sábado, 15 de fevereiro de 2025

Victor Hugo - Os Miseráveis: Cosette, Livro Segundo - A Nau «ORION» / II — Onde se leem dois versos cujo autor é talvez o diabo

 Victor Hugo - Os Miseráveis


Segunda Parte - Cosette

Livro Segundo — A Nau «Orion» 

II - Onde se leem dois versos cujo autor é talvez o diabo
     
     Há em Monƞermeil uma velha superstição, tanto mais curiosa e preciosa, quanto uma superstição nas vizinhanças de Paris se assemelha a um aloés na Sibéria. Nós somos dos que respeitam tudo, que se apresenta no estado de planta rara.  
     Eis, pois, a superstição de Monƞermeil: crê-se ali que o diabo escolheu, desde tempos imemoriais, a floresta, para ocultar os seus tesouros. As mulheres bem intencionadas afirmam que não é raro encontrar, no fim do dia, nos lugares mais recônditos do bosque, um homem preto, com a figura de um carreiro ou de um lenhador, de tamancos, com uma espécie de gabão, e que se torna notável por dois grandes chavelhos na cabeça, em vez de boné ou de chapéu. Por isto deve, com efeito, reconhecer-se. 
     Este homem ocupa-se ordinariamente a fazer uma cova. Há três maneiras de tirar proveito deste encontro. A primeira é ir direito a ele e falar-lhe. Neste caso vê-se que o homem não é mais do que um camponês, que parece preto por ser a hora do crepúsculo, que não cava a mais pequena cova, mas que ceifa erva para as suas vacas, e que o que se tinha julgado serem chavelhos não é senão um forcado de estrumeira, que traz às costas, e cujos dentes, graças à perspectiva do fim do dia, parecem sair-lhe da cabeça. Entra-se em casa e morre-se nessa mesma semana. A segunda maneira, consiste em observá-lo, esperar que ele tenha aberto a cova, que a tenha fechado, e que se haja depois afastado; em seguida, correr direito a ela, abri-la e tirar o tesouro, que o homem preto ali depositou necessariamente.
     Quem assim fizer morre nesse mesmo mês. A terceira, enfim, consiste em não falar ao homem preto não olhar para ele, e fugir a sete pés. O que assim proceder ainda vive até ao fim do ano. 
     Como estas três maneiras têm todas os seus inconvenientes, a segunda, que oferece pelo menos algumas vantagens, e outras a da posse do tesouro, ainda que não seja senão por um mês, é a mais geralmente adoptada. Os atrevidos que não resistem a qualquer género de tentação, têm, pois, por muitas vezes, segundo se afirma, reaberto as covas feitas pelo homem preto e tentado roubar o diabo. Parece que a operação é pouco de convidar. Pelo menos, dando-se crédito à tradição, e particularmente a dois versos enigmáticos em latim bárbaro que foram, a este respeito, legados por um mau frade normando, um tanto feiticeiro, chamado Tryphon. Este Tryphon está sepultado na abadia de S. Jorge de Bochervile, próximo de Rouen; sobre a sua sepultura nascem sapos.
     Empregam-se esforços extraordinários, porque estas covas são ordinariamente muito fundas, sua-se, cava-se, trabalha-se toda a noite, pois é de noite que isto tem lugar, o ousado cavador noturno sente a camisa alagada em suor, queima-se uma vela, enche-se de bocas uma enxada, e quando enfim se chega ao fundo da cova, quando se põe a mão no tesouro, o que se encontra? 
     O que é o tesouro do diabo? Um soldo ou quando muito um escudo, uma pedra, um esqueleto, um cadáver ensanguentado, muitas vezes um espectro dobrado em quatro como uma folha de papel numa carteira; e mesmo não é raro achar nada. É isto o que parece anunciarem aos curiosos indiscretos os versos de Tryphon:

Fodit, et in fossa thesauros, condit opaca. 
As nammas, lapides, cadaver, simulacra, nihilque. 
«Cava e nas sombras um tesouro oculta 
Da escura cova; um asse, algumas pedras, 
Moedas, esqueletos; um cadáver, 
Às vezes tudo isto, outra vez nada.» 

     Nos nossos dias parece que também se encontra nestas covas ora um polvorinho com balas, ora um baralho de cartas velho e ensebado, que de certo serviu ao diabo. 
     Tryphon não regista estes dois achados, mas deve-se atender a que Tryphon vivia no século XII e que parece que o diabo não teve a habilidade de inventar a pólvora antes de Rogério Bacon, nem as cartas antes de Carlos VI. 
     Quem jogar, porém, com estas cartas pode de antemão ter a certeza de que perderá tudo quanto possuir, e, quanto à pólvora do polvorinho, esta tem a propriedade de vos fazer rebentar a vossa espingarda na cara.
     Ora pouco tempo depois da ocasião em que ao ministério público pareceu que o forçado solto Jean Valjean, na sua evasão de alguns dias, vagueara em torno de Monƞermeil, notou-se na mesma aldeia que um velho chamado Boulatruelle, de profissão cantoneiro, fazia as suas «idas» para o bosque. Acreditava-se na terra que o tal Boulatruelle já tinha estado nas galés, pelo que andava sob a vigilância da polícia, e como, em razão daquele fato, não achava ninguém que quisesse dar-lhe que fazer, empregava-o a administração como cantoneiro do ramal de Gagny a Lagny, à conta de pouco salário. 
     Boulatruelle era um homem mal visto da gente da terra, mas respeitoso, humilde e sempre pronto em tirar o seu boné a toda a gente, tremendo e sorrindo em presença dos gendarmes, filiado talvez em alguma quadrilha, segundo se dizia, e suspeito de sair à estrada, ao fechar da noite, nos sítios mais escusos dela. A única coisa que tinha a seu favor, era o hábito de embebedar-se.
     Eis aqui, pois, o que aos moradores de Montfermeil tinha dado motivo para reparo. 
     Havia tempos que Boulatruelle despegava muito cedo da sua tarefa de britar pedra e de vigiar pela conservação da estrada para se entranhar na floresta com o seu alvião às costas. Ali era encontrado à noitinha nas clareiras mais desertas, nos matagais mais fechados, com ar de quem procura o que quer que seja, às vezes abrindo covas. 
     Alguma pobre mulher que passava tomava-o primeiro por Belzebu, depois conhecia que era Boulatruelle, mas não ficava com isso mais satisfeita. Estes encontros, porém, pareciam contrariar Boulatruelle fortemente. Era visível que ele procurava ocultar-se e que no que fazia havia algum mistério. 
     Diziam na aldeia:

— Não há dúvida nenhuma que apareceu o diabo. Boulatruelle viu-o e anda à sua procura. Ele é, com efeito, bastante esperto para que se não apodere do pecúlio de Lúcifer. 

     Os voltaireanos acrescentavam: 

— Quem será o logrado? Será o diabo ou Boulatruelle?

     As velhas, ao ouvir todos estes comentários, benziam-se atemorizadas, repetidas vezes. 
     Porém, os manejos de Boulatruelle no bosque cessaram e ele voltou ao seu trabalho de cantoneiro, em que continuou com a regularidade antiga, fazendo com isso que as conversas na aldeia versassem sobre outro objeto.
     Todavia, a curiosidade de algumas pessoas continuou, pois julgavam que sempre havia nisto não os fabulosos tesouros de que rezava a lenda, mas algum ganho inesperado mais palpável do que as notas de Banco do diabo, cujo segredo o cantoneiro teria naturalmente surpreendido até certo ponto. Os mais «encarniçados» eram o mestre-escola e o taberneiro Thenardier, o qual, sendo amigo de toda a gente, não desdenhava a amizade de Boulatruelle. 

— Já esteve nas galés — dizia Thenardier — e a gente não sabe para que está neste mundo.

     Uma tarde, o mestre-escola afirmou que se fosse noutro tempo, já a justiça teria indagado o que Boulatruelle ia fazer ao bosque, que o obrigaria a confessar tudo, aplicando-lhe sendo preciso a tortura, e que Boulatruelle não resistiria, por exemplo, à tortura da água. 

— Apliquemos-lhe então a do vinho — disse Thenardier.

     Foi um momento enquanto se pôs o plano em execução e se deu de beber até fartar ao velho cantoneiro. Boulatruelle, porém, bebeu extraordinariamente, mas falou pouco, combinando com admirável artifício e em proporções magistrais a sede de um bebedor de fama com a discrição de um juiz. A força, porém, de voltar à carga e de confrontar e revirar as poucas e obscuras frases que ele deixou escapar, Thenardier e o mestre-escola julgaram compreender o seguinte:
     Boulatruelle, ao dirigir-se um dia ao amanhecer para o trabalho, ficou decerto maravilhado de ver, para assim dizer escondidos, debaixo de uma moita, num lugar escuso do bosque, uma pá e um alvião; mas, cuidando que talvez fosse a pá e o alvião do senhor Six-Fours, aguadeiro, nem de tal coisa se tornou a lembrar. Na tarde, porém, desse mesmo dia, Boulatruelle viu, sem poder ser visto, por se achar encoberto com o tronco de uma árvore gigantesca, dirigir-se da estrada para o mais cerrado do bosque «um sujeito que não era daqueles sítios, mas que ele conhecia perfeitamente», e cujo nome Boulatruelle obstinadamente se recusara a declarar. Este sujeito, que, segundo a tradição de Thenardier, era um companheiro das galés de Boulatruelle, trazia um embrulho, um objeto quadrado parecido com uma bolsa grande ou com um caixão pequeno. Boulatruelle, ao ver aquilo, ficou estupefato, de modo que só passados sete ou oito minutos foi que lhe ocorreu a ideia de seguir «o sujeito». Mas já era demasiado tarde; o sujeito entranhara-se no mais emaranhado da floresta, e como já era noite fechada, Boulatruelle não pôde dar com o lugar para onde ele deitou e tomou então a resolução de percorrer o bosque todo, «pois fazia luar». Daí por duas ou três horas, Boulatruelle viu o sujeito tornar a sair da espessura do bosque, trazendo desta feita não o tal caixãozinho, mas um alvião e uma pá. Boulatruelle deixara-o passar sem tomar logo a resolução de se acercar dele, porque se lembrou que, sendo o outro três vezes mais forte, e achando-se de mais a mais armado de um alvião, daria decerto cabo dele, conhecendo-o e vendo-se conhecido. Tocante efusão de dois antigos camaradas que se tornam a ver!
     O alvião e a pá foram, porém, um raio de luz para Boulatruelle, que correu ao sítio onde pela manhã vira dois objetos semelhantes escondidos entre o mato e não encontrou nem uma coisa nem outra. Daqui concluiu ele que o tal sujeito que vira entrar para o bosque abrira algures uma cova com o alvião para enterrar o caixão e que depois a tapara com a pá. Ora, o caixão era pequeno de mais para conter um cadáver; logo continha dinheiro, e daí as suas pesquisas. Boulatruelle explorou, sondou, vasculhou, remexeu todos os lugares onde a terra lhe pareceu revolvida de fresco, mas debalde. 
     Por mais que fizesse, não «desencantou» coisa nenhuma, de modo que ninguém em Monƞermeil se tornara mais a lembrar de tal. Apenas algumas honradas vizinhas disseram umas para as outras nos seus conciliábulos: «Tenham por certo que o cantoneiro de Gagny não andava com todos aqueles escavadouros se não pressentisse isca; certo é que o diabo sempre apareceu».

continua na página 279...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Cosette, Livro Segundo - II — Onde se leem dois versos cujo autor é talvez o diabo
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira 

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