quarta-feira, 3 de junho de 2026

Moby Dick: 63 - A Forquilha

Moby Dick

Herman Melville

63 - A Forquilha
     Dos troncos crescem os galhos; e destes, os ramos. Da mesma forma, de assuntos fecundos, crescem os capítulos.
     A forquilha a que me referi em página anterior merece uma atenção especial. É um bastão entalhado com uma forma específica, de cerca de dois pés de comprimento, que é instalado perpendicularmente na amurada a estibordo, próximo à proa, com o propósito de servir de apoio para a extremidade de madeira do arpão, cuja ponta nua e farpada se projeta inclinada da proa. Desse modo, a arma fica à mão do lançador, que pode tomá-la de seu suporte tão prontamente quanto um homem do bosque alcança seu rifle pendurado na parede. É costume manter dois arpões presos à forquilha, os respectivamente chamados primeiro e segundo ferros.
     Mas esses dois arpões, cada qual por sua própria vioneira, estão ambos ligados à ostaxa; sendo este seu objetivo: de lançá-los, se possível, um imediatamente após o outro na mesma baleia; de tal modo que, caso um não aguente o esforço subsequente, o outro se mantenha firme. É uma duplicação das possibilidades. Mas com muita frequência acontece que, devido à fuga imediata, violenta e convulsiva da baleia ao receber o primeiro ferro, se torna impossível para o arpoador, ainda que rápido como um raio em seus movimentos, lançar-lhe o segundo ferro. Não obstante, como o segundo ferro está ligado à ostaxa, e a ostaxa está correndo, a arma deve, em quaisquer circunstâncias, ser atirada de pronto para fora do bote, não importando como; de outro modo, os mais terríveis perigos poderiam acometer a tripulação inteira. Atirá-la na água é o mais adequado para tais casos; as voltas sobressalentes da ostaxa de caixa (mencionadas no capítulo anterior) tornam esse ato, no mais das vezes, uma precaução possível. Mas esse gesto decisivo nem sempre evita as mais tristes e fatais desgraças. 
     Além disso, você deve saber que, quando o segundo ferro é atirado para fora do bote, ele se torna então um imprevisível terror pontiagudo; curveteando nervoso junto ao bote e à baleia, embaraçando as linhas, ou cortando-as, e produzindo uma prodigiosa sensação em todas as direções. Tampouco, geralmente, é possível recuperá-lo antes que a baleia seja capturada e morta.
     Pense, então, como deve ser no caso de quatro botes, todos engajados em uma baleia conhecida, agitada e extremamente forte; quando, devido a essas suas qualidades, bem como aos milhares de acidentes que sujeitam uma empreitada tão audaciosa, oito ou dez segundos ferros soltos podem estar à deriva em suas proximidades. Pois, é claro, cada bote dispõe de vários arpões para prender à ostaxa, caso o primeiro seja atirado em vão e não possa ser recuperado. Todos esses detalhes foram fielmente relatados aqui, pois não nos faltarão para esclarecer alguns dos mais importantes, porém complicados, pontos nas cenas que adiante serão descritas.

Continua na página 281...
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Leia também:
Moby Dick: Etimologia, Excertos, Citações / Moby Dick: 1  - Miragens
63 - A Forquilha /          
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Moby Dick é um romance do escritor estadunidense Herman Melville, sobre um cachalote (grande animal marinho) de cor branca que foi perseguido, e mesmo ferido várias vezes por baleeiros, conseguiu se defender e destruí-los, nas aventuras narradas pelo marinheiro Ishmael junto com o Capitão Ahab e o primeiro imediato Starbuck a bordo do baleeiro Pequod. Originalmente foi publicado em três fascículos com o título "Moby-Dick, A Baleia" em Londres e em Nova York em 1851.
O livro foi revolucionário para a época, com descrições intrincadas e imaginativas do personagem-narrador, suas reflexões pessoais e grandes trechos de não-ficção, sobre variados assuntos, como baleias, métodos de caça a elas, arpões, a cor do animal, detalhes sobre as embarcações, funcionamentos e armazenamento de produtos extraídos das baleias. O romance foi inspirado no naufrágio do navio Essex, comandado pelo capitão George Pollard, que perseguiu teimosamente uma baleia e ao tentar destruí-la, afundou. Outra fonte de inspiração foi o cachalote albino Mocha Dick, supostamente morta na década de 1830 ao largo da ilha chilena de Mocha, que se defendia dos navios que a perturbavam. A obra foi inicialmente mal recebida pelos críticos, assim como pelo público por ser a visão unicamente destrutiva do ser humano contra os seres marinhos. O sabor da amarga aventura e o quanto o homem pode ser mortal por razões tolas como o instinto animal, sendo capaz de criar seus fantasmas justamente por sua pretensão e soberba, pode valer a leitura.

E você com o quê se identifica?

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