, e ele conteve-se, com evidente esforço, de concluir o que começara.

     Eu temia-o e odiava-o nesse instante. Queria dizer-lhe muita coisa e vingar-me de todas as ofensas; mas, se abrisse a boca, cairia em pranto e me diminuiria perante ele. Calada, saí do quarto. Mas apenas deixei de ouvir seus passos, fiquei horrorizada com o que fizéramos.
     Tive medo, porque parecia romper-se para sempre aquela ligação, que era toda a minha felicidade, e quis voltar. “Mas estará ele suficientemente tranquilizado, para compreender-me, quando eu lhe estender em silêncio a mão e olhar para ele? — pensei. — Compreenderá a minha generosidade? E o que acontecerá se ele chamar a minha aflição de fingimento? Ou certo de estar com a razão, com um orgulho tranquilo, aceitar o meu arrependimento e me perdoar? E por que, por que ele, que eu tanto amei, ofendeu-me tão cruelmente?...”
     Dirigi-me não para ele, mas para o meu quarto, onde fiquei muito tempo sentada sozinha, chorando, lembrando horrorizada cada palavra da conversa que tivéramos, substituindo esses termos por outros, acrescentando palavras de bondade, e lembrando novamente, com horror e um sentimento de ofensa, tudo o que sucedera. Quando, à noitinha, saí para o chá e, na presença de S., que nos visitava, encontrei-me com meu marido, senti que, a partir desse dia, um abismo tinha se cavado entre nós. S. perguntou-me quando viajaríamos. Não tive tempo de lhe responder.

— Terça-feira — respondeu meu marido —, nós ainda iremos à recepção da condessa R. Tu vais mesmo, não é verdade? — disse, dirigindo-se a mim.

     Assustei-me com o som dessa voz singela e olhei timidamente para meu marido. Os seus olhos estavam fixos diretamente em mim, o olhar era mau e zombeteiro, a voz fria e regular.

— Sim — respondi.

     Mais tarde, quando ficamos a sós, aproximou-se de mim e estendeu-me a mão.

— Esquece, por favor, tudo o que eu te disse.

     Tomei-lhe a mão, um sorriso trêmulo apareceu-me no rosto, e lágrimas estavam prontas a escorrer-me dos olhos, mas ele retirou a mão e, como que temendo uma cena sentimental, sentou-se na poltrona, bastante afastado de mim. “Será possível que ele continue a julgar-se com a razão?”, pensei, e a explicação, que já tinha pronta, bem como o pedido de não ir àquela recepção detiveram-se sobre a minha língua.

— Temos que escrever a mamãe que adiamos a partida — disse ele —, senão, ficará preocupada. 
— E quando pretendes partir? — perguntei. 
— Terça-feira, depois da recepção — respondeu. 
— Espero que não seja por minha causa — disse eu, fitando-o nos olhos, mas os dele estavam somente olhando e não me diziam nada, como que toldados com algo. De súbito, seu rosto pareceu-me velho e desagradável. 

     Fomos à recepção, e relações boas, amistosas, pareciam novamente estabelecidas entre nós; mas essas relações eram de todo diferentes das anteriores.
     Na recepção, eu estava entre umas senhoras, quando o príncipe acercou-se de mim, de modo que eu tive de me levantar, a fim de conversar com ele. Levantando-me, procurei involuntariamente meu marido com os olhos e vi que, no outro canto da sala, ele me olhava, e que, nesse momento, virava a cabeça. De repente, senti tanta vergonha e mágoa que me confundi morbidamente, e um rubor cobriu-me o rosto e o pescoço, sob o olhar do príncipe. Mas eu tive de ficar ali de pé e ouvir o que ele me dizia, examinando-me de cima. A nossa conversa foi breve, ele não tinha um lugar para se sentar junto a mim, e provavelmente percebeu que eu me sentia muito constrangida. A conversa versou sobre o baile anterior, sobre o lugar em que eu passava o verão etc. Ao afastar-se de mim, manifestou o desejo de conhecer meu marido, e eu os vi conversando na outra extremidade do salão. O príncipe, provavelmente, disse algo a meu respeito, pois, em meio à conversa, sorriu e olhou na minha direção.
     Meu marido de repente corou, fez uma saudação profunda e afastou-se do príncipe. Corei também, tive vergonha da ideia que o príncipe faria de mim e, sobretudo, de meu marido. Tive a impressão de que todos notaram o meu embaraço, quando eu falava com ele, bem como a estranha conduta de meu marido; Deus sabe como podiam explicá-la; não estariam mesmo a par da minha conversa com ele? A prima acompanhou-me até nossa casa, e, pelo caminho, conversamos sobre meu marido. Não me contive e contei-lhe tudo o que sucedera entre nós por causa dessa infeliz recepção. Ela procurou acalmar-me, dizendo que era uma desavença insignificante e muito comum, que não deixaria vestígios; explicou-me também, do seu ponto de vista, o caráter de meu marido, achou que ele se tornara muito arredio e orgulhoso; concordei com ela, e tive a impressão de que eu mesma passara a compreendê-lo melhor, com mais tranquilidade.
     Mas depois, a sós com ele, este juízo a seu respeito ficou como um crime sobre a minha consciência, e eu senti que o abismo entre nós tornara-se ainda maior.

Continua na página 90...
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Primeira Parte:
Segunda Parte: 
1- Os dias, as semanas, dois meses de solitária vida / 2 - A nossa viagem para Petersburgo /
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Liev Tolstói é um escritor russo nascido em 9 de setembro de 1828 e morreu em 20 de novembro 1910. De família aristocrata, ficou órfão de pai e mãe ainda na infância. Mais tarde, iniciou a Faculdade de Direito, mas abandonou o curso logo depois, e participou da Guerra da Crimeia. Seu sucesso como escritor ocorreu já com a publicação de suas três primeiras obras, uma trilogia composta pelos livros Infância, Adolescência e Juventude. No entanto, suas obras mais conhecidas são Guerra e Paz e Anna Karenina.
Liev Tolstói, um dos maiores romancistas da literatura mundial, deixou um legado incomparável com suas obras-primas. Suas narrativas transcendem o tempo e continuam a ressoar com leitores de todas as gerações. Tolstói aborda temas como amor, guerra, moralidade e redenção, oferecendo uma rica reflexão sobre a condição humana.

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Título original: Semeynoye Schast'ye (1859)
Tradução: Luís Cardoso (1861-?)
2014 © Centaur Editions
centaur.editions@gmail.com

sábado, 18 de julho de 2026

Tolstói - A Felicidade Conjugal (2ªParte: 1- Os dias, as semanas, dois meses de solitária vida)

A Felicidade Conjugal

Liev Tolstói

Segunda Parte
1

     Os dias, as semanas, dois meses de solitária vida na roça passaram imperceptíveis, como parecia então; e, no entanto, dariam para a vida inteira os sentimentos, a perturbação e a felicidade desses dois meses. Os nossos sonhos sobre como ia arranjar-se a nossa vida na roça realizaram-se de maneira completamente diversa do que esperávamos. Mas a nossa existência não era pior que os nossos sonhos. Não havia esse trabalho severo, o cumprimento de um dever de abnegação, de viver para outrem, que eu imaginara quando noiva; existia pelo contrário um sentimento de amor a si mesmo, em nosso amor, um pelo outro, um desejo de ser amado, uma alegria contínua e sem motivo e o esquecimento de tudo no mundo. É verdade, ele às vezes ia ocupar-se de algo em seu escritório, por vezes partia para tratar de negócios na cidade ou saía a cuidar da administração; mas eu via o quanto lhe era difícil arrancar-se de perto de mim. E ele mesmo confessava depois que tudo no mundo, onde eu não estava, parecia-lhe tamanha tolice que não conseguia compreender como alguém podia tratar daquilo. Minha vida decorria como antes. Eu lia, ocupava-me da música, da mãe dele, da escola; porém tudo isso unicamente porque estava relacionado a ele e merecia a sua aprovação; mas bastava o pensamento nele não se acrescentar a alguma tarefa, as minhas mãos descaíam e parecia-me tão divertido pensar que existia no mundo algo além dele. Talvez isto fosse um sentimento ruim, de amor a mim mesma; mas ele dava-me felicidade e elevava-me muito acima do mundo inteiro. Somente ele existia para mim, e eu considerava-o como a pessoa mais bela, mais sem pecados no mundo; e justamente por isso eu não conseguia viver para mais nada, com exceção dele, só vivia para ser aos seus olhos aquilo que ele esperava de mim. E ele, por sua vez, considerava-me a primeira, a mais bela dentre as mulheres, que possuía todas as virtudes possíveis; e eu procurava ser essa mulher aos olhos do primeiro e do melhor homem do mundo.
     De uma feita, ele entrou no meu quarto quando eu estava rezando a Deus. Voltei-me para olhá-lo e continuei a rezar. Ele sentou-se à mesa, a fim de não me estorvar, e abriu um livro. Mas tive a impressão de que me olhava e tornei a virar-me. Ele sorriu, eu soltei uma risada e não consegui prosseguir na oração.

— Já rezaste? — perguntei. 
— Sim. Continua, eu vou embora. 
— Tu rezas? Espero que sim.

     Procurou sair dali sem responder, mas detive-o.

— Meu querido, por favor, faça isso por mim, reze comigo.

     Colocou-se ao meu lado e, baixando desajeitado os braços, o rosto sério, pôs-se a rezar, gaguejando. Voltava-se de raro em raro para mim, procurava em meu rosto ajuda e aprovação.
     Quando terminou, ri e abracei-o.

— Sempre tu, sempre tu! Como se eu tivesse de novo dez anos — disse ele corando e beijando-me as mãos.

     Nossa casa era uma dessas velhas casas de aldeia em que viveram algumas gerações da mesma família, amando-se e respeitando-se. Tudo cheirava a boas e honestas recordações familiares, as quais, apenas eu entrara ali, tornaram-se como que também minhas recordações. Tatiana Siemiônovna arrumava e administrava a casa à moda antiga. Não se pode dizer que tudo fosse bonito e elegante; mas, desde a criadagem até a mobília e a comida, era tudo farto, asseado, sólido, arrumado, e infundia respeito. Na sala de visitas, a mobília estava disposta simetricamente, pendiam retratos e, no chão, estendiam-se tapetes caseiros e passadeiras. Na sala de repouso, havia um velho piano de cauda, armários de dois modelos diversos, divãs e mesinhas com latão e incrustações. No meu escritório, arrumado graças aos cuidados de Tatiana Siemiônovna, estava a mobília melhor, de diferentes séculos e modelos, além de um velho tremó, para o qual eu a princípio não podia olhar sem ficar encabulada, mas que depois se tornou caro para mim, como um velho amigo. Não se ouvia Tatiana Siemiônovna, porém tudo em casa funcionava como um relógio, embora houvesse muita gente supérflua. Mas toda essa gente, que usava botas macias, sem saltos (Tatiana Siemiônovna considerava o ranger das solas de sapato e o bater de saltos como a coisa mais desagradável no mundo), toda essa gente parecia orgulhosa da sua condição, palpitavam ante a velha senhora, olhavam para mim e meu marido com um carinho condescendente e pareciam executar as suas tarefas com particular prazer. Todos os sábados, infalivelmente, lavava-se o chão da casa e batiam-se os tapetes, cada dia primeiro celebrava-se um ofício e esparzia-se água benta, sempre que uma criança recebia o nome de Tatiana Siemiônovna, do seu filho (e o meu, pela primeira vez, nesse outono), celebrava-se uma festança, convidando-se todos os vizinhos. E tudo isso fazia-se invariavelmente desde os primeiros tempos de que Tatiana Siemiônovna se lembrava. O meu marido não se imiscuía na administração da casa e ocupava-se somente com as coisas agrícolas e os camponeses, mas ficava muito atarefado. Mesmo no inverno, levantava-se muito cedo, de modo que, ao acordar, eu não o encontrava mais. Voltava geralmente para o chá, que tomávamos a sós, e quase sempre nessa ocasião, depois das correrias e preocupações decorrentes dos seus afazeres estava naquela peculiar disposição alegre que nós chamávamos de entusiasmo selvagem. Frequentemente, eu exigia que me contasse o que fizera de manhã, e ele me dizia tais absurdos que nós quase morríamos de rir: às vezes, eu exigia um relato sério, e ele o fazia, contendo o sorriso. Eu fitava-o nos olhos, nos lábios que se moviam, e não compreendia nada, apenas me alegrava de vê-lo e ouvir-lhe a voz.

— Bem, o que foi que eu disse? Repita — perguntava ele. Mas eu era incapaz de fazê-lo. Era tão engraçado que ele me contasse coisas que não se referiam a mim e a ele. Como se não me fosse indiferente tudo o que fazia por lá. Somente bem mais tarde, comecei a compreender um pouco as suas preocupações e a interessar-me por elas. Tatiana Siemiônovna não saía do quarto antes do jantar, tomava chá sozinha e só nos cumprimentava por meio de embaixadores. Em nosso mundinho peculiar, loucamente feliz, ressoava tão estranhamente aquela voz vinda de um outro canto, repassada de gravidade e boas maneiras, que eu frequentemente não me continha e somente dava gargalhada, em resposta à criada que, cruzando os braços, comunicava pausadamente que Tatiana Siemiônovna mandara saber como dormimos depois do passeio da véspera e comunicar que tivera a noite inteira uma dor do lado e que um cachorro estúpido da aldeia latira, impedindo-a de dormir. “E ainda mandou perguntar se gostaram das bolachas de hoje, e pediu para observar que não foi Tarás quem as preparou, mas, por experiência, pela primeira vez, o Nikolacha,¹ e saiu-se nada mal, principalmente com as rosquinhas, mas não tirou as torradas a tempo do forno.” Até o jantar, passávamos pouco tempo juntos. Eu tocava piano, lia sozinha, ele escrevia, tornava a sair; mas, para o jantar, às quatro horas, reuníamo-nos na sala de visitas, a mãe dele deslizava para fora do seu quarto, e apareciam umas pobres fidalgas em peregrinação, pois havia sempre umas duas ou três hospedadas em casa. Todos os dias infalivelmente, meu marido, seguindo velho costume, dava o braço à mãe, a fim de conduzi-la para o jantar; mas ela exigia que me desse o outro, e infalivelmente, todos os dias, ficávamos comprimidos e atrapalhados na entrada da sala. Também a mãe presidia à mesa, e a conversa era sempre conveniente, judiciosa e um tanto solene. As palavras simples que eu trocava com meu marido destruíam agradavelmente a solenidade dessas sessões de jantar. Às vezes, tinham lugar entre o filho e a mãe discussões e caçoadas; eu gostava disso particularmente, pois nelas é que se expressava com mais força o amor terno e firme que os unia. Depois do jantar, maman sentava-se numa grande poltrona na sala de visitas e picava fumo ou cortava as páginas de livros recém-recebidos, e nós líamos em voz alta ou íamos à sala de repouso, para junto do piano. Nessa época, líamos muito, juntos, mas a música era o nosso melhor e mais amado prazer, atingindo cada vez novas cordas em nossos corações e como que tornando a desvendar-nos um ao outro. Quando eu tocava as suas peças prediletas, ele sentava-se num divã afastado, onde eu quase não o via, e por vergonha do sentimento, procurava esconder a impressão que a música lhe causava; mas frequentemente, quando ele menos esperava, eu erguia-me do piano, aproximava-me dele e tentava surpreender-lhe no rosto os vestígios de perturbação, o brilho pouco natural e os olhos úmidos, que ele procurava em vão esconder de mim. A mãe frequentemente tinha vontade de olhar para nós na sala de repouso, mas, provavelmente temerosa de nos constranger, e às vezes parecendo não nos olhar, cruzava a sala com um rosto fingidamente sério e indiferente; mas eu sabia que ela não tinha motivo para ir ao seu quarto e voltar tão depressa. Era eu quem servia o chá da noite, na grande sala de visitas, e novamente todos se reuniam à mesa. Durante muito tempo, eu ficava perturbada com esta sessão solene, junto ao espelho do samovar, e com a distribuição de copos e xícaras. Eu tinha continuamente a impressão de ser ainda indigna dessa honra, de ser demasiado jovem e fútil, para virar a torneira de um samovar tão grande, colocar o copo sobre a bandeja de Nikita e dizer: “A Piotr Ivânovitch, a Mária Mínitchna”, perguntar: “Está doce?” e deixar torrões de açúcar para a ama-seca e os criados mais merecedores. “Bonito, bonito — acrescentava muitas vezes meu marido —, parece gente grande”, e isso perturbava-me ainda mais.

[1] Diminutivo de Nikolai. (N. do T.) 

     Depois do chá, maman espalhava o jogo da paciência ou ouvia as adivinhações de Mária Mínitchna; depois nos beijava a ambos, fazia sobre nós o sinal da cruz, e íamos para o nosso quarto. No entanto, quase sempre, ficávamos sentados até depois de meia-noite, e este era o nosso tempo melhor e mais agradável. Ele me contava o seu passado, fazíamos planos, às vezes filosofávamos e procurávamos dizer tudo a meia-voz, para que não nos ouvissem em cima e não fossem denunciar nos a Tatiana Siemiônovna, que exigia de nós que deitássemos cedo. Às vezes, com fome, íamos às escondidas para a cozinha, obtínhamos a ceia fria, graças à proteção de Nikita, e a comíamos à luz de uma só vela, em meu escritório. Vivíamos os dois como estranhos nessa casa grande e velha, em que pairava sobre todas as coisas o espírito severo do antigo, bem como o de Tatiana Siemiônovna. Não apenas ela, mas os criados, as solteironas, a mobília, os quadros, suscitavam o meu respeito, certo medo e a consciência de que estávamos um pouco fora do nosso lugar, e que precisávamos viver ali com muito cuidado e atenção. Ao lembrar agora aqueles dias, vejo que muita coisa — aquela invariável ordem, que nos amarrava, aquela infinidade de pessoas ociosas e indiscretas em nossa casa — era incômoda e pesada; mas, naquele tempo, o próprio constrangimento em que vivíamos vivificava ainda mais o nosso amor. Não só eu, mas também ele, não dávamos mostra de que algo nos desagradava. Ele parecia até esconder-se do que era ruim. O criado de mamãe, Dmítri Sídorov, grande apreciador do cachimbo, ia regularmente todos os dias, depois do jantar, quando estávamos na sala de repouso, ao escritório de meu marido, a fim de apanhar fumo numa gaveta; e era de se ver o medo alegre com que Sierguiéi Mikháilitch acercava-se de mim na ponta dos pés e, fazendo ameaças com o dedo e piscando um olho, apontava Dmítri Sídorovitch, que não suspeitava de modo algum estar sendo visto. E quando Dmítri Sídorov ia embora sem nos ter percebido, contente porque tudo acabara bem, como das vezes anteriores, meu marido dizia que eu era uma pérola e beijava-me. Às vezes, desagradavam-me essa tranquilidade, esse perdão de tudo, essa como que indiferença: eu não percebia que o mesmo existia em mim, e considerava-o uma fraqueza. “É como uma criança que não ousa mostrar a sua vontade!” — pensava eu.

— Ah, minha amiga — respondeu-me de uma feita em que lhe disse estar surpreendida com a sua fraqueza —, pode-se acaso estar descontente com alguma coisa, quando se é tão feliz como eu? É mais fácil nós mesmos cedermos do que subjugar a outrem, já me convenci disso há muito tempo; e não existe uma situação em que não se possa ser feliz. E nós estamos tão bem! Não posso ficar zangado; para mim agora não existem coisas ruins, só existe o que é lastimável e o que é divertido. E, sobretudo, le mieux est l'ennemi du bien.² Acreditas? Quando ouço a campainha, quando recebo uma carta ou simplesmente acordo, tenho medo. Medo de que seja preciso viver, de que algo vá mudar; e não possa existir nada melhor que esta nossa vida de agora.

[2] Provérbio francês: “o melhor é inimigo do bom”. (N. do T.)

     Eu acreditava, mas não o compreendia. Sentia-me bem, mas, ao mesmo tempo, tinha a impressão de que, embora tudo isso fosse assim, existia em alguma parte uma outra felicidade, ainda que não maior.
     Assim decorreram dois meses, chegou o inverno com os seus frios e tempestades de neve, e, embora ele estivesse comigo, comecei a sentir me solitária, comecei a sentir que a vida se repetia, e não havia quer em mim quer nele nada de novo, e que, pelo contrário, nós como que voltávamos ao antigo. Ele começou a ocupar-se de negócios mais que antes, e novamente passou a parecer-me que havia em seu íntimo certo mundo peculiar, no qual ele não me queria deixar penetrar. A sua tranquilidade de sempre irritava-me. Eu o amava não menos que antes, e não menos que antes era feliz com o seu amor; mas o meu amor deteve se e não crescia mais, e, além do amor, não sei que novo sentimento inquieto começava a penetrar-me furtivamente a alma. Amar era pouco para mim, depois que eu experimentara a felicidade de apaixonar-me por ele. Eu queria movimento, e não uma fluência tranquila da vida. Queria inquietação, perigos e autossacrifício em prol do sentimento. Havia em mim um excesso de força, que não encontrava lugar em nossa vida sossegada. Assaltavam-me repentes de angústia, que eu procurava esconder dele, como algo ruim, e repentes de ternura desenfreada e alegria, que o assustavam. Ele percebeu ainda antes de mim o meu estado e propôs-me irmos para a cidade; mas eu lhe pedi para não o fazermos, a fim de não mudar o nosso modo de vida, não alterar a nossa felicidade. E realmente eu era feliz; mas atormentava-me o fato de que essa felicidade não me custava nenhum trabalho, nenhum sacrifício, enquanto as forças do trabalho e do sacrifício, reprimidas, me faziam sofrer. Amava-o e via que era tudo para ele; mas eu queria que todos vissem o nosso amor, que me impedissem de amá-lo e que eu o amasse assim mesmo. A minha inteligência e até o meu sentimento estavam ocupados, mas havia outro sentimento: de juventude, de necessidade de movimento, e que não encontrava satisfação em nossa vida quieta. Por que ele me dissera que podíamos ir para a cidade, logo que eu o quisesse? Se não me dissesse isso, talvez eu tivesse compreendido que o sentimento que me fazia sofrer era um absurdo pernicioso, do qual eu era culpada, que o sacrifício procurado por mim estava ali, bem próximo, e consistia em sufocar aquele sentimento. Vinha-me involuntariamente o pensamento de que eu só podia salvar-me da angústia mudando para a cidade; e, ao mesmo tempo, tinha escrúpulos e lamentava arrancá-lo, para vantagem minha, de tudo o que ele amava. E, enquanto isso, o tempo ia passando, a neve escondia cada vez mais as paredes da casa, e nós sempre vivíamos sozinhos, e éramos sempre os mesmos um em relação ao outro; e alhures, ao longe, multidões humanas inquietas sofriam e alegravam-se, em meio ao brilho e ao ruído, sem pensar em nós nem em nossa existência, que desaparecia. O pior para mim estava no fato de que eu sentia como, dia a dia, os hábitos da vida acorrentavam a nossa existência numa forma determinada, como o nosso sentimento se tornava não livre, mas submetia-se à fluência regular, desapaixonada, do tempo. De manhã, nós éramos alegres, na hora do jantar respeitosos, à noitinha carinhosos. “O bem!... — dizia eu a mim mesma. — É excelente praticar o bem e viver honestamente, como ele diz; mas ainda teremos tempo para isso, e existe algo para o qual somente agora eu tenho força.” Não era disso que eu precisava, mas de luta; eu necessitava que o sentimento nos dirigisse na vida, e não que a vida dirigisse o sentimento. Eu queria chegar com ele até um abismo e dizer: mais um passo e vou lançar-me ali, mais um movimento e estou perdida — e que ele empalidecesse à beira do abismo, me tomasse em seus braços vigorosos, me segurasse um pouco sobre o precipício, a ponto de meu coração ficar gelado, e me levasse para onde quisesse.
     Esse estado afetou até a minha saúde e meus nervos começaram a ficar abalados. Certa manhã, eu me senti pior que de costume; ele viera mal-humorado do escritório da propriedade, o que raramente lhe acontecia. Percebi isso no mesmo instante e perguntei-lhe o que tinha. Mas ele não me quis contá-lo, dizendo que aquilo não valia a pena. Conforme eu soube mais tarde, o isprávnik³ reunira os nossos mujiques, e, por antipatia ao meu marido, exigira deles certos atos ilegais e os ameaçara. Meu marido não pudera ainda aceitar tudo isso como apenas ridículo e insignificante, estava irritado e por isso não queria falar comigo. Mas eu tive a impressão de que era porque me considerava uma criança, que não poderia compreender o que o preocupava. Voltei-lhe o rosto, calei-me e mandei chamar para o chá Mária Mínitchna, que estava hospedada em nossa casa. Depois do chá, que eu terminei com peculiar rapidez, acompanhei-a à sala de repouso e pus-me a falar alto com ela de não sei que tolices, que eram nada divertidas para mim. Ele caminhou pela sala, dirigindo raramente os olhos para nós. Por algum motivo, aqueles olhares atuavam sobre mim de tal modo que eu tinha uma vontade cada vez maior de falar e, mesmo, de rir; parecia-me engraçado tudo o que eu dizia, bem como tudo o que dizia Mária Mínitchna. Sem me dizer nada, ele foi para o escritório e fechou a porta atrás de si. Quando deixamos de ouvi-lo, toda a minha alegria desapareceu num átimo, de modo que Mária Mínitchna ficou surpreendida e começou a perguntar o que eu tinha. Sem lhe responder, sentei-me no divã e tive vontade de chorar. “E o que ele está remoendo agora? — pensei. — Alguma tolice, que lhe parece importante, mas é só ele dizer-me, e eu lhe mostrarei que é tudo uma insignificância. Não, ele precisa pensar que eu não compreenderei, precisa humilhar-me com a sua tranquilidade altiva e sempre ter razão contra mim. Mas, em compensação, também eu tenho razão quando sinto tédio e vacuidade, quando quero viver, movimentar-me — pensei — em vez de ficar parada no mesmo lugar e sentir como o tempo passa por cima de mim. Quero ir para frente e, cada dia, cada hora, quero algo novo, e ele quer deter-se e deter-me com ele. E como o contrário seria fácil para ele! Para isso, não precisava levar-me para a cidade, para isso precisa ser apenas uma pessoa como eu, não se violentar, não se frear, mas viver com simplicidade. É exatamente isso que ele me aconselha, mas ele mesmo não é simples. Aí é que está!”

[3] Chefe da polícia de um distrito, na Rússia tsarista. (N. do T.)

     Senti que lágrimas me assediavam o coração e que eu estava irritada com meu marido. Assustei-me com esta irritação e fui para junto dele. Estava sentado no escritório, escrevendo. Ouvindo os meus passos, olhou-me por um instante, com indiferença e tranquilidade, e continuou a escrever. Este olhar não me agradou; em lugar de acercar-me dele, cheguei-me à mesa em que escrevia e, abrindo um livro, pus-me a olhar. Ele desviou mais uma vez os olhos do trabalho, dirigindo-os para mim. 

— Macha! Estás de mau humor?

     Respondi com um olhar frio, que significava: “Não precisas perguntar! Que amabilidades são essas?”. Ele meneou a cabeça e sorriu com timidez e carinho, mas, pela primeira vez, o meu sorriso não respondeu ao seu.

— O que foi que te aconteceu hoje? — perguntei. — Por que não me contaste? 
— São bobagens! Um pequeno aborrecimento. Mas, agora, posso contar-te. Dois mujiques foram à cidade...

     Mas eu não deixei que terminasse.

— Por que não me contaste isso naquela hora em que te perguntei, durante o chá? 
— Teria dito alguma tolice, estava então muito zangado. 
— Mas era justamente então que eu precisava disso. 
— Para quê? 
— Por que pensas que eu nunca posso ajudar-te em nada? 
— Como: penso? — disse ele, largando a pena. — Eu penso que não posso viver sem ti. Não só tu me ajudas em tudo, tudo, mas também fazes tudo. Que coisa imaginaste! — riu ele. — Somente tu me fazes viver. Tenho a impressão de que tudo está bem unicamente porque estás aqui, porque preciso de ti... 
— Sim, eu sei, sou uma criança querida, que é preciso tranquilizar — disse eu com tal entonação que ele me olhou surpreso, como se visse algo pela primeira vez. — Eu não quero tranquilidade, tu a possuis bastante, bastante mesmo — acrescentei. 
— Bem, estás vendo do que se trata? — começou ele apressado, interrompendo-me, evidentemente com medo de me deixar dizer tudo. 
— Como o resolverias? 
— Agora não quero — respondi. Embora eu tivesse vontade de ouvi-lo, agradava-me tanto destruir a sua tranquilidade. — Eu não quero brincar de vida, quero viver do mesmo modo que tu.

     O seu rosto, onde tudo se refletia tão rápida e vivamente, expressou dor e uma atenção concentrada.

— Quero viver contigo em concórdia, contigo...

     Mas não consegui dizer até o fim o que pretendia: o seu rosto expressou tanta tristeza, e tão profunda. Calou-se um pouco.

— E onde está a falta de concórdia na tua vida comigo? — disse ele. — Estará no fato de que eu, e não tu, ocupo-me com o isprávnik e com mujiques bêbados?... 
— Não é só nisso — disse eu. 
— Compreende-me, pelo amor de Deus, meu bem — prosseguiu ele — eu sei que as inquietações sempre nos causam sofrimento, eu vivi e aprendi isto. Eu te amo e, por conseguinte, não posso deixar de querer livrar-te das inquietações. Nisso consiste a minha vida, no amor por ti; mas, neste caso, não me impeças também de viver. 
— Tens sempre razão! — disse eu, sem olhá-lo.

     Eu sentia despeito pelo fato de que, novamente, tudo estava claro e tranquilo em sua alma, enquanto em mim havia amargura e um sentimento que se assemelhava a remorso.

— Macha! O que tens? — disse ele. — Não se trata de saber se tu ou eu temos razão, mas de algo muito diverso: o que tens contra mim? Não fales de repente, pensa um pouco, para me dizeres tudo o que pensas. Estás descontente comigo, e tens provavelmente razão, mas deixa-me compreender qual é a minha culpa.

     Mas como podia eu expressar-lhe a minha alma? Perturbou-me ainda mais que ele me tivesse compreendido com tanta rapidez, que eu fosse novamente uma criança perante ele e nada pudesse fazer que ele não compreendesse e não tivesse previsto.

— Não tenho nada contra ti — disse eu. — Simplesmente, tenho tédio, e não quero senti-lo. Mas tu dizes que assim é que deve ser e, mais uma vez, tens razão!

     Dito isso, olhei para ele. Atingira o meu objetivo, sua tranquilidade desaparecera, havia sofrimento e medo em seu rosto.

— Macha — começou ele, a voz baixa, perturbada. — O que fazemos agora não é uma brincadeira. Está-se decidindo o nosso destino. Peço-te não responder nada e prestar muita atenção. Por que pretendes atormentar-me?

     Mas eu o interrompi.

— Sei que terás razão. É melhor não falares, tens razão — disse eu com frieza, como se não fosse eu, mas algum mau espírito, que falasse em mim. 
— Se soubesses o que fazes! — disse ele, a voz trêmula. 

     Chorei e me senti aliviada. Ele estava sentado ao meu lado, silencioso. Eu tinha pena dele, vergonha por mim e aborrecimento por aquilo que acabava de fazer. Não o olhava. Tinha a impressão de que, nesse momento, ele devia me olhar severo ou com perplexidade. Espiei: estava fixo em mim um olhar humilde, terno, como que pedindo perdão. Tomei-lhe a mão e disse:

— Perdoa-me! Eu mesma não sei o que disse. 
— Sim; mas eu sei o que disseste, e dizias a verdade. 
— O quê? — perguntei. 
— Que devemos viajar para Petersburgo — disse ele. Não temos mais o que fazer aqui. 
— Como queiras — disse eu.

     Abraçou-me e beijou-me.

— Perdoa-me — disse ele. — Sou culpado em relação a ti.

     Nessa noite, toquei piano para ele longamente, e ele ficou caminhando pelo quarto, murmurando algo. Tinha o hábito de murmurar, e eu perguntava-lhe com frequência o que murmurava, e, depois de pensar um pouco, ele sempre me respondia exatamente o que murmurara: na maioria dos casos, eram versos, às vezes umas tolices tremendas, mas tolices pelas quais eu ficava conhecendo o seu estado de espírito.

— O que estás murmurando hoje? — perguntei.

     Parou, pensou um pouco e, sorrindo, respondeu com dois versos de Liérmontov4 .

[4] O escritor e poeta romântico russo Mikhail Liérmontov (1814 1841). (N. do T.)

... E o insensato quer tormenta, 
Como se nela houvesse paz!

“Não, ele é mais que uma pessoa; ele sabe tudo! — pensei — Como não o amar?!”

     Levantei-me, dei-lhe o braço e pus-me a andar com ele, procurando acertar o passo.

— Sim? — perguntou, olhando-me com um sorriso. 
— Sim — disse eu, num murmúrio; e não sei que disposição alegre apossou-se de nós ambos, os nossos olhos riam, e dávamos passos cada vez maiores, e cada vez nos erguíamos mais nas pontas dos pés. E para grande indignação de Grigóri e espanto de mamãe, que estava espalhando a sua paciência na sala de visitas, dirigimo-nos com o mesmo passo, através de toda a casa, para a sala de jantar, onde nos detivemos, olhamo-nos e soltamos uma gargalhada.

     Duas semanas depois, nas vésperas de um feriado, já estávamos em Petersburgo.

continua na página 78...
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Leia também...
Primeira Parte:
Segunda Parte: 
1- Os dias, as semanas, dois meses de solitária vida / 2 - A nossa viagem para Petersburgo /  
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Liev Tolstói é um escritor russo nascido em 9 de setembro de 1828 e morreu em 20 de novembro 1910. De família aristocrata, ficou órfão de pai e mãe ainda na infância. Mais tarde, iniciou a Faculdade de Direito, mas abandonou o curso logo depois, e participou da Guerra da Crimeia. Seu sucesso como escritor ocorreu já com a publicação de suas três primeiras obras, uma trilogia composta pelos livros Infância, Adolescência e Juventude. No entanto, suas obras mais conhecidas são Guerra e Paz e Anna Karenina.
Liev Tolstói, um dos maiores romancistas da literatura mundial, deixou um legado incomparável com suas obras-primas. Suas narrativas transcendem o tempo e continuam a ressoar com leitores de todas as gerações. Tolstói aborda temas como amor, guerra, moralidade e redenção, oferecendo uma rica reflexão sobre a condição humana.

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Título original: Semeynoye Schast'ye (1859)
Tradução: Luís Cardoso (1861-?)
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