quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

Edgar Allan Poe - Contos: A Quinta de Arnheim (3)

 Edgar Allan Poe - Contos


A Quinta de Arnheim
Título original: The Masque of the Red Death 
Publicado em 1842

continuando...

      Durante algumas horas seguia-se através as sinuosidades daquele canal, cuja obscuridade aumentava de instante para instante, quando de repente a barca, fazendo uma volta rápida, chegava, como se houvesse caído do céu, a uma bacia circular de uma extensão assaz considerável, comparada com a largura da garganta. Esta bacia tinha pouco mais ou menos duzentas jardas de diâmetro e era cercada por todos os lados, exceto por aquele que fazia face ao navio no momento da saída, de colinas geralmente iguais, em altura, às paredes do abismo, mas com um caráter inteiramente diferente. Os seus lados erguiam-se em talude, seguindo um ângulo de quarenta e cinco graus. Desde a base até ao cume revestia-os, sem lacuna perceptível, um tapete formado por magníficas flores; neste mar de cores odorífero e variado apenas se via, aqui e ali, uma folhinha verde. A bacia tinha uma grande profundidade, mas a água era tão transparente que o fundo (que parecia consistir numa massa espessa de pequenos calhaus de alabastro redondos) via-se distintamente quando os olhos podiam deixar de ver nele a repercussão do céu invertido e a florescência das colinas. Sobre estas últimas não havia árvores nem mesmo arbustos.  
     As impressões que um tal quadro produzia sobre o observador eram as da riqueza, do calor, do sossego, da cor, da uniformidade, da delicadeza, da elegância, da voluptuosidade e de uma extravagância de cultura milagrosa que fazia lembrar alguma nova raça de fadas laboriosas dotadas de um espírito perfeito, magníficas e minuciosas. Mas quando os olhos subiam ao longo do talude omnicolor, desde a sua fina linha de junção com a água até à sua extremidade, vagamente sombreada pelas nuvens, era verdadeiramente impossível não imaginar uma catarata panorâmica de rubis, de safiras, de opalas e de crisólitos, precipitando-se silenciosamente do céu.
     O visitante, caindo de repente nesta baía ao sair das trevas do canal, fica ao mesmo tempo encantado e estupefato ao ver, no ocaso, o vasto globo do sol que julgava já escondido sob o horizonte, mas que agora se lhe apresenta na frente, formando a única barreira de uma perspectiva imensa que se abre através de outra fenda prodigiosa, separando as colinas.
     O viajante deixa então o navio que o conduziu até ali e entra numa ligeira canoa de marfim, enfeitada tanto por dentro como por fora com desenhos arabescos de um escarlate ardente. A popa e a proa deste barco são muito elevadas acima da água e terminam por uma ponta aguda; o que lhes dá a forma geral de um crescente irregular. Ele repousa sobre a superfície da baía com a graça de um soberbo cisne. O fundo, coberto de arminhos, sustenta uma prancha articulada de pau de férula; mas não se vê nem criado nem remeiro. A visita é convidada a entrar sem medo; as Parcas velarão sobre ela. O barco grande, então, desaparece e a pessoa fica só, dentro da canoa, que repousa, sem movimento aparente, no meio do lago. Mas como pensa no caminho a seguir, percebe na barca mágica um movimento muito suave; depois vê-a girar lentamente até voltar a proa para o sol e avançar com uma velocidade branda, mas gradualmente acelerada, ao passo que o ligeiro murmúrio que ela produz parece exalar em torno das suas bordas de marfim uma melodia sobrenatural; isto é, parece oferecer a única explicação possível à música carinhosa e melancólica cuja origem invisível o viajante procura debalde em torno de si.
     A canoa marcha resolutamente, aproximando-se da barreira penhascosa da avenida líquida, de sorte que a vista pode melhor medir-lhe as profundezas. À direita eleva-se uma cadeia de altas colinas, cobertas de árvores de uma exuberância selvagem. Contudo, o caráter de limpeza maravilhosa, no lugar onde a riba mergulha na água, predomina sempre. Não se vê um único vestígio do carregamento dos rios ordinários. À esquerda, o caráter da paisagem é mais doce e mais visivelmente artificial. Ali os baixios emergem da corrente em talude e elevam se, suavemente, até a uma grande altura, formando um largo tabuleiro de relva que parece exatamente um tecido de veludo, de um verde tão brilhante como o da mais pura esmeralda. Este planalto varia de dez a trezentas jardas e termina num muro de cinquenta pés de altura, o qual se alonga, descrevendo uma infinidade de curvas, mas seguindo sempre o curso geral do rio, até perder-se no espaço, para os lados do ocidente. O muro, feito de um rochedo contínuo, foi formado cortando perpendicularmente a parede do precipício, que formava a margem meridional do rio; mas não se percebe o mínimo vestígio deste trabalho. A pedra, cortada a cinzel, está abundantemente revestida de hera, de madressilva, de rosas bravas e de clematites. A uniformidade das duas linhas do muro é, desde o cume até à base, modificada, a propósito, por árvores de uma altura gigantesca, elevando-se isoladamente ou em pequenos grupos, colocados ora ao longo do tabuleiro de relva, ora na quinta, por detrás do muro, mas sempre muito próximos deste último, de tal modo que as vastas ramas, saltando-lhe por cima, mergulham na água as suas extremidades.
     Os olhos não podem passar além; a vista da quinta é rigorosamente escondida por um biombo de folhas impenetrável. 
     É enquanto a canoa se aproxima gradualmente do ponto que denominámos a barreira da avenida que se observam detalhadamente todas estas circunstâncias. Contudo, com a aproximação desvanece-se o caráter de abismo. À esquerda aparece uma outra via de esgotamento e o muro segue também nesta direção, costeando sempre o curso do rio. Através desta nova abertura, a vista não pode penetrar muito longe porque o rio, sempre acompanhado pelo muro, curva-se cada vez mais para a esquerda e tanto um como o outro não tardam a desaparecer por entre a folhagem.
     O barco, entretanto, desliza magicamente no canal sinuoso. A margem oposta ao muro é sempre a mesma cadeia de colinas elevadas, tomando algumas vezes proporções de montanhas, cobertas de uma vegetação selvagem que esconde completamente a paisagem. 
     O viajante, navegando devagar, mas com uma velocidade ligeiramente crescente, acha, depois de muitos desvios inesperados, o seu caminho aparentemente fechado por uma barreira colossal ou antes por uma porta de ouro brunido, curiosamente trabalhada, a qual reflete os raios diretos do sol que, agora, desce rapidamente e coroa com os seus últimos fogos toda a floresta circunvizinha. Esta porta está inserida no muro, o qual parece, aqui, cortar o rio em ângulo reto. Mas ao cabo dalguns instantes vê-se que a corrente de água principal foge sempre para a esquerda, seguindo uma curva longa e suave, ainda acompanhada pelo muro, enquanto que um regato de volume considerável, separando-se da primeira, abre caminho por debaixo da porta e desaparece à vista com um ligeiro murmúrio. A canoa entra no pequeno canal e avança para a porta cujos pesados batentes se abrem lenta e musicalmente. Então desliza pelo meio deles e começa a descer rapidamente, num anfiteatro vasto, completamente fechado por montanhas purpureadas cuja base é banhada por um rio brilhante em toda a extensão do seu circuito.
     No mesmo instante, surge à vista todo o paraíso de Arnheim. Ouve-se uma melodia deliciosa; perfumes exóticos e delicados deleitam-nos o olfato; descobre-se, como um vasto sonho, um mundo vegetal onde se confundem as esbeltas árvores do oriente, os arbustos silvestres, os bandos de pássaros dourados e vermelhos, os lagos guarnecidos de açucenas, os prados de violetas, de tulipas, de papoulas, de jacintos e de tuberosas, os longos fios de água entrelaçando seus braços de prata; e surgindo confusamente no meio de tudo aquilo, uma massa de arquitetura meia gótica, meia sarracena, que parece sustentar-se nos ares como que por encanto, fazendo resplandecer sob a vermelha claridade do sol as suas janelas de sacada, os seus mirantes, os seus minaretes e as suas torrinhas, dir-se-ia a obra fantástica dos Silfos, das Fadas, dos Gênios e dos Gnomos!

continua na página 403...
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Edgar Allan Poe - Contos: A Quinta de Arnheim (3)
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Edgar Allan Poe
CONTOS
Originalmente publicados entre 1831 e 1849
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Edgar Allan Poe (nascido Edgar Poe; Boston, Massachusetts, Estados Unidos, 19 de Janeiro de 1809 — Baltimore, Maryland, Estados Unidos, 7 de Outubro de 1849) foi um autor, poeta, editor e crítico literário estadunidense, integrante do movimento romântico estadunidense. Conhecido por suas histórias que envolvem o mistério e o macabro, Poe foi um dos primeiros escritores americanos de contos e é geralmente considerado o inventor do gênero ficção policial, também recebendo crédito por sua contribuição ao emergente gênero de ficção científica. Ele foi o primeiro escritor americano conhecido por tentar ganhar a vida através da escrita por si só, resultando em uma vida e carreira financeiramente difíceis.
Ele nasceu como Edgar Poe, em Boston, Massachusetts; quando jovem, ficou órfão de mãe, que morreu pouco depois de seu pai abandonar a família. Poe foi acolhido por Francis Allan e o seu marido John Allan, de Richmond, Virginia, mas nunca foi formalmente adotado. Ele frequentou a Universidade da Virgínia por um semestre, passando a maior parte do tempo entre bebidas e mulheres. Nesse período, teve uma séria discussão com seu pai adotivo e fugiu de casa para se alistar nas forças armadas, onde serviu durante dois anos antes de ser dispensado. Depois de falhar como cadete em West Point, deixou a sua família adotiva. Sua carreira começou humildemente com a publicação de uma coleção anônima de poemas, Tamerlane and Other Poems (1827).
Poe mudou seu foco para a prosa e passou os próximos anos trabalhando para revistas e jornais, tornando-se conhecido por seu próprio estilo de crítica literária. Seu trabalho o obrigou a se mudar para diversas cidades, incluindo Baltimore, Filadélfia e Nova Iorque. Em Baltimore, casou-se com Virginia Clemm, sua prima de 13 anos de idade. Em 1845, Poe publicou seu poema The Raven, foi um sucesso instantâneo. Sua esposa morreu de tuberculose dois anos após a publicação. Ele começou a planejar a criação de seu próprio jornal, The Penn (posteriormente renomeado para The Stylus), porém, em 7 de outubro de 1849, aos 40 anos, morreu antes que pudesse ser produzido. A causa de sua morte é desconhecida e foi por diversas vezes atribuída ao álcool, congestão cerebral, cólera, drogas, doenças cardiovasculares, raiva, suicídio, tuberculose entre outros agentes.
Poe e suas obras influenciaram a literatura nos Estados Unidos e ao redor do mundo, bem como em campos especializados, tais como a cosmologia e a criptografia. Poe e seu trabalho aparecem ao longo da cultura popular na literatura, música, filmes e televisão. Várias de suas casas são dedicadas como museus atualmente.

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