sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025

Victor Hugo - Os Miseráveis: Cosette, Livro Terceiro - Cumprimento da promessa feita à moribunda / V — A pequena sozinha

Victor Hugo - Os Miseráveis


Segunda Parte - Cosette

Livro Terceiro — Cumprimento da promessa feita à moribunda 

V - A pequena sozinha
     
      Como a estalagem dos Thenardier ficava na parte da aldeia próxima à igreja, era à fonte do bosque situada para o lado de Chelles que Cosette tinha de ir buscar a água.
     A pobre rapariguinha não tornou a olhar para nenhuma outra barraca. Enquanto não passou o beco do Boulanger nem os arredores da igreja, a iluminação das lojas alumiava lhe o caminho; bem depressa, porém, desapareceu o último clarão da última barraca, e Cosette achou-se na obscuridade, mas continuou a caminhar no meio dela.
      Somente, como se ia apossando dela certa comoção, agitava o mais que podia a asa do balde. Isto produzia um ruído que lhe servia de companhia.
     Quanto mais caminhava, porém, mais espessas se tornavam as trevas. Pelas ruas já se não via ninguém. Todavia, Cosette encontrou uma mulher, que se voltou ao vê-la passar e que parou, murmurando por entre dentes:

— Onde irá esta criança? Será um lobisomem?

     Depois, a mulher, reconhecendo Cosette, exclamou:

 — Olha, é a Cotovia!

      Costte atravessou assim o labirinto de ruas tortuosas e desertas onde termina a aldeia de Montfermeil, para a parte de Chelles. Enquanto se viu no meio de casas e mesmo só de paredes, caminhou afoita. De vez em quando via o clarão de uma vela, pelas fendas de alguma janela, e isto para ela era luz e vida. É porque ali havia gente, e esta ideia tranquilizava-a. Todavia, à medida que caminhava, o seu passo afrouxava, como que maquinalmente. Depois de passar a esquina da última casa, parou. Passar adiante da última loja fora difícil; passar além da última casa tornava-se impossível.
     Cosette, pois, pousou o balde no chão, meteu a mão por entre os cabelos e pôs-se a coçar a cabeça lentamente, gesto particular às crianças atemorizadas e indecisas. Já não era Montfermeil, eram os campos.
     Diante de si tinha o espaço, negro e deserto. Cose e olhou com angústia para aquela obscuridade, em que não havia ninguém, em que só havia lobos ou talvez almas do outro mundo. Esbugalhou mais os olhos e ouviu os lobos a caminhar por cima da erva, e viu distintamente as almas do outro mundo agitando-se nos ramos das árvores. 
     Cosette, a quem o medo dava audácia, pegou então outra vez no balde e disse:

— Ora! Digo-lhe que não havia água!

      E tornou a entrar resolutamente em Montfermeil. Apenas, porém, andou cem passos, parou de novo e pôs-se a coçar a cabeça. Agora era a Thenardier que lhe aparecia; a Thenardier medonha com a sua boca de hiena e a cólera a chamejar-lhe nos olhos. 
     A criança deitou um olhar lamentoso para diante e para trás. Que fazer? Que expediente tomar? Para que lado caminhar?
      Na sua frente o espectro da Thenardier; por detrás todos os fantasmas da noite e dos bosques. Recuou, pois, diante da Thenardier. A assustada criança tornou a tomar o caminho da fonte, deitando a correr. E assim transpôs as casas da aldeia e entrou no bosque, sem olhar para coisa nenhuma, sem nada escutar, cessando apenas de correr quando lhe faltou a respiração, mas não deixando nunca de andar. Caminhava como se fora um autómato e quase sem a certeza de que vivia. 
     Ao passo, porém, que ia andando, sentia vontade de chorar. Apossava-se dela o estremecimento noturno da floresta. 
      Nem já pensava, nem via. Aquele entezinho fazia frente a imensidade das trevas. 
     De um lado a sombra toda, do outro um átomo. 
     Da extremidade do bosque à fonte havia apenas sete ou oito minutos de caminho, que Cosette conhecia perfeitamente por o ter passado muitas vezes de dia.
     Estranha coisa! Aquela criança não se perdeu, e, contudo, não deitava os olhos nem para a direita nem para a esquerda, com receio de ver alguma coisa nos ramos das árvores ou na erva que cobria o chão. Conduzia-a vagamente um resto de instinto: assim chegou à fonte, que era uma espécie de tanque natural, cavado pela água num terreno argiloso, de uma profundidade de perto de dois pés, cercada de musgo e dessas ervas a que pelos seus rendilhados se dá o nome de golinhas de Henrique IV, e forrada com algumas grandes pedras.
      Da fonte deslizava um regatozinho, sussurrando mansamente.
      Cosette nem sequer parou para tomar o fôlego. Estava escuríssima a noite; porém, acostumada a vir àquela fonte, procurou com a mão esquerda na escuridão um carvalho novo que se debruçava sobre a nascente e que lhe servia ordinariamente de ponto de apoio; encontrou um ramo, agarrou-se a ele, baixou-se e meteu o balde na água. A emoção daquele momento fora tão violenta que lhe triplicara as forças. Ao curvar-se, porém, não reparou que naquela posição lhe ficava voltado para baixo o bolso do avental e caiu-lhe na água a moeda de quinze soldos. Cosette não a viu, nem a ouviu cair. Tirou para fora o balde quase cheio e pousou-o em cima da erva.
      Feito isto, conheceu então que estava extenuada de cansaço. Bem quisera tornar a partir imediatamente, mas fora tal o esforço de encher o balde que lhe foi impossível dar um passo e viu-se obrigada a sentar-se. Deixou-se, pois, cair sobre a relva e ali ficou acocorada. 
     Fechou os olhos, depois tornou a abri-los, sem saber porquê, mas sem poder esquivar-se a este movimento. Junto dela a água, agitada no balde, formava círculos, que pareciam serpentes de fogo branco.
      Por cima da sua cabeça mal se divisava o céu coberto de vastas nuvens negras, que eram como paredes de fumo. Sobre aquela criança parecia inclinar-se vagamente a máscara trágica das sombras, no meio das quais deslizava Júpiter radiante. 
     A criança olhava desvairada para aquela grande estrela que não conhecia e que lhe me a medo. Efetivamente, o planeta achava-se naquele momento muito perto do horizonte e atravessava uma névoa espessa, que a corava de uma vermelhidão horrível. A névoa lugubremente purpureada tornava maior o âmbito do astro. Dir-se-ia uma chaga luminosa.
    Da planície soprava uma aragem fria. Espessas trevas envolviam o bosque, onde se não ouvia nenhum rumor de folhas, nem se via um só desses vagos e frescos clarões do estio. Os ramos levantados para o ar pareciam espectros terríveis. Nas clareiras zunia o vento por entre os silvados defecados e disformes, e aos assobios das rajadas formigavam como enguias as ervas crescidas, torciam-se as silvas como compridos braços armados de garras, tentando cravar-se em alguma presa.
     De espaço a espaço passavam rapidamente, impelidas pelo vento, algumas urzes secas, que pareciam fugir assustadas a qualquer coisa que as perseguia. De todos os lados havia amplidões lúgubres.
      A escuridão causa vertigens. O homem precisa de luz. O que se embrenha no contrário do dia sente apertar-se-lhe o coração. Onde os olhos veem negrura, vê o coração perturbação. O eclipse, a noite, a opacidade fuliginosa causa ansiedade, ainda aos mais fortes. Não há ninguém que caminhe sozinho de noite por uma floresta sem tremer. Sombras e árvores são duas serrações temíveis. Na profundeza indistinta afigura-se ao espírito uma realidade quimérica. Debuxa-se o inconcebível a alguns passos de vós, com uma limpidez de espectro. Veem-se flutuar no espaço, ou no próprio cérebro, umas coisas vagas e impalpáveis como os sonhos das flores adormecidas. Toma atitudes ferozes o horizonte. Aspiram-se os eflúvios da grande e negra amplidão do espaço. Tem a gente medo e vontade de olhar para trás. Sente-se indefesa contra as cavidades da noite, contra os objetos que se tornam medonhos, contra os perfis taciturnos que se dissipam ao aproximar-se, contra os vultos desgrenhados que se desenham nas trevas, contra as montanhas irritadas, contra os charcos lívidos, contra o lúgubre refletido no fúnebre, contra a imensidade sepulcral do silêncio, contra os seres incógnitos possíveis, contra o misterioso debruçar dos ramos, contra o terrível torcer das árvores, contra os extensos punhados de ervas que se agitam rumorejando. Não há ousadia que não estremeça e que não sinta a aproximação da angústia. Experimenta-se o que quer que seja de pavoroso, como se a alma se amalgamasse com a sombra. Esta penetração das trevas, porém, numa criança é inexprimivelmente sinistra.
     As florestas são apocalipses e o sacudir de asas de uma alma pequenina produz um ruído de agonia sob a abóbada monstruosa que as cobre. 
     Cosette, sem ter consciência do que experimentava, sentia-se penetrada por esta grandeza obscura da natureza. Não era simplesmente terror o que se apossava dela; era alguma coisa mais terrível ainda do que o terror. A rapariguinha estremecia.
     Falecem-nos as expressões para dizer o que tinha de estranho esse estremecimento que a gelava até ao fundo do coração. O seu olhar tinha se tornado desvairado. Julgava sentir que talvez não pudesse deixar de voltar ali no outro dia à mesma hora.
     Cosette, então, por uma espécie de instinto, para sair deste singular estado, que não compreendia, mas que a aterrava, principiou a contar em voz alta um, dois, três, quatro, até dez, e, chegando ao fim, tornou a começar. Restituiu-lhe isto a verdadeira percepção das coisas que a rodeavam. Sentiu frio nas mãos, que havia molhado ao meter o balde na água, e levantou-se. Voltara-lhe o medo, mas um medo natural e invencível. Não lhe ocorreu mais do que um só pensamento fugir; fugir a toda a pressa pelo meio dos bosques, pelo meio dos campos, até às casas, até às janelas, até às velas acesas. O seu olhar, porém, fixou-se no balde que tinha diante de si, e tal era o susto que a Thenardier lhe inspirava, que não se atreveu a fugir sem o balde. Pegou-lhe, pois, pela asa com as duas mãos, custando-lhe a levantá-lo do chão.
      Assim andou uns doze passos, porém o balde estava cheio, era pesado, e a pobre criança viu-se obrigada a pousá-lo no chão outra vez. Respirou um instante, depois pegou novamente na asa e continuou a caminhar, desta vez por mais algum tempo.
      Foi-lhe necessário, porém, tornar a parar, e, após alguns segundos de descanso, partiu de novo. Cosette caminhava vergada para diante, com a cabeça curvada como uma velha; o peso do balde distendia e inteiriçava-lhe os magros braços. A asa de ferro acabava de lhe entorpecer e gelar as mãozinhas molhadas; de espaço a espaço via-se obrigada a parar, e todas as vezes que parava caía-lhe pelas pernas nuas a água fria que extravasava do balde. Passava-se isto no fundo de um bosque, de noite, no Inverno, longe de todas as vistas humanas; era uma criança de oito anos a que ali estava; só Deus naquela ocasião é que via aquele triste espetáculo.
      E talvez também sua mãe. Há coisas que fazem abrir os olhos aos mortos nos seus túmulos!
     A sua respiração parecia uma espécie de estertor doloroso; os soluços apertavam-lhe a garganta, mas ela não ousava chorar, tal era o medo que tinha da Thenardier, mesmo na sua ausência. Era sempre o seu costume afigurar-se que estava na presença de Thenardier.
      Cosette, porém, daquele modo não podia andar muito, e por isso ia vagarosamente. Debalde diminuía a duração das estações, caminhando entre uma e outra o maior espaço de tempo que podia; lembrava-se com angústia que levaria mais de uma hora a chegar assim a Montfermeil, e que a Thenardier, portanto, lhe bateria, e esta angústia misturava-se com o susto de se ver sozinha de noite no meio do bosque. A pobre Cosette estava extenuada de cansaço e ainda não tinha saído da floresta.
     Chegada ao pé de um velho castanheiro que conhecia, fez uma última paragem, mais demorada que as outras, para se refazer bem de forças, e depois reuniu quantas tinha, tornou a pegar no balde e pôs-se de novo a caminho corajosamente. A pobre criança, porém, não pôde sufocar tanto a sua angústia que não exclamasse:

— Oh, meu Deus! Meu Deus!

      Neste momento, Cosette sentiu que o balde já não lhe pesava, pois acabava de o agarrar pela asa, levantando-o vigorosamente, uma mão que lhe pareceu enorme.
      A criança levantou a cabeça e viu caminhando ao lado dela, na escuridão, um vulto negro direito e de pé. Era um homem que viera por trás, mas que a criança não sentiu vir, e que, sem lhe dirigir uma palavra, travara da asa do balde que ela levava.  
     Há instintos para todos os encontros da vida. 
     A criança não se assustou.

continua na página 304...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Cosette, Livro Terceiro - V — A pequena sozinha
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira 

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