quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Tchekhov - A obra de arte

Alguns melhores contos


“Meu objetivo é matar dois pássaros com um tiro: descrever a vida de modo veraz e mostrar o quanto essa vida se desvia da norma. Norma desconhecida por mim, como é desconhecida por todos nós”
Anton Tchekhov

A obra de arte

     Carregando sob o braço um objeto embrulhado no número 223 do Mensageiro da Bolsa, Sacha Smirnoff, filhinho de mamãe, assumiu uma expressão de tristeza e entrou no consultório do doutor Kochelkoff.

— Ah! meu grande jovem! — exclamou o médico. — Como vamos? O que há de novo?

     Fechando as pálpebras, Sacha pôs a mão no coração e, comovido, falou: 

— Mamãe lhe manda seus cumprimentos, Ivan Nicolaìevitch, e me encarregou de lhe agradecer… Mamãe só tem a mim no mundo, e o senhor me salvou a vida… curando-me de grave enfermidade e… não sabemos como lhe agradecer. 
— Ora! O que é isso, meu jovem! — atalhou o médico, realizado. — Não fiz mais do que qualquer um no meu lugar teria feito…

     Depois de observar o presente, o médico coçou lentamente a orelha, bufou e suspirou, confuso. 

— Sim — murmurou —, é algo realmente magnífico… como diria?… um tanto ou quanto ousado… Não é apenas decotada; é… sei lá, que diabos! 
— Mas… por que diz isso? 
— Nem a serpente em pessoa poderia inventar alguma coisa de mais indecente. Se eu colocasse esta fantasiazinha na mesa, iria contaminar a casa toda. 
— Que modo mais excêntrico tem o senhor de interpretar a arte! — disse Sacha, ofendido. — É um objeto artístico!… Olhe! Que beleza! Que elegância! É de se ficar com a alma inundada de piedade, e com lágrimas a subir aos olhos! Contemplando-se tamanha beleza, nos esquecemos de tudo o que seja da Terra… Veja bem… Que movimentos! Que harmonia! Que expressão!… 
— Compreendo muito bem tudo isso, meu caro — interrompeu o médico —, mas acontece que eu sou pai de família. Meus filhos costumam vir aqui. Recebo senhoras… 
— É evidente — disse Sacha — que se a gente adotar o ponto de vista do povo, este objeto, altamente artístico, causará uma impressão diferente… Sou o filho único de mamãe… somos pobres, e por isso não podemos lhe recompensar os seus cuidados; e não sabemos o que fazer; embora, apesar de tudo, mamãe e eu… seu filho único… lhe suplicamos de todo o coração que aceite, como penhor de gratidão… esta ninharia que… É um bronze antigo… uma obra rara… de arte. 
— Mas não havia necessidade — disse o médico, franzindo as sobrancelhas. 
— Por que razão? 
— Não, eu imploro ao senhor, não recuse! — continuou a murmurar Sacha, desembrulhando de todo o pacote. — Seria uma ofensa, a mamãe e a mim… Trata se um objeto belíssimo… em bronze antigo. Foi herança de papai, guardada como uma querida lembrança.. Papai comprava bronzes antigos e revendia-os aos colecionadores… Já mamãe e eu não nos ocupamos disso…

     Sacha acabou de desembrulhar o objeto e colocou-o solenemente em cima da mesa. Era um pequeno candelabro de bronze antigo, de fina feitura. Representava duas figuras femininas em trajes de Eva e em atitudes que não ousaria — nem tenho temperamento para isso — descrever.
     As figuras sorriam ostensivamente, dando a impressão de que, não fossem retidas pela obrigação de suster o castiçal, teriam imediatamente fugido do pedestal dançando tal cancã que, amigo leitor, nem é bom imaginar. 

— O doutor, claro, está acima destas coisas todas e portanto sua recusa nos daria, a mamãe e a mim, uma enorme frustração. Sou o filho único de mamãe; o senhor me salvou a vida… Damos-lhe de presente o que de mais precioso possuímos, e… só tenho a tristeza de não nos pertencer o par do candelabro! 
— Muito agradecido, meu jovem amigo. Fico-lhe muito grato… Minhas recomendações à sua mãe, mas rogo-lhe, o senhor mesmo considere a questão! Meus garotos costumam vir aqui… Aparecem muitas senhoras… Mas deixo-o aqui, já que me parece impossível convencê-lo! 
— Ora, não há de que me convencer! — disse Sacha com habilidade. – Coloque o candelabro do lado desta jarra. Que infelicidade não possuir o par!… Bem, vou indo, adeus, doutor.

     Depois da saída de Sacha, o doutor observou bastante o candelabro, coço orelha e concluiu:

“Não se pode negar que é magnífico. É uma pena abrir mão dele. Ao mesmo tempo é impossível deixá-lo aqui… Hum… Está criado o problema… Poderia dá-lo de presente a quem?”

     Depois desta reflexão, lembrou-se do advogado Ukhoff, seu amigo íntimo, que gostaria de ter o objeto.

“Às mil maravilhas!”, decidiu. “Ukof Ukhoff não aceita receber dinheiro de mim , mas ficará contente com esta lembrança… E assim me livrarei deste incômodo. Além do mais, ele é solteiro e maroto…”

     Rápido, o médico se vestiu, pegou o candelabro e foi até a casa do advogado. 

— Bom dia, amigo — disse, ao encontrar Ukhoff em sua morada… — Venho lhe trazer uma recompensa pela amolação… Já que não quer aceitar dinheiro meu, aceitará um pequeno presente… Ei-lo, meu amigo! É um objeto magnífico!

     Ao ver o candelabro, o advogado viu-se tomado de inefável encantamento. 

— Isso sim é que é obra de arte — disse, rindo às gargalhadas. — Que o diabo carregue os meliantes capazes de sequer imaginar alguma coisa de parecido… É maravilhoso! Onde foi que você encontrou tal preciosidade?

     Assim que o entusiasmo se esgotou, o advogado lançou temerosos olhares para o lado da porta e disse: 

— No entanto, meu velho amigo, é melhor levar de volta o seu presente. Não posso aceitá-lo…
— Por que? — quis saber, espantado, o médico. 
— Porque… Mamãe vem aqui, meus clientes… e além do mais é constrangedor em relação aos criados… 
— Ora, essa é boa!… Você não terá a ousadia de recusá-lo. (E o médico agitou as mãos.) Eu ficaria ofendido!… Trata-se de um objeto de arte… Que movimentos! Que expressão!… Não quero ouvir seus argumentos! Você me deixaria melindrado! 
— Se pelo menos tivesse alguma sutileza, ou se estivesse coberta…

     O médico, porém, ainda a agitar as mãos e contente por conseguir se desfazer do presente, voltou para o seu consultório.
     Sozinho em casa, o advogado pôs-se a examinar o candelabro, apalpou-lhe todas as partes e, da mesma forma que o médico, viu-se tentado a refletir sobre o que deveria fazer com ele.

“É um objeto belíssimo”, pensou. “Seria uma pena se desfazer dele; ao mesmo tempo, é inconveniente tê-lo em casa… Melhor seria oferecê-lo a alguém… Já sei, vou levá-lo hoje à noite ao cômico Chachkine. O sacana adora as coisas desse gênero, e hoje é justamente o dia de sua estreia…”

     Foi o que fez, tão rápido quanto pensou. À noite o candelabro, lindamente embrulhado, era oferecido ao cômico Chachkine.
     A noite toda o camarim do artista foi invadido pelos homens que queriam admirar o presente; a noite toda foi de murmúrios de aprovação e de risadas que mais pareciam relinchos… Quando uma artista se aproximava do camarim e perguntava: “Pode-se entrar?”, logo a voz rouca do cômico retumbava: 

— Não, não, cara amiga! Estou sem roupa!

     Terminado o espetáculo, Chachkine dizia, dando de ombros e abrindo os braços: 

— Onde vou colocar tamanha indecência? Moro em casa de família e recebo muitos artistas! E isso não é como fotografia, que a gente pode esconder dentro da gaveta.. 
— Ora, por que não o vende, senhor? — aconselhou o cabeleireiro, que o ajudava a trocar de roupa. — Tem uma velha aqui no bairro que compra bronze antigo. Vá lá e pergunte pela senhora Smirnoff… Todo mundo a conhece.

     O cômico resolveu seguir o conselho…
     Dois dias depois, o doutor Kochelkoff meditava sobre os ácidos biliosos, de dedo na testa. Subitamente a porta se abriu e Sacha Smirnoff jogou-se a seu encontro. Sorria exultante, e todo o seu ser transpirava felicidade… Trazia alguma coisa embrulhada em jornal. 

— Doutor — disse, ofegante —, imagine só nossa alegria!… Para nossa felicidade, encontramos o par do seu candelabro!… Mamãe está se sentindo tão feliz!… E o senhor me salvou a vida…

     Então, tremendo de gratidão, Sacha colocou o candelabro diante dos olhos de Ivan Nicolaievitch. 0 médico quis dizer alguma coisa mas não conseguiu. Perdera o uso da palavra.

Fim

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Leia também:
A mulher do farmacêutico / A obra de arte /          .     
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A Dama do Cachorrinho e Outras Histórias
Traduzido por Maria Aparecida Botelho Pereira Soares
A dama do cachorrinho (III) /  LP&M Pocket
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Anton Pavlovitch Tchekhov, nasceu em Taganrog, 29 de janeiro de 1860 — Badenweiler, 15 de julho de 1904, foi um médico, dramaturgo e escritor russo, considerado um dos maiores contistas de todos os tempos. Em sua carreira como dramaturgo criou quatro clássicos e seus contos têm sido aclamados por escritores e críticos. Tchekhov foi médico durante a maior parte de sua carreira literária, e em uma de suas cartas[4] ele escreve a respeito:
"A medicina é a minha legítima esposa; a literatura é apenas minha amante". 
Como contista se tornou insuperável. Seus contos, tanto quanto suas peças, são, em geral, obras-primas que harmonizam perfeitamente a forma e a precisão vocabulares a uma sedutora e corretíssima fluência verbal, sem deixar de conter também um conteúdo lírico dos mais densos. Melancolicamente pessimista e aproveitando ao máximo todas as experiências humanas e sociais, Tchekhov seria o criador de uma escola literária que encontraria mais tarde, mesmo nos países ocidentais, enorme repercussão.

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Dostoiévski - Os Irmãos Karamazov Livro 4 (I. O Padre Fierapont)

Os Irmãos Karamazov

Fiódor Dostoiévski


SEGUNDA PARTE
LIVRO IV
OS TUMULTOS
I
O PADRE FIERAPONT
 
     Aliócha despertou antes do amanhecer. O stáriets já não dormia e se sentia bastante fraco, mas quis levantar-se e sentar se numa cadeira. Estava em plena consciência. Seu rosto, embora esgotado, refletia uma alegria serena, o olhar alegre, afável, atraía.

— Talvez não veja o fim deste dia — disse ele a Aliócha.

     Quis logo confessar-se e comungar. Seu diretor habitual era o Padre Paísi. Depois administraram-lhe a extrema-unção. Os religiosos reuniram-se; a cela, pouco a pouco, encheu-se; o dia amanhecera; vieram também monges do mosteiro. Depois do ofício, o stáriets quis despedir-se de todos e beijou a todos. Tendo em vista a exiguidade da cela, os primeiros chegados cediam lugar aos outros. Aliócha mantinha-se junto do stáriets, de novo sentado em sua cadeira. Falava e ensinava de acordo com suas forças; sua voz, embora fraca, era ainda bastante nítida. "Desde tantos anos vos instruo pela palavra, que se tornou isso para mim um hábito tal que o silêncio me seria quase mais penoso, caros padres e irmãos, mesmo agora, em meu estado de fraqueza", disse ele, brincando, olhando com ar enternecido aqueles que se acotovelavam em redor dele. Aliócha lembrou-se depois de algumas de suas palavras. Mas, muito embora sua voz fosse distinta e suficientemente firme, sua fala era bastante desconexa. Falou muito, como se tivesse querido, naquela hora suprema, exprimir tudo quanto não pudera dizer durante sua vida, não com o único fim de instruir, mas para fazer todos partilharem de sua alegria e de seu êxtase, expandir por uma derradeira vez seu coração...

— Amai-vos uns aos outros, meus padres — ensinava o stáriets (segundo as recordações de Aliócha). — Amai ò povo cristão. Não somos mais santos do que os leigos, por ter vindo encerrar-nos dentro destas paredes; pelo contrário, todos aqueles que estão aqui têm reconhecido, pelo simples fato de sua presença, ser piores do que os leigos e do que todo mundo... E quanto mais o religioso viver em seu retiro, tanto mais deverá ter consciência disso. De outro modo não valeria a pena vir para cá. Quando compreender que não somente é pior que todos os leigos, mas culpado de tudo para com todos, de todos os pecados coletivos e individuais, então somente o fim de nossa união será atingido. Porque, sabei, meus irmãos, que cada um de nós é certamente culpado aqui na terra de tudo para com todos, não somente pela falta coletiva da humanidade, mas de cada um individualmente, por todos os outros na terra inteira. Esta consciência de nossa culpabilidade é o coroamento da carreira religiosa, bem como de cada homem na terra. Porque os religiosos não são homens à parte, mas somente tais como deveriam ser todas as pessoas neste mundo. Então somente vosso coração será penetrado dum amor infinito, universal, jamais saciado. Então cada um de vós será capaz de ganhar o mundo inteiro pelo amor e de lavar-lhe os pecados com suas lágrimas... Que cada qual entre em si mesmo e se confesse sem cessar. Não temais vosso pecado, mesmo se tiverdes consciência dele, contanto que vos arrependais, mas não imponhais condições a Deus. Eu vo-lo repito, não vos orgulheis, nem diante dos pequenos nem diante dos grandes. Não odieis aqueles que vos repelem, vos desonram, aqueles que vos insultam e vos caluniam. Não odieis os ateus, os professores do mal, os materialistas, mesmo os maus dentre eles, porque muitos são bons, sobretudo em nossa época. Lembrai-vos deles em vossas orações, dizei: "Salvai, Senhor, aqueles por quem ninguém reza, salvai aqueles que não querem rezar a vós". E acrescentai: "Não é por orgulho que vos dirijo esta prece, Senhor, porque sou eu mesmo vil entre todos... " Amai o povo cristão, não abandoneis vosso rebanho aos estrangeiros, porque, se adormecerdes na cupidez, virão de todos os países para arrebatar vosso rebanho. Não vos canseis de explicar o Evangelho ao povo... Não vos entregueis à avareza... Não vos ligueis ao ouro e à prata... Tende fé, mantende firme e alto o estandarte... 

     O stâriets exprimia-se, aliás, duma maneira mais desconexa do que foi acima exposta e do que Aliócha a escreveu depois. Por vezes parava completamente, como para reunir suas forças, ofegava, mas estava como em êxtase. Escutavam no com enternecimento, muito embora muitos se espantassem com suas palavras e as achassem obscuras...
     Posteriormente, todos se recordaram delas. Quando Aliócha deixou a cela por um instante, ficou impressionado com a agitação geral e com a expectativa da comunidade que se comprimia na cela e em redor. Aquela expectativa era em alguns quase ansiosa, em outros, solene. Todos aguardavam alguma coisa de grande imediatamente após o desenlace do stâriets. Muito embora em certo sentido fosse essa expectativa quase frívola, os monges mais severos estão a ela sujeitos. O rosto mais sério era o do Padre Paísi. Aliócha só se ausentara porque um monge o chamava de parte de Rakítin, que viera da cidade com uma carta da Senhora Khokhlakova para ele. Comunicava curiosa notícia chegada muito a propósito. Na véspera, entre as mulheres do povo, que eram crentes e tinham vindo prestar homenagem ao stáriets e receber sua bênção, encontrava-se uma velha da cidade, Prókhorovna, viúva dum suboficial. Perguntara ao stâriets se se podia mencionar como defunto, na oração pelos mortos, seu filho Vássienhka, que partira para seu serviço militar em Irkutsk, na Sibéria, do qual estava ela sem notícias havia um ano. Ele lhe havia severamente proibido, tratando tal prática de análoga à feitiçaria. Mas, indulgente para com a ignorância dela, acrescentara uma consolação, "como se visse no livro do futuro" (segundo a expressão da Senhora Khokhlakova); o filho dela, Vássia, estava certamente vivo, chegaria em breve ou lhe escreveria, tendo ela apenas de ficar esperando em casa. E então, acrescentava a Senhora Khokhlakova, entusiasmada, "a profecia cumprira-se ao pé da letra e mesmo além".
     Assim que a boa mulher regressara à sua casa, entregaram-lhe uma carta da Sibéria, que a esperava. Mais ainda, nessa carta, escrita de. Ekatierinburg, Vássia informava sua mãe de que voltava para a Rússia em companhia dum funcionário, e que, duas ou três semanas após o recebimento daquela carta, esperava beijar sua mãe.
     A Senhora Khokhlakova rogava insistentemente a Aliócha que comunicasse o novo milagre daquela predição ao padre abade e a toda a comunidade. "É importante que todos o saibam!", exclamava ela ao fim de sua carta, escrita à pressa: a emoção refletia-se nela em cada linha. Mas Aliócha nada tinha de comunicar à comunidade, todos já o sabiam. Ao enviar o monge à sua procura, encarregara-o Rakítin, além disso, de informar respeitosamente sua reverência, o Padre Paísi, de que tinha de comunicar- lhe um caso sem demora, visto sua importância, e rogava-lhe humildemente que lhe perdoasse a ousadia. Tendo o monge transmitido em primeiro lugar ao Padre Paísi o pedido de Rakítin, não restava a Aliócha, depois de ter lido a carta, senão comunicá-la ao padre, a título de documentário. E eis que aquele homem rude, desconfiado, lendo, de sobrancelhas contraídas, a notícia do "milagre", não foi inteiramente senhor de seu sentimento íntimo. Seus olhos brilharam, mostrou um sorriso grave, penetrante.

— Veremos bem mais outros — deixou ele escapar.
— Veremos bem mais outros! — repetiram os monges; mas o Padre Paísi, franzindo de novo as sobrancelhas, rogou a todos que não falassem a ninguém no momento, "até que isto se confirme, porque há muita frivolidade nas notícias do mundo, e aquele caso podia ter ocorrido duma maneira natural", concluiu ele, prudentemente, como para desencargo de consciência, mas quase sem acrescentar fé ele próprio à sua reserva, o que observaram muito bem seus ouvintes.

     Na mesma hora, naturalmente, o "milagre" era conhecido de todo o mosteiro, e até mesmo de muitos leigos, vindos para assistir à missa. O mais impressionado parecia ser o monge chegado de véspera de São Silvestre, pequeno mosteiro de Obdorsk, no norte longínquo, o que prestara homenagem ao stáriets ao lado da Senhora Khokhlakova e lhe perguntara com ar penetrante, designando a filha daquela senhora: "Como ousa fazer tais coisas?" Estava agora presa de certa perplexidade e não sabia quase mais em quem crer.
     Na véspera, à noite, fizera visita ao Padre Fierapont em sua cela particular, por trás do apiário, e trouxera dessa entrevista um impressão lúgubre. O Padre Fierapont era aquele velho monge, grande jejuador e observador do silêncio, que já citamos como adversário do stáriets Zósima e sobretudo do "starietismo", que considerava uma novidade nociva e frívola. Era um adversário bastante temível, se bem que, taciturno, não falasse quase com ninguém. Era sobretudo perigoso por causa da sincera simpatia que lhe testemunhava a maioria da comunidade; muitos leigos o veneravam como um grande justo e um asceta, vendo nele ao mesmo tempo um verdadeiro insensato. Mas sua loucura cativava.
     O Padre Fierapont não ia nunca à casa do stáriets Zósima. Se bem que vivesse no eremitério, não lhe impunham demasiado a regra, porque tinha ele um proceder de inocente. Tinha 75 anos, se não mais, e morava por trás do apiário, no ângulo de um muro, numa cela de madeira, caindo quase em ruínas, instalada havia bastante tempo, ainda no último século, por outro grande jejuador e taciturno, o Padre Iona, que vivera até 105 anos e cujas façanhas constituíam ainda o objeto de narrativas bastante curiosas, no mosteiro e nos arredores.
     O Padre Fierapont obtivera por fim permissão de instalar-se naquela ceia isolada, uma simples isbá, mas que se assemelhava bastante a uma capela, porque continha grande quantidade de ícones com lâmpadas a ar- derem perpetuamente; provinham de donativos e o Padre Fierapont parecia encarregado de guardá-las e acendê-las. Comia, pelo que se contava (e era verdade), somente 2 libras de pão em três dias, não mais; era o guarda do apiário, que morava no local, quem lhe trazia, mas trocava raramente uma palavra com aquele homem. Aquelas 4 libras, com o pão bento do domingo, enviado regularmente ao inocente pelo padre abade, constituíam sua alimentação da semana. Renovava se cada dia a água de seu jarro. Assistia raramente ao ofício. Seus admiradores encontravam-no por vezes dias inteiros em oração, sempre ajoelhado e sem olhar em torno de si. Se entrava em conversa com eles, mostrava-se lacônico, brusco, estranho e quase sempre grosseiro. Havia, no entanto, casos muito raros em que conversava com os visitantes, mas a maior parte das vezes contentava-se com pronunciar uma palavra estranha que intrigava sempre seu interlocutor; em seguida, a despeito de todos os rogos, não dava jamais uma palavra de explicação. Jamais fora ordenado padre.
     Circulava um boato estranho, na verdade, entre os mais ignorantes, segundo o qual o Padre Fierapont estava em relação com os espíritos celestes e se entretinha somente com eles, o que explicava seu silêncio com as pessoas. O monge de Obdorsk, que entrara no apiário depois da indicação do guarda, monge igualmente sombrio e taciturno, dirigiu-se para o ângulo em que se erguia a cela do Padre Fierapont. "Talvez queira ele falar-te pela tua qualidade de estranho, talvez também nada consigas dele", prevenira- o o guarda. O monge aproximou-se, como o contou mais tarde, com um grande medo. Já se fazia tarde. O Padre Fierapont estava sentado num banquinho, diante de sua cela. Acima de sua cabeça rumorejava levemente um velho olmo gigantesco. Caía o frescor da noite. O monge prosternou-se diante do recluso e pediu-lhe a bênção.

— Queres tu, monge, que também eu me prosterne diante de ti? — proferiu o Padre Fierapont. — Levanta-te.

     O monge levantou-se.

— Abençoante e abençoado, senta-te ali. Donde vens?

     O que impressionou mais o pobre mongezinho foi que o Padre Fierapont, a despeito de seus jejuns prolongados e de sua idade avançada, tinha ainda o ar de ancião vigoroso, de elevada estatura, mantendo-se ereto, o rosto fresco, se bem que magro, mas sadio. Tinha certamente conservado uma força notável e era de constituição atlética. Malgrado sua avançada idade, seus cabelos, outrora negros e espessos, bem como sua barba, não estavam todos grisalhos. Tinha grandes olhos cinzentos, luminosos, mas bastante salientes, o que chamava a atenção. Falava acentuando fortemente a letra "o". Seu hábito consistia num longo gabão avermelhado, de pano grosseiro, como para os prisioneiros, com uma corda à guisa de cinturão. O pescoço e o peito estavam nus. Uma camisa de pano muito grosso, quase enegrecida, que ele usava durante meses, aparecia sob o gabão. Dizia-se que carregava consigo correntes de 35 libras. Estava calçado com velhos sapatos quase desfeitos.

— Acabo de chegar do pequeno mosteiro de Obdorsk, de São Silvestre — respondeu humildemente o visitante, observando o asceta com seus olhos vivos e curiosos, mas um pouco inquietos.
— Estive no teu São Silvestre. Vivi ali. Passa ele bem?

     O monge perturbou-se.

— Vós sois gente de poucas luzes! Que jejum observais?
— Nossa mesa é regulada segundo o antigo uso monacal. Durante a Quaresma, nas segundas, quartas e sextas, não se servem alimentos. Nas terças e quintas, dá-se à comunidade pão branco, uma tisana com mel, amoras silvestres ou couves salgadas, e farinha de aveia. No sábado, sopa de couve, aletria com ervilhas, trigo mourisco com azeite de cânhamo. No domingo, acrescentam se à sopa peixe seco e trigo mourisco. Na Semana Santa, da segunda ao sábado à noite, pão, água, e somente legumes não cozidos, em quantidade moderada; ainda assim não se deve comer todos os dias, mas conformar-se com as instruções dadas para a primeira semana da Quaresma. Na sexta-feira santa, jejum completo; no sábado, até as 3 horas da tarde, quando se pode tomar um pouco de pão e de água, e beber um copo de vinho. Na quinta-feira santa, comemos alimentos cozidos sem manteiga, bebemos vinho e observamos o uso de alimentos secos. Porque já o concilio de Laodicéia se exprime assim a respeito da quinta-feira santa: "Não convém romper o jejum na quinta-feira da última semana e desonrar assim a Quaresma inteira". Eis o que se passa entre nós. Mas que é isto em comparação convosco, eminente padre —- acrescentou o monge, que havia retomado coragem —, que o ano inteiro, mesmo na Páscoa, só vos nutris de pão e água? O pão que consumimos em dois dias basta-vos para a semana inteira. Vossa abstinência é verdadeiramente maravilhosa.
— E os cogumelos? — perguntou de súbito o Padre Fierapont.
— Os cogumelos? — repetiu o monge com espanto. — Justamente. Passo sem o pão deles, não tenho nenhuma necessidade dele, mesmo na floresta; nutro-me de cogumelos ou de bagas, eles não podem passar sem pão, estão pois ligados ao demônio. Agora, pretendem os pagãos que é inútil jejuar tanto. Tal é o raciocínio deles, arrogante e ímpio.
— Ai, sim! — suspirou o monge. 
— Viste os diabos em casa deles? — perguntou o Padre Fierapont.
— Em casa de quem? — informou se timidamente o monge. 
— No ano passado, fui à casa do padre abade, em Pentecostes. Depois não voltei mais lá. Vi um diabo escondido no peito de um monge, sob a batina, aparecendo somente os chifres; um segundo tinha um no seu bolso, espiando, de olhos vivos. Eu lhe fazia medo; um terceiro dava asilo a um diabinho nas suas entranhas impuras, enfim um outro carregava um, suspenso a seu pescoço, agarrado, sem o ver.
— Vós... víeis? — perguntou o monge.
— Digo-te que vejo, vejo através. Ao deixar o padre abade, avistei um diabo que se escondia de mim atrás da porta, era de bela estatura, 1 archin e meio ou mais, a cauda espessa, fulva, comprida; a ponta ficou presa na fenda, não hesitei e fechei violentamente a porta, apertando o rabo dele. O meu diabo pôs-se a gemer, a debater-se. Fiz sobre ele três vezes o sinal da-cruz. Rebentou ali mesmo como uma aranha esmagada. Deve ter apodrecido num canto, fede, mas eles não o veem, nem o sentem. Há um ano que não vou mais lá. A ti somente, como estranho, revelo isto. 
— Vossas palavras são terríveis! Dizei me, eminente e bem-aventurado padre, é verdade o que relatam de vós nas terras mais longínquas, que estaríeis em relação permanente com o Espírito Santo?
— Ele desce por vezes sobre mim.
— Sob que forma?
— A forma dum pássaro. 
— O Espírito Santo sob a forma de uma pomba?
— Isto é o Espírito Santo, sim, mas falo do Santo Espírito, que é diferente. Pode descer sob a forma dum outro pássaro, uma andorinha ou um pintassilgo, por vezes um melharuco.
— Como podeis reconhecê-lo? 
— Ele fala. 
— Como fala ele, em que língua?
— Na língua humana. 
— E que vos diz? 
— Hoje, anunciou-me a visita de um imbecil que me faria perguntas ociosas. Monge, és bem curioso. 
— Vossas palavras são temíveis, bem-aventurado e venerando padre. — o monge abanava a cabeça, mas a desconfiança aparecia nos seus olhos medrosos. 
— Vês aquela árvore? — perguntou, após uma pausa, o Padre Fierapont. 
— Vejo-a, bem-aventurado padre. 
— Para ti, é um olmo, mas para mim, outro quadro. 
— Qual? — e o monge esperou ansiosamente. 
— Vês aqueles dois ramos? De noite, por vezes, são os braços do Cristo que se estendem para mim e me procuram, vejo-o claramente e estremeço. Oh! é terrível! 
— Por que terrível, se é o próprio Cristo?
— Ele me agarrará e me levará.
— Vivo? 
— Não sabes então nada da glória de Elias? Ele vos agarra e vos leva...  

     Depois dessa conversa, o monge de Obdorsk regressou à cela que lhe haviam designado; estava bastante perplexo, mas seu coração o inclinava mais para o Padre Fierapont que para o Padre Zósima. Nosso monge estimava mais que tudo o jejum e não lhe causava surpresa que um grande jejuador como o Padre Fierapont visse maravilhas. Suas palavras tinham ar de absurdas, evidentemente, mas Deus sabia o que elas significavam e muitas vezes os inocentes, por amor do Cristo, falam e agem duma maneira ainda mais estranha. Sentia prazer em crer sinceramente no diabo e no seu rabo preso, não somente no sentido alegórico, mas literal. Além do mais, desde antes de sua chegada ao mosteiro, tivera grande prevenção contra o "starietismo", que considerava segundo muitos outros como uma inovação nociva. Durante o dia passado no mosteiro, pudera notar o murmúrio secreto de certos grupos frívolos, opostos àquela instituição. Além disso, era uma natureza insinuante e sutil, testemunhando por tudo grande curiosidade.
     Assim, a notícia do novo "milagre" realizado pelo stáriets Zósima mergulhou-o numa profunda perplexidade. Mais tarde, Aliócha lembrou-se, entre os religiosos que se comprimiam em torno do stáriets e de sua cela, da frequente aparição daquele hóspede curioso que se intrometia em toda parte, prestando ouvidos e interrogando todo mundo. Não lhe deu atenção então... Tinha outra grande coisa na cabeça: o stáriets, que voltara a deitar-se, sentindo lassitude, lembrou-se dele ao despertar e reclamou sua presença. Aliócha acorreu. Em redor do moribundo não havia então senão o Padre Paísi, o Padre Iósif e o noviço Porfírio. O velho, fixando Aliócha com seus olhos fatigados, perguntou-lhe:

— Será que os teus te esperam, meu filho?

     Aliócha ficou embaraçado.

— Não têm eles necessidade de ti? Prometeste a alguém ir vê-lo hoje? 
— Prometi a meu pai... a meus irmãos... a outras pessoas também... 
— Estás vendo? Vai imediatamente e não te aflijas. Fica sabendo, não morrerei sem ter pronunciado diante de ti minhas supremas palavras aqui na terra. É a ti que as legarei, meu caro filho, porque sei que me amas. E agora, vai cumprir tua promessa. 

     Aliócha submeteu-se logo, se bem que lhe custasse afastar-se. Mas a promessa de ouvir as derradeiras palavras de seu mestre, como um legado pessoal, arrebatava-o de alegria. Apressava-se, a fim de poder voltar mais depressa, depois de ter terminado tudo. Justamente, o Padre Paísi lhe dirigiu, antes de sua partida, palavras que o impressionaram profundamente. Foi depois de haverem deixado a cela.

— Lembra-te sempre, rapaz — começou o padre, sem preâmbulos —, de que a ciência do mundo, tendo-se desenvolvido neste século sobretudo, dissecou nossos livros santos e, após uma análise impiedosa, nada deixou subsistir. Mas, dissecando as partes, perderam de vista o conjunto, e sua cegueira é de causar espanto. O conjunto se ergue diante dos olhos deles, tão inabalável quanto antes, e o inferno não prevalecerá contra ele. Será que o Evangelho não tem dezenove séculos de existência, não vive ainda agora nas almas dos indivíduos e nos movimentos das massas populares? Subsiste mesmo, sempre inabalável, nas almas dos ateus destruidores de toda crença! Porque os que renegaram o cristianismo e se revoltam contra ele, esses mesmos permaneceram no íntimo à imagem do Cristo, porque nem sua sabedoria nem sua paixão puderam criar outro modelo para o homem, superior ao indicado outrora pelo Cristo. As tentativas neste sentido não passaram de monstruosidades. Lembra-te disto sobretudo, rapaz, pois teu stariets moribundo te envia para o mundo. Talvez lembrando-te deste grande dia, não esqueças minhas palavras, dirigidas para teu bem, porque és jovem, as tentações do mundo são grandes e não tens força para suportá-las. E agora vai, pobre órfão. 

     Ao terminar, o Padre Paísi deu-lhe sua benção. Refletindo nessas palavras imprevistas, compreendeu Aliócha que encontrara novo amigo e um guia cheio de amor naquele monge até então rigoroso e rude para com ele, como se o stariets Zósima lho houvesse legado ao morrer. "Talvez se hajam entendido entre si", pensou Aliócha. A dissertação que acabara de ouvir atestava somente o zelo do Padre Paísi: apressava-se em armar aquele jovem espírito para a luta contra as tentações e em preservar aquela jovem alma que lhe legavam, elevando em torno dela o baluarte mais sólido que pôde imaginar.

continua na página 243...
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Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, nascido em Moscou, 11 de novembro de 1821 — falecido em São Petersburgo, 9 de fevereiro de 1881, foi um escritor, filósofo e jornalista russo. É considerado por muitos um dos maiores romancistas e pensadores da história, bem como um dos maiores «psicólogos» que já existiu, ao considerar a designação e etimologia mais ampla do termo, como investigador da psique.
Os Irmãos Karamazov é um romance de Fiódor Dostoiévski, escrito em 1879, uma das mais importantes obras das literaturas russa e mundial, ou, conforme afirmou Freud: "a maior obra da história". Freud considera esse romance, juntamente com Édipo Rei e Hamlet, três importantes livros a respeito do embate pai e filho, e retratam o complexo de Édipo.

Tolstói - Guerra e Paz: Primeira Parte (XI - Queria conversar em particular)

Guerra e paz

Liev Tolstói

Primeira Parte
XI

     A condessa estava tão cansada das visitas que deu ordem de não receberem mais ninguém, e o porteiro foi somente encarregado de convidar para o jantar os que viessem trazer seus cumprimentos.

     Queria conversar em particular com sua amiga de infância, a princesa Ana Mikhailovna, que ainda não havia visto desde sua volta de São Petersburgo. Ana Mikhailovna, com a fisionomia lacrimosa e sorridente, aproximou-se da poltrona da condessa.

— Contigo serei absolutamente franca — disse Ana Mikhailovna. — Já nos restam poucos velhos amigos, e é por isso que aprecio tanto tua amizade. — Olhou Vera e interrompeu-se.

     A condessa apertou a mão de sua amiga.

— Vera — disse ela à filha, que parecia não ser muito querida —, tu não tens noção das coisas. Não sentes que estás sobrando aqui? Vai procurar tuas irmãs ou…

     A bela Vera, sem mostrar-se ofendida, sorriu desdenhosamente.

— Se tivesses me dito antes, mamãe, já teria saído.

     Ela se dirigiu para seu quarto. Mas, atravessando uma saleta, percebeu, perto das janelas simétricas, dois pares sentados. Parou e sorriu com desprezo. Sônia estava sentada perto de Nicolau, que copiava para ela os primeiros versos que escrevera. Boris e Natacha, à outra janela, falavam baixinho e calaram-se quando Vera entrou. Sônia e Natacha olharam-na com uma expressão culpada, que denunciava seus sentimentos, e feliz.
     Era alegre e tocante, ao mesmo tempo, ver essas duas garotinhas apaixonadas, mas a cena não provocou nenhum sentimento agradável em Vera.

— Quantas vezes já pedi — disse ela — para não mexerem no que é meu. Vocês têm seu quarto.

     Pegou o tinteiro que Nicolau estava usando.

— Um momento, um momento — pediu ele, molhando a pena.
— Vocês não têm a menor compostura — continuou Vera. — Ainda há pouco entraram na sala de tal jeito que todo mundo ficou constrangido. — Como tudo que ela dizia era perfeitamente razoável, ninguém lhe respondeu e os quatro se olharam entre si. Vera parou no centro do cômodo com o tinteiro na mão. — Nessa idade, que segredos pode haver entre Boris e Natacha e entre vocês dois! Só bobagens, é ridículo.
— Mas o que te importa isso, Vera? — disse Natacha em voz doce. Evidentemente, nesse dia estava mais bem-disposta com todos e mais meiga que de costume. 
— Bobagens — replicou Vera. — Fico envergonhada por vocês. Segredos? 
— Cada um tem os seus. Nós te deixamos quieta com Berg — respondeu Natacha, exaltando-se. 
— Vocês me deixam em paz porque não podem censurar as minhas ações. Já tu, vou dizer a mamãe como te comportas com Boris. 
— Natália Ilinichna porta-se muito bem comigo — interveio Boris. — Não tenho por que reclamar. 
— Deixe, Boris, você é muito diplomata… (a palavra diplomata era frequentemente empregada pelas crianças num sentido peculiar que elas lhe davam). É insuportável essa sua mania de me provocar sempre — disse Natacha com a voz trêmula de indignação. — Tu nunca compreendes nada, porque nunca amaste ninguém — continuou dirigindo-se a Vera. — Não tens sentimento, não passas de uma Madame de Genlis (apelido considerado muito ofensivo que Nicolau havia posto em Vera) e teu maior prazer é incomodar os outros. Mostre-se para Berg quanto quiseres — concluiu com vivacidade. 
— Sim, eu! Mas não ando correndo atrás de um rapaz na frente das visitas… 
— Está bem! Já conseguiste o que querias — interveio Nicolau. — Já disseste uma porção de coisas desagradáveis e já incomodaste todo mundo. Vamos para o quarto das crianças. — E os quatro saíram como um bando de passarinhos assustados. 
— Eu que ouvi uma porção de desaforos e não respondi nada — concluiu Vera. 
— Madame de Genlis, Madame de Genlis! — gritaram, rindo atrás da porta. 

     A linda Vera, que sempre causava tão má impressão, sorria sem preocupar-se com o que ouvia. Aproximou-se do espelho e arrumou a echarpe e o cabelo. Contemplando o lindo rosto, ficou sensivelmente mais fria e mais calma.
     Na sala a conversação continuava.

— Ah, chère! — disse a condessa. — Na minha vida também, nem tudo é cor-de-rosa. Então eu não sei que no pé em que vamos nossa fortuna não irá longe? E tudo isso devido ao clube e à bondade dele. E quando estamos no campo, pensas que descansamos? Os teatros, as caçadas e Deus sabe o que mais. Mas não falemos de mim. Fico sempre admirada contigo, Annette, viajando sozinha, na tua idade, de Moscou para Petersburgo, procurando gente do alto escalão, ministros e conseguindo tudo que pedes. Francamente, fico admirada, e não compreendo como consegues tudo com essa gente! 
— Ah, minha amiga! — respondeu a princesa Mikhailovna. — Que Deus te poupe saber o que é ser viúva, sem nenhum apoio, amando um filho até a adoração. Aprende-se tudo — continuou com certo orgulho. — Meu processo ensinou-me muita coisa. Se preciso ver algum peixe grande, escrevo um bilhete: “A princesa fulana deseja falar com sicrano”, e volto duas, três e mesmo quatro vezes, até conseguir o que pretendo. Pouco importa o que pensem de mim. 
— Mas a quem pediste que se interessasse por Borenka? — perguntou a condessa. — Ele já é oficial da guarda, enquanto Nicolau é apenas aspirante; e nós não sabemos que passos dar. Quem foi teu padrinho? 
— O príncipe Vassili. Foi muito gentil. Sem se mostrar rogado, fez o pedido ao imperador — disse com entusiasmo a princesa Ana Mikhailovna, esquecendo completamente a humilhação sofrida. 
— E… está muito envelhecido? — perguntou a condessa. — Não o vejo desde o espetáculo dos Rumiantzev. Creio que não se lembra mais de mim, mas àquela época fazia-me a corte — recordou, sorrindo. 
— Sempre o mesmo — respondeu Ana Mikhailovna. — Amável, encantador. As grandezas não lhe viraram a cabeça. “Lamento não poder fazer mais, cara princesa, ordene”, me disse. E um homem direito, um bom parente. Tu sabes como adoro meu filho. Não sei o que não faria pela sua felicidade. Mas meus negócios vão mal — continuou com tristeza, baixando a voz. — Tão mal que me encontro na mais aflitiva das situações. Essa demanda infeliz come tudo que tenho e não vai para a frente. Imagina, eu não tenho dez kopeks, ao pé da letra, e não sei como pagar o uniforme de Boris. — Tirou o lenço e chorou. — Preciso de quinhentos rublos, e só tenho uma nota de vinte e cinco. Estou nessa situação… Minha única esperança é o conde Kiril Vladimirovitch Bezukhov. Se não quiser amparar o afilhado, ele é padrinho de Boris, e dar-lhe qualquer coisa com que possa manter-se, todo o meu esforço terá sido em vão. Não poderei comprar o uniforme.

   A condessa chorava e, em silêncio, refletia.

— Penso muitas vezes, talvez seja pecado — disse a princesa —, por que vive um homem como o príncipe Kiril Vladimirovitch Bezukhov, com essa imensa fortuna… sozinho… Para ele a vida é um fardo, enquanto que Boris apenas começa a viver. 
— É provável que ele deixe alguma coisa a Boris — disse a condessa. 
— Só Deus o sabe, chère amie; esses nobres ricos são tão egoístas. Em todo caso irei vê-lo com Boris e lhe explicarei francamente de que se trata. Pensem de mim o que quiserem, para mim é indiferente quando o futuro de meu filho está em causa. — A princesa levantou-se. — Agora são duas horas e o jantar é às quatro, terei tempo de estar de volta.

     E parecendo uma dama ocupadíssima de São Petersburgo, que sabe aproveitar seu tempo, mandou chamar o filho e dirigiu-se ao vestíbulo.

— Adeus, minha cara — disse à condessa, que a acompanhou até a porta. — Deseja-me sorte — acrescentou em voz baixa para que Boris não ouvisse. 
— Vai à casa do príncipe Kiril Vladimirovitch, ma chère? — perguntou o conde, entrando no vestíbulo. — Se estiver melhor, convide Pierre para jantar conosco. Ele visitou-me e dançou com as crianças. Convide-o sem falta, ma chère. Bem! agora vejamos o que fez Tarass. Disse que nem com conde Orlov houve jantar como este que temos hoje.
ontinua na página.... 27
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Guerra e Paz
Primeira Parte:
XI - Queria conversar em particular /                         
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Leia também:
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Liev Tolstói é um escritor russo nascido em 9 de setembro de 1828 e morreu em 20 de novembro 1910. De família aristocrata, ficou órfão de pai e mãe ainda na infância. Mais tarde, iniciou a Faculdade de Direito, mas abandonou o curso logo depois, e participou da Guerra da Crimeia. Seu sucesso como escritor ocorreu já com a publicação de suas três primeiras obras, uma trilogia composta pelos livros Infância, Adolescência e Juventude. No entanto, suas obras mais conhecidas são Guerra e Paz (entre 1865 e 1869) e Anna Karenina (entre 1875 e 1878).
Liev Tolstói, um dos maiores romancistas da literatura mundial, deixou um legado incomparável com suas obras-primas. Suas narrativas transcendem o tempo e continuam a ressoar com leitores de todas as gerações. Tolstói aborda temas como amor, guerra, moralidade e redenção, oferecendo uma rica reflexão sobre a condição humana.
Em 1862 casa-se com Sófia Andréievna Behrs, então com dezessete anos, com quem teria treze filhos. 

Castro Alves - O Maior Poeta Brasileiro: Poesias Lyricas (Hebréa)

Obras Completas de Castro Alves

Reproducção fiel da edição original de 1870 

PRIMEIRO VOLUME 
ESPUMAS FLUCTUANTES 

EDIÇÃO COMMEMORAT1VA DO CINCOENTENARIO DO POETA 
na fôrma definitiva, restituida á versão authentica. 
 com uma inlroducção bibliographica e annotações de 
AFRANIO PEIXOTO

ESPUMAS FLUCTUANTES 
 reproducção fiel da edição original de 1870 

HYMNOS DO EQUADOR 
publicações posthumas e poesias inéditas 

OS ESCRAVOS 
texto integral, parte inédita, com 
A CACHOEIRA DE PAULO AFFONSO
 
GONZAGA, OU A REVOLUÇÃO DE MINAS 
drama em 4 actos, segundo a edição original 

VÁRIOS INÉDITOS — CORRESPONDÊNCIA 
conforme autographos e manuscriptos authenticos


ESPUMAS FLUCTUANTES
Bahia - 1870

A' MEMÓRIA 
 DE 
 MEU PAE, 
 DE 
 MINHA MÃE 
 E DE 
 MEU IRMÃO 
 O. D. C


Poesias Lyricas

HEBRÉA  
 Fios caimpi et liliuni convalium. 
 Cant. doa Cânticos.

Pomba d'esp'rança sobre um mar d'escolhos! 
Lirio do valle oriental, brilhante! 
Estrella vesper do pastor errante! 
Ramo de muita a rescender cheirosa!... 

Tu és, ó filha de Israel formosa... 
Tu és, ó linda, seductora Hebréa... 
Pallida rosa da infeliz Judéa 
Sem ter o orvalho, que do ceu deriva!

Porque descoras, quando a tarde esquiva 
Mira-se triste sobre o azul das vagas? 
Serão saudades das infindas plagas, 
Onde a oliveira no Jordão se inclina?  

Sonhas acaso, quando o sol declina, 
A terra santa do oriente immenso? 
E as caravanas no deserto extenso? 
E os pegureiros da palmeira á sombra?!...

Sim, fora bello na relvosa alfombra, 
Juncto da fonte, onde Rachel gemera, 
Viver comtigo qual Jacob vivera 
Guiando escravo teu feliz rebanho...  

Depois nas águas de cheiroso banho 
— Como Suzanna a estremecer de frio — 
Fitár-te, ó flor do Babylonio rio, 
Fítàr-te a medo no salgueiro occulto...

Vem pois!... Comtigo no deserto inculto 
Fugindo ás iras de Saul embora, 
Se Michol fosses, teu David eu fora, 
Vibrando na harpa do propheta o canto...

Não vês?... Do seio me gotteja o pranto 
Qual da torrente do Cedron deserto!... 
Como luctara o patriarcha incerto 
Luctei, meu anjo, mas cahi vencido.

Eu sou o Lothus para o chão pendido, 
Vem ser o orvalho oriental, brilhante! 
Ai! guia o passo ao viajor perdido, 
Estrella vesper do pastor errante!... 

Bahia, 1866. 
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   Espumas Fluctuantes, Edição original: III. 
   Pbl. na "Imprensa Acadêmica" de S. Paulo, n°. 2, de 28 de Maio de 1868, onde vem com o sub-titulo: "a uma Judia"; sem a epigraphe; apenas com uma variante na 7." estância, 3.0 verso que adoptei em vez do verso que o substituiu nas Espumas Fluctuantes, edição original e seguintes:
   David eu fora, se Michol tu foras.
   O verso é perfeito, e de Castro Alves; já não ficará nesta poesia a jaca de uma rima imprópria. 
   A mesma data: "Bahia 1866", repetida na Edição original.
1) Hebréa (titulo). Foi de facto "a uma bella judia", Simy Àmzalack, depois sra. Alberto Henschel, depois ainda sra. Almirante José Carlos de Carvalho, dedicada esta poesia. O Poeta enviara-a com o dístico "á mais bella", travandò-se entre a "definitiva" destinataria e a talvez "intencional", sua formosa irmã Esther, lucta pela posse de um tropheu de tanto valor. Apesar de m'a haver confirmado D. Simy Carvalho esta lendária dedicatória, sua irmã mais moça, D. Mary Mesquita, suppõe que a "Hebréa" foi, como o "Pensamento de Amor", dedicada também á linda irmã de ambas, D. Esther, que era a predilecta de Castro Alves.
   Tobias Barreto ouviu a "Hebréa" cantada em uma das egrejas do Norte do Brasil, mudada a intenção pelos crentes, que se dirigiam á Virgem Maria, também hebréa (Estudos allemães, Recife, 1882, pag. 101, nota). 
2) A data da "Hebréa": "Bahia 1866", foi levia namente contestada, dizendo-se que tal não podia ser, pois nesse anno não estivera Castro Alves na sua terra; seria antes a data exacta "1871" ( !). Em primeiro logar um autographo do Poeta, que me communicou D. Adelaide de Castro Alves Guimarães, traz esta data "Bahia, 1866". Nesse anno de 1866, na Bahia, falleceu o Dr. Antônio José Alves, e seu Filho, que o viera visitar, por gravemente enfermo, assistiu-lhe ao trespasse. Como se não bastasse ha um testemunho; conta Alfredo de Carvalho, referindo palavras de Regueira Costa, o amigo fiel de Castro Alves no Recife: "o mais precioso, porem dos autographos do Poeta, que possuo, diz-me, mostrando-o, é este da lindissima poesia "Hebréa" que elle a principio intitulou "A uma judia" e onde se observa apenas uma variante, comparando-a com a que está nas Espumas Fluctuantes: "Guiando escravo teu gentil rebanho". Esta poesia deu-m'a elle ao voltar da Bahia em 1866, declarando-me havê-la de dicado a uma judia de nome Simy Amzalack (?)" (Castro Alves em Pernambuco, Recife, 1905, p. 27.) Castro Alves não tornou ao Recife depois de 1867 e só podia, ahi, ter dado um dos seus originaes a seu collega Regueira Costa, antes desta data. Outro depoimento: na "Imprensa Acadêmica", citada acima, que publicou a poesia em 1868, vem a data "1866". Finalmente, na Edição original das Espumas Fluctuantes, preparada e publicada por Castro Alves em 1870, essa mesma data de "1866" se repete. Como pois, senão levianamente, e sem uma só prova, attribui-la a 1871?! Assim se faz critica histórica e literária no Brasil...  
continua página 79...
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Posias Lyricas
Meu segredo / Mocidade e Morte / Dalila / O coração / Hebréa /           
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.
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LIVRARIA FRANCISCO ALVES 
RIO DE JANEIRO 
S. PAULO - BELLO HORIZONTE 
1921

sábado, 3 de outubro de 2026

Cinema: Jango

Como, quando e por que se derruba um presidente...

Lançamento em 1984

     Vinte anos depois do golpe de 1964, o documentário Jango refaz a trajetória política do presidente João Goulart, deposto nas primeiras horas do dia primeiro de abril daquele ano por uma junta militar. A partir de uma extensa pesquisa de arquivo que incorpora cinejornais da época, fotografias e manchetes de jornais, a obra percorre desde o início da carreira de João Goulart, passando pelos governos Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e Jânio Quadros, até a sua morte, doze anos depois de ter deixado o país rumo ao exílio no Uruguai.
     O filme examina a luta ideológica que foi travada durante o governo Jango, onde a máquina de propaganda de setores da direita fez de Cuba, modelo para a esquerda, um pretexto para radicalizar do debate público, vendo em qualquer medida um sinal de comunização. Jango remonta a escalada de tensão de um governo marcado por forte oposição das classes dominantes, que levou a crises sucessivas desde os primeiros instantes após da renúncia de Jânio Quadros. Através de depoimentos e textos em off, o filme relembra fatos decisivos, como o Comício da Central do Brasil, as marchas pedindo sua deposição, a revolta dos marinheiros e fuzileiros navais, os últimos dias do governo, primeiros instantes após o golpe e as tentativas de resistência ao golpe, avançando até a consolidação do governo Castello Branco.
     Prêmio Especial do Júri, Melhor Filme do Júri Popular e Melhor Trilha Sonora do Festival de Gramado (1984). Prêmio Especial do Júri, Festival de Havana (1984). Festival Internacional Del Nuevo Cine Latinoamericano de Cuba (1984), Prêmio especial do júri. Troféu Margarida de Prata – C.N.B.B. (1984). Bilheteria: 1 milhão de espectadores.





Direção: 
Silvio Tendler

Roteiro: 
Silvio Tendler
Maurício Dias

Elenco:
José Wilker (narrador)
João Goulart (imagens de arquivo)
Juscelino Kubitschek (imagens de arquivo)
Leonel Brizola
Frei Betto
Magalhães Pinto
Tancredo Neves (imagens de arquivo)
Jânio Quadros (imagens de arquivo)

Agradecimentos Especiais: Caetano Veloso / Eduardo Chuahy
Musicas Cedida Pela EMI – ODEON: Menino (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos), Trem Mineiro (Wagner Tiso)
Musicas Cedida pela POLYGRAM: Enquanto seu lobo nao vem (Caetano Veloso) – Temas Musicais de Milton Nascimento, Abertura: Tema de Che Guevara (Versão de San Vicente) Tema FInal – Músicos de Milton Nascimento: Paulinho Carvalho/ Neném / Marcos Viana / Paulinho Santos / Tulio Mourao / Sergio Alves – Temas Musicais de Wagner Tiso: Noites Moscou ( tema Original de Soloviev e Sedoy) – O Encouraçado PotemKim ( Tema Original de Dmitri Shostakovich)
Músicos de Wagner Tiso: Ari Sperling / Andre Sperling / Mauro Senize

A edição foi conduzida por Francisco Sérgio Moreira e os produtores associados foram Denise Goulart (filha do ex-presidente) e Hélio Paulo Ferraz.


Coração de Estudante

     A melodia da canção foi originalmente composta por Wagner Tiso em 1983 como um tema instrumental para a trilha sonora do documentário Jango, dirigido por Silvio Tendler, que narra a vida de João Goulart, presidente deposto pelo golpe militar de 1964. 
     Após assistir a algumas cenas do documentário, Milton Nascimento se emocionou com o tema de Tiso e, em um momento raro de sua carreira onde não costumava ser o letrista, decidiu adicionar versos à melodia. A letra, permeada por metáforas de esperança ("há que se cuidar do broto / pra que a vida nos dê flor e fruto") e denúncia ("já podaram seus momentos / desviaram seu destino"), foi inspirada na luta e nas mortes de estudantes durante o regime militar, com menção específica a Edson Luís de Lima Souto, morto em 1968. O título da canção faz referência ao nome de uma flor popular em Minas Gerais, terra natal dos compositores.
     Coração de Estudante foi gravada no álbum Milton Nascimento Ao Vivo e rapidamente se tornou um hino não-oficial do movimento pró-democracia Diretas Já, sendo considerada uma das obras mais emblemáticas da música brasileira na fase final da Ditadura Militar.


Quero falar de uma coisa
Adivinha onde ela anda
Deve estar dentro do peito
Ou caminha pelo ar

Pode estar aqui do lado
Bem mais perto que pensamos
A folha da juventude
É o nome certo desse amor

Já podaram seus momentos
Desviaram seu destino
Seu sorriso de menino
Quantas vezes se escondeu

Mas renova-se a esperança
Nova aurora a cada dia
E há que se cuidar do broto
Pra que a vida nos dê flor
Flor e fruto

Coração de estudante
Há que se cuidar da vida
Há que se cuidar do mundo
Tomar conta da amizade

Alegria e muito sonho
Espalhados no caminho
Verdes, planta e sentimento
Folhas, coração, juventude e fé


Milton Nascimento / Show TV Cultura 1983 - Coração De Estudante




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Parte 02:
Parte 03: 
Parte 04:
Parte 05:
15. Guerra e Paz (Parte 4) / 16. O feio, o mau e o bom / 17. O dia da coruja / 18. Jango / 19. Tommy, o Filme - Parte 1 /    


O Estudante Que a Ditadura Matou a Tiro (E o Brasil Nunca Esqueceu)

Em 28 de março de 1968, um estudante de 18 anos foi morto a tiro por um policial dentro de um restaurante popular no Rio de Janeiro. O nome dele era Edson Luís de Lima Souto — e sua morte mudou o rumo da ditadura militar no Brasil.



Enterro Edson Luís de Lima Souto, 29 de Março de 1968




O assassinato do estudante Edson Luís, pela Ditadura Cívico-Militar de 1964, completou 58 anos.