quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

Marcel Proust - À Sombra das Moças em Flor (Ao Redor da Sra. Swann - p)

em busca do tempo perdido

volume II
À Sombra das Moças em Flor

Primeira Parte
Ao Redor da Sra. Swann


(p)

continuando...

     Swann era um desses homens que, tendo vivido muito tempo nas ilusões do amor, viram o bem-estar que deram a muitas mulheres aumentar a felicidade delas sem criar, de sua parte, nenhum reconhecimento, nenhuma ternura quanto a eles; mas, no filho, julgam sentir uma afeição que, encarnada em seu próprio nome, fará com que permaneçam após a morte. Quando não houvesse mais Charles Swann, haveria ainda uma Srta. Swann, ou uma Sra. X, nascida Swann, que continuaria a amar o pai desaparecido. Talvez até a amá-lo ainda mais, pensava Swann sem dúvida, pois respondeu a Gilberte:

- És uma boa filha - com esse tom enternecido pela inquietude que nos inspira para o futuro a ternura por demais apaixonada de uma criatura destinada a nos sobreviver. Para dissimular sua emoção, ele se meteu em nossa conversa sobre a Berma. Fez-me notar, mas num tom desligado, entediado, como se quisesse permanecer de algum modo de fora daquilo que dizia, com que inteligência, com que justiça imprevista a atriz falava a Oenone:

"Tu o sabias!" Ele tinha razão: aquela entonação, pelo menos, era de um valor verdadeiramente inteligente e, portanto, deveria satisfazer meu desejo de encontrar motivos irrefutáveis de admirar a Berma. Mas era justamente devido à própria clareza que ela não o contentava. A entonação era tão engenhosa, de uma intenção e um sentido tão específicos, que parecia existir nela mesma e que toda artista dotada de inteligência poderia adquiri-la. Era uma bela idéia; mas qualquer um que a concebesse de forma tão plena a possuiria do mesmo modo. Restava à Berma o mérito de havê-la encontrado; mas pode-se empregar o vocábulo "encontrar", quando se trata de achar alguma coisa que não seria diferente se fosse recebida, alguma coisa que não se refere essencialmente ao nosso ser visto que um outro pode reproduzi-la a seguir?

- Meu Deus, mas como a sua presença eleva o nível da conversa! - disse-me, como para se desculpar junto a Bergotte, Swann, que adquirira no ambiente dos Guermantes o hábito de receber os grandes artistas como bons amigos, aos quais se busca apenas fazer com que comam os pratos que adoram, jogar jogos ou, no campo, entregarem-se aos esportes que lhes agradam.- Parece-me que falamos bem de arte - acrescentou. 
- Tudo bem, gosto muito disso - disse a Sra. Swann, lançando-me um olhar reconhecido, por bondade e também porque guardara suas velhas aspirações quanto a uma conversa mais intelectual. A seguir, foi com outras pessoas, particularmente com Gilberte, que Bergotte falou. Eu lhe dissera tudo o que sentia com uma liberdade que me espantara e que provinha de que tomara com ele, desde muitos anos (no decurso de tantas horas de solidão e de leitura, onde ele era para mim apenas a melhor parte de mim mesmo), o hábito da sinceridade, da franqueza, da confiança; ele me intimidava menos que uma pessoa com quem tivesse conversado pela primeira vez. E, no entanto, pela mesma razão, sentia-me bastante inquieto quanto à impressão que deveria ter produzido nele, visto não datar de hoje o desprezo que supusera que teria pelas minhas ideias, e sim de um tempo já antigo em que começara a ler seus livros em nosso jardim de Combray. No entanto, deveria ter me ocorrido que, se fui sincero, se apenas me abandonei ao meu pensamento ao simpatizar tanto, por um lado, com a obra de Bergotte e ao sentir, por outro lado, no teatro, um desapontamento cujos motivos ignorava, esses dois movimentos instintivos que me haviam empolgado não deviam ser tão diversos um do outro, e sim obedecer às mesmas leis; e que esse espírito de Bergotte, que eu amara em seus livros, não devia ser algo inteiramente estranho e hostil à minha decepção e à incapacidade de expressá-la. Pois minha inteligência devia ser una, e talvez mesmo só exista uma única da qual todos são colocatários, uma inteligência sobre a qual cada um de nós, do fundo de seu corpo particular, lança os seus olhares, como no teatro, onde cada um tem seu lugar; em compensação, só existe um único cenário. Sem dúvida, as ideias que eu tivera o gosto de procurar desenredar não eram as que, em geral, Bergotte aprofundava em seus livros. Mas, se se trata da mesma inteligência que tanto eu como ele possuímos à nossa disposição, ele devia, ao ouvi-las expressas por mim, recorda-las, amá-las, sorrir-lhes, provavelmente conservando, apesar de minhas suposições, diante de seu olho interior, uma parte da inteligência bem diversa da outra parte que se projetara em seus livros, e segundo a qual eu havia imaginado todo o seu universo mental. Do mesmo modo que os padres, tendo a experiência mais profunda do coração, podem melhor perdoar os pecados que não cometem, assim também o gênio, tendo a maior experiência da inteligência, pode compreender melhor as ideias mais contrárias às que formam o fundo de sua própria obra. Eu deveria me ter dito tudo isso (que aliás nada tem de agradável, pois a benevolência dos grandes espíritos tem por corolário a incompreensão e a hostilidade dos medíocres; ora, somos muito menos felizes com a amabilidade de um grande escritor, que a rigor se pode encontrar em seus livros, do que sofremos com a hostilidade de uma mulher que não elegemos por sua inteligência, mas que não podemos evitar amar). Eu deveria ter dito tudo isso, mas não o dizia; estava convencido de que parecera um estúpido a Bergotte, quando Gilberte me sussurrou ao ouvido: 
- Estou louca de alegria, porque você conquistou meu grande amigo Bergotte. Ele disse a mamãe que o achou muito inteligente. 
- Aonde vamos?- perguntei a Gilberte. 
- Ora, aonde quiserem; quanto a mim, você sabe, ir para cá ou para lá... 

     Porém, desde o incidente ocorrido no dia do aniversário da morte de seu avô, eu me perguntava se o caráter de Gilberte não era diferente do que havia pensado, se essa indiferença pelo que fizessem, se aquele juízo, aquela tranquilidade, aquela doce e constante submissão, não esconderiam, ao contrário, desejos muito passionais que, por amor-próprio, ela não queria dar a perceber e que só revelava em sua súbita resistência quando por acaso eram contrariados. Como Bergotte morasse no mesmo bairro dos meus pais, saímos juntos; no carro, falou-me de minha saúde: 

- Nossos amigos me disseram que você é doente. Lamento-o bastante. E, apesar disso, não tanto assim, pois vejo que deve possuir os prazeres da inteligência e isso, provavelmente, é o que conta para você, como para todos aqueles que conhecem tais prazeres.

     Ai de mim! O que ele falava, quão pouco verdadeiro eu sentia que era para mim, a quem todo raciocínio, por elevado que fosse, deixava frio, que não era feliz senão em momentos de simples lazer, quando sentia bem-estar; percebia quanto o que desejava na vida era puramente material e com que facilidade me absteria da inteligência. Como não distinguia, entre os prazeres, aqueles que me vinham de fontes diferentes, mais ou menos profundas e duráveis, pensei, no momento de lhe responder, que teria gostado de uma existência em que estivesse ligado à duquesa de Guermantes e na qual muitas vezes teria sentido, como no antigo escritório do imposto de trânsito dos Champs-Élysées, um frescor que me recordaria Combray. Ora, nesse ideal de vida que não ousava confiar-lhe, os prazeres da inteligência não ocupariam lugar algum.

- Não senhor, os prazeres da inteligência são muito pouco para mim; não são eles o que procuro. Nem sei mesmo se alguma vez os senti. 
- Acha isso mesmo? replicou ele. - Muito bem, escute; isto deve ser o que você prefere apesar de tudo, me parece. É o que acho. 

     Certo, ele não me convencia; no entanto, eu me sentia mais feliz, menos acanhado. Devido ao que me havia dito o Sr. de Norpois, considerara meus momentos de devaneio, de entusiasmo, de confiança em mim mesmo, como puramente subjetivos e sem verdade. Ora, segundo Bergotte, que dava impressão de conhecer o meu caso, parecia que o sintoma a desprezar eram ao contrário as minhas dúvidas, o desgosto que sentia por mim mesmo. Principalmente o que dissera acerca do Sr. de Norpois tirava muito da força de uma condenação que eu julgara irremediável.

-Você é bem cuidado? - indagou Bergotte. - Quem é que se ocupa de sua saúde? 
- Disse-lhe que era e voltaria a ser Cottard, sem dúvida. 
- Mas não é disso que você precisa! respondeu. - Não o conheço como médico. Porém, vi-o na casa da Sra. Swann. É um imbecil. Supondo que isso não o impeça de ser um bom médico, o que me custa a acreditar, isso o impede de ser um bom médico para artistas, para pessoas inteligentes. Pessoas como você têm necessidade de médicos apropriados, direi quase de regimes, de medicamentos especiais. Cottard vai aborrecê-lo e o tédio por si só impedirá que seu tratamento seja eficaz. E depois, esse tratamento não pode ser o mesmo para você e para um indivíduo qualquer. Três quartas partes dos males das pessoas inteligentes provêm de sua inteligência. Falta-lhes, pelo menos, um médico que os conheça. Como quer que Cottard possa tratá-lo? Ele previu a dificuldade de digerir molhos, a perturbação gástrica, mas não a leitura de Shakespeare... Assim, seus cálculos não são mais acertados com você, o equilíbrio está rompido, é sempre o pequeno ludião que sobe. Ele descobrirá em você uma dilatação do estômago, não tem necessidade de examiná-lo visto que já o fez previamente com o olho. Você pode vê-la, pois se reflete no seu pincenêz

     Esta maneira de falar me cansava bastante, eu dizia comigo com a estupidez do bom senso:

"Não existe mais dilatação do estômago refletida no pincenêz do professor Cottard do que as tolices ocultas no colete branco do Sr. de Norpois." 

- Eu lhe aconselharia, de preferência, o doutor Boulbon - prosseguiu Bergotte. - É muito inteligente. 
- É um grande admirador de suas obras – disse-lhe. - Vi que Bergotte o sabia e concluí que os espíritos fraternais depressa se ajuntam, que a gente possui poucos "amigos desconhecidos". O que Bergotte me disse a respeito de Cottard me chocou por ser bem o oposto de tudo quanto eu acreditava. De modo algum me inquietava achar o meu médico um sujeito aborrecido; esperava dele que, graças a uma arte cujas leis me fugiam, proferisse a respeito de minha saúde um oráculo indiscutível ao consultar minhas entranhas. E pouco me importava que, com o auxílio de uma inteligência, auxílio que eu mesmo poderia lhe prestar, ele procurasse compreender a minha, que eu apenas imaginava como um meio, indiferente em si mesmo, de tentar alcançar verdades exteriores. Duvidava muito de que as pessoas inteligentes tivessem necessidade de uma higiene diversa da dos imbecis, e estava pronto a me submeter à desses últimos.
- Se alguém precisa de um bom médico, é o nosso amigo Swann - disse Bergotte. E, como eu perguntasse se ele estava doente: - Pois bem, um homem que desposou uma mulher de vida fácil, que tem de aturar, por dia, cinquenta desfeitas de senhoras que não querem ter relações com a sua, ou de homens que dormiram com ela. Vê-se isto, elas lhe retorcem a boca. Repare as sobrancelhas circunflexas que ele apresenta quando entra em casa, para ver quem está de visita. -A má vontade com que Bergotte falava a um estranho, sobre os amigos em cuja casa era recebido há tanto tempo, era tão nova para mim como o tom quase carinhoso com que, na casa dos Swann, ele assumia a todo instante com eles. Certamente, uma pessoa como a minha tia-avó, por exemplo, teria sido incapaz, como nenhum de nós, dessas gentilezas que ouvira Bergotte prodigalizar a Swann. Mesmo às pessoas a quem amava, ela gostava de dizer coisas desagradáveis. Mas, na ausência delas, não teria pronunciado uma só palavra que elas não pudessem ouvir. Nada era menos parecido com a alta sociedade do que a nossa de Combray. A dos Swann já era uma tendência para a alta-roda, para suas ondas versáteis. Ainda não era o mar alto, já era a laguna. 
-Tudo isto fica entre nós - disse-me Bergotte, ao me deixar diante de minha porta. Alguns anos depois, eu lhe teria respondido: 

"Nunca repito nada". 

     É a frase ritual das pessoas da alta sociedade, pela qual o maldizente é falsamente assegurado. Ela é que eu já teria dirigido a Bergotte naquele dia, pois a gente não inventa tudo o que diz, sobretudo nos momentos em que age como pessoa social. Mas não a conhecia ainda. Por outro lado, a frase de minha tia-avó numa ocasião semelhante teria sido: 

"Se não quer que isto seja repetido, por que então está me dizendo?"

     É a resposta das pessoas insaciáveis, das "cabeças-duras". Eu não o era. Inclinei-me em silêncio. Os literatos que, para mim, eram personagens notáveis intrigavam durante anos antes de travar com Bergotte relações que permaneciam sempre obscuramente literárias e não saíam de seu gabinete de trabalho, ao passo que eu acabava de me instalar entre os amigos do grande escritor logo à primeira vista e tranquilamente, como alguém que, em vez de fazer fila como todos para arranjar um mau lugar, ganha os melhores, tendo passado por um corredor fechado aos outros. Se Swann o abrira para mim daquele modo, era sem dúvida porque, feito um rei que acha natural convidar os amigos do filho para o camarote real, para o iate real, assim também os pais de Gilberte recebiam os amigos da filha no meio das coisas preciosas que possuíam e das intimidades, mais preciosas ainda, que ali estavam guardadas. Mas àquela época imaginei, e talvez com razão, que essa amabilidade de Swann era dirigida indiretamente a meus pais. Julgara ouvir outrora, em Combray, que ele se oferecera, vendo minha admiração por Bergotte, para me levar para jantar em sua casa, e que meus pais haviam recusado, alegando que eu era muito jovem e muito nervoso para "sair". Sem dúvida, meus pais representavam para certas pessoas, exatamente aquelas que me pareciam as mais maravilhosas, algo bem diverso que para mim mesmo, de modo que, como no tempo em que a dama cor-de-rosa dirigira a meu pai elogios de que ele se mostrara tão pouco digno, eu teria desejado que eles compreendessem que inestimável presente acabara de receber e testemunhassem o seu reconhecimento a esse Swann generoso e cortês que me havia, ou lhes havia, oferecido, sem parecer dar maior importância ao seu ato do que aquele delicioso rei mago do afresco de Luini, de nariz curvo e cabelos louros, e com quem, parece, lhe haviam achado grande semelhança antigamente. Infelizmente, o favor que Swann me fizera e que, ao chegar em casa, antes mesmo de tirar o sobretudo, anunciei a meus pais na esperança de que lhes despertaria no coração um sentimento tão emocionado quanto o meu e os levasse a uma "cortesia" enorme e decisiva para com os Swann, tal favor não pareceu muito apreciado por eles.

- Swann te apresentou a Bergotte? Belo conhecimento, encantadora relação! - exclamou ironicamente meu pai.- Não faltava mais nada!

     Ai de mim, quando acrescentei que ele não gostava de modo algum do Sr. de Norpois: - 

- Naturalmente! - tornou ele - Isto bem prova que se trata de um espírito falso e malévolo. Meu pobre filho, já não tinhas muito senso comum; estou triste porte ver cair num ambiente que vai acabar de te desequilibrar.

     A simples frequência à casa dos Swann já estava longe de encantar meus pais. A apresentação a Bergotte lhes pareceu uma consequência nefasta, mas natural, de um primeiro erro, da fraqueza que haviam tido e que meu pai chamou de "falta de circunspecção". Senti que, para completar o mau humor dos pais, bastaria dizer-lhes que aquele homem perverso me achara extremamente inteligente. De fato, quando meu pai considerava que uma pessoa, um de meus companheiros, por exemplo, estava no mau caminho - como eu naquele momento - e tinha então a aprovação de alguém de quem meu pai não gostava, este via no fato a confirmação do seu diagnóstico irritado. O mal só lhe parecia ainda maior. Já ouvia o que ele exclamaria: 

"Necessariamente, é tudo uma cambada!", termo que me espantava pela imprecisão e a imensidão das reformas cuja iminente introdução em minha doce vida parecia anunciar.

     Mesmo que não dissesse o que Bergotte falara sobre mim, já nada poderia apagar a impressão ruim de meus pais; e que fosse um pouquinho pior, isto não me importava. Aliás, pareciam-me tão injustos, de tal maneira apegados ao erro, que não só não tinha esperança mas nem sequer o desejo de conduzi-los a uma visão mais equitativa. Entretanto, sentindo, no momento em que minhas palavras saíam da boca, como iriam meus pais se assustar em pensar que eu havia agradado a alguém que julgava idiotas os homens inteligentes, era objeto de desprezo da parte das pessoas honestas, e cujos louvores, parecendo-me invejáveis, me impeliriam ao mal -foi com voz baixa e com um ar meio envergonhado, que, ao terminar a narração, aduzi o arremate: 

- Ele disse aos Swann que me achara muitíssimo inteligente.

     Como um cão envenenado que, no campo, se arremessa, sem o saber, precisamente sobre a erva que é o antídoto da toxina que absorveu, acabara eu de dizer a meus pais, sem ter noção de tal, a única palavra no mundo capaz de vencer, na opinião deles, o preconceito que alimentavam quanto a Bergotte, preconceito contra o qual todos os mais belos raciocínios que eu poderia ter feito, todos os louvores que fizesse, seriam em vão. No mesmo instante, a situação mudou de aspecto: 

- Ah... ele disse que te achava inteligente? - exclamou minha mãe. - Isto me agrada, pois trata-se de um homem de talento.
-Como! Ele disse isso? - repetiu meu pai. - Não nego em nada o seu valor literário diante do qual todos se inclinam; apenas, é aborrecido que leve essa vida pouco honrosa da qual falou o velho Norpois com palavras encobertas - acrescentou, sem se aperceber de que, face à virtude soberana das palavras mágicas que eu acabara de pronunciar, já não podia lutar por muito tempo com a depravação dos costumes de Bergotte, nem a falsidade do seu julgamento. 
- Oh, meu caro - interrompeu mamãe -, nada prova que isto seja verdade. Dizem tantas coisas. Além disso, o Sr. de Norpois é o que existe de mais gentil, mas nem sempre é muito benevolente, sobretudo para com as pessoas que não são de sua opinião. 
- É verdade, eu também já havia reparado - respondeu meu pai. 
- E, além disso, pode-se perdoar muito a Bergotte, visto que achou amável o meu filhinho - replicou mamãe, acariciando meus cabelos com os dedos e depondo em mim um longo olhar sonhador.

     Aliás, minha mãe não havia esperado pelo veredito de Bergotte para dizer que eu podia convidar Gilberte para merendar quando recebesse meus amigos. Mas eu não ousava fazê-lo por dois motivos. Primeiro, porque na casa de Gilberte nunca serviam senão chá. Em minha casa, ao contrário, mamãe cuidava para que, junto com o chá, houvesse chocolate. Temia eu que Gilberte achasse aquilo vulgar e nos desprezasse. O outro motivo foi uma dificuldade de protocolo que jamais consegui revogar. Quando chegava à casa da Sra. Swann, ela me perguntava:

- Como vai a senhora sua mãe? 

     Sondara mamãe para saber se ela faria o mesmo à chegada de Gilberte, questão que me parecia mais grave que o título de "Monsenhor" na corte de Luís XIV. Porém mamãe não quis saber de nada.

- De jeito nenhum, pois não conheço a Sra. Swann. 
- Mas ela também não te conhece. 
- Não digo que não, mas nós não somos obrigados a proceder da mesma maneira em tudo. Quanto a mim, vou fazer outras gentilezas a Gilberte, gentilezas que a Sra. Swann não tem para contigo. 

     Mas não me convenci e preferi não convidar Gilberte. 
     Tendo deixado meus pais, fui trocar de roupa e, esvaziando os bolsos, encontrei de repente o envelope que o mordomo da casa dos Swann me entregara antes de me introduzir no salão. Agora, estava sozinho. Abri-o; dentro havia um cartão no qual indicavam-me a dama a quem deveria oferecer o braço para ir à mesa. Foi por essa época que Bloch transtornou minha concepção do mundo, abrindo-me novas possibilidades de felicidade (que, de resto, deviam mudar-se mais tarde em possibilidades de sofrimento), ao me assegurar que, contrariamente ao que julgara no tempo de meus passeios para os lados de Méséglise, as mulheres não desejavam outra coisa senão fazer amor. Completou o serviço prestando-me um segundo que só mais tarde devia apreciar: foi ele quem me levou pela primeira vez a um bordel. Bem que me havia dito que ali havia muitas mulheres lindas que a gente podia possuir. Mas eu atribuía-lhes uma fisionomia vaga, que os bordéis me permitiriam substituir por rostos particulares. De modo que se devia a Bloch por sua "boa nova" de que a felicidade e a posse da beleza não são coisas inacessíveis e que seria inútil renunciar a elas para sempre; um obséquio do mesmo tipo do que devemos a um médico ou a um filósofo otimista que nos fazem esperar pela longevidade neste mundo, e que não estaremos totalmente separados deste quando tivermos passado a um outro, os bordéis que frequentei alguns anos depois; ao me fornecerem amostras de felicidade, e ao me permitirem acrescentar à beleza das mulheres o elemento que não podemos inventar, que não passa do resumo das belezas antigas, o presente verdadeiramente divino, o único que não poderíamos receber de nós mesmos, diante do qual expiram todas as criações lógicas de nossa inteligência e que só podemos pedir à realidade: um encanto individual mereceram ser por mim classificados ao lado daqueles outros benfeitores de mais recente origem porém de utilidade análoga (antes dos quais imaginávamos sem calor a sedução de Mantegna, de Wagner, de Siena, através de outros pintores, outros músicos, outras cidades): as edições ilustradas de história da pintura, os concertos sinfônicos e os ensaios sobre as "Cidades de arte". Mas a casa aonde Bloch me levou e à qual não ia, aliás, há muito tempo, era de um nível bastante inferior, o pessoal era muito medíocre e bem pouco renovado para que eu pudesse satisfazer antigas curiosidades ou adquirir novas. A dona dessa casa não conhecia nenhuma das mulheres que lhe solicitavam e oferecia sempre uma que não lhe haviam pedido. Elogiou-me sobretudo uma, da qual, com um sorriso cheio de promessas (como se isso fosse uma raridade e um regalo), dizia:

- É uma judia! Isto não lhe diz nada? - (Sem dúvida, era por isso que a chamava de Rachel.) E, com uma exaltação simplória e artificial, que esperava ser comunicativa e que acabava com um arquejo quase de gozo: 
- Pois pense, meu garoto, uma judia, parece-me que deve ser de enlouquecer!

     Ah! Essa Rachel, que examinei sem que me visse, era morena, nada bonita, mas tinha aspecto inteligente; e, não sem passar a língua pelos lábios, sorria com jeito bem impertinente para os fregueses que lhe apresentavam e que eu ouvia entabularem conversa com ela. Seu rosto comprido e magro era cercado de cabelos negros e crespos, irregulares como se traçados a nanquim numa aquarela. De cada vez eu prometia à patroa, que me propunha a moça com insistência particular, enaltecendo sua grande inteligência e instrução, que não deixaria de vir um dia expressamente para conhecer Rachel, a quem apelidei "Rachel-quando-do-Senhor". Mas, na primeira noite, ouvi-a no momento em que ia embora, dizendo à patroa: 

- Então, fica entendido; amanhã estou livre e, se tiver alguém, não se esqueça de me mandar chamar.

     E essas palavras impediram-me de ver nela uma pessoa, pois fizeram com que a classificasse logo numa categoria geral de mulheres cujo costume, comum a todas, era vir à noite para ver se não havia um ou dois luíses de ganho. Variava apenas a forma da frase, dizendo: "se tiver necessidade de mim" ou "se precisar de alguém". A patroa, que não conhecia a ópera de Halévy, ignorava por que me acostumara a chamá-la de "Rachel-quando-do-Senhor". Mas não compreender não a impedia de achar engraçada a expressão e, todas as vezes, rindo às gargalhadas, ela dizia: 

- Então, ainda não será esta noite que se juntará à "Rachel-quando-do-Senhor"? Como é que o senhor diz: "Rachel-quando-do-Senhor!" Ah, é muito bem achado. Vou fazê-lo noivo. Verá que não vai se lamentar.

continua na página 68...
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