quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

Marcel Proust - À Sombra das Moças em Flor (Ao Redor da Sra. Swann - s)

em busca do tempo perdido

volume II
À Sombra das Moças em Flor

Primeira Parte
Ao Redor da Sra. Swann


(s)

continuando...

     Swann saiu a transmitir a autorização ao príncipe e, em sua companhia, voltava para junto da mulher, a menos que, no intervalo, entrasse a Sra. Verdurin. Quando se casara com Odette, pedira-lhe que não mais frequentasse o pequeno clã (tinha para tantos motivos e, ainda que os não tivesse, teria procedido da mesma maneira a obediência era uma lei de ingratidão que não suporta exceções e que faz ressentir a negligência ou o desinteresse de todos os intermediários). Somente permitia que Odette trocasse com a Sra. Verdurin duas visitas por ano, o que ainda era excessivo a certos fiéis, indignados com a injúria feita à Patroa, que durante anos havia tratado Odette, e mesmo Swann, como os filhos queridos da casa, se continha falsos confrades que largavam certas noites para atender a um de Odette, sem dizer uma palavra, prontos, caso fossem descobertos, para desculpar com a curiosidade de encontrar Bergotte (embora a Patroa afirmasse não frequentava os Swann, era destituído de talento e, apesar disso, procura acordo com uma expressão que lhe era cara, atraí-lo), o pequeno clã possuía também seus "radicais". E estes, ignorando conveniências particulares que às vezes desviam as pessoas das atitudes extremadas que gostariam de vê-las dirimir para aborrecer a alguém, teriam desejado, sem consegui-lo, que a Sra. Verdurin interrompesse todas as relações com Odette, tirando-lhe, assim, a satisfação de dizer rindo:

- Vamos tão raramente à casa da Patroa desde o Cisma. Era impossível quando meu marido era solteiro, mas, para um casal, nem sempre há para se falar a verdade, o Sr. Swann não suporta a mãe Verdurin e não gostaria que eu a frequentasse habitualmente. E eu, esposa fiel... 

     Swann acompanhava a mulher aos saraus dos Verdurin, mas evitava estar presente quando a Sra. Verdurin vinha visitar Odette. Assim, se a Patroa estivesse no salão, o príncipe entrava sozinho. Aliás, era também sozinho que era apresentado por Odette, preferia que a Sra. Verdurin não ouvisse nomes obscuros e, vendo mais ainda um desconhecido dela, pudesse julgar-se num meio de notabilidade sarcástica, cálculo que dava tão bom resultado que, à noite, a Sra. Verdurin dizia mágoa ao marido:

- Ambiente encantador! Estava presente toda a fina flor.

     Reação que Odette, em comparação com a Sra. Verdurin, vivia numa ilusão. Não que aquele salão tivesse recém começado o que o veremos tornar-se um outro salão. A Sra. Verdurin nem sequer estava no período de incubação, quando são suspensas as grandes festas em que os raros elementos brilhantes, recentemente se afogariam na turba excessiva, e quando é preferível que o poder gerador dos justos que se conseguiu atrair, tenha produzido setenta vezes dez. Como Odette demoraria em fazê-lo, a Sra. Verdurin se propunha à "alta Sociedade" como a voz; porém, suas regiões de ataque eram ainda tão limitadas e aliás, daquelas por onde Odette apresentava alguma chance de alcançar um resultado idêntico, a furar, que esta vivia na mais completa ignorância dos planos elaborados pela Patroa. E era com a melhor boa-fé do mundo que falavam a Odette da Sra. Verdurin como sendo uma esnobe, ela se punha; dizia:

- Pelo contrário. Primeiro, ela não possui todos os elementos para falar quando não conhece ninguém. Depois, é necessário fazer-lhe justiça que é assim mesmo que lhe agrada. Não, ela gosta mesmo é das suas quartas-feiras, dos que têm conversa agradável.

     E, em segredo, invejava a Sra. Verdurin (embora não desesperasse de ter ela própria, em tão grande escola, acabado por assim içá-las) essas artes às quais a patroa dava tanta importância, de modo que apenas matizassem o inexistente, esculpissem o vácuo, e sejam, propriamente falando, as Artes do Nada: a arte (para uma dona-de-casa) de saber "reunir", "agrupar", "pôr em evidência", de se "apagar", de servir de "traço-de-união". Em todo o caso, as amigas da Sra. Swann ficavam impressionadas por verem em sua casa uma mulher que normalmente só era imaginada em seu próprio salão, cercada de um quadro inseparável de convidados, de todo um grupinho que assombrava-se ver assim evocado, resumido, apertado em um único sofá, sob as aparências da Patroa, transformada em visitante no abafamento de seu casacão forrado de plumas, tão penugento como os agasalhos de peles que revestiam o salão, em meio ao qual a própria Sra. Verdurin era um salão. As mulheres mais tímidas queriam retirar se por discrição e, empregando o plural como quando se deseja fazer compreender aos outros que é mais sensato não cansar demais um doente que se levanta pela primeira vez, diziam:

- Odette, já vamos te deixar. - invejavam a Sra. Cottard, que a Patroa chamava pelo prenome. -Será que posso te levar? - perguntava-lhe a Sra. Verdurin, que não podia suportar a ideia de que uma fiel ficaria ali em vez de segui-la. - Mas a senhora é bastante amável para me levar. - respondia a Sra. Cottard, não desejando parecer que esquecia, em favor de uma pessoa mais célebre, ter aceito a oferta da Sra. Bontemps de levá-la no seu carro enfeitado de plumas.
- Confesso que sou especialmente reconhecida às amigas que desejam levar-me com elas em seus carros. É na verdade uma pechincha, já que não tenho cocheiro. -Tanto mais - respondia a Patroa (sem ousar dizer mais, pois conhecia um pouco a Sra. Bontemps e acabava de convidá-la para as reuniões das quartas-feiras) que na casa da Sra. de Crécy você não está perto de sua casa. Oh, meu Deus! Nunca hei de chegar a dizer Sra. Swann.
 
      Era um gracejo no pequeno clã, das pessoas que não eram dotadas de muito espírito, darem a impressão de não poderem se acostumar a dizer Sra. Swann:

- Já me habituei tanto a dizer Sra. de Crécy, que ainda costumo enganar-me. -

     Somente a Sra. Verdurin, quando falava com Odette, não caía em erro e se enganava de propósito.

- Não tem medo, Odette, de morar neste bairro perdido? Creio que só ficaria meio sossegada ao voltar para casa à noite. Além disso, é tão úmido. Não deve ser nada bom para o eczema do seu marido. Ao menos não têm ratos?
- Claro que não! Que horror! 
- Tanto melhor, tinham-me falado nisso. Estou muito contente em saber que não é verdade, pois tenho um medo horrível deles, e não voltaria mais aqui se tivessem. Até logo, minha querida, até breve, sabe como estou feliz por vê-la. Você não sabe arrumar os crisântemos - dizia ela ao sair, enquanto a Sra. Swann se erguia para levá-la à porta - São flores japonesas; convém dispô-las como fazem os japoneses.
- Não na opinião da Sra. Verdurin, ainda que em todas as coisas ela seja para mim a Lei dos Profetas. 
- Não há ninguém como você, Odette, para encontrar crisântemos belos, ou antes tão belas, visto que parece ser assim que se diz hoje - declarara a Sra. Cottard, quando a Patroa fechara a porta. 
- A cara Sra. Verdurin nem sendo benevolente para com as flores alheias - respondia suavemente a Sra. Swann. 
- Quem está cultivando, Odette? - perguntava a Sra. Cottard, para não deixar que se prolongassem as críticas à Patroa...
- Lemaitre? Confesso que na frente da casa Lemaitre havia outro grande arbusto cor-de-rosa que me fez cometer uma loucura. - Mas, por pouco recusou-se a dar informações mais precisas sobre o preço do arbusto e disse que o professor, "que no entanto não era de mau gênio", fizera um escândalo quando lhe dissera que ela não conhecia o valor do dinheiro. - Não, não, tenho melhor que Debac. 
- Eu também. - dizia a Sra. Cottard -, mas confesso que faço infidelidades com Lachaume.-
- Ah, você o engana com Lachaume; vou contar à ele. - replicava a Sra. Swann, que se esforçava por mostrar espírito e condolência na conversação em sua casa, onde se sentia mais à vontade que no pequeno salão. - Afinal, Lachaume faz-se na verdade muito caro; seus preços são excessivos; sabe; chego a considerá-los inconvenientes! -acrescentava rindo.

     Entretanto, a Sra. Bontemps, que dissera cem vezes que não desejava ir à casa dos Verdurin, encantada por ser convidada para as quartas, pusera-se no lar como poderia fazer para lá se encontrar o maior número de vezes porém ignorava que a Sra. Verdurin desejava que não lhe faltassem a uma só; por outro lado, era dessas pessoas pouco solicitadas que, quando são convidadas para "sério'' por uma dona-de-casa, não aparecem, ao contrário dos que sabem causar sempre quando têm um momento livre e vontade de sair; elas não privam de assistir, por exemplo, ao primeiro e ao terceiro saraus, pensando que sua ausência será notada, reservando se para o segundo e o quarto; a menos que suas intuições lhes afirmem que o terceiro será especialmente brilhante, elas não usam outra ordem, alegando que "infelizmente da última vez não se achavam disponíveis". Assim, a Sra. Bontemps computava quantas quartas-feiras ainda podia antes da Páscoa e de que maneira podia fazer para ir a mais uma quarta, se no entanto parecesse estar impondo sua presença. Contava com a Sra. Cottard; quem sairia junto, para obter algumas indicações.

- Oh, Sra. Bontemps! Vejo que está indo. Não fica bem dar o sinal de retirada. Deve-me uma compensação, por ter vindo na quinta passada... Vamos, volte a sentar-se por um momento. Assim, não vai fazer outra visita antes do jantar.
-De fato não se deixa tentar? acrescentava a Sra. Swann, estendendo-lhe um prato com doces: - Sabe que não são nada más, essas coisinhas? - O aspecto não ajuda, mas prove, que vai ver... 
- Pelo contrário, isto parece delicioso - respondia a Sra. Cottard. - Em sua casa, Odette, nunca faltam iguarias. Não preciso lhe perguntar a marca da fábrica, sei que você manda vir tudo do Rebattet. Devo dizer que sou mais eclética. Para os sequilhos, para as guloseimas em geral, muitas vezes vou ao Bourbonneaux. Mas reconheço que eles não sabem o que é um sorvete.
-Para tudo quanto é sorvete, ou refresco, Rebattet é o grande artista. Como diria meu marido, é o nec plus ultra. - Mas isto é simplesmente feito aqui. Não quer mesmo?
- Não poderia jantar - respondia a Sra. Bontemps - mas sento-me de novo por alguns instantes; sabe, adoro conversar com uma mulher inteligente como você. Você vai me julgar indiscreta, Odette, mas gostaria de saber como julga o chapéu da Sra. Trombert. Sei muito bem que é moda usar chapéus grandes. Ainda assim, não está um pouco exagerado? E, em comparação com o chapéu com que ela foi outro dia à minha casa, esse que ela usava há pouco era microscópico.
- Mas não, eu não sou inteligente - dizia Odette, pensando que isso ficava bem. - No fundo, sou uma palerma que acredita em tudo que lhe dizem, que se incomoda por nada.- 

      E insinuava que, no começo, muito sofrera por ter casado com um homem como Swann, que levava uma vida toda sua e a traía. Entretanto, o príncipe de Agrigento, tendo ouvido as palavras "não sou inteligente", achou-se no dever de protestar, mas não sabia aproveitar a ocasião própria.  

- Ora, ora - gritava a Sra. Bontemps. - Então você não é inteligente?! - De fato, eu estava dizendo para mim mesmo: Que ouço! - dizia o príncipe, apanhando a deixa. - Com certeza meus ouvidos me enganaram.

- Mas não, asseguro-lhe - dizia Odette -; no fundo sou uma pequeno-burguesa que se escandaliza facilmente, cheia de preconceitos, vivendo no seu buraco, e sobretudo muito ignorante. - e para pedir notícias do barão Charles: -Tem visto o nosso caro baronete? - dizia ela.
- Você, ignorante? - exclamava a Sra. Bontemps. - Muito bem. Que diria então do mundo oficial, todas essas mulheres de excelências, que só sabem falar de futilidades! Veja, senhora, não faz uma semana falei no Lohengrin para a ministra de Instrução Pública. Ela responde: "Lohengrin? Ah, sim, a última revista do Folies-Bergere, dizem que é hilariante." Muito bem, senhora, que quer? quando a gente ouve coisas desse tipo, chega a ferver o sangue. Tive desejos de esbofeteá-la. Pois sou lá meio geniosa, você sabe. Veja, senhor - disse, voltando-se para mim -, não tenho razão?
- Escute - dizia a Sra. Cottard -, é desculpável responder um pouco atravessado quando se é interrogada assim à queima-roupa, sem aviso. Sei disso, pois a Sra. Verdurin também tem o hábito de nos pôr entre a faca e a parede.
- A propósito da Sra. Verdurin - perguntava a Sra. Bontemps à Sra. Cottard -, sabe o que haverá na quarta-feira na casa dela?... Ah, lembro-me agora que aceitamos um convite para a quarta seguinte. Não quer jantar conosco na quarta, às oito horas? Iríamos juntas para a casa da Sra. Verdurin. Fico intimidada de entrar sozinha, não sei porque, mulherão sempre me dá medo. - Vou lhe dizer - respondia a Sra. Cottard. O que assusta na Sra. Verdurin é o seu tom de voz. Que quer? Nem todos têm uma voz tão bonita como a da Sra. Swann. Mas é só começar a conversar, como diz e logo o gelo se quebra. Pois no fundo ela é bastante acolhedora. Mas eu compreendo muito bem a sua sensação; nunca é agradável encontrar-se pela primeira vez em região perdida.
-Você também poderia jantar conosco - dizia a Sra. Bontemps à Swann. - Depois do jantar, iremos todos para a casa dos Verdurin, fazer visita mesmo que isso tenha como resultado fazer a Patroa me olhar com maus olhos e não me convidar mais, uma vez em sua casa ficaremos as três a conversar nós, pois sinto que isto é o que mais me agradaria. - Mas esta afirmação não pode ser muito verídica, pois a Sra. Bontemps perguntava:
- Quem acha que estará quarta-feira, às oito? Que vai acontecer? Pelo menos, não haverá muita gente não é? 
- Certamente não irei - dizia Odette. - Só vamos aparecer rapidamente na última quarta-feira. Se não se importa de esperar até lá... -

     Mas a Sra. Bontemps parecia seduzida por essa proposta de adiamento. Conquanto os méritos espirituais de um salão, e sua elegância, é geralmente antes em relações inversas do que diretas, é preciso crer, visto que a Sra. Swann achava agradável a Sra. Bontemps, que toda degradação aceita tem consequência tornar as pessoas menos difíceis quanto àquelas com quem pensam conviver, menos difíceis quanto ao seu espírito como em relação a mais de uma. E, se isto é verdade, os homens devem, como os povos, ver sua cultura, a sua língua, desaparecer com a sua independência. Um dos efeitos dessa inteligência é o de agravar a tendência que, a partir de uma certa idade, as pessoas de acharem agradáveis as palavras que homenageiam nosso próprio pensar, nossas inclinações, e representem um estímulo para nos entregar à elas; é a idade em que um grande artista prefere, à companhia dos gênios ou a dos alunos que só têm em comum consigo a letra de sua doutrina e pela qualidade é ouvido e incensado, em que um homem ou uma mulher notáveis, que vivem um amor, consideram como mais inteligente, em uma reunião, uma pessoa, de nível inferior, mas que, numa frase, terá revelado que sabe compreender e levar o que é uma existência voltada à galanteria, e, assim, terá lisonjeado agilmente a tendência voluptuosa do amante ou da amante; era também a idade que Swann, na qualidade de marido de Odette, se comprazia em ouvir a Sra.Bontemps dizer que era ridículo só receber duquesas (daí concluindo, do que teria feito outrora na casa dos Verdurin, que se tratava de uma boa bastante espirituosa e nada esnobe) e a contar-lhe histórias que a faziam "Ser de riso", pois não as conhecia e de que ela, aliás, "pegava" logo o espírito, para agradar e divertir-se.

- Então o doutor não é doido por flores como você? - perguntava a Sra. Swann à Sra. Cottard. 
- Ora, você sabe que meu marido é sábio; é moderado em todas as coisas. No entanto, sim, tem uma paixão.

      Com os olhos brilhantes de malícia, de alegria e de curiosidade, a Sra. Bontemps indagava:

- Qual, madame?

     Com simplicidade, a Sra. Cottard respondia:

-  A leitura.
- Oh, é uma paixão repousante para um marido! -exclamava a Sra. Bontemps, sufocando um riso satânico. - Quando o doutor está lendo um livro, já sabe! - Muito bem, madame, isso não deve espantá-la demais... - Claro que sim! Por causa da vista. Vou estar com ele outra vez, Odette, e voltarei a bater à sua porta na próxima semana. Por falar em vista, já lhe disseram que a residência que a Sra. Verdurin acaba de comprar será iluminada com eletricidade? Não o soube pela minha pequena polícia particular, e sim de outra fonte: foi o próprio eletricista, Mildé, quem me disse. Estão vendo que cito meus informantes. Até os quartos terão lâmpadas elétricas com um abajur para matizar a luz. Evidentemente, é um luxo encantador. Aliás, as mulheres de hoje querem absolutamente o que há de mais novo, como se já não houvesse bastante novidade neste mundo. A cunhada de uma de minhas amigas tem telefone instalado em casa! Pode fazer uma encomenda a um fornecedor sem sair do seu apartamento! Confesso que fiz as mais baixas maquinações para conseguir falar um dia nesse aparelho. Aquilo me seduz muito, mas antes na casa de uma amiga do que na minha. Creio que não gostaria de ter telefone em casa. Passado o primeiro momento de diversão, deve ser uma verdadeira chatice. Muito bem, Odette, já estou indo; não retenha mais a Sra. Bontemps, porque ela vai comigo. Tenho mesmo que ir; você me faz passar cada uma! Vou chegar em casa depois do meu marido!

      E eu também precisava voltar para casa, antes de haver desfrutado aqueles prazeres de inverno, dos quais os crisântemos me pareceram ser o brilhante invólucro. Tais prazeres não tinham vindo e, no entanto, a Sra. Swann não parecia esperar ainda alguma coisa. Deixava os criados levarem o chá como se tivesse anunciado:

 "Vai fechar!" E acabava de me dizer: "Então, vai embora mesmo? Muito bem, good-bye!"

     Sentia eu que poderia ter permanecido sem encontrar esses prazeres ignorados e que não era só minha tristeza que me privava deles. Não estariam, portanto, situados naquele caminho batido das horas que levam sempre tão depressa ao instante da partida, e sim em algum caminho transversal que desconhecia, e por onde seria necessário bifurcar? Pelo menos, atingira o objetivo de minha visita: Gilberte saberia que estivera na casa de seus pais em sua ausência e, como não deixava de repetir a Sra. Cottard, "conquistara logo de assalto a Sra. Verdurin", a quem, acrescentava a esposa do doutor, ela nunca vira "fazer tantas amabilidades", - Parece dissera ela que vocês dois têm átomos enganchados. - Assim Gilberte saberia que falara dela como devia fazê-lo, com ternura, mas que já não sentia aquela incapacidade de viver sem que nos víssemos, que eu julgara ser a fonte de aborrecimento que ela sentira por mim nos últimos tempos. Dissera à Sra. Swann que não mais podia me encontrar com Gilberte. Dissera-o como se tivesse decidido para todo o sempre não mais vê-la. E a carta que iria enviar a Gilberte seria concebida dentro do mesmo espírito. Apenas, para criar coragem, propunha a mim mesmo só um supremo e breve esforço de alguns dias. Dizia comigo: "É o último encontro dela que vou recusar; aceitarei o próximo." Para que a separação fosse menos difícil de se realizar, imaginava-a como não definitiva. Mas bem sabia que iria sê-lo.
     O dia 1° de janeiro me foi especialmente doloroso naquele ano. Sem dúvida, quando somos infelizes, todos os dias de festa de aniversário o são. Mas, se o dia nos recorda apenas, por exemplo, a perda de um ente querido, o sofrimento só consiste numa comparação mais viva com o passado. No meu caso, acrescentava-se a esperança não formulada de que Gilberte, tendo querido me deixar a iniciativa dos primeiros passos e, vendo que eu não os dera, houvesse esperado o pretexto do dia de Ano-Novo para me escrever: "Enfim, o que há? Sou louca por ti; vem para que nos expliquemos com toda a franqueza; não posso viver sem ver-te." Desde os últimos dias do ano, essa carta me pareceu provável. Talvez não o fosse, mas, para acreditar nessas coisas, basta o desejo e a necessidade que temos de que sejam possíveis. O soldado está persuadido de que existe à sua frente um espaço de tempo infinitamente inadiável antes de ser morto; o ladrão, antes de ser preso; os homens em geral, antes que a morte os leve. É este o amuleto que preserva os indivíduos e às vezes os povos não do perigo, e sim do medo do perigo, na verdade da crença no perigo, o que em certos casos permite que o desafiem, sem que sejam obrigatoriamente corajosos. Uma confiança desse gênero, tão pouco fundada, é a que sustenta o apaixonado que conta com uma reconciliação, com uma carta. Para que eu deixasse de esperar a de Gilberte, bastaria que deixasse de deseja-la. Embora saiba que somos indiferentes em relação à mulher que ainda amamos, atribuímos-lhe uma série de pensamentos - mesmo que sejam de indiferença -, uma intenção de manifestá-los, uma complicação de vida interior onde somos talvez o objeto de uma antipatia, mas também de uma atenção, permanentes. Ao contrário, para imaginar o que se passava no espírito de Gilberte, seria preciso que eu simplesmente antecipasse, naquele dia de Ano-Novo, o que iria sentir num dos anos vindouros, e no qual a atenção ou o silêncio, ou o carinho, ou a frieza de Gilberte, tivessem passado quase despercebidos a meus olhos; onde não tivesse sonhado, e nem sequer pudesse sonhar, em buscar a solução dos problemas que teriam deixado de se colocar para mim. Quando a gente ama, o amor é grande demais para caber inteirinho em nós; irradia-se para a pessoa amada, encontra nela uma superfície que o faz parar, força-o a voltar ao ponto de partida e é esse choque de volta do nosso próprio carinho a que chamamos os sentimentos do outro e que nos encanta mais do que na ida, pois já não reconhecemos que procede de nós. O dia 1º de janeiro fez soar todas as suas horas sem que chegasse carta de Gilberte. E, como recebi outras congratulações tardias, ou atrasadas; pelo acúmulo de serviço no correio nessas datas, ainda esperava nos dias 3 e 4 de janeiro, entretanto cada vez menos. Chorei muito nos dias seguintes. Claro, isto porque, ao renunciar a Gilberte, fora menos sincero do que julgava, conservara a esperança de receber uma carta dela no Ano-Novo. E, vendo-o terminado antes que tivesse tomado a precaução de me servir de outra ilusão, sofria como um enfermo que esvaziou sua ampola de morfina sem ter uma outra à mão. Porém, talvez em mim essas duas explicações não se excluem, pois um só sentimento é feito às vezes de coisas contrárias; a esperança de enfim receber uma carta aproximara de mim a imagem de Gilberte; recriara as emoções que me haviam causado antigamente a espera de me encontrar junto dela, de sua vista, sua maneira de estar comigo. A possibilidade imediata de uma reconciliação suprimira essa coisa de cuja enormidade não nos damos conta: a resignação. Os neurastênicos não podem crer nas pessoas que lhes asseguram que aos poucos se acalmarão; permanecendo na cama sem receber cartas, sem ler jornais. Imaginam que tal regime só contribuirá para exasperar seu nervosismo. Da mesma forma os enamorados, como o consideram do fundo de um estado oposto, não tendo ainda começado a experimenta-lo, não podem acreditar na força benfazeja da renúncia.
      Por causa da violência das batidas do meu coração, diminuíram minha dose de cafeína, e elas cessaram. Então, perguntei-me se não era um pouco devido a ela que me sentira angustiado quando quase briguei com Gilberte, e que atribuíra, cada vez que se renovava a angústia, ao sofrimento de não mais ver a minha amiga ou de arriscar-me a vê-la apenas dominada pelo mesmo mau humor. Mas, se esse medicamento estivera na origem dos sofrimentos que minha imaginação, à época, interpretara falsamente (o que não seria nada extraordinário, pois as penas morais mais cruéis têm muitas vezes como causa, no caso dos amantes, o hábito físico da mulher com quem vivem), era à maneira do filtro que, muito tempo depois de ter sido absorvido, continua a unir Tristão a Isolda. Pois a melhora física que a diminuição da cafeína me trouxe quase imediatamente não estancou a evolução da mágoa que a absorção do tóxico tinha tornado mais aguda, se é que não havia criado.
  
continua na página 83...
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Volume 2
À Sombra das Moças em Flor (Ao Redor da Sra. Swann - q)
Volume 3
Volume 4
Volume 5
Volume 6
Volume 7

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