segunda-feira, 2 de março de 2020

OS SERTÕES, Euclides da Cunha - A Terra: II Do alto de Monte Santo

OS SERTÕES 

Euclides da Cunha

Volume 1



A TERRA




II



continuando...




Do alto de Monte Santo



Do alto da Serra de Monte Santo atentando-se para a região, estendida em torno num raio de quinze léguas, nota-se, como num mapa em relevo, a sua conformação orográfica. E vê-se que as cordas de serras ao invés de se alongarem para o nascente, medianas aos traçados do Vaza-Barris e Itapicuru, formando-lhes o divortium aquarum, progridem para o norte.

Mostram-se as serras Grande e do Atanásio, correndo, e a princípio distintas, uma para NO e outra para N e fundindo-se na do Acaru, onde abrolham os mananciais intermitentes do Bendegó e seus tributários efêmeros. Unificadas, aliam-se às de Caraíbas e do Lopes e nestas de novo se embebem, formando-se as massas do Cambaio, de onde irradiam as pequenas cadeias do Coxomongó e Calumbi, e para o noroeste os píncaros torreantes do Caipã. Obediente à mesma tendência, a do Aracati, lançando-se a NO, à borda dos tabuleiros de Jeremoabo, progride, descontínua, naquele rumo e, depois de entalhadas pelo Vaza-Barris em Cocorobó, inflete para o poente, repartindo-se nas da Canabrava e Poço de Cima, que a prolongam. Todas traçam, afinal, elíptica curva fechada ao sul por um morro, o da Favela, em torno de larga planura ondeante onde se erigia o arraial de Canudos — e daí para o norte de novo se dispersam e descaem até acabarem em chapadas altas à borda do S. Francisco.

Deste modo, no ascender para o norte, procurando o chapadão que o Parnaíba escava, aquele talude dos planaltos parece dobrar-se num ressalto, perturbando toda a área de drenagem do S. Francisco abaixo da confluência do Patamoté, num traçado de torrentes sem nome, inapreciáveis na mais favorável escala, e impondo ao Vaza-Barris m curso tortuoso do qual ele se liberta em Jeremoabo, ao infletir para a costa.

Este é um rio sem afluentes. Falta-lhe conformidade com o declive da terra. Os seus pequenos tributários, o Bendegó e o Caraíbas, volvendo águas transitórias, dentro dos leitos rudemente escavados, não traduzem as depressões do solo. Têm a existência fugitiva das estações chuvosas. São, antes, canais de esgotamento, abertos a esmo pelos enxurros — ou correntes velozes que, adstritas aos relevos topográficos mais próximos, estão, não raro, em desarmonia com as disposições orográficas gerais. São rios que sobem. Enchem-se de súbito; transbordam, reprofundam os leitos, anulando o obstáculo do declive geral do solo; rolam por alguns dias para o rio principal; e desaparecem, volvendo ao primitivo aspecto de valores em torcicolos, cheios de pedras, e secos.

O próprio Vaza-Barris, rio sem nascentes em cujo leito viçam gramíneas e pastam os rebanhos, não teria o traçado atual se corrente perene lhe assegurasse um perfil de equilíbrio, através de esforço contínuo e longo. A sua função como agente geológico é revolucionária. As mais das vezes cortado, fracionando-se em gânglios estagnados, ou seco, à maneira de larga estrada poenta e tortuosa, quando cresce, empanzinado, nas cheias, captando as águas selvagens que estrepitam nos pendores, volve por algumas semanas águas barrentas e revoltas, extinguindo-se logo em esgotamento completo, vazando, como o indica o dizer português, substituindo-lhe com vantagem a antiga denominação indígena. É uma onda tombando das vertentes da Itiúba, multiplicando a energia da corrente no apertado dos desfiladeiros, e correndo veloz entre barrancos, ou entalada em serras, até Jeremoabo.

Vimos como a natureza, em roda, lhe imita o regime brutal — calcando-o em terreno agro, sem os cenários opulentos das serras e dos tabuleiros ou dos sem-fins das chapadas — mas feito um misto em que tais disposições naturais se baralham, em confusão pasmosa: planícies que de perto revelam séries de cômoros, retalhados de algares; morros que o contraste das várzeas faz de grande altura e estão poucas dezenas de metros sobre o solo, e tabuleiros que em sendo percorridos mostram a acidentação caótica de boqueirões escancelados e brutos. Nada mais dos belos efeitos das denudações lentas, no remodelar os pendores, no desapertar os horizontes e no desatar — amplíssimos — os gerais pelo teso das cordilheiras, dando aos quadros naturais a encantadora grandeza de perspectivas em que o céu e a terra se fundem em difusão longínqua e surpreendedora de cores...

Entretanto, inesperado quadro esperava o viandante que subia, depois desta travessia em que supõe pisar escombros de terremotos, as ondulações mais próximas de Canudos.







Do alto da Favela



Galgava o topo da Favela. Volvia em volta o olhar, para abranger de um lance o conjunto da terra. — E nada mais divisava recordando-lhe os cenários contemplados. Tinha na frente a antítese do que vira. Ali estavam os mesmos acidentes e o mesmo chão, embaixo, fundamente revolto, sob o indumento áspero dos pedregais e caatingas estonadas... Mas a reunião de tantos traços incorretos e duros — arregoados divagantes de algares, sulcos de despenhadeiros, socavas de bocainas, criava-lhe perspectivas inteiramente novas. E quase compreendia que os matutos crendeiros, de imaginativa ingênua, acreditassem que “ali era o céu...”

O arraial, adiante e embaixo, erigia-se no mesmo solo perturbado. Mas vistos daquele ponto, de permeio a distância suavizando-lhes as encostas e aplainando-os — todos os serrotes breves e inúmeros, projetando-se em plano inferior e estendendo-se, uniformes, pelos quadrantes, davam-lhe a ilusão de uma planície ondulante e grande.

Em roda uma elipse majestosa de montanhas...

A Canabrava, a nordeste, de perfil abaulado e simples; a do Poço de Cima, próxima, mais íngreme e alta; a de Cocorobó, no levante, ondulando em seladas, dispersa em esporões; as vertentes retilíneas do Calumbi ao sul; as grimpas do Cambaio, no correr para o poente; e, para o norte, os contornos agitados do Caipã — ligam-se e articulam-se no infletir gradual traçando, fechada, a curva desmedida.

Vendo ao longe, quase de nível, trancando-lhe o horizonte, aquelas grimpas altaneiras, o observador tinha a impressão alentadora de se achar sobre platô elevadíssimo, páramo incomparável repousando sobre as serras.

Na planície rugada, embaixo, mal se lobrigavam os pequenos cursos d’água, divagando, serpeantes...

Um único se distinguia, o Vaza-Barris. Atravessava-a, torcendo-se em meandros. Presa numa dessas voltas via-se uma depressão maior, circundada de colinas... E atulhando-a, enchendo-a toda de confusos tetos incontáveis, um acervo enorme de casebres.







continua 012...



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Leia também:

OS SERTÕES, Euclides da Cunha - A Terra: I Preliminares
OS SERTÕES, Euclides da Cunha - A Terra: I A entrada do sertão
OS SERTÕES, Euclides da Cunha - A Terra: I Primeiras impressões
OS SERTÕES, Euclides da Cunha - A Terra: III O clima

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Os Sertões, de Euclides da Cunha

Fonte: CUNHA, Euclides da. Os Sertões. São Paulo: Três, 1984 (Biblioteca do Estudante). 

Texto proveniente de: A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo Permitido o uso apenas para fins educacionais.



Stendhal - O Vermelho e o Negro: Um ambicioso (XXX-1)

Livro I 

A verdade, a áspera verdade. 
Danton 


Capítulo XXX

UM AMBICIOSO




Não há mais senão uma só nobreza, é o título de duque; marquês é ridículo;à palavra duque todos voltam a cabeça. 

EDINBURGH REVIEW







O MARQUÊS DE LA MOLE recebeu o abade Pirard sem nenhuma daquelas pequenas cerimônias de grande senhor, tão polidas, mas tão impertinentes para quem as compreende. Teria sido tempo perdido, e o marquês era bastante esperto nos grandes negócios para ter tempo a perder. Nos últimos seis meses ele fazia manobras para que o rei e a nação aceitassem um certo ministério que, por reconhecimento, o faria duque.

O marquês vinha pedindo em vão, havia longos anos, a seu advogado de Besançon, um trabalho claro e preciso sobre seus processos no Franco-Condado. Mas como poderia o célebre advogado dar-lhe essas explicações, se ele próprio não os compreendia? O quadradinho de papel que o abade lhe entregou explicava tudo.

– Meu caro abade, disse-lhe o marquês, depois de ter expedido em menos de cinco minutos todas as fórmulas de polidez e de interrogação sobre assuntos pessoais, em meio à minha suposta prosperidade, falta-me tempo para ocupar-me seriamente de duas pequenas coisas não obstante muito importantes: minha família e meus negócios. Cuido em geral da fortuna de minha casa, posso levá-la longe; cuido de meus prazeres, e é o que deve vir antes de tudo, ao menos para mim, acrescentou, surpreendendo espanto nos olhos do abade Pirard. Embora homem ajuizado, o abade estava maravilhado de ver um velho falar tão francamente de seus prazeres.

O trabalho existe certamente em Paris, continuou o marquês, mas empoleirado no quinto andar; assim que me aproximo de um homem, ele se aloja no segundo e sua mulher marca uma recepção; por conseguinte, não há mais trabalho, só há esforços para ser ou parecer um homem de sociedade. Essa é a única preocupação a partir do momento em que se tem comida.

Para meus processos, falando diretamente, e mesmo para cada processo separadamente, tenho advogados que se matam de trabalhar; um deles morreu dos pulmões, anteontem. Mas, para meus assuntos em geral, acreditaria o senhor que há três anos desisti de encontrar um homem que, enquanto escreve para mim, pense um pouco seriamente no que faz? De resto, tudo isso é só um prefácio.

Estimo o senhor e, ousaria acrescentar, embora o veja pela primeira vez, gosto do senhor. Não quer ser meu secretário, com 8 mil francos de honorários ou até mesmo o dobro? Ainda ganharei com isso, garanto-lhe; e prometo-lhe conservar sua bela paróquia, para o dia em que não mais nos conviermos.

O abade recusou; mas, pelo final da conversa, o verdadeiro embaraço em que via o marquês sugeriu-lhe uma ideia.

– Deixei lá no meu seminário um pobre rapaz que, se não me engano, vai ser rudemente perseguido. Se ele fosse um simples religioso, já estaria in pace. Até agora esse jovem sabe apenas o latim e a Sagrada Escritura; mas não é impossível que um dia venha a mostrar grandes talentos, seja para a prédica, seja para a direção das almas. Ignoro o que fará; mas ele tem o fogo sagrado, pode ir longe. Eu contava oferecê-lo ao nosso bispo, se eventualmente algum tivesse um pouco da sua maneira de ver os homens e as coisas.

– De onde vem esse rapaz?, perguntou o marquês.

– Dizem-no filho de um carpinteiro das montanhas, mas parece-me mais o filho natural de algum homem rico. Vi-o receber um carta anônima, ou pseudônimo, com uma letra de câmbio de 500 francos.

– Ah! É Julien Sorel, disse o marquês.

– Como sabe o nome dele? perguntou o abade, espantado, e corando com sua pergunta. 


– É o que não lhe direi, respondeu o marquês.

– Pois bem!, retomou o abade, o senhor poderia fazer dele seu secretário; ele tem energia, inteligência; em suma, vale a pena tentar.

– Por que não?, disse o marquês; mas não será um homem que se deixaria subornar pelo chefe de polícia ou algum outro para ser espião em minha casa? Eis minha única objeção. Confortado pelas declarações favoráveis do abade Pirard, o marquês pegou uma nota de 1.000 francos:

– Envie esse viático a Julien Sorel; faça-o vir.

– Vê-se bem, disse o abade Pirard, que o senhor mora em Paris. Não conhece a tirania que pesa sobre nós, pobres provincianos, em particular sobre os padres não amigos dos jesuítas. Não deixarão Julien Sorel partir, inventarão os pretextos mais hábeis, dirão que está doente, que o correio extraviou as cartas etc. etc.

– Conseguirei um dia desses uma carta do ministro ao bispo, disse o marquês.

– Ia esquecendo uma precaução, disse o abade: esse jovem, embora humilde de nascimento, tem o coração altivo, não será de nenhuma utilidade exasperar seu orgulho; o senhor faria dele um estúpido.

– Isso me agrada, disse o marquês; farei dele o colega de meu filho, será o suficiente?

Algum tempo depois, Julien recebia uma carta com uma escrita desconhecida e selada de Châlons, nela encontrou uma ordem de pagamento por um comerciante de Besançon e o aviso de ir a Paris sem demora. Não re conheceu a assinatura da carta, mas, ao abri-la, estremeceu: uma folha de árvore caíra a seus pés; era o sinal combinado com o abade Pirard.

Menos de uma hora depois, Julien foi chamado à sede do bispado onde foi acolhido com uma bondade paterna. Citando Horácio, o monsenhor fez-lhe comentá rios elogiosos e hábeis sobre o alto destino que o aguardava em Paris, os quais, como agradecimento, esperavam explicações. Julien nada pôde dizer, a começar porque não sabia de nada, e o monsenhor teve ainda mais consideração por ele. Um dos padres da sede episcopal escreveu ao prefeito que se apressou em trazer ele próprio um passaporte assinado, mas no qual fora deixado em branco o nome do viajante.

Antes da meia-noite, Julien estava na casa de Fouqué, cujo espírito sensato ficou mais surpreso do que encantado com o futuro que parecia esperar seu amigo.

– Isso acabará te propiciando, disse esse eleitor liberal, um cargo no governo, que te obrigará a algum procedimento que será vilipendiado nos jornais. É por tua vergonha que terei notícias tuas. Lembra-te que, mesmo financeiramente falando, é melhor ganhar cem luíses num bom comércio de madeiras, do qual somos o dono, do que receber 4 mil francos de um governo, ainda que fosse o do rei Salomão.

Julien viu nisso apenas a pequenez de espírito de um homem da província. Finalmente, ele ia aparecer no palco dos grandes acontecimentos. A felicidade de ir a Paris, que ele imaginava povoada de pessoas de espírito, muito intrigantes, muito hipócritas, mas também polidas como o bispo de Besançon e o bispo de Agde, eclipsava tudo a seus olhos. Procurou mostrar ao amigo que se sentia privado de seu livre-arbítrio pela carta do abade Pirard. No dia seguinte por volta do meio-dia, chegou em Verrières como o mais feliz dos homens; esperava rever a sra. de Rênal. Foi primeiro à casa de seu protetor, o bom abade Chélan. Encontrou uma recepção severa.

– Acredita dever-me alguma obrigação?, disse o abade Chélan, sem responder à sua saudação. Almoçaremos juntos, enquanto se aluga um outro cavalo, e você deixará Verrières sem ver ninguém.

– Ouvir é obedecer, respondeu Julien, com uma cara de seminarista; e não se falou mais senão de teologia, e em latim.

Ele montou a cavalo, andou uma légua até avistar um bosque e, sem que ninguém o visse, nele penetrou. Quando o sol se pôs, mandou embora o cavalo. Mais tarde, entrou na casa de um camponês que consentiu vender-lhe uma escada e acompanhá-lo, transportando-a, até um pequeno bosque junto ao Passeio da Fidelidade, em Verrières.

– Sou um pobre recruta desertor... ou um contrabandista, disse o camponês ao ser dispensado, mas que importa! Minha escada foi bem paga, e também já passei por algumas aventuras na vida.

A noite estava muito escura. Por volta de uma da madrugada, Julien, com sua escada, entrou em Verrières. Logo chegou ao leito do regato que atravessa os magníficos jardins do sr. de Rênal, com uma profundidade de meio metro e contido entre dois muros. Julien os escalou facilmente com a escada. Como reagirão os cães de guarda, pensou? O problema era esse. Os cães latiram e avançaram em sua direção; mas, a um assobio, vieram fazer-lhe festas. Subindo então de terraço em terraço, embora todas as grades estivessem fechadas, foi-lhe fácil chegar até debaixo da janela do quarto de dormir da sra. de Rênal, que, do lado do jardim, eleva-se a menos de três metros do chão.

Havia nos postigos uma pequena abertura em forma de coração, que Julien conhecia bem. Para sua decepção, essa pequena abertura não estava iluminada pela luz interior de uma lamparina.

Ó Deus!, pensou; esta noite o quarto não está ocupado pela sra. de Rênal! Onde estará deitada? A família está em Verrières, pois encontrei os cães; mas, sem lamparina, posso deparar nesse quarto com o próprio sr. de Rênal ou um estranho, e então, que escândalo!

O mais prudente era retirar-se; essa solução horrorizou Julien. Se for um estranho, me safarei o mais rápido que puder, abandonando minha escada; mas se for ela, que recepção me espera? Ela está arrependida e tornou-se muito devota, não posso duvidar; mas, afinal, ainda tem alguma lembrança de mim, pois acaba de me escrever. Essa razão o decidiu.

Com o coração trêmulo, mas disposto a morrer ou a vê-la, lançou pedrinhas contra o postigo; nenhuma resposta. Apoiou sua escada ao lado da janela e golpeou ele mesmo o postigo, primeiro suavemente, depois com mais força. Ainda que esteja escuro, podem disparar-me um tiro de fuzil, pensou Julien. Essa ideia reduziu a louca empreitada a uma questão de bravura.

O quarto não está habitado esta noite, pensou, ou então, seja quem for que estiver deitado aí, está acordado agora. Assim, não há mais nada a fazer em relação a essa pessoa; devo somente procurar não ser ouvido pelos que dormem nos outros quartos.

Ele desceu, encostou a escada contra um dos postigos, tornou a subir e, passando a mão na abertura em for ma de coração, teve sorte de logo encontrar o gancho que fechava a janela. Puxou esse gancho; com uma alegria inexprimível sentiu que o postigo não estava mais retido e cedia a seu esforço. Devo abrir aos poucos e fazer reconhecer minha voz. Ele abriu o postigo o suficiente para passar a cabeça, repetindo em voz baixa: É um amigo.

Certificou-se, atento à escuta, de que nada perturbava o silêncio profundo do quarto. Mas constatou que não havia nenhuma lamparina, nem sequer meio apagada, sobre a lareira; era um mau sinal.

Cuidado com o tiro de fuzil! Ele refletiu um pouco; depois, com o dedo, ousou bater contra a vidraça: nenhuma resposta; bateu com mais força. Se eu quebrasse a vidraça, acabaria logo com isso. Ao bater com mais força, julgou entrever, em meio à escuridão, como uma sombra branca que atravessava o quarto. Por fim, não teve mais dúvida, viu uma sombra que parecia avançar com extrema lentidão. De repente, uma face apoiou-se à vidraça pela qual olhava.

Ele estremeceu e afastou-se um pouco. Mas a noite estava tão escura que, mesmo a essa distância, não pôde distinguir se era a sra. de Rênal. Ele temia um grito de alarme; ouviu os cães rosnando e dando voltas ao pé da escada. – Sou eu, repetiu bastante alto, um amigo. Nenhuma resposta. O fantasma branco desaparecera. Abra, por favor, preciso falar-lhe, estou muito infeliz!, e batia de forma a quebrar a vidraça.

Um ruído seco fez-se ouvir; o fecho da janela cedia; ele a empurrou e saltou depressa para o quarto.

O fantasma branco afastava-se; ele o pegou pelos braços; era uma mulher. Todas as suas ideias de coragem desapareceram. Se for ela, o que vai dizer? A um grito abafado, compreendeu que era a sra. de Rênal.

Ele a apertou nos braços; ela tremia e mal tinha forças para rechaçá-lo.

– Desgraçado! Que está fazendo?

Sua voz convulsiva mal podia articular essas palavras. Julien percebeu nelas a indignação mais verdadeira.

– Venho vê-la depois de catorze meses de uma cruel separação.

– Saia, deixe-me imediatamente. Ah! Sr. Chélan, por que me impediu de escrever-lhe? Eu teria evitado esse horror. Ela o repeliu com uma força realmente extraordinária. Arrependo-me de meu crime; o céu dignou-se iluminar-me, ela repetia com a voz entrecortada. Saia! Fuja!

– Depois de catorze meses de infelicidade, não a deixarei sem ter-lhe falado. Quero saber tudo o que você fez. Ah! Eu a amei muito para merecer essa confidência... Quero saber tudo.

Esse tom de autoridade influiu sobre o coração da sra. de Rênal, mesmo contra sua vontade.

Julien, que a mantinha enlaçada com paixão e resistia a seus esforços para soltar-se, parou de apertá-la nos braços. Esse movimento tranquilizou um pouco a sra. de Rênal.

– Vou retirar a escada, ele disse, para que ela não lhe comprometa se algum criado, despertado pelo ruído, fizer uma ronda.

– Ah! Saia, saia e não volte, ela disse com uma verdadeira cólera. Que me importam os homens? É Deus que vê esta cena terrível e que me punirá. Está abusando covardemente dos sentimentos que tive por você, mas que não tenho mais. Está me ouvindo, sr. Julien?

Ele retirava a escada muito lentamente para não fazer barulho.

– Teu marido está na cidade?, ele perguntou, não para contrariá-la, mas movido pelo antigo hábito.

– Não me fale assim, por favor, ou chamo meu marido. Já sou demasiado culpada de não tê-lo expulsado, não importa o que acontecesse. Sinto pena do senhor, ela disse, procurando ferir-lhe o orgulho que sabia tão irritável.


continua...




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ADVERTÊNCIA DO EDITOR

Esta obra estava prestes a ser publicada quando os grandes acontecimentos de julho [de 1830] vieram dar a todos os espíritos uma direção pouco favorável aos jogos da imaginação. Temos motivos para acreditar que as páginas seguintes foram escritas em 1827.


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Henri-Marie Beyle, mais conhecido como Stendhal (Grenoble, 23 de janeiro de 1783 — Paris, 23 de março de 1842) foi um escritor francês reputado pela fineza na análise dos sentimentos de seus personagens e por seu estilo deliberadamente seco.


Órfão de mãe desde 1789, criou-se entre seu pai e sua tia. Rejeitou as virtudes monárquicas e religiosas que lhe inculcaram e expressou cedo a vontade de fugir de sua cidade natal. Abertamente republicano, acolheu com entusiasmo a execução do rei e celebrou inclusive a breve detenção de seu pai. A partir de 1796 foi aluno da Escola central de Grenoble e em 1799 conseguiu o primeiro prêmio de matemática. Viajou a Paris para ingressar na Escola Politécnica, mas adoeceu e não pôde se apresentar à prova de acesso. Graças a Pierre Daru, um parente longínquo que se converteria em seu protetor, começou a trabalhar no ministério de Guerra.

Enviado pelo exército como ajudante do general Michaud, em 1800 descobriu a Itália, país que tomou como sua pátria de escolha. Desenganado da vida militar, abandonou o exército em 1801. Entre os salões e teatros parisienses, sempre apaixonado de uma mulher diferente, começou (sem sucesso) a cultivar ambições literárias. Em precária situação econômica, Daru lhe conseguiu um novo posto como intendente militar em Brunswick, destino em que permaneceu entre 1806 e 1808. Admirador incondicional de Napoleão, exerceu diversos cargos oficiais e participou nas campanhas imperiais. Em 1814, após queda do corso, se exilou na Itália, fixou sua residência em Milão e efetuou várias viagens pela península italiana. Publicou seus primeiros livros de crítica de arte sob o pseudônimo de L. A. C. Bombet, e em 1817 apareceu Roma, Nápoles e Florença, um ensaio mais original, onde mistura a crítica com recordações pessoais, no que utilizou por primeira vez o pseudônimo de Stendhal. O governo austríaco lhe acusou de apoiar o movimento independentista italiano, pelo que abandonou Milão em 1821, passou por Londres e se instalou de novo em Paris, quando terminou a perseguição aos aliados de Napoleão.

"Dandy" afamado, frequentava os salões de maneira assídua, enquanto sobrevivia com os rendimentos obtidos com as suas colaborações em algumas revistas literárias inglesas. Em 1822 publicou Sobre o amor, ensaio baseado em boa parte nas suas próprias experiências e no qual exprimia ideias bastante avançadas; destaca a sua teoria da cristalização, processo pelo que o espírito, adaptando a realidade aos seus desejos, cobre de perfeições o objeto do desejo.

Estabeleceu o seu renome de escritor graças à Vida de Rossini e às duas partes de seu Racine e Shakespeare, autêntico manifesto do romantismo. Depois de uma relação sentimental com a atriz Clémentine Curial, que durou até 1826, empreendeu novas viagens ao Reino Unido e Itália e redigiu a sua primeira novela, Armance. Em 1828, sem dinheiro nem sucesso literário, solicitou um posto na Biblioteca Real, que não lhe foi concedido; afundado numa péssima situação económica, a morte do conde de Daru, no ano seguinte, afetou-o particularmente. Superou este período difícil graças aos cargos de cônsul que obteve primeiro em Trieste e mais tarde em Civitavecchia, enquanto se entregava sem reservas à literatura.

Em 1830 aparece sua primeira obra-prima: O Vermelho e o Negro, uma crónica analítica da sociedade francesa na época da Restauração, na qual Stendhal representou as ambições da sua época e as contradições da emergente sociedade de classes, destacando sobretudo a análise psicológica das personagens e o estilo direto e objetivo da narração. Em 1839 publicou A Cartuxa de Parma, muito mais novelesca do que a sua obra anterior, que escreveu em apenas dois meses e que por sua espontaneidade constitui uma confissão poética extraordinariamente sincera, ainda que só tivesse recebido o elogio de Honoré de Balzac.

Ambas são novelas de aprendizagem e partilham rasgos românticos e realistas; nelas aparece um novo tipo de herói, tipicamente moderno, caracterizado pelo seu isolamento da sociedade e o seu confronto com as suas convenções e ideais, no que muito possivelmente se reflete em parte a personalidade do próprio Stendhal.

Outra importante obra de Stendhal é Napoleão, na qual o escritor narra momentos importantes da vida do grande general Bonaparte. Como o próprio Stendhal descreve no início deste livro, havia na época (1837) uma carência de registos referentes ao período da carreira militar de Napoleão, sobretudo a sua atuação nas várias batalhas na Itália. Dessa forma, e também porque Stendhal era um admirador incondicional do corso, a obra prioriza a emergência de Bonaparte no cenário militar, entre os anos de 1796 e 1797 nas batalhas italianas. Declarou, certa vez, que não considerava morrer na rua algo indigno e, curiosamente, faleceu de um ataque de apoplexia, na rua, sem concluir a sua última obra, Lamiel, que foi publicada muito depois da sua morte.

O reconhecimento da obra de Stendhal, como ele mesmo previu, só se iniciou cerca de cinquenta anos após sua morte, ocorrida em 1842, na cidade de Paris.



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Leia também:

Stendhal - O Vermelho e o Negro: O Primeiro Adjunto (XVII)
Stendhal - O Vermelho e o Negro: Um Rei em Verrières (XVIII)
Stendhal - O Vermelho e o Negro: Pensar faz sofrer (XIX)
Stendhal - O Vermelho e o Negro: As Cartas Anônimas (XX)
Stendhal - O Vermelho e o Negro: Diálogo com um Mestre (XXI - 1)
Stendhal - O Vermelho e o Negro: Maneiras de Agir em 1830 (XXII - 1)
Stendhal - O Vermelho e o Negro: Maneiras de Agir em 1830 (XXII - 2)
Stendhal - O Vermelho e o Negro: Desgostos de um funcionário (XXIII -1)
Stendhal - O Vermelho e o Negro: Desgostos de um funcionário (XXIII -2)
Stendhal - O Vermelho e o Negro: Uma Capital (XXIV)
Stendhal - O Vermelho e o Negro: O Seminário (XXV)
Stendhal - O Vermelho e o Negro: O Mundo, Ou o Que Falta ao Rico (XXVI)
Stendhal - O Vermelho e o Negro: A Primeira Promoção (XXIX - 1)
Stendhal - O Vermelho e o Negro: Um ambicioso (XXX - 1)
Stendhal - O Vermelho e o Negro: Um ambicioso (XXX - 2)

domingo, 1 de março de 2020

Machado de Assis - O alienista: 04 - Uma Teoria Nova

Papéis Avulsos - O Alienista

Machado de Assis



CAPÍTULO IV
UMA TEORIA NOVA



Ao passo que D. Evarista, em lágrimas, vinha buscando o Rio de Janeiro, Simão Bacamarte estudava por todos os lados uma certa ideia arrojada e nova, própria a alargar as bases da psicologia. Todo o tempo que lhe sobrava dos cuidados da Casa Verde, era pouco para andar na rua, ou de casa em casa, conversando as gentes, sobre trinta mil assuntos, e virgulando as falas de um olhar que metia medo aos mais heroicos.

Um dia de manhã, — eram passadas três semanas, — estando Crispim Soares ocupado em temperar um medicamento, vieram dizer-lhe que o alienista o mandava chamar.

— Trata-se de negócio importante, segundo ele me disse, acrescentou o portador.

Crispim empalideceu. Que negócio importante podia ser, se não alguma triste notícia da comitiva, e especialmente da mulher? Porque este tópico deve ficar claramente definido, visto insistirem nele os cronistas: Crispim amava a mulher, e, desde trinta anos, nunca estiveram separados um só dia. Assim se explicam os monólogos que ele fazia agora, e que os fâmulos lhe ouviam muita vez: — “Anda, bem feito, quem te mandou consentir na viagem de Cesária? Bajulador, torpe bajulador! Só para adular ao Dr. Bacamarte. Pois agora aguenta-te; anda, aguenta-te, alma de lacaio, fracalhão, vil, miserável. Dizes amém a tudo, não é? aí tens o lucro, biltre!” — E muitos outros nomes feios, que um homem não deve dizer aos outros, quanto mais a si mesmo. Daqui a imaginar o efeito do recado é um nada. Tão depressa ele o recebeu como abriu mão das drogas e voou à Casa Verde.

Simão Bacamarte recebeu-o com a alegria própria de um sábio, uma alegria abotoada de circunspeção até o pescoço.

— Estou muito contente, disse ele.

— Notícias do nosso povo? perguntou o boticário com a voz trêmula.

O alienista fez um gesto magnífico, e respondeu:

— Trata-se de coisa mais alta, trata-se de uma experiência científica. Digo experiência, porque não me atrevo a assegurar desde já a minha ideia; nem a ciência é outra coisa, Sr. Soares, senão uma investigação constante. Trata-se, pois, de uma experiência, mas uma experiência que vai mudar a face da Terra. A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente.

Disse isto, e calou-se, para ruminar o pasmo do boticário. Depois explicou compridamente a sua idéia. No conceito dele a insânia abrangia uma vasta superfície de cérebros; e desenvolveu isto com grande cópia de raciocínios, de textos, de exemplos. Os exemplos achou-os na história e em Itaguaí; mas, como um raro espírito que era, reconheceu o perigo de citar todos os casos de Itaguaí, e refugiou-se na história. Assim, apontou com especialidade alguns personagens célebres, Sócrates, que tinha um demônio familiar, Pascal, que via um abismo à esquerda, Maomé, Caracala, Domiciano, Calígula, etc., uma enfiada de casos e pessoas, em que de mistura vinham entidades odiosas, e entidades ridículas. E porque o boticário se admirasse de uma tal promiscuidade, o alienista disse-lhe que era tudo a mesma coisa, e até acrescentou sentenciosamente:

— A ferocidade, Sr. Soares, é o grotesco a sério.

— Gracioso, muito gracioso! exclamou Crispim Soares levantando as mãos ao céu.

Quanto à ideia de ampliar o território da loucura, achou-a o boticário extravagante; mas a modéstia, principal adorno de seu espírito, não lhe sofreu confessar outra coisa além de um nobre entusiasmo; declarou-a sublime e verdadeira, e acrescentou que era “caso de matraca”. Esta expressão não tem equivalente no estilo moderno. Naquele tempo, Itaguaí, que como as demais vilas, arraiais e povoações da colônia, não dispunha de imprensa, tinha dois modos de divulgar uma notícia: ou por meio de cartazes manuscritos e pregados na porta da Câmara, e da matriz; — ou por meio de matraca.

Eis em que consistia este segundo uso. Contratava-se um homem, por um ou mais dias, para andar as ruas do povoado, com uma matraca na mão.


De quando em quando tocava a matraca, reunia-se gente, e ele anunciava o que lhe incumbiam, — um remédio para sezões, umas terras lavradias, um soneto, um donativo eclesiástico, a melhor tesoura da vila, o mais belo discurso do ano, etc. O sistema tinha inconvenientes para a paz pública; mas era conservado pela grande energia de divulgação que possuía. Por exemplo, um dos vereadores, — aquele justamente que mais se opusera à criação da Casa Verde, — desfrutava a reputação de perfeito educador de cobras e macacos, e aliás nunca domesticara um só desses bichos; mas, tinha o cuidado de fazer trabalhar a matraca todos os meses. E dizem as crônicas que algumas pessoas afirmavam ter visto cascavéis dançando no peito do vereador; afirmação perfeitamente falsa, mas só devida à absoluta confiança no sistema. Verdade, verdade; nem todas as instituições do antigo regímen mereciam o desprezo do nosso século.

— Há melhor do que anunciar a minha ideia, é praticá-la, respondeu o alienista à insinuação do boticário.

E o boticário, não divergindo sensivelmente deste modo de ver, disse-lhe que sim, que era melhor começar pela execução.

— Sempre haverá tempo de a dar à matraca, concluiu ele.

Simão Bacamarte refletiu ainda um instante, e disse:

— Supondo o espírito humano uma vasta concha, o meu fim, Sr. Soares, é ver se posso extrair a pérola, que é a razão; por outros termos, demarquemos definitivamente os limites da razão e da loucura. A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí insânia, insânia e só insânia.

O vigário Lopes, a quem ele confiou a nova teoria, declarou lisamente que não chegava a entendê-la, que era uma obra absurda, e, se não era absurda, era de tal modo colossal que não merecia princípio de execução.

— Com a definição atual, que é a de todos os tempos, acrescentou, a loucura e a razão estão perfeitamente delimitadas. Sabe-se onde uma acaba e onde a outra começa. Para que transpor a cerca?

Sobre o lábio fino e discreto do alienista roçou a vaga sombra de uma intenção de riso, em que o desdém vinha casado à comiseração; mas nenhuma palavra saiu de suas egrégias entranhas.

A ciência contentou-se em estender a mão à teologia, — com tal segurança, que a teologia não soube enfim se devia crer em si ou na outra. Itaguaí e o universo ficavam à beira de uma revolução.




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Leia também:

Machado de Assis - O alienista: 01 - De Como Itaguaí Ganhou Uma Casa De Orates
Machado de Assis - O alienista: 02 - Torrente De Loucos
Machado de Assis - O alienista: 03 - Deus sabe o que faz
Machado de Assis - O alienista: 05 - O Terror

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ÍNDICE:

ADVERTÊNCIA 
O ALIENISTA 
TEORIA DO MEDALHÃO 
A CHINELA TURCA 
NA ARCA 
D. BENEDITA 
O SEGREDO DO BONZO 
O ANEL DE POLÍCRATES
O EMPRÉSTIMO 
A SERENÍSSIMA REPÚBLICA 
O ESPELHO 
UMA VISITA DE ALCIBÍADES 
VERBA TESTAMENTÁRIA 
NOTAS DO AUTOR
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Papéis Avulsos

Texto-fonte:
Obra Completa, de Machado de Assis, vol. II, Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1994. 
Publicado originalmente por Lombaerts & Cia, Rio de Janeiro, 1882.



Samba no pé

Samba no Pé 

- Aula 1











Grupo Entre Elas



Grupo Entre Elas de Florianópolis em um pagode no Cacique de Ramos no Rio de Janeiro




Samba de Gafieira - Aula 1







tempo é história: Calçacurta: 4A - O corpo pegava fogo!

CalçaCurta

novela


O corpo pegava fogo!
4A - 4ª ed


baitasar



ouço o zumbido dos boatos, muito diz que diz e diz que não diz, acusam os seus cochilos depois do almoço, agora ninguém chora mais

muita boataria

nada que possam provar, infâmias que tolos mal-informados ou mal-intencionados espalham, nunca soube que a sobremesa dos seus almoços na adega eram as mortes dos desaparecidos, agora ninguém chora mais

eu mesmo jamais desconfiei nem li nas famosas entrelinhas dos jornais, mas é preciso dizer que nunca fui dedicado nas aulas de escrever e ler e interpretar, nunca gostei da escola, às vezes ia e não ia

gostava de decorar e responder, assim não corria riscos, sempre tive ótima cabeça pra memorizar todas as respostas, carregava tudo na ponta da língua, perguntas sem importância que já esqueci, mas que ainda lembro as respostas

não gosto de escrever e a minha letra não gosta muito de ser lida, e também... escrever o quê, sobre o quê e pra quem, que pena

escrever aumenta a tensão sobre os nervos e a obrigação com as ideias do pensamento, depois de escrito e espalhado pro povo não tem mais jeito, não tem volta, o que está escrito está escrito, é tanta regrinha, tanto diz que diz, tanto boato pra tão pouca fama, talvez se eu fosse o barbeiro da máquina zero... acho que já me bastaria... não sei, não... não sei se bastaria... não, seria melhor assim... o barbeiro da máquina zero

teve uma vez que fui no mercadinho comprar guardanapo e não li que estava escrito papel higiênico, teve correria lá em casa, mas o pacote dos guardanapos resolveu a crise

nem sempre tudo piora

eu sempre gostei de jogar bola, desde que me lembro de ser gente e ir no mercadinho comprar cigarro pro pai, antes dele sumir

gostava muito das aulas de física, o professor largava uma bola e tinha jogo, depois mudou o professor de física, o novo chegou mudando algumas coisas, o jogo de bola foi a primeira mudança, não dava mais a bola, não gosto de mudanças, pra que mexer naquilo que já estava certo? quase mandei se fuder!

até hoje, ainda acho que devia ter mandado

mas não mandei, passei a vida achando que deveria ter feito o que não fiz ou que não deveria ter feito o que eu fiz, isso é uma merda!

respeito é bom e é bonito, é a parte mais bela da sabedoria, se você não for respeitoso pode perder o seu melhor amigo, menos o veron, meu companheiro de aventuras, mesmo nos piores momentos ele estava lá, pulava e latia como os meninos, ia a escola comigo e ficava esperando no portão, cachorro não entra na escola, mas se me perguntassem apontaria um ou outro menino que poderiam ficar lá fora pro veron entrar

menos, o gabriel

ele não pulava nem gritava como os meninos, lembro que no quarto dele era uma bagunça com livros pra todos os lados, estava sempre estudando – gostava de estudar, O estudo vai nos tirar deste buraco! –, mas não gostava de arrumar o quarto, sempre achei que tinha alguma coisa de errado com o gabriel, não pode ser normal gostar tanto de estudar, ele poderia ter virado general

ele não tinha cachorro, mas tinha uma família... não uma boa família, mas era uma família normal que mostrava pra ele o que devia fazer, onde e com quem brincar, Onde é que você estava, meu filho?

vir de uma boa família não é quando você cresce com dinheiro nem quando não falta nada, mas quando você vem de uma família com poder, a maior e mais significativa reputação: o valor do poder

por isso, não gostava das aulas de física do novo professor quando ele juntava os meninos e as meninas pra jogar bola, a escola não é uma família

não podia chutar forte nem chegar junto, e não importava quantas vezes elas erravam - e erravam muito –, ele não tirava as meninas do jogo

mano – posso chamar o senhor assim? –, essas lembranças me fazem rir nas horas da tristeza, acho que ainda gosto de uma daquelas retardadas, todas fielzinhas uma das outras no jogo, ainda sou apaixonado por essa garotinha, mas não sei se colocaria a mão no fogo por ela, será que poderia contar com ela até pra esconder um cadáver?

prometeu-me que jamais iria embora, mas já não está mais aqui

o senhor também partiu

repetia que nunca iria embora, sempre estaria por perto, atento e pronto pra voltar... a força se preciso fosse

exageros, um pouco de exagero, mesmo que um ou outro comunistinha continue desaparecido, ninguém pode acusar que foi o senhor... apesar da sua intimidade com torturas e tonturas

dois ou três erros não podem destruir a imagem do homem justo, Xupa-racha, só leva porrada quem merece levar porrada, E quem decide isso, senhor, Eu... é claro!

acho até que muito desses desaparecimentos foi destes merdinhas que escaparam com o rabo entre as pernas, se perderam lá fora, fugiram por decisão própria, não precisavam desertar

foram precipitados

e todos sabemos que longe de casa tudo fica mais complicado

eu sou testemunha da história, fui convocado pra ficar à disposição dos seus serviços, dia e noite, e nunca vi nenhum defunto falecido por bala ou porrada, nunca vi entrar nem sair algum corpo do porão

nas minhas andanças como motorista do calçacurta foi tudo muito limpo e higiênico, nunca vi nenhum comunistinha enrolado pelo pescoço

ficava sabendo que alguns se matavam depois de cantar o serviço, por vergonha

eu não teria cantado nem dado o serviço, morreria atirando, mas cada um com seu feitio

enfim, há de vir à verdade, o calçacurta sempre foi louco pelas marxistas, Elas têm fogo, Xupa-racha! São umas cadelinhas cabeludas de domar.

É mesmo, senhor?

Rapaz, elas combatem o tempo todo. As paredes do porão sabem de tudo. Ainda bem que aquela Adega não pode falar, mas lá tomei muito vinho delicioso. Nunca foi preciso queimar algum arquivo.

tenho certeza que as lendas em torno do calçacurta são recheadas pela difamação dos clandestinos, frases soltas e anônimas

acusações fantasiosas e exageradas

o senhor chegava no porão e anunciava que procurava sua iara, mulher muito linda com a pele cor da cuia, os cabelos negros como a noite sem lua, uma mulher misteriosa e fantástica que vive nos lagos, rios e igarapés

nunca encontrou

o senhor procurava nas matas e nos porões, mas nunca procurou com o coração, usava a espada como um porrete enquanto comia com duas mordidas toda a maçã

saia dos interrogatórios exclamando sua seleta frase sobre maçãs e serpentes, O homem de bem tem precisão de tirar do mundo os comunas, mas tem mais precisão de deitar com as esquerdistas subversivas e brigonas. É na cama que esse combate contra a concupiscência precisa ser travado e vencido. Desfolhar esse gosto degenerado das esquerdistas pelos pecados da carne!

não foi uma nem duas vezes que saiu do porão com os dedos no focinho, Rapaz, O que foi, senhor?

Quando chego na adega quero saber se é bonitinha ou feia, me encarrego pessoalmente das bonitinhas e ordinárias. As feias ficam com a Operação Peixe Fino. Quando saio do interrogatório o bigodinho é um perfume só, deixo a cabritinha reclamando das assaduras e sem entender o que aconteceu. Não perguntam, mas acho que todas querem saber se aquilo tudo foi o pau de arara. Nem tudo foi força e desesperação, mas tão cedo não olham com cobiça e lascívia os esquerdistas.

bobagem, muita lenda, não foram tantas que justifiquem tanto esse deus-nos-acuda

o senhor e os comunistinhas – uma gurizada sem juízo – deitavam muita falação por aqueles dias, exageros à parte, foi uma guerra de informação e contrainformação, cada lado anunciava que podia mais que o outro, mas a superioridade bélica só estava de um lado, a gurizada chamando o povo pras ruas, o povo em suas casas sem saber do grito das ruas

a televisão sempre cumpriu o seu papel

era o tempo dos festivais, um tempo em que se cantava sem entender as entrelinhas das linhas, caminhando e cantando em frente à televisão, esperando e torcendo que a decisão do tribunal do júri fosse a melhor, por certo, foi e não foi, o ginásio do maracanãzinho lotado com gritos e apitos, o rio de janeiro em clima de festa – lá, tudo dá samba! –, a tv excelsior, a tv globo, tudo que sorria e cantava estava longe do frio e do vento sul, a tv record, os cabeludos tentando romper o cerco, a disparada das coisas ruins sendo cantadas enquanto a banda passava

até que cansaram e acabou tudo, o povo não precisou saber, a televisão estava descobrindo o futebol

é certo que nunca carreguei nenhum corpo depois das suas andanças enraivecidas e descontroladas, ficava a levar e trazer das caçadas o caçador, o senhor por prudência e generosidade matava apenas para as suas necessidades

o diabo é que acusam o senhor de matar por gosto e gozo, apenas pela curiosidade de espantar a vida com as próprias mãos, eu não acredito, Tudo boataria, Xupa-racha, Eu sei, senhor. O problema é que os boatos à sua volta nunca param. Algumas coisas não mudaram... a apatia de sempre do povo, barracos de madeira, barro e zinco, crianças barrigudas queimadas pelo sol e fora das escolas não combinam com o nosso milagre econômico, Esquece, Xupa-racha. O tempo e a vida já se foram, Mas um e outro continuam reavivando essas memórias, Puta-que-os-pariu! A raiva anima essa gente. Não conseguem virar a página, dar tempo ao tempo, Adoram remexer essas histórias, Esquece, Xupa-racha!

E aquelas histórias, senhor?

não se mexeu, mas senti que se pudesse me colocava no pau-de-arara, Mas que histórias, Xupa-racha?

ele continuava cauteloso

Aquela do Curupira...

Lá... no Araguaia? Faz tanto tempo. Não sei, não... foi muito esforço para apagar essa peripécia de sucesso e sofrimento.

um arquivo que sabe muito, mas que já é um defunto não tem razão pra tanta cautela

Ninguém vai ligar lé com cré, senhor.

uma ventosidade abafada e contida soprou das paredes do ataúde, O senhor continua o mesmo...

O que você queria? Que eu mudasse agora? Esquece o Araguaia.

Mas, senhor...

Não sei, não. O que morreu deve permanecer assim, Concordo, mas só mais essa, senhor. Vamos fazer assim, eu conto o que eu sei, Até hoje quase ninguém sabe que passei por lá, E não precisam saber. Vai ficar entre nós dois, Mas que porra de fixação é essa, Xupa-racha? Deixa o Araguaia enterrado na mata!

continua uma história mal contada

Mas o senhor foi implacável e incansável, Sinto arrepios só de lembrar da floresta virgem, Imagino... o senhor não resiste a nenhuma virgindade, Sempre tive à disposição um engenhoso processo de grilagem das terras virgens, Eu sei, senhor. Mas isso é outro assunto, Você que veio com essa história das virgens, Esquece isso, senhor, Não é fácil, Xupa-racha. Uma mata virgem exuberante se parece com um forno úmido, O senhor é igual onça, pega o bicho que quer. Mas fale das picadas abertas a facão por léguas e léguas, O corpo pegava fogo...





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tempo é história: Calçacurta: 5A - nunca olhei pelo retrovisor