Victor Hugo - Os Miseráveis
Segunda Parte - Cosette
Livro Terceiro — Cumprimento da promessa feita à moribunda
II - Dois retratos completos
Ainda não se viu senão de perfil os estalajadeiros de Monƞermeil, que nesta história
figuram debaixo do nome de Thenardier. Chegada é, porém, a ocasião de circunvagar em
roda daquele par para o observar por todas as faces.
Thenardier completara, havia pouco, cinquenta anos de existência; a consorte estava
a tocar os quarenta, que são para a mulher o mesmo que os cinquenta para o homem;
de modo que entre a mulher e o marido havia equilíbrio de idades.
A Thenardier, alta, loura, vermelha, encorpada, fornida de carnes, quadrada, enorme
e ágil, pertencia, como já dissemos, a essa raça de colossos selvagens que andam em
exposição pelas feiras, sustentando pedras nos cabelos. Era ela quem tudo fazia em casa,
que arrumava os quartos, que fazia as camas, a barrela, a comida, a chuva, o bom
tempo, o diabo. A sua única criada era Cosette; um rato servindo um elefante. Tudo
tremia ao som da sua áspera voz, vidraças, trastes e pessoas. A sua cara larga, crivada de
sardas, apresentava o aspecto de uma escumadeira. Para que a coisa ficasse completa, tinha barba também. Era o ideal do mais alentado regatão vestido de mulher, soltando
pragas como ninguém, gabando-se de quebrar uma noz com um murro. Se não fossem os
romances que lera e que às vezes faziam reaparecer a mulher-dengue por baixo da
mulher-papão, nunca ninguém se lembraria de dizer dela: «É uma mulher». A Thenardier
era como que o produto do enxerto de uma donzela numa peixeira. Ao ouvi-la falar, dir-se-ia: «É um gendarme»; ao vê-la beber, diriam: «É um carreteiro»; ao presenciar
finalmente o modo como ela tratava Cosette exclamariam: «É o carrasco». Quando
dormia, saía-lhe da boca um dente.
O marido era um homem baixo, magro, pálido, anguloso, ossudo, fraco, com aspecto
de doente, mas gozando de uma saúde de ferro. A sua velhacaria principiava por isto.
Era-lhe habitual o sorriso nos lábios e tratava com polidez quase toda a gente, mesmo o
mendigo a quem recusava uma esmola. Tinha olhar de fuinha e gesto de literato.
Parecia-se muito com os retratos do abade Delile. O seu maior gosto consistia em beber
com os carreteiros, e nunca ninguém fora capaz de o embebedar. Além disto fumava
num grande cachimbo, trajava uma blusa e por baixo da blusa uma velha casaca preta.
Thenardier tinha pretensões a literato e materialista, costumando pronunciar frequentes
vezes certos nomes para apoiar o que dizia, como Voltaire, Raynal, Parny, e,
extravagante coisa, Santo Agostinho. Afirmava ele ter um «sistema». Quanto ao resto,
velhaco a não poder mais. Há destas combinações no mundo.
Devem lembrar-se de que pretendia ter sido militar; contava com certo orgulho que
em Waterloo, sendo sargento de um regimento, 6.º ou 9.º de infantaria ligeira, tinha
sozinho contra um esquadrão de hussardos da Morte, coberto com o seu corpo, e salvo
através da metralha «um general gravemente ferido». Era daqui que lhe proviera, para a
porta, a flamante tabuleta, e para a sua estalagem, em todo aquele sítio, o nome de
«tabernado sargento de Waterloo». Era liberal, clássico e bonapartista. Subscrevera para
o campo de Asilo; e dizia-se na aldeia que estudara para padre. Quanto a nós, julgamos
que tinha simplesmente estudado na Holanda para estalajadeiro.
Este tratante de ordem compósita, era, segundo todas as probabilidades, um
flamengo de Lille em Flandres, francês em Paris, belga em Bruxelas, comandante a cavalo
em duas fronteiras.
A sua proeza em Waterloo já nós conhecemos; como se vê exagerava-a um tanto.
O fluxo e refluxo, a aventura, o intricado, eram os elementos da sua existência; da
consciência rasgada resulta a vida descosida; e, como era verosímil, na tempestuosa
época de 18 de Junho de 1815, Thenardier pertencia à variedade de vivandeiros
ratoneiros de que falámos, que percorriam a estrada, vendendo a estes, roubando
àqueles, e que rodavam com toda a família, mulher e crianças, e em qualquer carroça
desconjuntada, atrás da tropa em marcha, e com o instinto de se chegarem sempre para
o exército vitorioso. Terminada esta campanha e tendo, como ele dizia, «cum quibus»
fora estabelecer-se em Montfermeil.
Este «cum quibus» composto de bolsas e de relógios, de anéis de oiro e de cruzes de
prata, colhidos no tempo da ceifa nas leiras semeadas de cadáveres, não montava a um
grande total e não acompanhara até muito longe o vivandeiro transformado em
taberneiro.
Thenardier tinha nos gestos qualquer coisa de retilíneo, que com uma praga
recordava a caserna, e quando se benzia, o seminário. Falava bem e deixava-se passar
por erudito. Não obstante, o mestre-escola tinha-lhe notado algumas silabadas.
Escrevia a conta dos seus hóspedes com certa superioridade, mas os olhos exercitados
encontravam-lhe muitas vezes erros de ortografia. Thenardier era um velhaco, guloso e
mandrião, mas hábil. Não desprezava as criadas, o que fazia com que sua mulher as não tivesse. A gigante era ciosa; parecia-lhe que aquele homenzinho magro e amarelo devia
ser objeto de cobiça universal.
Thenardier principalmente homem de astúcia e equilíbrio, era um velhaco de género
temperado. Esta espécie é a pior de todas: baseia-se na hipocrisia.
Isto não quer dizer que Thenardier não fosse susceptível de se encolerizar, chegada a
ocasião própria, tanto como sua mulher; mas essas ocasiões eram muito raras; em tais
momentos, porém, como ele odiava todo o género humano, como tinha em si profunda
fornada de ódio, como era dos que se vingam perpetuamente, que acusam quanto lhes
passa pela frente, tudo o que se sentem cair-lhes em cima, e que estão sempre prontos a
lançar ao primeiro que lhes aparece, como legítima desforra, a totalidade das decepções,
das bancarrotas e das calamidades da sua vida; como todo este fermento se lhe
levantava no íntimo, e por assim dizer lhe fervia na boca e nos olhos, tornava-se
medonho. Desgraçado daquele que então lhe caía nas mãos.
Além de todas estas qualidades, era Thenardier atento e penetrado, silencioso ou
falador, segundo a ocasião, e sempre com alta inteligência. Tinha o que quer que era do
olhar dos marinheiros, habituados a aplicar os olhos aos óculos de alcance. Thenardier
era um homem de estado.
Todo o recém-chegado que entrava na baiuca dizia, vendo a estalajadeira: Eis ali o
dono da casa. Era um erro, nem mesmo era a dona. Dono e dona era o marido: a mulher
executava o que ele concebia. O marido dirigia tudo por uma espécie de ação magnética
invisível e contínua. Bastava-lhe uma palavra, muitas vezes um gesto; o mastodonte
obedecia. Thenardier era para sua mulher, sem que ela desse por isso uma espécie de
ente particular e soberano.
A Thenardier tinha as virtudes do seu modo de ser; nunca divergia, sobre qualquer
pormenor, da opinião de Thenardier, hipótese completamente inadmissível; e nunca
contradizia publicamente o marido sobre o que quer que fosse. Nunca teria cometido
em presença de estranhos, a falta cometida muitas vezes pelas mulheres, e a que se
chama em linguagem parlamentar: descobrir a coroa. Ainda que o seu inalterável acordo
não tivesse nunca em resultado senão o mal, havia contemplação na submissão da
Thenardier a seu marido. Aquela montanha de ruído e carne movia-se sob o pequeno
dedo do frágil déspota. Era isto, encarado pelo seu lado anão e grotesco, uma coisa
grande e universal: a adoração do espírito pela matéria; porque certas fealdades têm a
sua razão de ser nas próprias profundezas da beleza eterna. Em Thenardier havia o que
quer que era de desconhecido, donde provinha o império absoluto sobre sua mulher, a
quem, em certos momentos, se afigurava uma luz, noutros sentia-o como uma garra.
Esta mulher era uma criatura medonha, que não amava senão os filhos e que não
temia senão o marido. Era mãe por ser mamífera, Mas ainda assim, a sua maternidade
concentrava-se nas filhas; e, como se verá, não se estendia até aos rapazes. O marido,
esse, só pensava em enriquecer.
Contudo, não o conseguia. Faltava àquele grande talento um teatro condigno.
Thenardier em Monƞermeil perdia tudo, se a perda é possível em zero; na Suíça ou
nos Pirinéus, aquele pobretão tornar-se-ia milionário. Mas o estalajadeiro tem
forçosamente de pastar no sítio em que a sorte o prende.
É necessário entender-se que a palavra estalajadeiro é aqui empregada num sentido
restrito e que não se estende a uma classe inteira.
Neste mesmo ano de 1823, achava-se Thenardier endividado em perto de mil e
quinhentos francos, e com credores inexoráveis, o que lhe causava grande inquietação.
Qualquer que fosse para com ele a injustiça teimosa do destino, Thenardier era um
dos homens que compreendiam do modo mais profundo e da maneira mais moderna,
uma coisa que é virtude entre os povos bárbaros e mercadoria entre os civilizados: a
hospitalidade.
Quanto ao mais, admirável caçador nas matas defesas, citado pela infalível pontaria e
possuidor de um certo riso frio e pacífico, que era muito particularmente perigoso.
As suas teorias de estalajadeiro brotavam dele, por vezes, como relâmpagos.
Tinha aforismos profissionais que sem cessar inseria no espírito de sua mulher. «O
primeiro dever do estalajadeiro, lhe dizia ele um dia violentamente e em voz baixa, é
vender ao primeiro que aparece, má comida, descanso, luz, fogo, lençóis sujos, pulgas e
sorrisos; de fazer parar os transeuntes, de esvaziar as bolsas magras e de aliviar
honestamente as gordas, de abrigar respeitosamente as famílias que vão em jornada, de
esfolar o homem, de depenar a mulher e de limpar a criança; de meter em conta a janela
aberta, a janela fechada, o calor do fogão, a poltrona, a cadeira, o banco, o moxo, o
colchão de penas, a enxerga e o feixe de palha; de conhecer quanto a sombra gasta o
espelho e de avaliar este gasto; e com quinhentos mil diabos, obrigar o hóspede a pagar
tudo, inclusive as moscas comidas pelo seu cão!»
Este homem e esta mulher representavam a aliança da astúcia e da raiva, medonha e
terrível parelha.
Enquanto Thenardier ruminava e combinava, a mulher não se lembrava dos credores
ausentes, não pensava no dia presente nem no futuro, e vivia arrebatadamente dentro
do minuto presente.
Tais eram estes dois entes. Entre eles estava Cosette, sofrendo-lhes a dupla pressão,
como uma criatura que fosse ao mesmo tempo triturada por uma mó e despedaçada por
uma tenaz. O marido e a mulher tinham cada um seu modo diferente de a atormentar: a
estalajadeira moía-a com pancadas, o estalajadeiro fazia-a andar descalça no inverno.
Cosette subia, descia, lavava, esfregava, varria, corria, azafamava-se, suava, carregava
com objetos pesados, e pequena como era, fazia toda a espécie de trabalho grosseiro.
Para ela não havia piedade; uma ama feroz e um amo malévolo. A baiuca de Thenardier
era uma espécie de teia em que Cosette estava presa e tremia. Esta domesticidade
sinistra realizava o ideal da opressão.
Era uma espécie de mosca servindo aranhas. A pobre criança, acostumada a sofrer,
calava-se.
O que é que se passa nestas almas que há pouco saíram do seio de Deus, quando se
veem assim, desde a aurora, entre os homens, tão pequenas e nuas?
continua na página 295...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Cosette, Livro Terceiro - II — Dois retratos completos
Os Miseráveis: Cosette, Livro Terceiro - III — Vinho para os homens e água para os cavalos
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS
Título original: Les Misérables (1862)
OS MISERÁVEIS
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira
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