terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

Marcel Proust - À Sombra das Moças em Flor (Ao Redor da Sra. Swann - o)

em busca do tempo perdido

volume II
À Sombra das Moças em Flor

Primeira Parte
Ao Redor da Sra. Swann


(o)

continuando...

     No dia em que o jovem Bergotte pôde mostrar ao mundo de seus leitores o salão de mau gosto em que passara a infância e as conversas não muito engraçadas que mantinha com os irmãos, nesse dia ele subiu mais alto que os amigos da família, mais espirituosos e distintos: estes, em seus belos Rolls-Royce, poderiam entrar em sua casa demonstrando um certo desprezo pela vulgaridade dos Bergottes; porém, ele, no seu modesto aparelho que por fim acabava de "decolar", ele os ultrapassava.
     Não mais com os membros de sua família, mas com certos escritores de seu tempo é que ele apresentava determinados traços comuns de elocução. Os mais jovens, que principiavam a renega-lo e pretendiam não ter qualquer parente intelectual com ele, manifestavam-no sem querer empregando os mesmos advérbios, as mesmas proposições que ele repetia sem cessar, construindo as frases da mesma maneira, falando com o mesmo tom amortecido, frouxo, em reação a entrar na linguagem eloquente e fácil da geração anterior. Talvez esses jovens - e vimos quem estava nesse caso - não tivessem conhecido Bergotte. Mas o seu modo de pensar, inoculado neles, desenvolvera essas alterações da sintaxe e do acento que estão em relação necessária com a originalidade intelectual. Relação que pede para ser interpretada. Assim Bergotte, se não devia nada a ninguém seu modo de escrever, derivava o seu modo de falar de um dos antigos companheiros conversador magnífico de quem sofrera a influência e a quem imitava sem parar na conversação, mas que, sendo menos dotado que ele, nunca escrevera verdadeiramente superior. De modo que, se a gente se restringir à originalidade do enunciado, Bergotte tem de ser rotulado de discípulo, escritor de segunda mão, ao passo que, influenciado pelo amigo no terreno da conversação, fora original e criativo como escritor. Sem dúvida, ainda para se separar da geração precedente, muito amiga de abstrações, dos grandes lugares-comuns, quando Bergotte queria falar bem de um livro, o que valorizava e citava era sempre alguma cena que formasse uma imagem, algum quadro sem significado racional.
     "Ah, sim" – dizia - "está bem! Há uma menina de xale cor de laranja, ah, está muito bem"- ou ainda: "Oh, sim, há uma passagem em que há um regimento que atravessa uma cidade, ah, sim; está muito bom!" Quanto ao estilo, não era inteiramente de sua época (aliás, era muito exclusivamente de seu país, detestava Tolstoi, George Eliot, Ibsen e Dostoievski), pois o vocábulo que empregava sempre, quando queria fazer o elogio de um estilo, era "suave": "Sim, todavia gosto mais do Chateaubriand de fala do que de René, pois este me parece mais suave." Dizia essa palavra como um médico a quem um doente assegura que o leite lhe dá dor de estômago e que responde: "No entanto é bem suave." E é certo que  havia no estilo de Bergotte uma espécie de harmonia semelhante àquela pela qual os antigos davam, a alguns de seus oradores, louvores cuja natureza dificilmente podemos conceber, acostumados que estamos às nossas línguas modernas onde não se busca esse tipo de efeito. Ele dizia também, com um sorriso tímido, de páginas suas pelas quais lhe manifestavam admiração:

-Creio que são bem verdadeiras, bem exatas, podem ser úteis mas simplesmente por modéstia, como uma mulher a quem se diz que seu vestido, ou sua filha, é deslumbrante, e que responde, quanto ao primeiro: - É cômodo - e quanto à segunda: -Tem um bom caráter. 

     Mas o instinto do construtor era profundo demais em Bergotte para que ele ignorasse que a única prova que edificara de forma útil e de acordo com a verdade residia na satisfação que a obra lhe dera, a ele em primeiro lugar, e depois aos outros. Apenas muitos anos depois, quando já não tinha mais talento, todas as vezes que escrevia alguma coisa que não o satisfazia, para não a eliminar como deveria ter feito, para publicá-la, repetia consigo, desta vez para si próprio: 

"Apesar de tudo, é bem exato, não é inútil ao meu país." De forma que a frase murmurada outrora diante de seus admiradores por uma astúcia de sua modéstia, o foi, por fim, no segredo de seu coração, pelas inquietudes de seu orgulho. E as mesmas palavras que haviam servido a Bergotte como desculpa supérflua quanto ao valor de suas primeiras obras, se lhe tornaram uma espécie de consolo ineficaz pela mediocridade das últimas. Uma espécie de severidade de gosto que ele possuía, de vontade de nunca escrever senão coisas das quais pudesse dizer:
"É suave", e que o fizera ser tido, durante tantos anos, como um artista estéril, afetado, cinzelador de nadas, era, pelo contrário, o segredo de sua força, pois o hábito modela igualmente o estilo do escritor como o caráter do homem, e o autor que muitas vezes se contentou em atingir, na expressão do pensamento, um certo grau de satisfação, restringe, assim, para sempre os limites de seu talento, bem como, cedendo muitas vezes ao prazer, à preguiça, ao medo de sofrer, a gente desenha em si mesmo, num caráter onde os retoques acabam por não ser mais possíveis, o retrato dos próprios vícios e os limites da própria virtude.

     Se, entretanto, malgrado tantas correspondências que percebi a seguir entre o escritor e o homem, não acreditara no primeiro momento, na casa da Sra. Swann, que se tratasse de Bergotte, que era o autor de tantos livros divinos que se achava à minha frente, talvez eu não estivesse de todo errado, pois ele mesmo (no verdadeiro sentido da palavra) tampouco o acreditava. Não o acreditava visto demonstrar muita solicitude quanto às pessoas da sociedade (aliás, sem ser esnobe), às pessoas do mundo das letras, aos jornalistas, que lhe eram bem inferiores. Certo, agora sabia, devido ao sufrágio dos outros, que possuía gênio, diante do que não são nada a posição social e os cargos oficiais. Soubera que possuía gênio, porém não o acreditava, já que permanecia simulando deferência para com os escritores medíocres a fim de poder entrar para a Academia, enquanto esta ou o baubourg Saint-Germain não tem a ver com a parte do Espírito eterno que é o autor dos livros de Bergotte mais do que com o princípio de causalidade ou a ideia de Deus. Isto ele também sabia, como um cleptômano sabe inutilmente que é um crime roubar. E o homem de barbicha e nariz de caracol tinha astúcias de cavalheiro ladrão de garfos, para se aproximar da poltrona acadêmica esperada, de uma tal duquesa que dispunha de vários votos nas eleições; mas aproximar-se cuidando para que nenhuma pessoa que considerasse um vício pretender semelhante objetivo pudesse ver sua manobra. Só o conseguia pela metade, ouviam-se alternar as frases do verdadeiro Bergotte com as do Bergotte egoísta, ambicioso e que só pensava em falar dessas pessoas poderosas, nobres ou ricas para se valorizar, logo ele que em seus livros, quando era verdadeiramente ele mesmo, mostrara tão bem, puro como o de uma fonte, o encanto dos pobres. 
     Quanto aos outros vícios a que aludira o Sr. de Norpois, ao amor meio incestuoso que, diziam, era até complicado de indelicadeza em matéria de dinheiro, se contradiziam de forma chocante a tendência de seus últimos romances, cheios de uma preocupação tão escrupulosa, tão dolorosa, com o bem, que as menores alegrias de seus heróis eram por ela envenenadas e que, para o próprio leitor, se desprendia um sentimento de angústia através do qual a mais doce existência parecia difícil de suportar, tais vícios, entretanto, não provavam, mesmo que se os imputassem de modo justo a Bergotte, que sua literatura fosse mentirosa, e tanta sensibilidade, uma comédia.
     Do mesmo modo que, na patologia, certos estados de aparência semelhante são devidos, uns a um excesso, outros a uma insuficiência de tensão, de secreção, etc., assim pode haver vício por hipersensibilidade como há vício por falta de sensibilidade. Talvez seja apenas entre os vícios realmente viciosos que o problema moral pode se situar com toda sua força de ansiedade. E problema que o artista dá uma solução não no plano de sua vida individual, mas daquela que é para ele sua vida verdadeira, uma solução geral, literária. Como grandes doutores da Igreja começaram muitas vezes, mesmo sendo bons, e querendo livrar os pecados de todos os homens, daí tirando sua santidade pessoal, por vezes os grandes artistas, mesmo sendo malvados, servem-se de seus vício para chegar a conceber a regra moral de todos. São os vícios (ou apenas as frases dos ridículos) do ambiente em que vivem, as frases inconsequentes, a vida chocante de sua filha, as traições de sua mulher ou suas próprias faltas, escritores vergastam com frequência em suas diatribes sem por isso mudar sua vida doméstica ou a linguagem grosseira que reina em seu lar. Mas este chocava menos antigamente do que no tempo de Bergotte, porque, por uma medida que a sociedade se corrompia, as noções de moralidade iam se depurando e, por outro lado, o público se punha mais ao corrente da vida privada dos escritores, do que o fizera até então; e em certas noites, no teatro, mostravam o autor que tanto admirara em Combray, sentado ao fundo de um camarote cuja conversa parecia um comentário singularmente risível ou pungente, um desmentido vergonhoso da tese que ele acabara de sustentar em sua última obra. O que outros puderam me dizer não me informou muita coisa sobre a bondade ou maldade de Bergotte. Alguns de seus íntimos forneciam provas de sua bondade, certo desconhecido citava um rasgo (tocante, pois fora evidentemente destinado a permanecer oculto) de sua profunda sensibilidade. Agira cruelmente com fulano. Mas numa estalagem de aldeia, aonde fora passar a noite, ficara acordado para uma mulher pobre que tentara se afogar, e, quando tinha sido obrigado a deixar muito dinheiro com o estalajadeiro para que não expulsasse aquela infeliz, para que cuidasse dela.
     Talvez, quanto mais o grande escritor se desenvolvia em Bergotte, em detrimento do homem da barbicha, mais a sua vida individualizava nas ondas de todas as vidas que ele imaginava e não parecia obrigá-lo a deveres efetivos, que eram substituídos pelo dever de imaginar vidas. Porém, ao mesmo tempo, pois que imaginava os sentimentos dos tão bem como se fossem seus, quando era necessário dirigir-se a um pelo menos de modo passageiro, fazia-o colocando-se não no seu ponto de vista pessoal, mas no da criatura que sofria, ponto de vista de onde teria horror à linguagem dos que continuam a pensar em seus interesses mesmo que diante da dor alheia. De forma que excitou à sua volta rancores justificados e inextinguíveis. Era principalmente um homem que, no fundo, só amava de verdade imagens e (como uma miniatura no fundo de um estojo) gostava de pintá-las sob as palavras. Por um nada que lhe houvessem mandado, se este desse a ocasião de aí entrelaçar algumas, ele se mostrava pródigo na palavra e seu reconhecimento, ao passo que não testemunhava gratidão alguma por um presente rico. E, se tivesse que se defender diante de um tribunal, teria, apesar de tudo, escolhido as palavras não de acordo com o efeito que pudessem produzir sobre o juiz, mas tendo em vista as imagens que o juiz certamente não perceberia.
     Naquele primeiro dia em que o vi na casa dos pais de Gilberte, contei a Bergotte que ouvira recentemente a Berma em Fedra; disse-me que, na cena em que ela permanece com o braço erguido à altura dos ombros exatamente uma das cenas que tanto haviam aplaudido -, soubera evocar, com uma arte muito nobre, obras-primas que aliás ela talvez nunca tivesse visto, uma Hespéride que faz esse gesto sobre uma metrópole Olímpica, e também as belas virgens do antigo Erectêion.

-Pode se tratar de uma adivinhação; entretanto, creio que ela freqüenta os museus. Seria interessante "averiguar" isto ("averiguar" era uma das expressões habituais de Bergotte e que aqueles jovens que nunca o haviam encontrado lhe assimilaram, falando como ele por uma espécie de sugestão a distância). 
- Está pensando nas cariátides? indagou Swann. 
- Não, não. - respondeu Bergotte-, a não ser na cena em que ela confessa sua paixão a Oenone e onde faz com a mão o movimento de Hegeso na estrela do Cerâmico; é uma arte bem mais antiga que ela ressuscita. Eu falava das Corés do antigo Erectêion, e reconheço que não existe nada talvez tão distanciado da arte de Racine, porém há tantas coisas na Fedra... uma a mais... Oh! E depois, sim, é tão bonita essa pequena Fedra do séc. VI, a verticalidade do braço, os cachos do cabelo "imitando mármore", sim, todavia já é demais ter achado tudo isso. Ali existe muito mais antiguidade que em muitos livros que este ano são chamados "antigos".

     Como Bergotte, num de seus livros, fizera uma célebre invocação a essas estátuas arcaicas, as palavras que dizia naquele instante eram bem claras para mim, dando-me uma nova razão para me interessar pelo desempenho da Berma. Tentava revê-la nas minhas recordações, exatamente como ela estivera naquela cena em que me lembrava que erguera o braço à altura do ombro. E dizia para comigo:

"Eis a Hespéride de Olímpia; eis a irmã de uma dessas admiráveis orantes da Acrópole; eis o que se chama uma arte nobre." Mas, para que esses pensamentos me embelezassem o gesto da Berma, teria sido necessário que Bergotte os fornecesse a mim antes da representação. Assim, enquanto aquela atitude da atriz se desenrolava de fato à minha frente, naquele momento em que a coisa ocorrida ainda possui a plenitude da realidade, eu poderia tentar extrair dela a ideia de uma escultura arcaica. Da Berma, porém, naquela cena, o que guardei era uma lembrança que já não podia modificar, tênue como uma imagem desprovida das camadas profundas do presente que se deixam escavar e de onde se pode extrair, com veracidade, algo de uma imagem à qual não se pode impor, retroativamente, uma interpretação já mais suscetível de verificação, de sanção objetiva. Para meter-se na conversa, Swann me perguntou se Gilberte pensara em me dar o que Bergotte havia escrito acerca de Fedra. 

-Tenho uma filha tão estouvada. - acrescentou. Bergotte teve um sorriso modesto e protestou que eram páginas sem importância.
- Oh, não, é extraordinário o opúsculo, esse pequeno tracf! - disse a Sra. Swann para se mostrar boa dona-de-casa, para fazê-lo crer que havia lido a brochura, e também porque não lhe agradava simplesmente cumprimentar Bergotte, mas fazer uma escolha entre as coisas que ele escrevia, e dirigi-lo. E, na verdade, ela o inspirou, aliás de um modo que nem pensava. Mas enfim, existem, entre o que foi a elegância do salão da Sra. Swann e toda uma parte da obra de Bergotte, relações tais que ambos podem ser, alternativamente, para os velhos de hoje, um comentário de um ao outro.

     Eu continuava contando minhas impressões. Muitas vezes Bergotte não as considerava justas, porém deixava-me falar. Disse-lhe que havia adorado aquela iluminação verde que se dá no momento em que Fedra ergue o braço. 

- Ah, daria muito prazer ao decorador, que é um grande artista; vou lhe contar isto, porque ele tem muito orgulho daquela luz. Quanto a mim, devo dizer que não gosto muito, pois banha tudo numa espécie de atmosfera glauca; a pequena Fedra lá dentro fica por demais parecida com um coral no fundo de um aquário. Você dirá que aquilo faz ressaltar o lado cósmico do drama. É verdade. Ainda assim, estaria melhor numa peça que se passasse no reino de Netuno. Sei bem que ali existe a vingança de Netuno. Meu Deus, não peço que só pensem em Port-Royal, mas, enfim, todavia, o que Racine contou não foi os amores dos ouriços-do-mar. Afinal, foi o que o meu amigo desejou e está muito bem assim, e no fundo é bem bonito. Sim, afinal você gostou, você compreendeu, não é? No fundo, pensamos da mesma maneira sobre isso; é um pouco insensato o que ele fez, não é, mas afinal é muito inteligente.  

     E, quando a opinião de Bergotte era desse modo contrária à minha, ele não me reduzia de forma alguma ao silêncio, à impossibilidade de responder algo, como o teria feito a opinião do Sr. de Norpois. Isto não prova que as opiniões de Bergotte fossem menos válidas que as do embaixador; ao contrário. Uma ideia vigorosa comunica um pouco da sua força ao adversário. Participando do valor universal dos espíritos, ela se insere, se implanta no espírito daquele a quem refuta, em meio às ideias adjacentes, com ajuda das quais, retomando alguma vantagem, ele a completa e retifica; de modo que a sentença final é de alguma forma a obra de duas pessoas que discutiam. É às ideias que não são propriamente ideias, às ideias que, não levando a nada, não encontram nenhum ponto de apoio, nenhum ramo fraterno no espírito do adversário, que este, às voltas com o puro vazio, não acha nada para responder. Os argumentos do Sr. de Norpois (em matéria de arte) não admitiam réplica porque estavam fora da realidade. Visto que Bergotte não afastava as minhas objeções, confessei-lhe que tinham sido desprezadas pelo Sr. de Norpois.

- Mas trata-se de um velho canário. - respondeu. Deu-lhe bicadas, pois julga sempre ter pela frente um pastel ou uma sílaba. 
- Como! Você conhece Norpois? perguntou-me Swann. 
- Oh, ele é tedioso como a chuva - interrompeu sua mulher, que depositava muita confiança no julgamento de Bergotte e temia, sem dúvida, que o Sr. de Norpois nos tivesse falado mal dela. -Quis conversar com ele depois do jantar; não sei se, por causa da idade ou da digestão, o fato é que o achei muito enjoado! Parece que é preciso dopá-lo. 
- Sim, de fato - disse Bergotte. - Muitas vezes é obrigado a calar-se para não esgotar, antes do fim da festa, a quantidade de asneiras que engomam o peitilho da camisa e sustentam o colete branco. 
- Acho Bergotte e minha mulher muito severos - comentou Swann, que assumira em sua casa o "papel" de homem de bom senso. - Reconheço que Norpois não pode interessá-los muito, mas sob um outro ponto de vista- (pois Swann gostava de recolher as belezas da "vida") -, trata-se de alguém bem curioso, bastante curioso mesmo, como "amante". Quando era secretário em Roma - acrescentou, depois de se certificar que Gilberte não podia ouvi-lo-, tinha em Paris uma amante pela qual estava apaixonado, e achava um meio de fazer a viagem duas vezes por semana para vê-la durante duas horas. Aliás, era uma mulher muito inteligente e deslumbrante naquela época; agora é uma senhora idosa. E ele teve muitas outras amantes nesse período. Quanto a mim, ficaria louco se fosse necessário que a mulher que eu amava morasse em Paris enquanto eu permanecesse retido em Roma. Para as pessoas nervosas, seria sempre necessário que amassem, como diz o povo, "gente de classe inferior", para que uma questão de interesse pusesse a mulher a quem amam à sua disposição. 

     Nesse momento, Swann se apercebeu da aplicação que eu podia fazer dessa máxima ao caso dele e de Odette. E, como até entre as criaturas superiores, no momento em que parecem planar conosco acima das contingências da vida, o amor-próprio permanece mesquinho, Swann foi tomado de um grande mau humor contra mim. Porém, isto só se manifestou na inquietação do seu olhar. No momento, ele não me disse nada. Não devemos nos espantar muito de semelhante coisa. Quando Racine, segundo uma narrativa aliás controvertida, mas cujo assunto se repete todos os dias na vida parisiense, acusou Scarron diante de Luís XIV, o mais poderoso rei do mundo não disse nada ao poeta na mesma noite. E foi no dia seguinte que Racine caiu em desgraça. Mas, como uma teoria deseja ser expressa por inteiro, Swann, após aquele minuto de irritação e tendo enxugado a lente do monóculo, completou seu pensamento com essas palavras que, mais tarde, deviam assumir, na minha lembrança, o valor de uma advertência profética e da qual não soube me dar conta.

- Entretanto, o perigo desse gênero de amor é que a sujeição da mulher tranqüiliza por um instante o ciúme do homem, mas também a faz mais exigente. O homem chega a fazer a mulher viver como os prisioneiros que são iluminados dia e noite para serem mais bem vigiados. E isto, em geral, acaba em drama. 

     Voltei ao Sr. de Norpois. 

- Não confie nele; ao contrário, tem muito má língua - disse a Sra. Swann com um acento que me pareceu tanto mais indicar que o Sr. de Norpois falara mal dela, porque Swann olhou a esposa com ar de repreensão e como que para impedi-la de falar mais. 

     Entretanto, Gilberte, a quem já tinham dito duas vezes que fosse se preparar para sair, ficava a nos ouvir, entre a mãe e o pai, a cujo ombro se apoiava carinhosamente. A primeira vista, nada era mais contrastante com a Sra. Swann, que era morena, do que aquela mocinha de cabelo ruivo e pele dourada. Mas, ao cabo de um instante, reconheciam-se em Gilberte diversos traços. Por exemplo, o nariz talhado em brusca e infalível decisão pelo escultor invisível que trabalha com seu cinzel para várias gerações, a expressão e os movimentos da mãe. Para fazer uma comparação em outra arte, Gilberte dava a impressão de um retrato pouco parecido ainda com a Sra. Swann, a quem o pintor, por um capricho de colorista, tivesse feito posar meio disfarçada, pronta para ir, vestida de veneziana, a um jantar à fantasia. E, como não só tivesse uma peruca loura, mas também como todo átomo sombrio fora expulso de sua pele, a qual, despida de seus véus escuros, parecia mais nua, recoberta apenas dos raios expelidos por um sol interior, a caracterização não era superficial, e sim personificada; Gilberte dava a impressão de retratar algum animal fabuloso, ou de vestir uma fantasia mitológica. Aquela pele ruiva era a de seu pai, a ponto que a Natureza parecia ter precisado, quando Gilberte fora gerada, resolver o problema de refazer aos poucos a Sra. Swann, sem ter à sua disposição como matéria-prima senão a pele do Sr. Swann. E a Natureza a utilizara com perfeição, como um mestre em marcenaria que faz questão de deixar visíveis as aparas e os nós da madeira. No rosto de Gilberte, no canto do nariz de Odette perfeitamente reproduzido, a pele se erguia para conservar intactos os dois grãos de beleza do Sr. Swann. Era uma variedade nova da Sra. Swann que se obtinha ali, ao lado dela, como um lilás branco ao lado de um lilás roxo. No entanto, era desnecessário representar a linha demarcatória entre as duas semelhanças, por ser absolutamente nítida. Em certos momentos, quando Gilberte ria, percebia-se o oval da face de seu pai no rosto da mãe, como se os pusessem juntos para ver no que daria a mistura; esse oval tornava-se preciso da mesma maneira como se forma um embrião, alongava-se obliquamente, inchava-se, e desaparecia após um instante. Nos olhos de Gilberte havia o bom olhar franco do pai; era este o olhar que mostrava quando me dera a bolinha de ágata, dizendo:

"Guarde-a como lembrança da nossa amizade."

     Mas, quando lhe faziam uma pergunta sobre o que havia feito, então viam-se nos mesmos olhos o embaraço, a incerteza, a dissimulação, a tristeza que mostrava antigamente Odette, quando Swann lhe perguntava aonde tinha ido e ela lhe dava uma daquelas respostas mentirosas que desesperavam o amante e o faziam agora mudar bruscamente de assunto, como marido prudente e sem curiosidade. Muitas vezes, nos Champs-Élysées, sentira-me inquieto ao ver esse olhar de Gilberte. Porém, na maioria das vezes sem motivo. Pois nela, a sobrevivência puramente física de sua mãe, aquele olhar pelo menos o dos Champs-Élysées; já não correspondia a coisa alguma. Quando ela ia para o curso, quando devia voltar para uma aula, é que as pupilas de Gilberte faziam esse movimento que outrora, nos olhos de Odette, era provocado pelo medo de revelar que recebera, durante o dia, um de seus amantes ou que tinha pressa em comparecer a um encontro. Assim, viam-se as duas naturezas, do Sr. e Sra. Swann, ondular, refluir, invadir sucessivamente, uma sobre a outra, o corpo daquela Melusina. É claro que se conhece bem que uma criança se parece com o pai e a mãe. Mesmo a distribuição das qualidades e dos defeitos que ela herda se faz de modo tão estranho que, de duas qualidades que parecem inseparáveis em um dos pais, só uma se encontra no filho, e esta mesma aliada a defeitos do outro pai, que parecia irreconciliável com ela. E até a encarnação de uma qualidade moral em um defeito físico incompatível é muitas vezes uma das leis da parecença filial. De duas irmãs, uma terá, com a soberba estatura do pai, o espírito mesquinho da mãe; a outra, toda repleta da inteligência paterna, haverá de apresentá-la ao mundo sob o aspecto que possui a mãe; de sua mãe, o nariz grande, o ventre nodoso, e até a voz, são o revestimento de dons que se conheciam sob uma aparência magnífica. De modo que, de cada uma das irmãs, pode-se dizer com tanto mais razão que ela é quem herdou mais dos pais. É verdade que Gilberte era filha única, mas havia no mínimo duas Gilbertes. As duas naturezas, a de seu pai e de sua mãe, não faziam mais que misturar-se nela; disputavam-na, e isto ainda seria falar de modo inexato e levaria a supor que uma terceira Gilberte sofria, naquele tempo, o ser uma presa das outras duas. Ora, Gilberte era alternadamente uma e outra, e em cada instante nada mais que uma, isto é, incapaz, quando não era tão bondosa, de suportar aquilo, não podendo então a melhor Gilberte, devido à sua momentânea ausência, constatar aquela perda. Também a menos boa das duas era livre para desfrutar prazeres pouco nobres. Quando a outra falava carinhosamente do pai, tinha vistas largas, gostaríamos de dirigir com ela um belo e benéfico empreendimento, falávamos nisso, mas, quando íamos chegar a um acordo o coração de sua mãe já retomara seu posto; e era ele quem respondia; ficávamos decepcionados e irritados - quase intrigados como diante da substituição de uma pessoa - por uma reflexão mesquinha, uma troça manhosa, em que Gilberte se comprazia, pois saíam do que ela própria era naquele instante. A separação entre as duas Gilbertes era mesmo tão grande, às vezes, que a gente se perguntava, aliás em vão, o que lhe poderiam ter feito para que ficasse tão diferente. Não só não comparecia ao encontro que nos havia proposto, sem desculpar-se depois, mas, fosse qual fosse a influência que a tivesse feito mudar de ideia, ela se mostrava tão diferente a seguir que acreditaríamos que, vítima de uma semelhança como a que está no centro dos Menecmos, não estávamos diante da pessoa que nos pedira tão gentilmente o encontro, caso não nos testemunhasse um mau humor que revelava sentir-se em falta e desejar evitar explicações. 

- Vamos, vais nos fazer esperar - disse-lhe a mãe. 
- Estou muito bem junto do papaizinho, quero ficar ainda mais um pouco respondeu Gilberte escondendo a cabeça nos braços do pai, que passou carinhosamente os dedos pela cabeleira ruiva.

continua na página 63...
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À Sombra das Moças em Flor (Ao Redor da Sra. Swann - m)
Volume 3
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Volume 5
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