volume II
À Sombra das Moças em Flor
Primeira Parte
Primeira Parte
Ao Redor da Sra. Swann
(r)
continuando...
Tais palavras, da única forma que são importantes, ou seja, involuntárias, dando-nos pelo menos uma radiografia sumária da realidade insuspeita de um discurso estudado, provavam que, no ambiente que cercava Gilberte, tinha-se a impressão de que eu lhe era inoportuno; assim, mal o mordomo as pronunciou, elas desencadearam em mim um ódio a que preferi, em vez de Gilberte, dar como objeto o próprio mordomo; concentraram-se sobre ele todos os sentimentos de cólera que eu poderia ter em relação à minha amiga; desembaraçado deles graças a tais palavras, só meu amor subsistiu; mas essas palavras me mostraram, igualmente, que não devia por algum tempo procurar ver Gilberte. Certamente ela iria me escrever para se desculpar. Apesar disso, eu não voltaria imediatamente para vê-la, a fim de lhe provar que podia viver sem ela. Além disso, logo que tivesse recebido a carta de Gilberte, frequentar minha amiga seria uma coisa da qual poderia facilmente me privar durante algum tempo, pois estaria certo de encontrar-me com ela quando quisesse. Para suportar com menos tristeza a ausência voluntária, precisava sentir meu coração desimpedido da terrível incerteza de saber se estávamos brigados para sempre, se ela estava noiva, viajando, ou se fora raptada. Os dias que se seguiram assemelharam-se aos daquela antiga semana do Ano-Novo que tive de passar sem Gilberte. Acabada aquela semana, outrora, por um lado minha amiga voltaria aos Champs-Élysées, e eu voltaria a vê-la como antes, tinha certeza; e, por outro lado, sabia com não menor certeza que, enquanto durassem as férias de fim de ano valia a pena ir aos Champs-Élysées. De modo que, durante aquela tristeza sem distante, suportara a tristeza com calma, pois ela não estava mesclada nem de esperança. Ao contrário, agora, era este último sentimento que, quase como o temor, fazia intolerável o meu sofrimento. Não tendo recebido carta de Gilberte naquela mesma noite, levei em conta sua negligência, suas ocupações não duvidava de encontrar uma no correio da manhã. Esperei-o, todos os dias - palpitações no coração a que sucedia um estado de abatimento quando de que na remessa havia apenas cartas de pessoas que não eram Gilberte, ou nada, o que não era pior, pois as provas de amizade de uma outra me faziam mais cruel as de sua indiferença. Punha-me a esperar o correio da tarde. Nem as horas das coletas das cartas eu me animava a sair, pois ela poderia ter minuto de entregar em mão a sua carta. Depois, acabava por chegar o momento em que nem o carteiro nem o lacaio dos Swann já poderiam vir, era preciso deixar para o dia seguinte a esperança de ser tranquilizado, e desse modo, por julgar que o momento não duraria muito, era obrigado, por assim dizer, a renová-la sem desgosto talvez fosse o mesmo, mas, em vez de apenas prolongar uniforme -, como outrora, uma emoção inicial, recomeçava diversas vezes por dia, principiando por uma emoção tão frequentemente renovada que terminava em mal estar puramente físico, tão momentâneo por se estabilizar, de modo que as perturbações provocadas pela espera mal tinham tempo de se acalmar antes que fosse outro motivo para esperar, e não havia mais um só minuto no dia em que estivesse nessa angústia que, no entanto, era tão difícil de suportar durante hora. Assim, meu sofrimento era infinitamente mais cruel que no tempo antigo 1° de janeiro, pois desta vez existia em mim, em lugar da aceitação simples do sofrimento, a esperança, a cada instante, de vê-lo cessar. Acabei por chegar a esta aceitação; compreendi então que devia ser desfeito e renunciei a Gilberte para sempre, no próprio interesse do meu amor, e porque antes de tudo, que ela não guardasse de mim uma lembrança desdenhosa; desse momento, e para que ela não pudesse formar a ideia de um despeito de minha parte, mesmo quando, a seguir, ela me marcava encontros; aceitava muitas vezes e, no último instante, escrevia-lhe dizendo que não; mas afirmando que me sentia desolado, como o teria feito com qualquer um que não desejasse ver. Essas expressões de lástima, que reservamos era para as pessoas que nos são indiferentes, pareciam-me convencer melhora de minha indiferença do que o faria o tom de indiferença que se emprega diante de quem se ama. Quando, melhor que com palavras, por ações indefira repetidas vezes, eu lhe houvesse dado provas de que não sentia gosto em que ela voltasse a sentir por mim. Infelizmente, seria em vão procurar, e não mais, renovar nela o gosto de me ver, era perdê-la para sempre; primeiro quando ele principiasse a renascer, se eu quisesse que durasse, era preciso não lhe ceder tudo de imediato; além disso, as horas mais cruéis já teriam passado; nesse momento é que ela me era indispensável e eu gostaria de poder adverti-la que em breve ela só acalmaria, ao me rever, uma dor de tal modo diminuída que já não mais seria, como ainda teria sido naquele próprio momento, e para lhe pôr fim, um motivo de capitulação, de reconciliação e encontro. E mais tarde, quando enfim poderia me confessar sem perigo a Gilberte, de tal forma seu gosto por mim se teria fortalecido, o meu por ela, este não podendo resistir a uma tão longa ausência, já não existiria; Gilberte teria se tornado indiferente para mim. Eu o sabia, mas não podia lhe dizer; ela teria julgado que, se eu alegasse que deixaria de amá-la ficando muito tempo sem vê-la, era com o único objetivo de que ela me dissesse para voltar logo para junto dela. Enquanto esperava, o que me tornava mais fácil condenar-me a essa separação era que (para que ela ficasse bem ciente de que, apesar de minhas afirmações em contrário, era a minha vontade e não um impedimento, não o meu estado de saúde, o que me privava de vê-la) todas as vezes em que sabia, por antecipação, que Gilberte não estaria na casa dos pais, devia sair com uma amiga e não voltaria para jantar, ia ver a Sra. Swann (que se tornara para mim o que era no tempo em que eu via tão dificilmente sua filha, quando, nos dias em que esta não ia aos Champs-Élysées, eu passeava na avenida das Acácias). Desse modo ouviria falar de Gilberte e estava certo de que ela ia logo ouvir falar de mim, e de um modo que lhe mostraria que eu não ligava para ela. E achava, como todos os que sofrem, que minha triste situação poderia ser pior. Pois tendo entrada livre na casa em que Gilberte morava, dizia a mim mesmo que, embora decidido a não me utilizar dessa faculdade, se minha dor fosse um dia demasiado forte, poderia fazê-la cessar. Só me sentia infeliz com o passar dos dias. E é dizer muito, ainda. Quantas vezes por hora (mas agora sem a espera ansiosa das primeiras semanas após a nossa briga, antes de estar de volta à casa dos Swann) eu não recitava para mim mesmo a carta que Gilberte me mandaria um dia, e quem sabe me entregaria com suas próprias mãos! A visão constante dessa felicidade imaginária me ajudava a suportar a destruição da ventura real. Quanto às mulheres que não nos amam, como no caso dos "desaparecidos", saber que não há mais nada a esperar não nos impede de continuar a esperar. A gente vive à espreita, à escuta; mães cujos filhos partiram por mar para uma exploração perigosa imaginam, a todo instante, e mesmo depois de terem, há muito tempo, certeza de que morreram, que eles vão entrar em casa, miraculosamente salvos e bem de saúde. E essa espera, conforme o poder da lembrança e da resistência dos órgãos, ou lhes permite atravessar os anos até suportarem a ideia de que os filhos não mais existem, esquecer pouco a pouco e sobreviver, ou então as faz morrer. Por outro lado, meu desgosto era um tanto consolado pela ideia de que aproveitava ao meu amor. Toda visita que fazia à Sra. Swann sem ver Gilberte era-me cruel, mas eu sentia que melhorava muito a ideia que Gilberte formava a meu respeito. Além disso, se eu procurava sempre estar certo da ausência de antes de ir à casa da Sra. Swann, isto se devia tanto à minha resolução de nosso rompimento, quanto à esperança de reconciliação que se sobrepunha à minha vontade de renunciar (bem poucas são absolutas, ao menos de modo contínuo, nesta alma humana, na qual uma das leis, fortificada pelos afluxos inesperados de lembranças diferentes, é a da intermitência) e disfarçava o que era de mais cruel. Tal esperança, eu bem sabia o que tinha de quimérico. Eu era um pobre que mistura menos lágrimas a seu pão seco se diz a si mesmo que pouco um estranho vai lhe deixar toda sua fortuna. Para tornar a realidade suportável, somos todos obrigados a alimentar algumas pequenas loucuras dentro de si. Ora, minha esperança permanecia mais intacta -e ao mesmo tempo que a seção se realizava melhor se não encontrava Gilberte. Se eu me encontrasse de cara com ela na casa da mãe, talvez trocássemos palavras irreparáveis que fizéssemos definitiva a nossa briga, matassem minha esperança e, por outro lado, criando nova ansiedade, despertassem e tornassem mais difícil a minha resignação. Há muito tempo, e bem antes de minha briga com sua filha, a Sra. Swann me dissera:
Tais palavras, da única forma que são importantes, ou seja, involuntárias, dando-nos pelo menos uma radiografia sumária da realidade insuspeita de um discurso estudado, provavam que, no ambiente que cercava Gilberte, tinha-se a impressão de que eu lhe era inoportuno; assim, mal o mordomo as pronunciou, elas desencadearam em mim um ódio a que preferi, em vez de Gilberte, dar como objeto o próprio mordomo; concentraram-se sobre ele todos os sentimentos de cólera que eu poderia ter em relação à minha amiga; desembaraçado deles graças a tais palavras, só meu amor subsistiu; mas essas palavras me mostraram, igualmente, que não devia por algum tempo procurar ver Gilberte. Certamente ela iria me escrever para se desculpar. Apesar disso, eu não voltaria imediatamente para vê-la, a fim de lhe provar que podia viver sem ela. Além disso, logo que tivesse recebido a carta de Gilberte, frequentar minha amiga seria uma coisa da qual poderia facilmente me privar durante algum tempo, pois estaria certo de encontrar-me com ela quando quisesse. Para suportar com menos tristeza a ausência voluntária, precisava sentir meu coração desimpedido da terrível incerteza de saber se estávamos brigados para sempre, se ela estava noiva, viajando, ou se fora raptada. Os dias que se seguiram assemelharam-se aos daquela antiga semana do Ano-Novo que tive de passar sem Gilberte. Acabada aquela semana, outrora, por um lado minha amiga voltaria aos Champs-Élysées, e eu voltaria a vê-la como antes, tinha certeza; e, por outro lado, sabia com não menor certeza que, enquanto durassem as férias de fim de ano valia a pena ir aos Champs-Élysées. De modo que, durante aquela tristeza sem distante, suportara a tristeza com calma, pois ela não estava mesclada nem de esperança. Ao contrário, agora, era este último sentimento que, quase como o temor, fazia intolerável o meu sofrimento. Não tendo recebido carta de Gilberte naquela mesma noite, levei em conta sua negligência, suas ocupações não duvidava de encontrar uma no correio da manhã. Esperei-o, todos os dias - palpitações no coração a que sucedia um estado de abatimento quando de que na remessa havia apenas cartas de pessoas que não eram Gilberte, ou nada, o que não era pior, pois as provas de amizade de uma outra me faziam mais cruel as de sua indiferença. Punha-me a esperar o correio da tarde. Nem as horas das coletas das cartas eu me animava a sair, pois ela poderia ter minuto de entregar em mão a sua carta. Depois, acabava por chegar o momento em que nem o carteiro nem o lacaio dos Swann já poderiam vir, era preciso deixar para o dia seguinte a esperança de ser tranquilizado, e desse modo, por julgar que o momento não duraria muito, era obrigado, por assim dizer, a renová-la sem desgosto talvez fosse o mesmo, mas, em vez de apenas prolongar uniforme -, como outrora, uma emoção inicial, recomeçava diversas vezes por dia, principiando por uma emoção tão frequentemente renovada que terminava em mal estar puramente físico, tão momentâneo por se estabilizar, de modo que as perturbações provocadas pela espera mal tinham tempo de se acalmar antes que fosse outro motivo para esperar, e não havia mais um só minuto no dia em que estivesse nessa angústia que, no entanto, era tão difícil de suportar durante hora. Assim, meu sofrimento era infinitamente mais cruel que no tempo antigo 1° de janeiro, pois desta vez existia em mim, em lugar da aceitação simples do sofrimento, a esperança, a cada instante, de vê-lo cessar. Acabei por chegar a esta aceitação; compreendi então que devia ser desfeito e renunciei a Gilberte para sempre, no próprio interesse do meu amor, e porque antes de tudo, que ela não guardasse de mim uma lembrança desdenhosa; desse momento, e para que ela não pudesse formar a ideia de um despeito de minha parte, mesmo quando, a seguir, ela me marcava encontros; aceitava muitas vezes e, no último instante, escrevia-lhe dizendo que não; mas afirmando que me sentia desolado, como o teria feito com qualquer um que não desejasse ver. Essas expressões de lástima, que reservamos era para as pessoas que nos são indiferentes, pareciam-me convencer melhora de minha indiferença do que o faria o tom de indiferença que se emprega diante de quem se ama. Quando, melhor que com palavras, por ações indefira repetidas vezes, eu lhe houvesse dado provas de que não sentia gosto em que ela voltasse a sentir por mim. Infelizmente, seria em vão procurar, e não mais, renovar nela o gosto de me ver, era perdê-la para sempre; primeiro quando ele principiasse a renascer, se eu quisesse que durasse, era preciso não lhe ceder tudo de imediato; além disso, as horas mais cruéis já teriam passado; nesse momento é que ela me era indispensável e eu gostaria de poder adverti-la que em breve ela só acalmaria, ao me rever, uma dor de tal modo diminuída que já não mais seria, como ainda teria sido naquele próprio momento, e para lhe pôr fim, um motivo de capitulação, de reconciliação e encontro. E mais tarde, quando enfim poderia me confessar sem perigo a Gilberte, de tal forma seu gosto por mim se teria fortalecido, o meu por ela, este não podendo resistir a uma tão longa ausência, já não existiria; Gilberte teria se tornado indiferente para mim. Eu o sabia, mas não podia lhe dizer; ela teria julgado que, se eu alegasse que deixaria de amá-la ficando muito tempo sem vê-la, era com o único objetivo de que ela me dissesse para voltar logo para junto dela. Enquanto esperava, o que me tornava mais fácil condenar-me a essa separação era que (para que ela ficasse bem ciente de que, apesar de minhas afirmações em contrário, era a minha vontade e não um impedimento, não o meu estado de saúde, o que me privava de vê-la) todas as vezes em que sabia, por antecipação, que Gilberte não estaria na casa dos pais, devia sair com uma amiga e não voltaria para jantar, ia ver a Sra. Swann (que se tornara para mim o que era no tempo em que eu via tão dificilmente sua filha, quando, nos dias em que esta não ia aos Champs-Élysées, eu passeava na avenida das Acácias). Desse modo ouviria falar de Gilberte e estava certo de que ela ia logo ouvir falar de mim, e de um modo que lhe mostraria que eu não ligava para ela. E achava, como todos os que sofrem, que minha triste situação poderia ser pior. Pois tendo entrada livre na casa em que Gilberte morava, dizia a mim mesmo que, embora decidido a não me utilizar dessa faculdade, se minha dor fosse um dia demasiado forte, poderia fazê-la cessar. Só me sentia infeliz com o passar dos dias. E é dizer muito, ainda. Quantas vezes por hora (mas agora sem a espera ansiosa das primeiras semanas após a nossa briga, antes de estar de volta à casa dos Swann) eu não recitava para mim mesmo a carta que Gilberte me mandaria um dia, e quem sabe me entregaria com suas próprias mãos! A visão constante dessa felicidade imaginária me ajudava a suportar a destruição da ventura real. Quanto às mulheres que não nos amam, como no caso dos "desaparecidos", saber que não há mais nada a esperar não nos impede de continuar a esperar. A gente vive à espreita, à escuta; mães cujos filhos partiram por mar para uma exploração perigosa imaginam, a todo instante, e mesmo depois de terem, há muito tempo, certeza de que morreram, que eles vão entrar em casa, miraculosamente salvos e bem de saúde. E essa espera, conforme o poder da lembrança e da resistência dos órgãos, ou lhes permite atravessar os anos até suportarem a ideia de que os filhos não mais existem, esquecer pouco a pouco e sobreviver, ou então as faz morrer. Por outro lado, meu desgosto era um tanto consolado pela ideia de que aproveitava ao meu amor. Toda visita que fazia à Sra. Swann sem ver Gilberte era-me cruel, mas eu sentia que melhorava muito a ideia que Gilberte formava a meu respeito. Além disso, se eu procurava sempre estar certo da ausência de antes de ir à casa da Sra. Swann, isto se devia tanto à minha resolução de nosso rompimento, quanto à esperança de reconciliação que se sobrepunha à minha vontade de renunciar (bem poucas são absolutas, ao menos de modo contínuo, nesta alma humana, na qual uma das leis, fortificada pelos afluxos inesperados de lembranças diferentes, é a da intermitência) e disfarçava o que era de mais cruel. Tal esperança, eu bem sabia o que tinha de quimérico. Eu era um pobre que mistura menos lágrimas a seu pão seco se diz a si mesmo que pouco um estranho vai lhe deixar toda sua fortuna. Para tornar a realidade suportável, somos todos obrigados a alimentar algumas pequenas loucuras dentro de si. Ora, minha esperança permanecia mais intacta -e ao mesmo tempo que a seção se realizava melhor se não encontrava Gilberte. Se eu me encontrasse de cara com ela na casa da mãe, talvez trocássemos palavras irreparáveis que fizéssemos definitiva a nossa briga, matassem minha esperança e, por outro lado, criando nova ansiedade, despertassem e tornassem mais difícil a minha resignação. Há muito tempo, e bem antes de minha briga com sua filha, a Sra. Swann me dissera:
"Faz muito bem em vir ver Gilberte, mas também gostaria que viesse por mim, não ao meu
Choufleury, onde você se aborreceria porque há gente demais, mas nos outros dias em que há de
me encontrar sempre um pouco tarde".
Assim, ao visitá-la, parecia apenas obedecer, muito tempo depois, o desejo antigo
expresso por ela. E bem tarde, já noite fechada, quase no momento em que meus pais se
punham à mesa, eu ia fazer uma visita à Sra. Swann; durante a qual sabia que não veria Gilberte
e em que, no entanto, só pensaria naquele bairro, então tido como afastado, de uma Paris mais
sombria que hoje; onde, mesmo no centro, não havia eletricidade na via pública e bem próxima
nas casas, as lâmpadas de um salão situado no andar térreo ou num sótão baixo (como era o dos
apartamentos onde a Sra. Swann normalmente bastavam para iluminar a rua e para fazer erguer
os olhos dos transeuntes), ligavam a sua claridade, como a sua causa aparente e velada, à
presença diante da porta de alguns cupês bem atrelados. O transeunte acreditava, e não sem
uma emoção, numa modificação ocorrida nessa causa misteriosa, quando via esses cupês pôr-se
em movimento; mas era apenas um cocheiro que, temendo, os animais ficassem com frio, faziaos dar algumas voltas de vez em quando, tanto mais impressionantes que as rodas forradas de
borracha davam ao passar dos cavalos um fundo de silêncio sobre o qual ele se destacava mais
distinto do que o "jardim de inverno" que naquele tempo o transeunte em geral observava,
qualquer que fosse a rua, se o apartamento não estivesse em nível muito da calçada, só se via
nas heliogravuras dos livros de P-J. Stahl dados como nos quais, em contraste com os raros
ornamentos florais dos salões Luís hoje - uma rosa ou um íris do Japão num jarro de cristal de
gargalo começado não podia conter uma só flor a mais -, parece, devido à profusão das plantas
caseiras que então havia e da falta absoluta de estilização em seu arranjo, ter correspondido, para
as donas de casa, mais a uma viva e deliciosa paixão pela botânica do que a uma fria
preocupação com uma decoração sombria. Fazia pensar, em ponto maior, nos palacetes de
então, nessas pequeninas estufas portáteis, colocadas na manhã de 1° de janeiro sob a lâmpada
acesa, não tendo as crianças paciência para esperar que amanheça-, nomeio de outros presentes
do dia de Ano Novo, e que, embora fosse dada, não às crianças e sim à Srta. Lili, heroína do livro,
encantava-as a tal ponto que, sendo agora quase velhos, perguntavam-se se naqueles anos
afortunados o inverno não teria sido a mais bela das estações. Afinal, no fundo desse jardim de
inverno, através das arborescências de espécies variadas que faziam a janela iluminada parecer,
vista da rua, a vidraça dessas estufas para crianças, desenhadas ou reais, o transeunte, pondo-se
na ponta dos pés, em geral percebia um homem de sobrecasaca, com uma gardênia ou um cravo
na botoeira, de pé diante de uma mulher sentada, ambos indefinidos como dois entalhes num
topázio, ao fundo da atmosfera do salão, ambarizada pelo samovar de importação recente, à
época-de vapores que dele se escapam talvez ainda hoje, mas em que, devido ao hábito,
ninguém mais reparava. A Sra. Swann valorizava muito esse "chá"; julgava mostrar originalidade e
irradiar encanto ao dizer a um homem:
- O senhor me encontrará todos os dias um pouco tarde, venha tomar chá -, de modo que
acompanhava com um sorriso fino e doce essas palavras, pronunciadas com um ligeiro acento
inglês, e de que o seu interlocutor tomava nota, cumprimentando com ar grave, como se fossem
algo importante e singular que impusesse a deferência e exigisse atenção. Havia um outro motivo
além dos já mencionados e para o qual as flores só tinham um caráter de ornamento no salão da
Sra. Swann; esse motivo não dizia respeito à época e sim, em parte, à vida que Odette levara
antigamente. Uma grande cocote, como ela o fora, vive muito para seus amantes, ou seja, em
casa, o que pode levá-la a viver para si mesma. As coisas que se veem na casa de uma mulher
honesta e que certamente podem também lhe parecer importantes, são as que, em todo caso,
têm o maior valor para o cocote. O ponto culminante do seu dia é, não aquele em que se veste
para a sociedade, mas aquele em que se despe para um homem. É necessário que seja tão
elegante de chambre, de camisola, como em roupa de sair. Outras mulheres mostram suas joias;
porém, ela vive na intimidade de suas pérolas. Esse tipo de vida impõe a obrigação - e acaba por
dar o gosto de um luxo secreto, isto é, bem próximo de ser desinteressado. A Sra. Swann o
estendia às flores. Perto de sua poltrona havia sempre uma imensa taça de cristal, totalmente
cheia de violetas de Parma ou de margaridas desfolhadas na água e que parecia testemunhar aos
olhos do recém-chegado alguma ocupação predileta e interrompida, como o teria sido a taça de
chá que a Sra. Swann bebera a noite para seu próprio prazer; uma ocupação até mais íntima e
misteriosa, de tal modo que tinha-se vontade de pedir desculpas ao ver as flores ali expostas, o
que faríamos ao olhar o título de um livro ainda aberto que tivesse revelado a recente leitura e,
portanto, talvez o pensamento atual de Odette. E mais que o livro, as viviam; ficava-se
constrangido, ao entrar para fazer uma visita à Sra. Swann, perceber que ela não estava sozinha
ou, se se voltasse para casa com ela, por encontrar o salão vazio, de tal forma essas flores aí
ocupavam um lugar exigente referindo-se às horas da vida da dona da casa que não eram
conhecidas das flores, que não tinham sido preparadas para as visitas de Odette mas ali estavam
como que esquecidas por ela, tinham tido e ainda teriam com ela conversas para lares que a
gente receava perturbar e cujo segredo em vão tentaria ler, fixando os olhos a cor desbotada,
líqüida, malva e dissolvida das violetas de Parma.
Em fins de outubro, Odette voltava para casa o mais regularmente que podia, tomar chá,
que naqueles tempos ainda era denominado ''o chá das cinco'', ouvido dizer (e gostando de
repetir) que, se a Sra. Verdurin organizara um salão, porque todos estavam sempre seguros de
encontrá-la em casa à mesma hora; imaginava Odette ter um, do mesmo gênero, porém mais
livre, sem rigor, conforme gostava de dizer. Via-se, assim, como uma espécie de Lespinasse e
julho; ter fundado um salão rival ao roubar ao pequeno grupo da Du Deffand seus agradáveis
homens, especialmente Swann, que a seguira em sua separação enamorada, segundo uma
versão que se compreende tenha conseguido fazer ser ágil pelos novos amigos, ignorantes do
seu passado, mas não por ela própria certos papéis prediletos são desempenhados por nós
tantas vezes perante a sociedade, e repassados outro tanto dentro de nós, que nos referimos
mais facilmente não à seu depoimento fictício que ao de uma realidade quase inteiramente
esquecida. Nos dias em que a Sra. Swann absolutamente não saía, podia ser encontrada
vestindo um chambre de crepe da China, branco feito a primeira nevada, e às vezes, também um
desses longos encanudados de musselina de seda semelhante uma juncada de pétalas rosas ou
alvas, e que hoje seriam considerados, sem motivo, pouco apropriados para o inverno. Pois tais
fazendas leves e essas cores davam à mulher no grande calor dos salões, então fechados com
reposteir, sobre os quais o que os romancistas mundanos da época encontravam de mais
elegante para dizer é que eram "delicadamente acolchoados" -o mesmo artifício das rosas que ali
podiam ficar a seu lado, apesar do inverno, no encarnado de nudez, como na primavera. Por
causa do abafamento dos sons pelos tapetes e isolamento da dona da casa em recantos do
salão, esta não era avisada da entrada como hoje, e continuava a ler enquanto a gente já estava
quase diante dela, o que vinha aumentar ainda essa impressão de romanesco, o encanto de uma
espécie de segredo surpreendido, que hoje encontramos na lembrança daquelas roupas já então
fora de moda, que a Sra. Swann era talvez a única a não ter abandonado, e que nos dão a ideia
de que a mulher que as usava devia ser uma heroína de romance, porque, em sua maioria, nós
as vimos apenas em certos romances de Henry Gréville. Odette agora tinha em seu salão, no
começo do inverno, enormes crisântemos de uma variedade de cores como Swann não vira
outrora em sua casa. Minha admiração por eles-quando fazia à Sra. Swann uma daquelas tristes
visitas em que, devido ao meu desgosto, reencontrava toda a sua misteriosa poesia de mãe
dessa Gilberte a quem ela diria no dia seguinte:
"Teu amigo me fez uma visita" - provinha sem dúvida de que, cor-de-rosa pálido como a
seda Luís XV de suas poltronas, de uma alvura de neve como seu chambre de crepe da China, ou
de um rubro metálico feito o seu samovar, eles sobrepunham uma decoração suplementar à do
salão, decoração de um colorido também rico e requintado, porém viva, e que só haveria de durar
alguns dias. Mas eu me sentia tocado pelo que esses crisântemos possuíam menos de efêmero
que de relativamente duradouro em relação a esses tons, tão róseos ou tão acobreados, que o sol
posto exaltado de modo tão suntuoso na névoa dos fins de tarde de novembro e que, depois de
os ter visto extinguindo-se no céu, antes de entrar na casa da Sra. Swann, encontrava
prolongados, transpostos na palheta inflamada das flores. Como fogos arrancados por um grande
colorista à instabilidade da atmosfera e do sol, a fim de que fossem ornar uma residência humana,
eles me convidavam, esses crisântemos, e apesar de toda minha tristeza, a desfrutar avidamente
durante aquela hora do chá os prazeres tão curtos de novembro, cujo esplendor íntimo e
misterioso faziam flamejar perto de mim. Infelizmente, não era nas conversas que ouvia que eu
podia alcançá-los; pareciam-se bem pouco a eles. Mesmo na companhia da Sra. Cottard e apesar
do adiantado da hora, a Sra. Swann se tornava carinhosa para dizer:
- Mas não, não é tarde, não olhe para o pêndulo, não está na hora, está parado; que tem
de tão urgente para fazer? -e oferecia uma tortazinha recheada à esposa do professor, que
segurava o seu porta-cartões.
- Não se pode mais ir embora desta casa - dizia a Sra. Bontemps à Sra. Swann, ao passo
que a Sra. Cottard, na surpresa de ouvir expressar sua própria opinião, exclamava:
- É o que me digo sempre no meu juízo, no meu foro íntimo! - sendo aprovada pelos
senhores do Jockey que se haviam confundido em saudações, e como que cumulados de tanta
honra, quando a Sra. Swann os apresentara a essa burguesinha pouco amável, que, diante dos
brilhantes amigos de Odette, mantinha-se na reserva, senão no que ela denominava "defensiva",
pois sempre usava uma linguagem nobre para as coisas mais simples.
- Quem diria? Faz três quartas-feiras que a senhora me rói a corda - dizia a Sra. Swann à
Sra. Cottard.
- É verdade, Odette, faz séculos, eternidades que não a vejo. Bem vê que me confesso
culpada, mas devo dizer-lhe - acrescentava com ar recatado e vago, pois, embora mulher de
médico, não ousaria falar, sem paráfrases, do reumatismo ou das cólicas dos rins - que tenho tido
pequenos problemas. Cada um tem os seus. E depois, tive uma crise em minha domesticidade
masculina. Sem ter maior noção da minha autoridade que qualquer outra, tive, para dar um
exemplo, de mandar e meu Vatel, que aliás creio que procurava um posto mais lucrativo. Mas sua
ausência arrastou a demissão de todo o ministério. Minha criada de quarto também queria ficar,
houve cenas homéricas. Apesar de tudo, mantive a direção com firmeza; trata-se de uma
verdadeira lição de coisas que não foi em vão. Aborreço-a com essas histórias de criados, mas
você sabe tão bem que balbúrdia é ser a gente obrigada a proceder a remanejamento em nosso
pessoal. E não veremos a sua deliciosa filha? perguntava. - Não. - respondia Swann -, minha deliciosa filha está jantando na casa de uma amiga. -E
acrescentava, voltando-se para mim: - Acho que ela lhe escreveu para que viesse vê-la.
- E seus bailes? - Indagava à esposa do professor.
Eu respirava fundo. Essa fala da Sra. Swann, provando que poderia ver Gilberte quando
quisesse, faz exatamente o bem que ali fora procurar, e que me tornavam tão necessitado de
visitas à Sra. Swann àquela época.
- Não, vou lhe escrever um bilhete. Aliás, Gilberte e eu não podemos nos ver mais - acrescentava, dando a impressão de atribuir nossa separação a uma causa misteriosa, o que me
dava ainda a ilusão de amor, alimentada assim pela maneira carinhosa com que falava dela e com
a qual ela falava de mim.
- Você sabe que ela o ama infinitamente - dizia a Sra. Swann. - Não quer mesmo vir
amanhã? - De súbito uma alegria me instigava: acabava de dizer a mim mesmo: "Mas, depois de
tudo, por que não; viu é sua própria mãe que me faz a proposta?" Porém, logo recaía na minha
consciência. Temia que, ao me ver, Gilberte pensasse que minha indiferença dos últimos dias fora
simulada, e eu preferia prolongar a separação. Durante esse a parte Bontemps se queixava do
aborrecimento que lhe causavam as mulheres dos médicos, pois ela afetava achar todo mundo
maçante e ridículo, e de estar com a posição do marido:
- Então a senhora pode receber sem mais nem menos cinqüenta mulheres de médicos de
enfiada - dizia ela à Sra. Cottard, ao contrário, era cheia de benevolência para todos e respeitava
todas as obrigações.
- Ah, a senhora é virtuosa. Quanto a mim, no Ministério, naturalmente sou social, não é?
Muito bem! É mais forte que eu, a senhora sabe, essas mulheres de funcionários, não posso
deixar de lhes mostrar a língua. E minha sobrinha, como eu. Nem imagina como é atrevida essa
menina. Na semana passada no meu dia tinha a visita da mulher do subsecretário de Estado das
Finanças, que dizia não dar nada de cozinha. - Mas, minha senhora respondeu minha sobrinha
sorriso mais gracioso -, deveria no entanto saber do que se trata, visto que era ajudante de
cozinheiro.
Oh, gosto muito dessa história, acho-a bem divertida - dizia a Sra. Swann. - Mas, pelo
menos para os dias de consulta deveria ter a sua pequena honra, com suas flores, seus livros, as
coisas que gosta. - aconselhava ela à Sra. Cottard. - É como lhe digo: Pimbal! Na cara dela não
anda com meias medidas. E aquela pequena mascarada não merece nada de coisa alguma; é
astuta feito um macaco. A senhora tem a felicidade de saber conter-se; invejo as pessoas que
sabem disfarçar seu pensamento.
- Mas não tenho necessidade disso, senhora: não sou tão difícil - respondia com doçura a
Sra. Cottard. - Primeiro, não tenho os mesmos direitos que a senhora - acrescentava com um tom
de voz um pouco mais forte que assumia, a fim de as sublinhar, cada vez que insinuava na
conversa algumas dessas amabilidades delicadas, desses engenhosos elogios que causavam
admiração e ajudavam a carreira do marido.- E, além disso, faço com prazer tudo o que pode ser
útil à carreira do professor.
- Mas é para quem pode. Provavelmente a senhora não é nervosa. Eu, quando vejo a
senhora do ministro da Guerra fazer caretas, imediatamente me ponho a imitá-la. É terrível ter um
temperamento assim.
- Ah, sim - disse a Sra. Cottard -, ouvi dizer que ela tem tiques; meu marido também
conhece alguém altamente colocado e, naturalmente, quando esses senhores conversam entre
si...
- Mas olhe, senhora; há ainda o chefe do Protocolo, que é corcunda. É inevitável! Mal está cinco minutos na minha casa e já vou tocar na sua corcunda. Meu marido diz que vou fazer com que o demitam. Ora bolas, abaixo o Ministério!
- Mas olhe, senhora; há ainda o chefe do Protocolo, que é corcunda. É inevitável! Mal está cinco minutos na minha casa e já vou tocar na sua corcunda. Meu marido diz que vou fazer com que o demitam. Ora bolas, abaixo o Ministério!
- Sim, abaixo o Ministério! Gostaria de botar isso como divisa em meu papel de cartas.
Tenho certeza de que a estou escandalizando, porque é uma boa pessoa. Quanto a mim,
confesso que nada me diverte tanto como as pequenas maldades. Sem isso, a vida seria bem
monótona.
E continuava a falar o tempo todo do ministério como se se tratasse do Olimpo. Para
mudar de conversa, a Sra. Swann virava-se para a Sra. Cottard:
- Mas você me parece bem bonita. Redfemfecit?
- Não, você sabe que sou adepta fervorosa do Raudnitz. Aliás, é uma reforma.
- Muito bem! É de um chique!
-Quanto acha que foi? Não, mude o primeiro algarismo.
- Como? Mas foi por nada, foi dado. Disseram-me três vezes mais.
- Eis como se escreve a História - concluía a esposa do doutor. E mostrando à Sra. Swann
uma manta com que esta a presenteara: - Olhe, Odette. Não está reconhecendo? - na abertura de uma cortina, mostrava-se uma cabeça com cerimoniosa deferência, fingindo por
gracejo estar com medo de incomodar: era Swann - Odette, o Príncipe de Agrigento, que está
comigo no gabinete, pergunta se pode vir lhe prestar suas homenagens. Que devo lhe responder?
- Ficaria encantada! - dizia Odette com satisfação, sem abandonar a calma, o que lhe era tanto
mais fácil visto que sempre, mesmo quando era cocote, recebera homens elegantes.
continua na página 78...
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Leia também:
Volume 1
Volume 2
À Sombra das Moças em Flor (Ao Redor da Sra. Swann - p)
Volume 3Volume 4
Volume 5
Volume 6
Volume 7
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