terça-feira, 25 de fevereiro de 2025

Edgar Allan Poe - Contos: A Quinta de Arnheim (2)

Edgar Allan Poe - Contos


A Quinta de Arnheim
Título original: The Masque of the Red Death 
Publicado em 1842

continuando...

      No curso da discussão, o meu amigo citava algumas passagens de um escritor que se ocupou da questão do jardim-paisagem e que é considerado como uma autoridade.

“Não há propriamente senão dois estilos de jardim-paisagem, o natural e o artificial. Um procura imitar a beleza original dos campos, apropriando os seus meios à decoração circunvizinha, cultivando as árvores que estejam em harmonia com as colinas ou as planícies das terras próximas, descobrindo e pondo em evidência estas relações delicadas de tamanho, de proporção e de cor que, escondidas para os olhos do observador vulgar, aparecem por toda a parte ao discípulo experimentado da natureza. O resultado do estilo natural, relativamente a jardins, manifesta-se antes da ausência de todo e qualquer defeito ou incongruência, no predomínio da ordem e de uma harmonia sã do que na criação de milagres e de maravilhas especiais. O estilo artificial, compreendendo tantas variedades como de gostos diferentes há a satisfazer, implica uma certa relação geral com os diferentes estilos de arquitetura. Há as majestosas avenidas e os retiros de Versailles; há os terraços italianos; e há ainda um velho estilo inglês que tem alguma relação com a arquitetura gótica, doméstica e a do século de Isabel. Apesar de tudo o que se pode dizer contra os abusos do jardim-paisagem, a introdução da arte pura numa decoração rústica presta-lhe uma grande beleza; é em parte moral, em parte feita para agradar aos olhos pela apresentação da ordem e da intenção tornada visível. Um terraço, com uma velha balaustrada coberta de musgo, evoca imediatamente para os olhos do observador as belas criaturas que ali passearam outrora. O mais ligeiro indício de arte é um testemunho de solicitude e de interesse humanos.

“Depois das minhas observações precedentes, disse Ellison, compreende já que rejeito a ideia, exprimida pelo autor, de imitar a beleza original dos campos. Essa beleza original não é nunca tão grande como a que o homem pode dar-lhe. Naturalmente, tudo depende da escolha de um lugar apropriado. O que diz respeito à arte de descobrir e pôr em evidência as relações delicadas de tamanho, de proporção e de cor não é senão um destes modos vagos de falar que servem para cobrir a insuficiência do pensamento. A frase em questão pode significar alguma coisa, pode não significar nada e não pode guiar ninguém. Que o resultado do estilo natural, em matéria de jardins, se manifesta antes na ausência de todo e qualquer defeito ou incongruência do que na criação de milagres e de maravilhas especiais, é uma destas proposições mais bem adaptadas à inteligência rasteira do vulgar do que aos sonhos ardentes do homem de talento. O merecimento negativo em questão depende desta crítica defeituosa que, na ordem literária, elevaria Addison à apoteose. Para dizer a verdade, a virtude que consiste puramente em evitar o vício apela diretamente para a inteligência e pode ser, por conseguinte, circunscrita pela regra; mas a virtude mais alta que rutila em criações não pode ser apreciada senão nos seus resultados. A regra só se aplica aos merecimentos negativos, às qualidades que aconselham a abstenção. Além dessa regra, a arte do crítico não pode senão sugerir. Podemos saber como se constrói um Gatão, mas nunca poderemos aprender a conceber um Partenon ou um Inferno. E contudo, a coisa feita, o milagre cumprido, a faculdade de o compreender torna-se universal. Os sofistas da escola negativa, que por serem incapazes de criar injuriam a criação, são agora os seus mais ruidosos aplaudidores. O que na sua condição embrionária de princípio lhes ofendia a razão magistral não deixa nunca, na madureza da execução, de arrancar a admiração ao seu instinto natural do belo.  

“As observações do autor sobre o estilo artificial — continuava Ellison — são menos repreensíveis. A introdução da arte pura na decoração rústica, presta-lhe uma grande beleza. Esta frase é justa; e justa é também a observação relativa ao sentimento do interesse humano. O princípio, tal como está expresso, é incontestável, mas talvez haja ainda alguma coisa a acrescentar-lhe. Talvez que exista um efeito em acordo com o princípio; um efeito fora do alcance dos meios de que dispõem ordinariamente os indivíduos, o qual, uma vez atingido, introduziria no jardim-paisagem um encanto muito maior do que aquele que pode dar-lhe o sentimento do interesse puramente humano. Um poeta que dispusesse de meios pecuniários extraordinários poderia, conservando sempre a ideia necessária de arte, de cultura ou, conforme a expressão do autor, de interesse impregnar também os seus planos de beleza nova e de imensidade na beleza que estes sugerissem forçosamente ao espectador o sentimento - de uma intervenção espiritual. Já se vê que, para a criação de semelhante resultado, é necessário que o poeta conserve todos os benefícios do interesse humano ou do plano e que, ao mesmo tempo, desembarace a sua obra da dureza e da técnica da arte vulgar. No mais áspero dos desertos, na mais selvagem das decorações da pura natureza manifesta-se a arte de um criador; contudo, essa arte não é aparente senão para um espírito refletido, nem tem, de forma alguma, a força irresistível de um sentimento. Ora suponhamos essa expressão do desígnio do Todo-Poderoso abaixada um grau, posta em harmonia e apropriada com o sentimento da arte humana de maneira a formar uma espécie de intermediário entre os dois. Imaginemos, por exemplo, uma paisagem onde a vastidão e a delimitação, habilmente combinadas, onde a reunião da beleza, da magnificência e da raridade sugerirão a ideia de cuidados, de cultura e de superintendência da parte de seres superiores — embora aliados à humanidade — então o sentimento do interesse achar-se-á preservado e a arte nova, que há de penetrar essa obra, dar-se-á o ar de uma natureza intermediária ou secundária, uma natureza que não é Deus nem a emanação de Deus, mas que é a natureza tal como ela sairia das mãos dos anjos que pairam entre o homem e Deus.” 

     Foi consagrando a sua enorme fortuna à incorporação de uma tal ideia; foi no exercício físico ao ar livre, necessário à fiscalização pessoal dos seus planos; foi no objeto permanente para o qual tendiam todos esses planos, na alta espiritualidade desse objeto; no desprezo de todas as ambições, tirado de uma ambição mais etérea; nas fontes perpetuas que esse fim abria à sua sede de beleza, paixão dominante e insaciável da sua alma; foi sobretudo na simpatia, verdadeiramente feminina, de uma mulher cuja beleza e amor lhe envolviam a existência numa atmosfera purpureada de paraíso que Ellison julgou poder achar, e achou realmente, a isenção dos cuidados ordinários da humanidade, assim como uma soma de felicidade positiva bem superior a todas as imaginadas nos arrebatadores devaneios de madame de Stael.
     Não tenho esperança de dar ao leitor uma ideia distinta das maravilhas que o meu amigo chegou a executar. Desejava descrevê-las, mas sinto-me desanimado pela dificuldade da descrição, hesitando entre os pormenores e as generalidades. Talvez que o melhor partido a tomar fosse reunir os dois.
     O ponto essencial para M. Ellison era, evidentemente, a escolha de um lugar; e apenas ele começou a pensar na questão, acudiu-lhe ao espírito a natureza luxuriante das ilhas Pacíficas. Com efeito, projetou uma viagem aos mares do sul, mas uma noite de reflexão bastou para lhe fazer repelir essa ideia. “Se eu fosse um misantropo, disse ele, tal era o lugar que me convinha. O isolamento completo, a reclusão absoluta e a dificuldade de entrar e de sair seriam então o encanto dos encantos! Mas eu não sou por enquanto um Timon. Aspiro ao sossego, mas não à monotonia da solidão. Quero descansar quando eu quiser, mas não quero descansar sempre. Além disso, há de haver ocasiões em que eu precise da simpatia dos espíritos poéticos para continuar a minha obra. Devo pois procurar um sítio que não esteja muito longe de uma cidade populosa e cujos habitantes possam de alguma maneira coadjuvar a execução dos meus planos.
     Ellison viajou muitos anos antes de encontrar a situação desejada; nessa viagem acompanhei-o eu. Mil lugares que à primeira vista se me afiguravam encantadores eram rejeitados por ele, sem hesitação, com razões que depois me pareciam de toda a sagacidade. Um dia vimos um planalto elevado de uma beleza e de uma fertilidade surpreendentes, que dava uma perspectiva panorâmica quase tão extensa como a que se descobre do alto do Etna, e ultrapassando muito, na nossa opinião, esta vista tão afamada em todos os elementos verdadeiros do pitoresco.

— Não ignoro — disse-me o viajante, depois de uma boa hora de êxtase, com um suspiro de voluptuosidade profunda arrancado pela contemplação do quadro — sei com certeza que nas minhas circunstâncias os nove décimos dos homens mais delicados dar-se-iam por satisfeitos com semelhante achado. Este panorama é realmente esplêndido e delicioso, em toda a extensão da palavra. Todos os arquitetos que eu conheço têm um gosto especial pelo ponto de vista, o que os leva a colocar as suas edificações no alto das montanhas; mas isto é um erro evidente. A grandeza, em todas as suas formas, e particularmente na da extensão, excita e entusiasma, é verdade; mas por fim fatiga e oprime. Para uma paisagem de ocasião, não há nada melhor; para uma vista constante, não há nada pior. E numa vista constante, a expressão mais repreensível da grandeza é a extensão; a pior forma da extensão é o espaço. Quando olhamos do alto de um monte sentimo-nos, por assim dizer, fora do mundo, estrangeiros ao mundo! Quem quer que está triste evita as perspectivas longínquas como uma peste.
 
     Não foi senão depois de quatro anos de pesquisas que encontrámos, por fim, um lugar a contento de Ellison. Não precisamos dizer onde esta localidade se acha situada. A morte recente do meu amigo, franqueando a entrada da sua propriedade a certas classes de visitadores, deu a Arnheim uma espécie de celebridade secreta e privada, senão solene, alguma coisa semelhante, bem que infinitamente superior, àquela de que Fonthill gozou muito tempo.
     Ordinariamente ia-se a Arnheim pelo rio. O visitante saía da cidade pela manhã cedo. Durante a tarde, passava entre margens de uma beleza tranquila e doméstica, onde pastavam inumeráveis rebanhos de ovelhas cujo velo matizava de branco a relva brilhante dos prados ondulosos. Pouco a pouco, a impressão da cultura convertia-se na de uma vida puramente pastoral, e esta perdia-se lentamente numa sensação de isolamento, a qual se transformava por seu turno numa perfeita consciência de solidão. À medida que a noite se aproximava, o canal estreitava; as ribas apareciam cada vez mais escarpadas e revestidas com uma folhagem mais rica, mais abundante e mais sombria. A transparência da água aumentava. O rio serpenteava em mil rodeios, de sorte que a sua superfície brilhante não se mostrava senão a pequenas distâncias. A cada instante, o barco parecia preso num círculo encantado, formado por paredes de folhas impenetráveis, com um fundo de cetim ultramarino e sem plano inferior, a quilha oscilando com uma simetria admirável sobre a de uma barca fantástica que parecia voltada de cima para baixo, flutuando de conserva com a verdadeira barca como que para sustentá-la. O canal convertia-se então em garganta; sirvo-me deste termo, talvez impróprio, porque a língua não me fornece palavra que represente melhor a feição dominante e distintiva da paisagem. Este feitio de garganta não se manifestava senão pela altura e pelo paralelismo das margens, desaparecendo em todas as outras feições principais. As espécies de paredes entre as quais a água corria, sempre clara e serena, subiam a uma altura de cem e algumas vezes de cento e cinquenta pés, inclinando-se uma para a outra e tapando quase a entrada da luz; os longos e espessos musgos que pendiam, como penachos invertidos, dos arbustos entrelaçados em abóbada davam a todo o abismo um ar de melancolia fúnebre. Os rodeios tornavam-se cada vez mais frequentes e complicados. Às vezes, pareciam retrogradar, de sorte que o viajante chegava a perder toda a noção de orientação. Além disso, envolvia-o um sentimento de elegante extravagância. A ideia da natureza subsistia ainda, mas alterada e sofrendo já no seu caráter uma modificação interessante. Uma simetria misteriosa e solene, uma uniformidade admirável, uma correção mágica caracterizavam estas obras novas. Não se via uma braça morta, uma folha seca, uma pedra dispersa ou um torrão. A água, cristalina, corria sobre o granito liso ou sobre o musgo, imaculada, com uma acuidade de linha que ao mesmo tempo espantava e deleitava a vista.

continua na página 399...
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Edgar Allan Poe - Contos: A Quinta de Arnheim (2)
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Edgar Allan Poe
CONTOS
Originalmente publicados entre 1831 e 1849
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Edgar Allan Poe (nascido Edgar Poe; Boston, Massachusetts, Estados Unidos, 19 de Janeiro de 1809 — Baltimore, Maryland, Estados Unidos, 7 de Outubro de 1849) foi um autor, poeta, editor e crítico literário estadunidense, integrante do movimento romântico estadunidense. Conhecido por suas histórias que envolvem o mistério e o macabro, Poe foi um dos primeiros escritores americanos de contos e é geralmente considerado o inventor do gênero ficção policial, também recebendo crédito por sua contribuição ao emergente gênero de ficção científica. Ele foi o primeiro escritor americano conhecido por tentar ganhar a vida através da escrita por si só, resultando em uma vida e carreira financeiramente difíceis.
Ele nasceu como Edgar Poe, em Boston, Massachusetts; quando jovem, ficou órfão de mãe, que morreu pouco depois de seu pai abandonar a família. Poe foi acolhido por Francis Allan e o seu marido John Allan, de Richmond, Virginia, mas nunca foi formalmente adotado. Ele frequentou a Universidade da Virgínia por um semestre, passando a maior parte do tempo entre bebidas e mulheres. Nesse período, teve uma séria discussão com seu pai adotivo e fugiu de casa para se alistar nas forças armadas, onde serviu durante dois anos antes de ser dispensado. Depois de falhar como cadete em West Point, deixou a sua família adotiva. Sua carreira começou humildemente com a publicação de uma coleção anônima de poemas, Tamerlane and Other Poems (1827).
Poe mudou seu foco para a prosa e passou os próximos anos trabalhando para revistas e jornais, tornando-se conhecido por seu próprio estilo de crítica literária. Seu trabalho o obrigou a se mudar para diversas cidades, incluindo Baltimore, Filadélfia e Nova Iorque. Em Baltimore, casou-se com Virginia Clemm, sua prima de 13 anos de idade. Em 1845, Poe publicou seu poema The Raven, foi um sucesso instantâneo. Sua esposa morreu de tuberculose dois anos após a publicação. Ele começou a planejar a criação de seu próprio jornal, The Penn (posteriormente renomeado para The Stylus), porém, em 7 de outubro de 1849, aos 40 anos, morreu antes que pudesse ser produzido. A causa de sua morte é desconhecida e foi por diversas vezes atribuída ao álcool, congestão cerebral, cólera, drogas, doenças cardiovasculares, raiva, suicídio, tuberculose entre outros agentes.
Poe e suas obras influenciaram a literatura nos Estados Unidos e ao redor do mundo, bem como em campos especializados, tais como a cosmologia e a criptografia. Poe e seu trabalho aparecem ao longo da cultura popular na literatura, música, filmes e televisão. Várias de suas casas são dedicadas como museus atualmente.

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