volume II
À Sombra das Moças em Flor
Primeira Parte
Primeira Parte
Ao Redor da Sra. Swann
(q)
continuando...
Uma vez quase me decidi, mas ela estava "em apertos"; de outra vez, entre as mãos do "cabeleireiro", um velho senhor que só tratava as mulheres fazendo derramar óleo em seus cabelos soltos para penteá-los depois. E cansei-me de esperar, embora algumas frequentadoras muito humildes, dizendo-se operárias mas sempre sem trabalho, viessem me fazer sala, mantendo comigo uma longa conversa à qual -apesar da seriedade dos assuntos abordados -a nudez parcial ou total de minhas interlocutoras dava uma saborosa simplicidade. Aliás, deixei de ir a esse bordel porque, desejoso de testemunhar meus bons sentimentos à dona da casa, a qual necessitava de móveis, dei-lhe alguns, notadamente um grande canapé que herdara de minha tia Léonie. Não os via nunca, pois a falta de espaço impedira meus pais de acomodá-los em casa e eles achavam-se amontoados num depósito. Mas, desde que os encontrei na casa onde aquelas mulheres deles se serviam, todas as virtudes que se respiravam no quarto de minha tia em Combray, pareceram-me como que supliciadas pelo contato cruel a que os entregara sem defesa! Tivesse eu violado uma morta, não teria sofrido mais. Não voltei à casa da alcoviteira, pois eles pareciam-me viver e suplicar, como os objetos aparentemente inanimados de um conto persa, nos quais estão fechadas as almas que sofrem um martírio e imploram sua libertação. Além disso, como nossa memória em geral não nos apresenta as lembranças em ordem cronológica, e sim como um reflexo em que a ordem das partes está subvertida, só muito mais tarde é que me lembrei de que fora naquele mesmo canapé que, muitos anos antes, conhecera pela primeira vez os prazeres do amor com uma de minhas priminhas, com quem não sabia onde me meter e que me dera o conselho, bastante perigoso, de aproveitar uma hora em que a tia Leónie já se levantara. Apesar da opinião contrária de meus pais, vendi uma outra parte inteira dos móveis, e principalmente uma antiga e magnífica baixela de prata da tia Leónie, a fim de poder dispor de mais dinheiro e enviar mais flores à Sra. Swann, que me dizia, ao receber imensos buquês de orquídeas:
Uma vez quase me decidi, mas ela estava "em apertos"; de outra vez, entre as mãos do "cabeleireiro", um velho senhor que só tratava as mulheres fazendo derramar óleo em seus cabelos soltos para penteá-los depois. E cansei-me de esperar, embora algumas frequentadoras muito humildes, dizendo-se operárias mas sempre sem trabalho, viessem me fazer sala, mantendo comigo uma longa conversa à qual -apesar da seriedade dos assuntos abordados -a nudez parcial ou total de minhas interlocutoras dava uma saborosa simplicidade. Aliás, deixei de ir a esse bordel porque, desejoso de testemunhar meus bons sentimentos à dona da casa, a qual necessitava de móveis, dei-lhe alguns, notadamente um grande canapé que herdara de minha tia Léonie. Não os via nunca, pois a falta de espaço impedira meus pais de acomodá-los em casa e eles achavam-se amontoados num depósito. Mas, desde que os encontrei na casa onde aquelas mulheres deles se serviam, todas as virtudes que se respiravam no quarto de minha tia em Combray, pareceram-me como que supliciadas pelo contato cruel a que os entregara sem defesa! Tivesse eu violado uma morta, não teria sofrido mais. Não voltei à casa da alcoviteira, pois eles pareciam-me viver e suplicar, como os objetos aparentemente inanimados de um conto persa, nos quais estão fechadas as almas que sofrem um martírio e imploram sua libertação. Além disso, como nossa memória em geral não nos apresenta as lembranças em ordem cronológica, e sim como um reflexo em que a ordem das partes está subvertida, só muito mais tarde é que me lembrei de que fora naquele mesmo canapé que, muitos anos antes, conhecera pela primeira vez os prazeres do amor com uma de minhas priminhas, com quem não sabia onde me meter e que me dera o conselho, bastante perigoso, de aproveitar uma hora em que a tia Leónie já se levantara. Apesar da opinião contrária de meus pais, vendi uma outra parte inteira dos móveis, e principalmente uma antiga e magnífica baixela de prata da tia Leónie, a fim de poder dispor de mais dinheiro e enviar mais flores à Sra. Swann, que me dizia, ao receber imensos buquês de orquídeas:
"Se eu fosse o senhor seu pai, abriria um inquérito judicial".
Como podia adivinhar que um dia ainda haveria de lamentar muito particularmente aquela
prataria e colocar certos prazeres bem acima deste, que se tornaria praticamente nulo, de fazer
gentilezas aos pais de Gilberte? E fora mesmo por causa de Gilberte, e, para não deixá-la, que
decidira não seguir carreira diplomática. É sempre devido a um estado de espírito, que não está
destinado a durar muito, que tomamos resoluções definitivas. Mal imaginava que aquela
substância estranha que se encontrava em Gilberte e se irradiava em seus pais, na casa,
fazendo-me indiferente a todo o resto, que tal substância pudesse ser liberada, emigrar para outra
criatura. Era, na verdade, a mesma substância, mas devendo ter sobre mim efeitos bem diversos.
Pois a mesma doença evolui; e, do mesmo modo, um veneno delicioso já não é tolerado, quando,
com o passar dos anos, a resistência do coração diminuiu. Entretanto, meus pais teriam desejado
que a inteligência que Bergotte reconhecera em mim se manifestasse por um trabalho notável.
Quando não conhecia os Swann, acreditava que era impedido de trabalhar devido ao estado de
agitação que provocava a impossibilidade de ver livremente Gilberte. Porém, quando sua casa me
foi aberta, mal me sentava à escrivaninha e já me erguia e corria para a casa deles. E tão logo os
deixava e voltava para casa, meu isolamento era só aparente, o pensamento já não podia
remontar a corrente do fluxo das palavras pela qual me deixara levar maquinalmente durante
horas. Sozinho, continuava a produzir as frases que poderiam ter agradado aos Swann e, para
dar mais interesse ao jogo, ocupava o lugar dos comparsas ausentes, fazia a mim mesmo
perguntas fictícias escolhidas de tal modo que meus brilhantes aspectos só lhes servissem de
réplicas felizes. Silencioso, esse exercício era, no entanto, uma conversa e não uma meditação, e
minha solidão uma vida mundana mental onde não era minha própria pessoa e sim alguns
interlocutores imaginários que governavam minhas palavras e onde eu experimentava formar, em
vez de pensamentos que julgava genuínos, os que me vinham sem esforço, sem regressão de
fora para dentro, esse tipo de prazer todo passivo que alguém, empanzinado por má digestão,
encontra em permanecer sossegado. Se estivesse menos decidido a me pôr definitivamente a
trabalhar, talvez tivesse feito um esforço para começar logo. Porém, visto que minha resolução
era formal e que antes de 24 horas, nos limites vazios do dia seguinte, onde tudo se colocava tão
bem porque ainda não me encontrava lá, minhas boas disposições se realizariam facilmente, valia
mais não escolher uma noite em que estivesse indisposto para um começo a que os dias
seguintes infelizmente não deviam se mostrar mais propícios. Mas eu era razoável. Da parte de
quem esperara anos e anos, seria pueril não suportar um atraso de três dias. Certo de que dois
dias depois já teria escrito algumas páginas, não dizia mais uma só palavra a meus pais acerca
de minha decisão; preferia pacientar algumas horas e levar à minha avó, consolada e convencida,
a obra em andamento. Infelizmente, o dia seguinte não foi aquela jornada exterior e ampla que
havia febrilmente aguardado. Quando acabou, minha preguiça e a luta penosa contra certos
obstáculos internos tinham simplesmente durado vinte e quatro horas a mais. E, ao cabo de
alguns dias, não tendo realizado meus planos, já não tinha a mesma esperança de que o fossem
de imediato; portanto, até me faltava coragem para subordinar tudo o mais a essa realização.
Recomeçava a passar a noite em claro, já não tendo, para me obrigar a deitar cedo uma noite, a
ilusão certa de ver a obra ser iniciada na manhã seguinte. Antes de retomar o meu impulso,
necessitava de alguns dias de trégua, e a única vez em que minha avó ousou, num tom suave e
desencantado, formular esta censura:
"Muito bem, já não se fala mais nesse trabalho?"
Aborreci-me com ela, persuadido de que, não tendo sabido ver que minha decisão estava
irrevogavelmente tomada, ela talvez adiasse ainda, e por muito tempo, a execução do trabalho,
por causa do nervosismo que sua negação de justiça me causava e sob cujo domínio eu não
desejava começar minha obra. Ela sentiu que seu ceticismo acabava de ferir às cegas uma
vontade. Desculpou-se, dizendo ao me beijar:
- Perdão, não vou dizer mais nada.
E, para que não desanimasse, assegurou-me que, no dia em que me sentisse bem de
saúde, o trabalho viria sozinho por acréscimo. Além disso, dizia comigo, passando a minha vida
na casa dos Swann eu não fazia o mesmo que Bergotte? A meus pais, quase parecia que, sempre
sendo preguiçoso, eu levava a vida mais favorável ao meu talento, visto que me encontrava no
mesmo salão de um grande escritor. Mas que alguém se dispense de formar esse talento
internamente, por si próprio, e o receba de outra pessoa, é tão impossível quanto constituir uma
boa saúde (apesar de não cumprir as regras da higiene e cometer os piores excessos) apenas
jantando várias vezes seguidas na cidade na companhia de um médico. Aliás, a pessoa mais
inteiramente enganada com a ilusão que dominava meus pais e a mim era a Sra. Swann. Quando
lhe dizia que não podia ir, que era preciso que ficasse trabalhando, ela dava a impressão de achar
que me fazia de rogado e que havia algo de bobo e pretensioso em minhas palavras:
- Mas Bergotte vem, certo? Será que você pensa que não está bem o que ele escreve?
Está até melhor. - acrescentou -, pois está mais agudo, mais concentrado no jornal do que no
livro, onde se dissolve um pouco. Consegui que fizesse de agora em diante o leader article no
fígaro. Será bem o homem certo no lugar certo. - E acrescentava: -Venha, você dirá melhor que
ninguém o que é necessário fazer.
E era como quem convidasse um voluntário juntamente com seu coronel, era no interesse
da minha carreira e, como se as obras-primas se compusessem "por relações", é que ela me dizia
que não faltasse no dia seguinte ao jantar em sua casa em companhia de Bergotte. Assim, tanto
da parte dos Swann como da parte de meus pais, isto é, da parte dos que, em momentos
diversos, pareceram erguer obstáculos, não se fazia mais nenhuma oposição a essa doce vida
em que podia ver Gilberte como quisesse, com enlevo, senão com calma. Porém calma é o que
não pode haver no amor, visto que o que se obtém nunca passa de um novo ponto de partida
para desejar mais. Enquanto não pudera ir à casa dela, os olhos fixos naquela ventura
inacessível, não podia sequer imaginar novas causas de perturbação que ali me esperavam. Uma
vez quebrada a resistência de seus pais, estando enfim resolvido o problema, este recomeçou a
colocar-se, cada vez em termos diferentes. Neste sentido, a cada dia era de fato uma nova
amizade que principiava. Todas as noites, voltando para casa, eu percebia que precisava dizer a
Gilberte coisas capitais, das quais dependia nossa amizade, e essas coisas nunca eram as
mesmas. Mas enfim sentia-me feliz, e já nenhuma ameaça se erguia contra minha felicidade. Viria
uma, ai de mim, de um lado de onde jamais percebera qualquer perigo, do lado de Gilberte e de
mim mesmo. No entanto, deveria estar atormentado pelo que, ao contrário, me dava segurança,
pelo que julgava ser minha felicidade. Existe no amor um estado anormal, capaz de dar logo, ao
acidente mais simples em aparência, e que pode sempre ocorrer, uma gravidade que, por si
mesmo, tal acidente não comportaria. O que nos faz tão feliz é a presença, no coração, de alguma
coisa instável que a gente procura constantemente manter em equilíbrio e que quase não
percebemos enquanto não é deslocada. Na verdade, existe um sofrimento permanente no amor,
que a alegria neutraliza, torna virtual, adia, mas que pode, a qualquer momento, transformar-se no
que seria há muito tempo se a gente não tivesse obtido o que desejava: atroz.
Várias vezes senti que Gilberte desejava espaçar minhas visitas. É verdade que, quando
queria muito vê-la, bastava-me fazer ser convidado por seus pais, que estavam cada vez mais
convencidos de minha boa influência sobre ela. Graças a eles, pensava, meu amor não corre
nenhum risco; no momento em que estão a meu favor, posso ficar tranquilo já que eles têm toda a
autoridade sobre Gilberte. Infelizmente, por certos sinais de impaciência que esta deixava escapar
quando seu pai me mandava buscar de algum modo contra vontade dela, eu me indagava se o
que havia considerado uma proteção para a minha felicidade não seria antes o motivo secreto
pelo qual não poderia durar. Da última vez que fui visitar Gilberte, estava chovendo. Ela fora
convidada para uma aula de dança em casa de pessoas que mal conhecia e não podia me levar
junto. Por causa da umidade, eu tomara mais cafeína que de costume. Talvez devido ao mau
tempo, talvez por ter uma certa prevenção contra a casa onde aquela reunião matinal se
realizaria, a Sra. Swann, no instante em que a filha ia sair, chamou-a com extrema vivacidade:
- Gilberte! - e me apontou para indicar que eu viera para vê-la e que ela devia ficar comigo.
O nome de "Gilberte" fora pronunciado, ou melhor, gritado, nas melhores intenções a meu
respeito; mas, diante do erguer de ombros de Gilberte ao deixar suas coisas, compreendi que sua
mãe, involuntariamente, havia acelerado a evolução, talvez até então possível de ser
interrompida, que aos poucos separava de mim a minha amiga.
-A gente não é obrigada a ir dançar todos os dias - disse Odette à filha, com uma
sabedoria sem dúvida adquirida outrora com Swann. Depois, tornando a ser Odette, pôs-se a falar
em inglês com a filha. E logo foi como se um muro me houvesse escondido uma parte da vida de
Gilberte, como se um gênio malfazejo tivesse levado minha amiga para bem longe de mim. Em
uma língua que conhecemos, substituímos a opacidade dos sons pela transparência das ideias.
Mas um idioma desconhecido é um palácio trancado no qual aquela a quem amamos pode nos
enganar, sem que, ficando de fora e desesperadamente crispados na nossa impotência,
cheguemos a ver coisa alguma, sem poder impedir nada. Assim, aquela conversa em inglês, da
qual teria apenas sorrido um mês antes, e em meio à qual alguns nomes próprios franceses não
deixavam de fazer crescer e orientar minhas inquietações, tinha, sustentada a dois passos de mim
por duas pessoas imóveis, a mesma crueldade de um rapto, fazendo-me sentir abandonado e só.
Por fim, a Sra. Swann nos deixou. Nesse dia, talvez por ódio contra mim, causa involuntária de
não ter ido se divertir, talvez também porque, adivinhando que estava zangada, mostrei-me
preventivamente mais frio que de hábito, o rosto de Gilberte, despido de qualquer alegria, nu,
devastado, parecia, a tarde inteira, consagrar um lamento melancólico ao pas de quatre que
minha presença a impedia de ir dançar e desafiar todas as criaturas, a começar por mim, a
compreenderem as razões sutis que nela determinaram uma inclinação sentimental pelo bóston.
[valsa de origem americana] Limitou-se, em alguns instantes, a trocar comigo, acerca do tempo
que fazia, o recrudescimento da chuva, o adiantamento do pêndulo, uma conversa pontuada de
silêncios e monossílabos na qual eu próprio teimava, com uma espécie de raiva desesperada, em
destruir os instantes que poderíamos ter dedicado à ventura e à amizade. E, a todas as nossas
frases, uma espécie de suprema dureza era conferida pelo paroxismo de sua insignificância
paradoxal, que entretanto me consolava, pois impedia Gilberte de se iludir com a banalidade de
minhas reflexões e com a indiferença de meu tom. Era em vão que eu dizia:
- Parece-me que no outro dia o pêndulo atrasava mais depressa -, pois ela traduzia
evidentemente:
"Como você é má!"
Por mais que me obstinasse em prolongar, ao longo de todo aquele dia chuvoso, essas
palavras sem aberturas, sabia que minha frieza não era algo tão definitivamente condensado
como o fingia, e que Gilberte devia muito bem sentir que se, depois de já lhe ter dito três vezes,
ousasse uma quarta vez repetir que os dias diminuíam, mal teria forças para evitar de me
desmanchar em lágrimas. Quando ela estava assim, quando um sorriso não iluminava seus olhos
e não lhe desanuviava o rosto, não se pode pintar que monotonia desoladora se imprimia em seus
olhos tristes e nos traços pisados. A fisionomia, tornando-se quase feia, parecia então essas
praias tediosas em que o mar, para bem longe afastado, nos cansa com um reflexo sempre igual
que circunda um horizonte imutável e estreito. Por fim, não vendo ocorrer, da parte de Gilberte, a
mudança feliz que esperava há muitas horas, disse-lhe que ela não era gentil:
- Você é que não é gentil - retrucou ela -, claro que não! - perguntei-me o que havia feito e,
não descobrindo, indaguei dela mesma. - Naturalmente você se considera gentil! respondeu, rindo
longamente. Então percebi o que havia de doloroso para mim em não poder atingir aquele outro
plano, mais inacessível, de seu pensamento, que seu riso descrevia. Riso que parecia significar:
"Não, não, não me deixo prender a nada do que você me diz; sei que está louco por mim, mas isto
não me dá calor nem frio, pois você pouco me importa."
Mas eu dizia comigo que, afinal de contas, rir não é uma linguagem muito precisa para que
pudesse me assegurar compreender bem aquilo. E as palavras de Gilberte eram afetuosas.
- Mas em que não sou gentil? - perguntei – Diga-me, farei tudo o que você quiser.
- Não, isto não adiantaria nada, não posso explicar. -
Por um momento tive medo que ela achasse que não a amava, e aquilo foi para mim um
outro sofrimento, não menos vivo, mas que exigia uma dialética diferente. - Se soubesse o
desgosto que me dá, me diria. - Mas esse desgosto, que, se tivesse duvidado de meu amor, a
alegraria, ao contrário irritou-a. Então, compreendendo meu erro, decidido a não mais levar em
conta suas palavras, deixando-a dizer-me sem crer nela:
- Eu o amava de verdade, você verá isso um dia- (esse dia em que os culpados afirmam
que sua inocência será reconhecida e que, por motivos misteriosos, nunca é aquele em que são
interrogados), tive a coragem de subitamente tomar a resolução de não mais vê-la, e sem
anunciá-lo ainda, pois ela não me acreditaria.
Um desgosto causado por uma pessoa a quem amamos pode ser amargo, mesmo quando
está metido no meio de preocupações, ocupações e alegrias que não têm essa pessoa por objeto,
e das quais nossa atenção não se desvia a não ser de vez em quando para voltar a ele. Mas,
quando semelhante desgosto nasce, como era o caso deste, num momento em que a felicidade
de ver essa pessoa nos ocupa por inteiro, a brusca depressão que então se produz em nossa
alma, até ali ensolarada, firme e tranquila, determina em nós uma tempestade furiosa contra a
qual não sabemos se seremos capazes de lutar até o fim. A tempestade que se desencadeava em
meu coração era tão violenta que voltei para casa transtornado, mortificado, sentindo que só
poderia recobrar fôlego arrepiando caminho, voltando sob qualquer pretexto para junto de
Gilberte. Mas ela diria consigo:
"Ele ainda! Decididamente, posso me permitir qualquer coisa, ele há de voltar todas as
vezes, tanto mais dócil quanto mais infeliz sair daqui."
Depois, era irresistivelmente arrastado para ela pelo pensamento, e essas orientações
alternativas, o desvario da bússola interior, persistiram quando entrei em casa, traduzindo-se nos
borrões das cartas contraditórias que escrevi a Gilberte. Ia passar por uma dessas conjunturas
difíceis, diante das quais a gente se encontra, geralmente, diversas vezes na vida e que, embora
não tenhamos mudado de caráter ou de natureza nossa natureza que cria, ela mesma, nossos
amores e quase as mulheres que amamos, e até os seus erros-, não enfrentamos da mesma
maneira a cada vez, ou seja, em todas as idades. Nesses momentos, nossa vida está dividida e
como que distribuída numa balança em dois pratos opostos, onde é mantida por inteiro. Em um,
existe o nosso desejo de não desagradar, de não parecer humilde demais aos olhos da criatura a
quem amamos sem conseguir compreendê-la, mas que achamos mais próprio deixar um pouco
de lado para que não cultive o sentimento de se julgar indispensável; no outro, há um sofrimento
não um sofrimento parcial e localizado - que, ao contrário, não poderia ser apaziguado senão se,
renunciando a agradar a essa mulher e fazê-la crer que podemos passar sem ela, fôssemos ao
seu encontro. Se retirarmos do prato onde está o orgulho uma pequena porção de vontade que
tivemos a fraqueza de deixar com a idade, e se acrescentarmos ao prato onde está o desgosto
um sofrimento físico adquirido e que permitimos que se agravasse, logo, em vez da solução
corajosa que teríamos vencido aos vinte anos, é a outra, muito pesada e sem base de contrapeso,
que nos dobra aos cinquenta. Tanto mais que, mesmo repetindo as situações mudam e há
possibilidades de que, no meio ou no fim da vida, tenha - para conosco a funesta complacência de
complicar o amor com uma partida - hábito que a adolescência desconhece, retida demais por
outros deveres e livre por si mesma.
Acabava de escrever a Gilberte uma carta em que bradava meu furor, sem contudo lançar
a lama de algumas palavras postas como que ao acaso e ordem a minha amiga poderia se firmar
para obter uma reconciliação; um instante após, tendo mudado o vento, eram frases ternas que
lhe dirigia, pela doçura de célebre expressões desoladas, dos "nunca mais" tão emocionantes
para os que os empolgam, tão tediosos para aquela que os lerá, seja por julgá-los mentirosos e
traduzir "nunca mais" por "esta noite mesmo, se você me permitir", seja por acreditá-los sinceros e
que, então, lhe anunciam uma dessas separações definitivas exatamente iguais em nossa vida
quando se trata de pessoas por quem não estamos apaixonados. Mas, visto que somos
incapazes, enquanto amamos, de agir como dignos predecessores da próxima criatura que
seremos e que não amará mais, como poderíamos inteiramente imaginar o estado de espírito de
uma mulher a quem, mesmo sabendo que lhe somos indiferentes, temos emprestado
perpetuamente em nós - as fantasias, para nos embalar com belo sonho, ou consolar de um
grande desgosto, as mesmas frases que diria se nos amasse? Diante dos pensamentos e daria
ações de uma mulher a quem amamos, ficamos tão desorientados como o poderá, estar, diante
dos fenômenos da natureza, os primeiros físicos (antes que a ciência se constituísse e levasse
um pouco de luz ao desconhecido). Ou, pior ainda, como uma criatura para cujo espírito o
princípio de causalidade mal existia, uma criatura que não seria capaz de estabelecer um elo
entre um fenômeno e outro e diante quem o espetáculo do mundo seria incerto como um sonho.
Certamente, eu esforçava para sair dessa incoerência, por encontrar as causas. Procurava até
"objetivo" e, para tanto, levar na devida conta a desproporção existente entre importância que
tinha Gilberte para mim e, não só a que eu tinha para ela, mas a que ela própria tinha para as
outras criaturas além de mim, desproporção que, se omitisse, me arriscaria a tomar uma simples
amabilidade de minha amiga por um juramento apaixonado, e um passo grotesco e aviltante de
minha parte pelo simples e gracioso movimento que nos dirige para uns belos olhos. Mas temia
também cair no excesso oposto, onde veria na impontualidade de Gilberte um encontro, no
movimento de mau humor, uma hostilidade irremediável. Procurava entre estas duas óticas
igualmente deformadoras, aquela que me daria a justa vista das coisas; os cálculos que para
tanto precisava fazer me distraíam de minhas mágoas; e, ou por obediência à resposta dos
números, ou porque os fiz dizerem o que desejava, decidi-me, no dia seguinte, a ir à casa dos
Swann, feliz, mas da mesma forma daqueles que, tendo me atormentado durante muito tempo por
causa de uma viagem que não desejavam realizar, não vão muito além da estação de trem e
voltam para casa a fim de desfazerem as malas. E como, enquanto a gente hesita, a única ideia
de uma resolução possível (a menos que tenhamos tornado inerte essa ideia, ao decidir não
tomar qualquer resolução) desenvolve, como uma semente vivaz, os delineamentos, todo o
detalhe das emoções que nasciam do ato executado disse comigo que fora bastante absurdo,
planejando nunca mais ver Gilberte, fazer tanto mal a mim mesmo como se houvesse realizado tal
projeto e que, visto que, ao contrário, se era para acabar voltando à casa dela, bem poderia eu ter
economizado tantas veleidades e aceitações dolorosas. Porém a retomada das relações de
amizade só durou o tempo necessário para ir até os Swann; não porque o mordomo deles, que
gostava muito de mim, me dissesse que Gilberte havia saído (de fato, soube, naquela mesma
tarde, que aquilo era verdade, por intermédio de pessoas que a tinham encontrado), mas devido à
maneira como me falou:
- Senhor, a senhorita saiu, posso lhe afirmar que não estou mentindo. Se o senhor quer
pedir informações, posso mandar buscar a criada de quarto. Senhor, veja bem que eu faria tudo o
que estivesse a meu alcance para agradá-lo e que, se a senhorita estivesse presente, eu o levaria
imediatamente para junto dela.
continua na página 68...
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Leia também:
Volume 1
Volume 2
À Sombra das Moças em Flor (Ao Redor da Sra. Swann - o)
Volume 3Volume 4
Volume 5
Volume 6
Volume 7
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