sexta-feira, 26 de junho de 2026

Moby Dick: 66 - O massacre dos tubarões

Moby Dick

Herman Melville

66 - O massacre dos tubarões
    Quando nas pescarias do Sul, um Cachalote capturado, após um trabalho muito prolongado e cansativo, é trazido ao costado do navio tarde da noite, não se costuma, em geral, dar início aos procedimentos de corte na mesma hora. Pois essa tarefa é realmente muito árdua; não termina com muita rapidez; e requer a participação de todos. Por conseguinte, o costume é ferrar as velas; prender o leme a sotavento; e então mandar todos para suas redes até o dia amanhecer, com a ressalva de que, até essa hora, deve ser mantida a vigília; ou seja, de dois em dois, a cada hora, os homens devem subir ao convés para ver se está tudo em ordem.
     Mas às vezes, especialmente no Pacífico equatorial, esse esquema não traz resultados; porque incontáveis hostes de tubarões se reúnem em torno da carcaça atracada, que se deixada desse modo por cerca de seis horas, digamos, corridas, pouco mais do que seu esqueleto seria encontrado na manhã seguinte. Em boa parte de outras paragens do oceano, no entanto, onde tais peixes não existem em abundância, sua espantosa voracidade pode por vezes ser consideravelmente esmaecida, caso sejam fustigados energicamente com as afiadas pás de baleia, um procedimento que contudo, em alguns casos, parece apenas incitá-los ainda mais. Mas não era isso que acontecia naquele momento com os tubarões do Pequod; já que, para falar a verdade, qualquer pessoa que não estivesse habituada àquele espetáculo, só de olhar sobre o costado naquela noite quase chegaria à conclusão de que a grande superfície esférica do mar era um único e imenso queijo, e os tubarões, seus vermes.
     Não obstante, com Stubb montando a vigília depois de finda a ceia; e quando, depois, Queequeg e um marinheiro do castelo de proa subiram ao convés, não pouco alvoroço havia entre os tubarões; pois, suspendendo de pronto os cortes sobre o costado, e descendo três lamparinas, de modo a lançar longos fachos de luz por sobre o mar conturbado, os dois marujos, arremessando suas compridas pás de baleias, iniciaram uma interminável chacina de tubarões, acertando o aço afiado bem fundo em seus crânios,{a} aparentemente seu único ponto vital. Mas, em meio àquela confusão espumante de misturadas hostes rivais, os atiradores nem sempre conseguiam acertar o alvo; e isso trazia à tona novas revelações acerca da incrível ferocidade do inimigo. Mordiam com voracidade não somente as entranhas dos companheiros estripados, mas, como arcos flexíveis, curvavam se e mordiam suas próprias; a tal ponto que aquelas entranhas pareciam estar sendo sempre engolidas pela mesma boca, para serem depois expelidas pela ferida aberta. Mas isso não era tudo. Era perigoso mexer com os cadáveres e os espíritos dessas criaturas. Uma espécie de vitalidade genérica ou Panteística parecia à espreita em suas juntas e ossos, depois de a chamada vida individual ter partido. Morto e trazido para o convés, em função de sua pele, um desses tubarões quase arrancou a mão do pobre Queequeg, quando ele tentou fechar a tampa morta de sua mandíbula assassina.

{a} A pá de baleia usada no corte é feita do melhor aço; tem mais ou menos o tamanho de uma mão humana aberta; e sua forma corresponde, em geral, a instrumentos de jardinagem, dos quais emprestou o nome; somente os lados são perfeitamente planos, e a extremidade superior consideravelmente mais estreita do que a inferior. Tal arma está sempre tão afiada quanto possível; e, quando usada, é às vezes amolada, como se fosse uma navalha. Uma estaca de vinte a trinta pés de comprimento é colocada em sua embocadura, para servir de cabo. [N. A.]

“Pouco impo’ta pra Queequeg qual deus faz ele tubarão”, disse o selvagem sacudindo a mão machucada para cima e para baixo; “si foi um deus Fidjiano ou um de Nantucket; mas esse deus que faz tubarão deve de sê’ uma máquina maldita.”

Continua na página 293...
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Leia também:
Moby Dick: Etimologia, Excertos, Citações / Moby Dick: 1  - Miragens
63 - A Forquilha / 64 - A ceia de Stubb / 65 - A baleia como um prato / 66 - O massacre dos tubarões /                  
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Moby Dick é um romance do escritor estadunidense Herman Melville, sobre um cachalote (grande animal marinho) de cor branca que foi perseguido, e mesmo ferido várias vezes por baleeiros, conseguiu se defender e destruí-los, nas aventuras narradas pelo marinheiro Ishmael junto com o Capitão Ahab e o primeiro imediato Starbuck a bordo do baleeiro Pequod. Originalmente foi publicado em três fascículos com o título "Moby-Dick, A Baleia" em Londres e em Nova York em 1851.
O livro foi revolucionário para a época, com descrições intrincadas e imaginativas do personagem-narrador, suas reflexões pessoais e grandes trechos de não-ficção, sobre variados assuntos, como baleias, métodos de caça a elas, arpões, a cor do animal, detalhes sobre as embarcações, funcionamentos e armazenamento de produtos extraídos das baleias. O romance foi inspirado no naufrágio do navio Essex, comandado pelo capitão George Pollard, que perseguiu teimosamente uma baleia e ao tentar destruí-la, afundou. Outra fonte de inspiração foi o cachalote albino Mocha Dick, supostamente morta na década de 1830 ao largo da ilha chilena de Mocha, que se defendia dos navios que a perturbavam. A obra foi inicialmente mal recebida pelos críticos, assim como pelo público por ser a visão unicamente destrutiva do ser humano contra os seres marinhos. O sabor da amarga aventura e o quanto o homem pode ser mortal por razões tolas como o instinto animal, sendo capaz de criar seus fantasmas justamente por sua pretensão e soberba, pode valer a leitura.

E você com o quê se identifica?

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