volume II
À Sombra das Moças em Flor
Primeira Parte
Primeira Parte
Ao Redor da Sra. Swann
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continuando...
Swann era um desses homens que, tendo vivido muito tempo nas ilusões do amor, viram o bem-estar que deram a muitas mulheres aumentar a felicidade delas sem criar, de sua parte, nenhum reconhecimento, nenhuma ternura quanto a eles; mas, no filho, julgam sentir uma afeição que, encarnada em seu próprio nome, fará com que permaneçam após a morte. Quando não houvesse mais Charles Swann, haveria ainda uma Srta. Swann, ou uma Sra. X, nascida Swann, que continuaria a amar o pai desaparecido. Talvez até a amá-lo ainda mais, pensava Swann sem dúvida, pois respondeu a Gilberte:
Swann era um desses homens que, tendo vivido muito tempo nas ilusões do amor, viram o bem-estar que deram a muitas mulheres aumentar a felicidade delas sem criar, de sua parte, nenhum reconhecimento, nenhuma ternura quanto a eles; mas, no filho, julgam sentir uma afeição que, encarnada em seu próprio nome, fará com que permaneçam após a morte. Quando não houvesse mais Charles Swann, haveria ainda uma Srta. Swann, ou uma Sra. X, nascida Swann, que continuaria a amar o pai desaparecido. Talvez até a amá-lo ainda mais, pensava Swann sem dúvida, pois respondeu a Gilberte:
- És uma boa filha - com esse tom enternecido pela inquietude que nos inspira para o futuro
a ternura por demais apaixonada de uma criatura destinada a nos sobreviver. Para dissimular sua
emoção, ele se meteu em nossa conversa sobre a Berma. Fez-me notar, mas num tom desligado,
entediado, como se quisesse permanecer de algum modo de fora daquilo que dizia, com que
inteligência, com que justiça imprevista a atriz falava a Oenone:
"Tu o sabias!" Ele tinha razão: aquela entonação, pelo menos, era de um valor
verdadeiramente inteligente e, portanto, deveria satisfazer meu desejo de encontrar motivos
irrefutáveis de admirar a Berma. Mas era justamente devido à própria clareza que ela não o
contentava. A entonação era tão engenhosa, de uma intenção e um sentido tão específicos, que
parecia existir nela mesma e que toda artista dotada de inteligência poderia adquiri-la. Era uma
bela idéia; mas qualquer um que a concebesse de forma tão plena a possuiria do mesmo modo.
Restava à Berma o mérito de havê-la encontrado; mas pode-se empregar o vocábulo "encontrar",
quando se trata de achar alguma coisa que não seria diferente se fosse recebida, alguma coisa
que não se refere essencialmente ao nosso ser visto que um outro pode reproduzi-la a seguir?
- Meu Deus, mas como a sua presença eleva o nível da conversa! - disse-me, como para
se desculpar junto a Bergotte, Swann, que adquirira no ambiente dos Guermantes o hábito de
receber os grandes artistas como bons amigos, aos quais se busca apenas fazer com que comam
os pratos que adoram, jogar jogos ou, no campo, entregarem-se aos esportes que lhes agradam.-
Parece-me que falamos bem de arte - acrescentou.
- Tudo bem, gosto muito disso - disse a Sra. Swann, lançando-me um olhar reconhecido,
por bondade e também porque guardara suas velhas aspirações quanto a uma conversa mais
intelectual. A seguir, foi com outras pessoas, particularmente com Gilberte, que Bergotte falou. Eu
lhe dissera tudo o que sentia com uma liberdade que me espantara e que provinha de que tomara
com ele, desde muitos anos (no decurso de tantas horas de solidão e de leitura, onde ele era para
mim apenas a melhor parte de mim mesmo), o hábito da sinceridade, da franqueza, da confiança;
ele me intimidava menos que uma pessoa com quem tivesse conversado pela primeira vez. E, no
entanto, pela mesma razão, sentia-me bastante inquieto quanto à impressão que deveria ter
produzido nele, visto não datar de hoje o desprezo que supusera que teria pelas minhas ideias, e
sim de um tempo já antigo em que começara a ler seus livros em nosso jardim de Combray. No
entanto, deveria ter me ocorrido que, se fui sincero, se apenas me abandonei ao meu pensamento
ao simpatizar tanto, por um lado, com a obra de Bergotte e ao sentir, por outro lado, no teatro, um
desapontamento cujos motivos ignorava, esses dois movimentos instintivos que me haviam
empolgado não deviam ser tão diversos um do outro, e sim obedecer às mesmas leis; e que esse
espírito de Bergotte, que eu amara em seus livros, não devia ser algo inteiramente estranho e
hostil à minha decepção e à incapacidade de expressá-la. Pois minha inteligência devia ser una, e
talvez mesmo só exista uma única da qual todos são colocatários, uma inteligência sobre a qual
cada um de nós, do fundo de seu corpo particular, lança os seus olhares, como no teatro, onde
cada um tem seu lugar; em compensação, só existe um único cenário. Sem dúvida, as ideias que
eu tivera o gosto de procurar desenredar não eram as que, em geral, Bergotte aprofundava em
seus livros. Mas, se se trata da mesma inteligência que tanto eu como ele possuímos à nossa
disposição, ele devia, ao ouvi-las expressas por mim, recorda-las, amá-las, sorrir-lhes,
provavelmente conservando, apesar de minhas suposições, diante de seu olho interior, uma parte
da inteligência bem diversa da outra parte que se projetara em seus livros, e segundo a qual eu
havia imaginado todo o seu universo mental. Do mesmo modo que os padres, tendo a experiência
mais profunda do coração, podem melhor perdoar os pecados que não cometem, assim também
o gênio, tendo a maior experiência da inteligência, pode compreender melhor as ideias mais
contrárias às que formam o fundo de sua própria obra. Eu deveria me ter dito tudo isso (que aliás
nada tem de agradável, pois a benevolência dos grandes espíritos tem por corolário a
incompreensão e a hostilidade dos medíocres; ora, somos muito menos felizes com a amabilidade
de um grande escritor, que a rigor se pode encontrar em seus livros, do que sofremos com a
hostilidade de uma mulher que não elegemos por sua inteligência, mas que não podemos evitar
amar). Eu deveria ter dito tudo isso, mas não o dizia; estava convencido de que parecera um
estúpido a Bergotte, quando Gilberte me sussurrou ao ouvido:
- Estou louca de alegria, porque você conquistou meu grande amigo Bergotte. Ele disse a
mamãe que o achou muito inteligente.
- Aonde vamos?- perguntei a Gilberte.
- Ora, aonde quiserem; quanto a mim, você sabe, ir para cá ou para lá...
- Nossos amigos me disseram que você é doente. Lamento-o bastante. E, apesar disso,
não tanto assim, pois vejo que deve possuir os prazeres da inteligência e isso, provavelmente, é o
que conta para você, como para todos aqueles que conhecem tais prazeres.
Ai de mim! O que ele falava, quão pouco verdadeiro eu sentia que era para mim, a quem
todo raciocínio, por elevado que fosse, deixava frio, que não era feliz senão em momentos de
simples lazer, quando sentia bem-estar; percebia quanto o que desejava na vida era puramente
material e com que facilidade me absteria da inteligência. Como não distinguia, entre os prazeres,
aqueles que me vinham de fontes diferentes, mais ou menos profundas e duráveis, pensei, no
momento de lhe responder, que teria gostado de uma existência em que estivesse ligado à
duquesa de Guermantes e na qual muitas vezes teria sentido, como no antigo escritório do
imposto de trânsito dos Champs-Élysées, um frescor que me recordaria Combray. Ora, nesse
ideal de vida que não ousava confiar-lhe, os prazeres da inteligência não ocupariam lugar algum.
- Não senhor, os prazeres da inteligência são muito pouco para mim; não são eles o que
procuro. Nem sei mesmo se alguma vez os senti.
- Acha isso mesmo? replicou ele. - Muito bem, escute; isto deve ser o que você prefere
apesar de tudo, me parece. É o que acho.
Certo, ele não me convencia; no entanto, eu me sentia mais feliz, menos acanhado.
Devido ao que me havia dito o Sr. de Norpois, considerara meus momentos de devaneio, de
entusiasmo, de confiança em mim mesmo, como puramente subjetivos e sem verdade. Ora,
segundo Bergotte, que dava impressão de conhecer o meu caso, parecia que o sintoma a
desprezar eram ao contrário as minhas dúvidas, o desgosto que sentia por mim mesmo.
Principalmente o que dissera acerca do Sr. de Norpois tirava muito da força de uma condenação
que eu julgara irremediável.
-Você é bem cuidado? - indagou Bergotte. - Quem é que se ocupa de sua saúde?
- Disse-lhe que era e voltaria a ser Cottard, sem dúvida.
- Mas não é disso que você precisa! respondeu. - Não o conheço como médico. Porém, vi-o na casa da Sra. Swann. É um imbecil. Supondo que isso não o impeça de ser um bom médico,
o que me custa a acreditar, isso o impede de ser um bom médico para artistas, para pessoas
inteligentes. Pessoas como você têm necessidade de médicos apropriados, direi quase de
regimes, de medicamentos especiais. Cottard vai aborrecê-lo e o tédio por si só impedirá que seu
tratamento seja eficaz. E depois, esse tratamento não pode ser o mesmo para você e para um
indivíduo qualquer. Três quartas partes dos males das pessoas inteligentes provêm de sua
inteligência. Falta-lhes, pelo menos, um médico que os conheça. Como quer que Cottard possa
tratá-lo? Ele previu a dificuldade de digerir molhos, a perturbação gástrica, mas não a leitura de
Shakespeare... Assim, seus cálculos não são mais acertados com você, o equilíbrio está rompido,
é sempre o pequeno ludião que sobe. Ele descobrirá em você uma dilatação do estômago, não
tem necessidade de examiná-lo visto que já o fez previamente com o olho. Você pode vê-la, pois
se reflete no seu pincenêz.
Esta maneira de falar me cansava bastante, eu dizia comigo com a estupidez do
bom senso:
"Não existe mais dilatação do estômago refletida no pincenêz do professor Cottard do que
as tolices ocultas no colete branco do Sr. de Norpois."
- Eu lhe aconselharia, de preferência, o doutor Boulbon - prosseguiu Bergotte. - É muito
inteligente.
- É um grande admirador de suas obras – disse-lhe. - Vi que Bergotte o sabia e concluí que
os espíritos fraternais depressa se ajuntam, que a gente possui poucos "amigos desconhecidos".
O que Bergotte me disse a respeito de Cottard me chocou por ser bem o oposto de tudo quanto
eu acreditava. De modo algum me inquietava achar o meu médico um sujeito aborrecido;
esperava dele que, graças a uma arte cujas leis me fugiam, proferisse a respeito de minha saúde
um oráculo indiscutível ao consultar minhas entranhas. E pouco me importava que, com o auxílio
de uma inteligência, auxílio que eu mesmo poderia lhe prestar, ele procurasse compreender a
minha, que eu apenas imaginava como um meio, indiferente em si mesmo, de tentar alcançar
verdades exteriores. Duvidava muito de que as pessoas inteligentes tivessem necessidade de
uma higiene diversa da dos imbecis, e estava pronto a me submeter à desses últimos.
- Se alguém precisa de um bom médico, é o nosso amigo Swann - disse Bergotte. E, como
eu perguntasse se ele estava doente: - Pois bem, um homem que desposou uma mulher de vida
fácil, que tem de aturar, por dia, cinquenta desfeitas de senhoras que não querem ter relações
com a sua, ou de homens que dormiram com ela. Vê-se isto, elas lhe retorcem a boca. Repare as
sobrancelhas circunflexas que ele apresenta quando entra em casa, para ver quem está de visita.
-A má vontade com que Bergotte falava a um estranho, sobre os amigos em cuja casa era
recebido há tanto tempo, era tão nova para mim como o tom quase carinhoso com que, na casa
dos Swann, ele assumia a todo instante com eles. Certamente, uma pessoa como a minha tia-avó, por exemplo, teria sido incapaz, como nenhum de nós, dessas gentilezas que ouvira Bergotte
prodigalizar a Swann. Mesmo às pessoas a quem amava, ela gostava de dizer coisas
desagradáveis. Mas, na ausência delas, não teria pronunciado uma só palavra que elas não
pudessem ouvir. Nada era menos parecido com a alta sociedade do que a nossa de Combray. A
dos Swann já era uma tendência para a alta-roda, para suas ondas versáteis. Ainda não era o mar
alto, já era a laguna.
-Tudo isto fica entre nós - disse-me Bergotte, ao me deixar diante de minha porta. Alguns
anos depois, eu lhe teria respondido:
"Nunca repito nada".
É a frase ritual das pessoas da alta sociedade, pela qual o maldizente é falsamente
assegurado. Ela é que eu já teria dirigido a Bergotte naquele dia, pois a gente não inventa tudo o
que diz, sobretudo nos momentos em que age como pessoa social. Mas não a conhecia ainda.
Por outro lado, a frase de minha tia-avó numa ocasião semelhante teria sido:
"Se não quer que isto seja repetido, por que então está me dizendo?"
É a resposta das pessoas insaciáveis, das "cabeças-duras". Eu não o era. Inclinei-me em
silêncio. Os literatos que, para mim, eram personagens notáveis intrigavam durante anos antes de
travar com Bergotte relações que permaneciam sempre obscuramente literárias e não saíam de
seu gabinete de trabalho, ao passo que eu acabava de me instalar entre os amigos do grande
escritor logo à primeira vista e tranquilamente, como alguém que, em vez de fazer fila como todos
para arranjar um mau lugar, ganha os melhores, tendo passado por um corredor fechado aos
outros. Se Swann o abrira para mim daquele modo, era sem dúvida porque, feito um rei que acha
natural convidar os amigos do filho para o camarote real, para o iate real, assim também os pais
de Gilberte recebiam os amigos da filha no meio das coisas preciosas que possuíam e das
intimidades, mais preciosas ainda, que ali estavam guardadas. Mas àquela época imaginei, e
talvez com razão, que essa amabilidade de Swann era dirigida indiretamente a meus pais. Julgara
ouvir outrora, em Combray, que ele se oferecera, vendo minha admiração por Bergotte, para me
levar para jantar em sua casa, e que meus pais haviam recusado, alegando que eu era muito
jovem e muito nervoso para "sair". Sem dúvida, meus pais representavam para certas pessoas,
exatamente aquelas que me pareciam as mais maravilhosas, algo bem diverso que para mim
mesmo, de modo que, como no tempo em que a dama cor-de-rosa dirigira a meu pai elogios de
que ele se mostrara tão pouco digno, eu teria desejado que eles compreendessem que
inestimável presente acabara de receber e testemunhassem o seu reconhecimento a esse Swann
generoso e cortês que me havia, ou lhes havia, oferecido, sem parecer dar maior importância ao
seu ato do que aquele delicioso rei mago do afresco de Luini, de nariz curvo e cabelos louros, e
com quem, parece, lhe haviam achado grande semelhança antigamente. Infelizmente, o favor que
Swann me fizera e que, ao chegar em casa, antes mesmo de tirar o sobretudo, anunciei a meus
pais na esperança de que lhes despertaria no coração um sentimento tão emocionado quanto o
meu e os levasse a uma "cortesia" enorme e decisiva para com os Swann, tal favor não pareceu
muito apreciado por eles.
- Swann te apresentou a Bergotte? Belo conhecimento, encantadora relação! - exclamou
ironicamente meu pai.- Não faltava mais nada!
Ai de mim, quando acrescentei que ele não gostava de modo algum do Sr. de Norpois: -
- Naturalmente! - tornou ele - Isto bem prova que se trata de um espírito falso e malévolo.
Meu pobre filho, já não tinhas muito senso comum; estou triste porte ver cair num ambiente que
vai acabar de te desequilibrar.
A simples frequência à casa dos Swann já estava longe de encantar meus pais. A
apresentação a Bergotte lhes pareceu uma consequência nefasta, mas natural, de um primeiro
erro, da fraqueza que haviam tido e que meu pai chamou de "falta de circunspecção". Senti que,
para completar o mau humor dos pais, bastaria dizer-lhes que aquele homem perverso me achara
extremamente inteligente. De fato, quando meu pai considerava que uma pessoa, um de meus
companheiros, por exemplo, estava no mau caminho - como eu naquele momento - e tinha então
a aprovação de alguém de quem meu pai não gostava, este via no fato a confirmação do seu
diagnóstico irritado. O mal só lhe parecia ainda maior. Já ouvia o que ele exclamaria:
"Necessariamente, é tudo uma cambada!", termo que me espantava pela imprecisão e a
imensidão das reformas cuja iminente introdução em minha doce vida parecia anunciar.
Mesmo que não dissesse o que Bergotte falara sobre mim, já nada poderia apagar a
impressão ruim de meus pais; e que fosse um pouquinho pior, isto não me importava. Aliás,
pareciam-me tão injustos, de tal maneira apegados ao erro, que não só não tinha esperança mas
nem sequer o desejo de conduzi-los a uma visão mais equitativa. Entretanto, sentindo, no
momento em que minhas palavras saíam da boca, como iriam meus pais se assustar em pensar
que eu havia agradado a alguém que julgava idiotas os homens inteligentes, era objeto de
desprezo da parte das pessoas honestas, e cujos louvores, parecendo-me invejáveis, me
impeliriam ao mal -foi com voz baixa e com um ar meio envergonhado, que, ao terminar a
narração, aduzi o arremate:
- Ele disse aos Swann que me achara muitíssimo inteligente.
Como um cão envenenado que, no campo, se arremessa, sem o saber, precisamente
sobre a erva que é o antídoto da toxina que absorveu, acabara eu de dizer a meus pais, sem ter
noção de tal, a única palavra no mundo capaz de vencer, na opinião deles, o preconceito que
alimentavam quanto a Bergotte, preconceito contra o qual todos os mais belos raciocínios que eu
poderia ter feito, todos os louvores que fizesse, seriam em vão. No mesmo instante, a situação
mudou de aspecto:
- Ah... ele disse que te achava inteligente? - exclamou minha mãe. - Isto me agrada, pois
trata-se de um homem de talento.
-Como! Ele disse isso? - repetiu meu pai. - Não nego em nada o seu valor literário diante
do qual todos se inclinam; apenas, é aborrecido que leve essa vida pouco honrosa da qual falou o
velho Norpois com palavras encobertas - acrescentou, sem se aperceber de que, face à virtude
soberana das palavras mágicas que eu acabara de pronunciar, já não podia lutar por muito tempo
com a depravação dos costumes de Bergotte, nem a falsidade do seu julgamento.
- Oh, meu caro - interrompeu mamãe -, nada prova que isto seja verdade. Dizem tantas
coisas. Além disso, o Sr. de Norpois é o que existe de mais gentil, mas nem sempre é muito
benevolente, sobretudo para com as pessoas que não são de sua opinião.
- É verdade, eu também já havia reparado - respondeu meu pai.
- E, além disso, pode-se perdoar muito a Bergotte, visto que achou amável o meu filhinho - replicou mamãe, acariciando meus cabelos com os dedos e depondo em mim um longo olhar
sonhador.
Aliás, minha mãe não havia esperado pelo veredito de Bergotte para dizer que eu podia
convidar Gilberte para merendar quando recebesse meus amigos. Mas eu não ousava fazê-lo por
dois motivos. Primeiro, porque na casa de Gilberte nunca serviam senão chá. Em minha casa, ao
contrário, mamãe cuidava para que, junto com o chá, houvesse chocolate. Temia eu que Gilberte
achasse aquilo vulgar e nos desprezasse. O outro motivo foi uma dificuldade de protocolo que
jamais consegui revogar. Quando chegava à casa da Sra. Swann, ela me perguntava:
- Como vai a senhora sua mãe?
Sondara mamãe para saber se ela faria o mesmo à chegada de Gilberte, questão que me
parecia mais grave que o título de "Monsenhor" na corte de Luís XIV. Porém mamãe não quis
saber de nada.
- De jeito nenhum, pois não conheço a Sra. Swann.
- Mas ela também não te conhece.
- Não digo que não, mas nós não somos obrigados a proceder da mesma maneira em
tudo. Quanto a mim, vou fazer outras gentilezas a Gilberte, gentilezas que a Sra. Swann não tem
para contigo.
Mas não me convenci e preferi não convidar Gilberte.
Tendo deixado meus pais, fui trocar de roupa e, esvaziando os bolsos, encontrei de
repente o envelope que o mordomo da casa dos Swann me entregara antes de me introduzir no
salão. Agora, estava sozinho. Abri-o; dentro havia um cartão no qual indicavam-me a dama a
quem deveria oferecer o braço para ir à mesa. Foi por essa época que Bloch transtornou minha
concepção do mundo, abrindo-me novas possibilidades de felicidade (que, de resto, deviam
mudar-se mais tarde em possibilidades de sofrimento), ao me assegurar que, contrariamente ao
que julgara no tempo de meus passeios para os lados de Méséglise, as mulheres não desejavam
outra coisa senão fazer amor. Completou o serviço prestando-me um segundo que só mais tarde
devia apreciar: foi ele quem me levou pela primeira vez a um bordel. Bem que me havia dito que
ali havia muitas mulheres lindas que a gente podia possuir. Mas eu atribuía-lhes uma fisionomia
vaga, que os bordéis me permitiriam substituir por rostos particulares. De modo que se devia a
Bloch por sua "boa nova" de que a felicidade e a posse da beleza não são coisas inacessíveis e
que seria inútil renunciar a elas para sempre; um obséquio do mesmo tipo do que devemos a um
médico ou a um filósofo otimista que nos fazem esperar pela longevidade neste mundo, e que não
estaremos totalmente separados deste quando tivermos passado a um outro, os bordéis que
frequentei alguns anos depois; ao me fornecerem amostras de felicidade, e ao me permitirem
acrescentar à beleza das mulheres o elemento que não podemos inventar, que não passa do
resumo das belezas antigas, o presente verdadeiramente divino, o único que não poderíamos
receber de nós mesmos, diante do qual expiram todas as criações lógicas de nossa inteligência e
que só podemos pedir à realidade: um encanto individual mereceram ser por mim classificados ao
lado daqueles outros benfeitores de mais recente origem porém de utilidade análoga (antes dos
quais imaginávamos sem calor a sedução de Mantegna, de Wagner, de Siena, através de outros
pintores, outros músicos, outras cidades): as edições ilustradas de história da pintura, os
concertos sinfônicos e os ensaios sobre as "Cidades de arte". Mas a casa aonde Bloch me levou e
à qual não ia, aliás, há muito tempo, era de um nível bastante inferior, o pessoal era muito
medíocre e bem pouco renovado para que eu pudesse satisfazer antigas curiosidades ou adquirir
novas. A dona dessa casa não conhecia nenhuma das mulheres que lhe solicitavam e oferecia
sempre uma que não lhe haviam pedido. Elogiou-me sobretudo uma, da qual, com um sorriso
cheio de promessas (como se isso fosse uma raridade e um regalo), dizia:
- É uma judia! Isto não lhe diz nada? - (Sem dúvida, era por isso que a chamava de
Rachel.) E, com uma exaltação simplória e artificial, que esperava ser comunicativa e que
acabava com um arquejo quase de gozo:
- Pois pense, meu garoto, uma judia, parece-me que deve ser de enlouquecer!
Ah! Essa Rachel, que examinei sem que me visse, era morena, nada bonita, mas tinha
aspecto inteligente; e, não sem passar a língua pelos lábios, sorria com jeito bem impertinente
para os fregueses que lhe apresentavam e que eu ouvia entabularem conversa com ela. Seu
rosto comprido e magro era cercado de cabelos negros e crespos, irregulares como se traçados a
nanquim numa aquarela. De cada vez eu prometia à patroa, que me propunha a moça com
insistência particular, enaltecendo sua grande inteligência e instrução, que não deixaria de vir um
dia expressamente para conhecer Rachel, a quem apelidei "Rachel-quando-do-Senhor". Mas, na
primeira noite, ouvi-a no momento em que ia embora, dizendo à patroa:
- Então, fica entendido; amanhã estou livre e, se tiver alguém, não se esqueça de me
mandar chamar.
E essas palavras impediram-me de ver nela uma pessoa, pois fizeram com que a
classificasse logo numa categoria geral de mulheres cujo costume, comum a todas, era vir à noite
para ver se não havia um ou dois luíses de ganho. Variava apenas a forma da frase, dizendo: "se
tiver necessidade de mim" ou "se precisar de alguém". A patroa, que não conhecia a ópera de
Halévy, ignorava por que me acostumara a chamá-la de "Rachel-quando-do-Senhor". Mas não
compreender não a impedia de achar engraçada a expressão e, todas as vezes, rindo às
gargalhadas, ela dizia:
- Então, ainda não será esta noite que se juntará à "Rachel-quando-do-Senhor"? Como é
que o senhor diz: "Rachel-quando-do-Senhor!" Ah, é muito bem achado. Vou fazê-lo noivo. Verá
que não vai se lamentar.
continua na página 68...
________________
Leia também:
Volume 1
Volume 2
À Sombra das Moças em Flor (Ao Redor da Sra. Swann - n)
Volume 3Volume 4
Volume 5
Volume 6
Volume 7
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