quarta-feira, 3 de junho de 2026

Espumas Flutuantes - Os Anjos da Meia-Noite

Castro Alves

À memória de Meu Pai, 
de Minha Mãe 
e de Meu Irmão 
O. D. C. 

OS ANJOS DA MEIA-NOITE
 Fotografias

I
Quando a insônia, qual lívido vampiro, 
 Como o arcanjo da guarda do Sepulcro, 
 Vela à noite por nós, 
 E banha-se em suor o travesseiro, 
 E além geme nas franças do pinheiro 
 Da brisa a longa voz... 

 Quando sangrenta a luz no alampadário 
 Estala, cresce, expira, após ressurge, 
 Como uma alma a penar; 
 E canta aos guizos rubros da loucura 
 A febre — a meretriz da sepultura — 
 A rir e a soluçar... 

 Quando tudo vacila e se evapora, 
 Muda e se anima, vive e se transforma, 
 Cambaleia e se esvai... 
 E da sala na mágica penumbra...  
Um mundo em trevas rápido se obumbra... 
 E outro das trevas sai...

.....................................................................

Então... nos brancos mantos, que arregaçam 
 Da meia-noite os 
Anjos alvos passam 
 Em longa procissão! 
 E eu murmuro ao fitá-los assombrado: 
 São os Anjos de amor de meu passado 
 Que desfilando vão... 

 Almas, que um dia no meu peito ardente 
 Derramastes dos sonhos a semente, 
 Mulheres, que eu amei! 
 Anjos louros do céu! virgens serenas! 
 Madonas, Querubins, ou Madalenas! 
 Surgi! aparecei! 

 Vinde, fantasmas! Eu vos amo ainda; 
 Acorde-se a harmonia à noite infinda 
 Ao roto bandolim...

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E no éter, que em notas se perfuma, 
 As visões s’alteando uma por uma... 
 Vão desfilando assim!... 


1ª SOMBRA
Marieta

Como o gênio da noite, que desata 
 O véu de rendas sobre a espádua nua, 
 Ela solta os cabelos... Bate a lua 
 Nas alvas dobras de um lençol de prata... 

 O seio virginal, que a mão recata, 
 Embalde o prende a mão... cresce, flutua... 
 Sonha a moça ao relento... Além na rua 
 Preludia um violão na serenata!...

 ... Furtivos passos morrem no lajedo... 
 Resvala a escada do balcão discreta... 
 Matam lábios os beijos em segredo... 

 Afoga-me os suspiros, Marieta! 
 Oh surpresa! oh palor! oh pranto! oh medo! 
 Ai! noites de Romeu e Julieta!...  

2ª SOMBRA
Bárbara

Erguendo o cálixe, que o Xerez perfuma, 
 Loura a trança alastrando-lhe os joelhos, 
 Dentes níveos em lábios tão vermelhos, 
 Como boiando em purpurina escuma; 

 Um dorso de Valquíria... alvo de bruma, 
 Pequenos pés sob infantis artelhos, 
 Olhos vivos, tão vivos, como espelhos, 
 Mas como eles também sem chama alguma; 

 Garganta de um palor alabastrino, 
 Que harmonias e músicas respira... 
 No lábio — um beijo... no beijar — um hino; 

 Harpa eólia a esperar que o vento a fira, 
 — Um pedaço de mármore divino... 
 E o retrato de Bárbara — a Hetaira.— 

3ª SOMBRA
Ester

Vem! no teu peito cálido e brilhante 
 O nardo oriental melhor transpira!... 
 Enrola-te na longa caxemira, 
 Como as Judias moles do Levante, 

 Alva a clâmide aos ventos — roçagante..., 
 Túmido o lábio, onde o saltério gira... 
 Ó musa de Israel! pega da lira... 
 Canta os martírios de teu povo errante! 

 Mas não... brisa da pátria além revoa, 
 E ao delamber-lhe o braço alabastro, 
 Falou-lhe de partir... e parte... e voa... 

 Qual nas algas marinhas desce um astro... 
 Linda Ester! teu perfil se esvai... s’escoa... 
 Só me resta um perfume... um canto... um rastro... 

4ª SOMBRA
Fabíola

Como teu riso dói... como na treva 
 Os lêmures respondem no infinito: 
 Tens o aspecto do pássaro maldito,  
Que em sânie de cadáveres se ceva! 

 Filha da noite! A ventania leva 
 Um soluço de amor pungente, aflito... 
 Fabíola! É teu nome!... Escuta... é um grito, 
 Que lacerante para os céus s’eleva!... 

 E tu folgas, Bacante dos amores, 
 E a orgia, que a mantilha te arregaça, 
 Enche a noite de horror, de mais horrores... 
 
É sangue, que referve-te na taça! 
 É sangue, que borrifa-te estas flores! 
 E este sangue é meu sangue... é meu... Desgraça! 

5ª e 6ª SOMBRAS

Como no tanque de um palácio mago, 
 Dous alvos cisnes na bacia lisa, 
 Como nas águas, que o barqueiro frisa, 
 Dous nenúfares sobre o azul do lago, 

 Como nas hastes em balouço vago 
 Dous lírios roxos, que acalenta a brisa, 
 Como um casal de juritis, que pisa 
 O mesmo ramo no amoroso afago..., 

 Quais dous planetas na cerúlea esfera, 
 Como os primeiros pâmpanos das vinhas, 
 Como os renovos nos ramais da hera, 

 Eu vos vejo passar nas noites minhas, 
 Crianças, que trazeis-me a primavera... 
 Crianças, que lembrais-me as andorinhas!... 

7ª SOMBRA
Dulce

Se houvesse ainda talismã bendito, 
 Que desse ao pântano — a corrente pura, 
 Musgo — ao rochedo, festa — à sepultura, 
 Das águias negras — harmonia ao grito..., 

 Se alguém pudesse ao infeliz precito 
 Dar lugar no banquete da ventura... 
 E trocar-lhe o velar da insônia escura 
 No poema dos beijos — infinito...,  

Certo... serias tu, donzela casta, 
 Quem me tomasse em meio do Calvário 
 A cruz de angústias, que o meu ser arrasta!... 

 Mas se tudo recusa-me o fadário, 
 Na hora de expirar, ó Dulce, basta 
 Morrer beijando a cruz de teu rosário!... 

8ª SOMBRA
Último Fantasma

Quem és tu, quem és tu, vulto gracioso, 
 Que te elevas da noite na orvalhada? 
 Tens a face nas sombras mergulhada... 
 Sobre as névoas te libras vaporoso... 
 
Baixas do céu num voo harmonioso!... 
 Quem és tu, bela e branca desposada? 
 Da laranjeira em flor a flor nevada 
 Cerca-te a fronte, ó ser misterioso!... 
 
Onde nos vimos nós?... És doutra esfera? 
 És o ser que eu busquei do sul ao norte... 
 Por quem meu peito em sonhos desespera?... 

 Quem és tu? Quem és tu? — És minha sorte! 
 És talvez o ideal que est’alma espera! 
 És a glória talvez! Talvez a morte!... 
 Santa Isabel, agosto de 187

continua pag 63...
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A Luís / As duas ilhas / Os Anjos da Meia-Noite /                         
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.

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