terça-feira, 30 de junho de 2026

Dostoiévski - Os Irmãos Karamazov Livro 3 (II. Lisavieta Smirdiáchtchaia)


Os Irmãos Karamazov

Fiódor Dostoiévski


PRIMEIRA PARTE
LIVRO IIi
OS SENSUAIS
II
LISAVIETA SMIERDIÁCHTCHAIA
    
     Havia ali uma circunstância particular que impressionou profunda mente Gregório e acabou de fortificar nele uma suspeita desagradável e repugnante. Aquela Lisavieta Smierdiáchtchaia era uma moça de estatura muito pequena, "um pouco mais de 2 archini"; assim se lembravam dela com enternecimento, após sua morte, bondosas velhas de nossa cidade. Seu rosto de vinte anos, sadio, largo, vermelho, era completamente idiota, o olhar fixo e desagradável, se bem que plácido. Tanto no inverno quanto no verão andava sempre de pés descalços, vestida apenas de uma camisa de cânhamo. Seus cabelos quase negros, extraordinariamente espessos, frisados como uma lã amontoavam-se em sua cabeça à maneira de um enorme boné. Além disso estavam muitas vezes sujos de terra, de lama, entremeados de folhas, de raminhos, de cavacos, porque ela dormia sempre no chão e na lama. Seu pai, Iliá, pequeno burguês sem domicílio, arruinado e valetudinário, fortemente dado à bebida, permanecia desde muitos anos, na qualidade de operário, em casa dos mesmos senhores opulentos, igualmente burgueses de nossa cidade. A mãe de Lisavieta morrera desde muito tempo. Sempre doentio e mal-humorado, Iliá batia sem piedade em sua filha quando chegava ela em casa. Mas ali ia raramente, sendo acolhida por toda parte na cidade como uma débil mental sob a proteção de Deus. Os patrões de Iliá, o próprio Iliá e muitas pessoas caridosas, sobretudo entre os negociantes e as negociantes, tinham tentado por várias vezes vestir Lisavieta de uma maneira mais decente, fazendo-a usar no inverno uma peliça de carneiro e calçar botas; habitualmente sujeitava-se ela docilmente a isso, depois ia-se embora e, em alguma parte, de preferência sob o pórtico da igreja, despojava-se de tudo quanto lhe haviam dado — quer fosse um lenço, uma saia, uma peliça, botas —, abandonava tudo no lugar e lá se ia de pés descalços, vestida com sua camisa como antes. Aconteceu que um novo governador, inspecionando nossa cidade, sentiu-se ferido nos seus melhores sentimentos à vista de Lisavieta e, muito embora tivesse percebido que se tratava de uma inocente, como aliás o informaram, fez no entanto observar "que uma moça vagando em camisa infringia a decência e que aquilo devia cessar no futuro". Mas, depois que o governador partiu, deixaram Lisavieta como era. Por fim, seu pai morreu, tornando-se ela mais querida a todas as pessoas piedosas da cidade como órfã. Com efeito, todos pareciam amá-la; os próprios garotos não mexiam com ela nem a maltratavam; ora, entre nós, os garotos, sobretudo os colegiais, são uma raça agressiva. Entrava ela em casas desconhecidas e ninguém a expulsava; pelo contrário, todos a tratavam bem e lhe davam um meio copeque. As moedinhas que lhe davam, levava-as ela logo para metê-las em um tronco qualquer, na igreja ou na prisão. Se recebia, no mercado, um sequilho ou um pãozinho, não deixava de fazer presente dele ao primeiro menino que encontrasse, ou então detinha uma de nossas damas mais ricas para lhe oferecer; e esta o aceitava até mesmo com alegria. Ela própria não se nutria senão de pão preto e água. Entrava por vezes numa rica loja, sentava-se, tendo junto de si mercadorias de valor: dinheiro; jamais os proprietários desconfiavam dela, sabendo que não tomaria um copeque, mesmo se pusessem milhares de rublos a seu alcance e fossem esquecidos. Ia raramente à igreja, dormia sob os pórticos, ou num pomar qualquer, depois de ter pulado a cerca (ainda agora há entre nós muitas cercas em lugar de paiiçadas). Ia geralmente uma vez por semana à casa dos patrões de seu defunto pai, no inverno todos os dias, mas somente à noite, que ela passava no vestíbulo ou no estábulo. Causava espanto que pudesse ela suportar tal existência, mas estava a ela acostumada; se bem que de pequena estatura, tinha uma constituição excepcionalmente robusta. Certas pessoas da sociedade achavam que ela fazia tudo isso unicamente por orgulho, mas não havia motivo para tal; não sabia ela dizer uma palavra, por vezes somente mexia a língua e resmungava; que tinha de ver com isso o orgulho? Ora, numa noite de setembro, clara e quente, em que a lua era cheia, a uma hora já bastante tardia para nossos hábitos, um bando de cinco ou seis farristas, embriagados, voltava do clube para suas casas pelo caminho mais curto. Dos dois lados, a ruela que eles seguiam era bordada por uma cerca por trás da qual se estendiam os pomares das casas ribeirinhas; terminava num passadiço lançado sobre o longo pântano infecto que se batiza por vezes entre nós com o nome de rio. Perto da cerca, entre as urtigas e as barbanas, o nosso grupo percebeu Lisavieta adormecida. Aqueles cavalheiros embriagados pararam perto dela, explodiram em risadas e puseram-se a pilheriar da maneira mais cínica. Um filho de família imaginou de repente uma questão totalmente excêntrica, a respeito de um assunto impossível. "Pode-se", disse ele, "não importa quem, aceitar um tal monstro como uma mulher, etc." Todos decidiram, com nobre aversão, que não se podia. Mas Fiódor Pávlovitch, que fazia parte do bando, adiantou-se logo, declarou que se podia perfeitamente aceitá-la como mulher e que havia mesmo ali alguma coisa de picante no seu gênero, etc. Naquela época, comprazia-se ele com afetação no seu papel de palhaço, gostava de dar-se em espetáculo e divertir os ricos, como um verdadeiro farsante, malgrado a igualdade aparente. Com um crepe no chapéu, porque acabava de saber da morte de sua primeira mulher, levava então uma vida tão crapulosa que alguns, mesmo libertinos endurecidos, se sentiam constrangidos à sua vista. Aquela opinião paradoxal de Fiódor Pávlovitch provocou a hilaridade do bando; um deles começou mesmo a provocá-lo, os outros mostraram ainda mais aversão, mas sempre com uma viva alegria; por fim todos seguiram seu caminho. Posteriormente, jurou ele que se afastara com os outros; talvez dissesse a verdade, ninguém nunca soube de nada ao certo. Mas cinco ou seis meses mais tarde, a gravidez de Lisavieta excitava a indignação de toda a cidade e procurou-se descobrir quem pudera ultrajar a pobre criatura. Um boato terrível circulou em breve, acusando Fiódor Pávlovitch. Donde vinha ele? Do bando farrista não restava então na cidade senão um homem de idade madura, conselheiro de Estado, pai de filhas adultas, o qual nada teria contado, mesmo se se tivesse passado qualquer coisa; os outros tinham-se dispersado. Mas o boato persistente continuava a apontar Fiódor Pávlovitch. Ele não se deu por achado e desdenhou responder a lojistas e pequenos burgueses. Era orgulhoso então e não dirigia a palavra senão à sua sociedade de funcionários e de nobres, a quem tanto divertia. Foi então que Gregório tomou energicamente o partido de seu amo; não somente defendeu-o contra qualquer insinuação, mas discutiu bastante calorosamente a esse respeito e conseguiu mudar a opinião de muitos. "A culpa é dela mesma, daquela criatura", afirmava ele, e seu sedutor não era outro senão Karp, o Parafuso (assim se chamava um detento bastante perigoso, que se havia evadido da prisão da capital e se ocultara em nossa cidade). Esta conjetura pareceu plausível; foi lembrado que Karp vagueara por aquelas mesmas noites de outono e saqueara três pessoas. Mas essa aventura e esses rumores, longe de desviar as simpatias pela pobre idiota, valeram-lhe um redobramento de solicitude. Uma viúva bastante rica, a negociante Kondrátievna, decidiu recolhê-la em sua casa, no fim de abril, para que ela ali desse à luz. Vigiavam-na severamente. Apesar de tudo, uma noite, no dia mesmo de seu parto, Lisavieta fugiu da casa de sua protetora e foi cair no jardim de Fiódor Pávlovitch. Como pudera ela, no seu estado, transpor uma paliçada tão alta? Isso permaneceu um enigma. Uns asseguravam que a haviam carregado, outros viam naquilo uma intervenção sobrenatural. Tudo leva a crer que, aquilo se realizou de uma maneira engenhosa, mas natural, e que Lisavieta, habituada a penetrar através das sebes nos pomares, para neles passar a noite, trepou, apesar de seu estado, sobre a paliçada de Fiódor Pávlovitch, donde saltou, ferindo-se no jardim. Gregório correu a buscar sua mulher para os primeiros cuidados; ele mesmo foi à procura de uma velha parteira que morava bem perto. Salvou-se o menino, mas Lisavieta morreu ao romper do dia. Gregório pegou o recém-nascido, levou-o para o pavilhão e depositou-o sobre os joelhos de sua mulher: "Eis um filho de Deus, um órfão de que seremos os pais. É o pequeno morto que lhe envia. Nasceu de um filho de Satanás e duma justa. Cria-o e não chores mais doravante". Foi assim que Marfa ígnátievna criou o menino. Foi batizado pelo nome de Páviel, ao qual toda a gente ajuntou, e eles também, Fiódorovitch como nome patronímico. Fiódor Pávlovitch não fez objeção e achou mesmo a coisa divertida, negando porém energicamente aquela paternidade. Aprovaram-no por ter recolhido o órfão. Mais tarde, deu-lhe como nome de família Smierdiákov, de acordo com o sobrenome da mãe dele, Smierdiáchtchaia. Servia ele a Fiódor Pávlovitch como segundo criado e vivia, no começo de nossa narrativa, no pavilhão, ao lado do velho Gregório e da velha Marfa. Tinha o emprego de cozinheiro. Seria preciso consagrar-lhe um capítulo especial, mas tenho escrúpulo de reter por tanto tempo a atenção do leitor para simples criados e continuo esperando que se tratará muito naturalmente de Smierdiákov no curso da narrativa.

continua na página 95...
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Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, nascido em Moscou, 11 de novembro de 1821 — falecido em São Petersburgo, 9 de fevereiro de 1881, foi um escritor, filósofo e jornalista russo. É considerado por muitos um dos maiores romancistas e pensadores da história, bem como um dos maiores «psicólogos» que já existiu, ao considerar a designação e etimologia mais ampla do termo, como investigador da psique.
Os Irmãos Karamazov é um romance de Fiódor Dostoiévski, escrito em 1879, uma das mais importantes obras das literaturas russa e mundial, ou, conforme afirmou Freud: "a maior obra da história". Freud considera esse romance, juntamente com Édipo Rei e Hamlet, três importantes livros a respeito do embate pai e filho, e retratam o complexo de Édipo.

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