segunda-feira, 3 de julho de 2023

Ulisses - Parte 1 (2b): A mão de Stephen

Ulisses

James Joyce

Parte 1

2

continuando...

A mão de Stephen, novamente livre, voltou para as conchas ocas. Símbolos também de beleza e poder. Um bocado no meu bolso: símbolos manchados por cobiça e miséria.

– Não leve seu dinheiro desse jeito – disse o Sr. Deasy. – Você vai tirá-lo em algum lugar e perdê-lo. Compre simplesmente uma dessas engenhocas. Você vai ver que elas são muito úteis.

Responda alguma coisa.

– A minha ficaria freqüentemente vazia – disse Stephen.

A mesma sala e hora, a mesma sabedoria: e eu o mesmo. Três vezes agora. Três cadeias à minha volta aqui. E então? Eu posso rompê-las neste instante se eu quiser.

– Porque você não economiza – disse o Sr. Deasy, apontando com o dedo. – Você não sabe ainda o que é o dinheiro. Dinheiro é poder. Quando você tiver vivido tanto quanto eu. Eu sei, eu sei. Se ao menos a mocidade soubesse. Mas o que diz Shakespeare? Ponha apenas dinheiro em sua carteira.

– Iago – murmurou Stephen.

Ele ergueu os olhos das conchas ociosas para o olhar fixo do velho homem.

– Ele sabia o que o dinheiro era – disse o Sr. Deasy. – Ele ganhou dinheiro. Um poeta, sim, mas um inglês também. Você sabe qual é o orgulho dos ingleses? Você sabe qual é a palavra mais altiva que você pode ouvir da boca de um inglês?

O senhor dos mares. Seus olhos marfrios olharam para a baía vazia: parece que é culpa da história: sobre mim e sobre as minhas palavras, sem ódio.

– Que no seu império – disse Stephen – o sol nunca se põe.

– Bolas! – gritou o Sr. Deasy. – Isso não é inglês. Um celta francês disse isso.

Ele deu umas pancadinhas com sua caixinha de níqueis de encontro à unha do seu polegar.

– Eu vou lhe dizer – disse ele solenemente – qual é a sua bazófia mais altiva. Eu paguei a minha parte.

Bom homem, bom homem.

– Eu paguei a minha parte. Eu nunca pedi um shilling emprestado em toda a minha vida. Você pode sentir isso? Eu não devo nada. Você pode?

Mulligan, nove libras, três pares de meias, um par de borzeguins, gravatas. Curran, dez guinéus. MacCann, um guinéu. Fred Ryan, dois shillings. Temple, dois almoços. Russell, um guinéu, Cousins, dez shillings, Bob Reynolds, meio guinéu, Kohler, três guinéus, a Sra. McKernan, cinco semanas de alojamento. O punhado que eu tenho é inútil.

– No momento, não – respondeu Stephen.

O Sr. Deasy riu com puro encantamento, guardando de volta a caixinha de níqueis.

– Eu sabia que você não podia – disse ele alegremente. – Mas um dia você precisa sentir isso. Nós somos um povo generoso mas também precisamos ser justos.

– Eu temo essas grandes palavras – disse Stephen – que nos tornam tão infelizes.

Por alguns momentos o Sr. Deasy fitou severamente acima do aparador a magnitude bem proporcionada de um homem de saiote escocês axadrezado: Alberto Eduardo, príncipe de Gales.

– Você me considera um velho antiquado e um velho tóri – disse sua voz pensativa. – Eu vi três gerações desde o tempo de O’Connell. Eu me lembro da praga da fome em 46. Você sabia que os núcleos orange agitaram a opinião pública em favor da revogação do Ato de União vinte anos antes que O’Connell o fizesse ou antes que os prelados de sua confraria o denunciassem como demagogo? Vocês fenianos esquecem algumas coisas.

Memória gloriosa, piedosa e imortal. O núcleo de Diamond em Armagh, a esplêndida, ornado de cadáveres de papistas. O juramento de lealdade dos fazendeiros ásperos, mascarados e armados até os dentes. O norte protestante-reacionário e os verdadeiros presbiterianos escoceses legalistas da bíblia. Submetam-se cabeças tosadas.
Stephen esboçou um gesto rápido.

– Eu também tenho sangue rebelde em mim – disse o Sr. Deasy. – Do lado materno. Mas eu descendo de sir John Blackwood que votou em favor da união. Nós somos todos irlandeses, todos filhos de reis.

– Ai de mim – disse Stephen.

– Per vias rectas – disse o Sr. Deasy firmemente –, era o seu lema. Ele votou em favor disso e para fazê-lo pôs suas botas de montar e cavalgou de Ards of Down até Dublin.

Trota, trota meu rocim
E me leva até Dublin.

Um fidalgo rural mal-humorado a cavalo com suas botas reluzentes. Um dia ameno, sir John! Um dia ameno, Excelência!... Dia!... Dia!... Duas botas de montar vão aos solavancos até Dublin. Trota, trota meu rocim. Trota, trota para mim.

– Isso me lembra uma coisa – disse o Sr. Deasy. – O senhor pode me fazer um favor, Sr. Dedalus, com alguns de seus amigos intelectuais. Eu tenho uma carta aqui para os jornais. Sente-se um momento. Eu só tenho que copiar o fim.

Ele foi para a mesa perto da janela, puxou duas vezes sua cadeira e leu algumas palavras da folha de papel no cilindro da máquina de escrever.

– Sente-se e me desculpe – disse ele por cima do ombro – os ditames do bom senso. Só um instante.

Por sob suas sobrancelhas hirsutas ele examinou o manuscrito ao seu lado e, resmungando, começou a aguilhoar lentamente as teclas rígidas do teclado, soprando às vezes quando acertava o cilindro para apagar um erro.

Stephen se sentou silenciosamente diante da presença principesca. Emolduradas nas paredes imagens de cavalos desaparecidos prestavam homenagem, com suas cabeças dóceis erguidas: Repulse, de lorde Hastings, Shotover, do duque de Westminster, Ceylon, prix de Paris, 1866, do duque de Beaufort. Cavaleiros elfos os montavam, atentos a um sinal. Ele viu a velocidade deles ao defender as cores da coroa, e gritou com os gritos das multidões desaparecidas.

– Ponto final – anunciou o Sr. Deasy às suas teclas. – Mas pronto debate desta questão de grande importância...

Lá onde Cranly me levou para ficar rico rapidamente, caçando seus favoritos entre as moitas salpicadas de lama, em meio aos gritos dos apontadores de apostas e à fumaça da cantina acima do lodo multicolorido. Fair Rebel! Fair Rebel! Dinheiro líquido no favorito: dez a um como ele ganha dos concorrentes. Passamos apressados pelos jogadores de dados e os trapaceiros que exploram o jogo de dedais, em busca das patas, bonés e jaquetas dos competidores e por uma mulher com cara de rodela-de-carne, mulher de um açougueiro, que enfiava avidamente seu focinho na metade de uma laranja.
Gritos agudos e o zunido de um apito soaram vindos do campo de esporte dos meninos.
De novo: um gol. Eu entre eles, entre seus corpos contendores numa mixórdia, o combate da vida. Você quer dizer aquele queridinho da mãe, cambaio, que parece estar ligeiramente de ressaca? Torneios. O tempo abalado repercute a cada impacto. Liças, lodo e rebuliço das batalhas, o gelado vômitomortal dos mortos, um brado de lanças alimentadas das entranhas sangrentas dos homens.

– Pois bem – disse o Sr. Deasy, erguendo-se.

Ele veio até a mesa, grampeou as folhas de papel. Stephen se levantou.

– Eu expus a questão em poucas palavras – disse o Sr. Deasy. – É sobre a febre aftosa. Só examine isso aqui. Não pode haver duas opiniões sobre este assunto.

Permita-me abusar de seu espaço valioso. Aquela doutrina de laissez faire que ocorre tão frequentemente em nossa história. O comércio de nosso gado. O processo de todas as nossas velhas indústrias. A corja de Liverpool que sabotou o projeto do porto de Galway. Conflagração europeia. Suprimentos de cereais através das águas estreitas do canal. A mais-que-perfeita imperturbabilidade do departamento de agricultura. Que me seja perdoada uma alusão clássica. Cassandra. Por uma mulher que não valia nem um pouco mais do que sua reputação. Para se chegar ao ponto em questão.

– Eu não tenho papas na língua, não é? – perguntou o Sr. Deasy enquanto Stephen continuava a ler.

Febre aftosa. Conhecida como preparado de Koch. Soro e vírus. Porcentagem de cavalos imunizados. Rinderpest. Peste bovina. Cavalos do imperador Mürzsteg, Áustria meridional. Cirurgiões veterinários. O Sr. Henry Blackwood Price. Oferta cortês de um julgamento honesto. Ditames do bom senso. Uma questão da maior importância. No sentido completo da palavra pegar o touro a unha. Agradecendo a hospitalidade de suas colunas.

– Eu quero que isso seja impresso e lido – disse o Sr. Deasy. – Você verá no próximo surto que eles vão embargar o gado irlandês. E ele pode ser curado. E é curável. Meu primo, Blackwood Price, me escreveu que na Áustria ele é regularmente tratado e curado pelos veterinários de gado. Eles se oferecem a vir para cá. Eu estou tentando influenciar o departamento. Agora eu vou tentar a publicidade. Eu estou cercado de dificuldades, por... intrigas, por... influências secretas, por...

Antes de falar ele ergueu o dedo indicador no ar com o gesto de um velho.

– Preste atenção às minhas palavras, Sr. Dedalus – disse ele. – A Inglaterra está nas mãos dos judeus. Em todos os mais altos cargos: suas finanças, sua imprensa. E eles são o sinal da decadência de uma nação. Onde quer que eles se juntem eles devoram a força vital da nação. Eu tenho visto isto acontecendo estes anos. Tão certo como estarmos de pé aqui os comerciantes judeus já estão em plena ação de destruição. A velha Inglaterra está morrendo.

Deu uns passos rápidos, com os olhos voltando animadamente a si enquanto percorriam um extenso raio de sol. Deu meia-volta e retornou à posição anterior.

– Morrendo – disse ele novamente –, se ela já não estiver morta.

De rua em rua uma prostituta berra
E vai se tecendo a mortalha da Inglaterra.

Seus olhos escancarados fixavam severamente numa visão o raio de sol no qual ele se detivera.

– Um comerciante – disse Stephen – é alguém que compra barato e vende caro, judeu ou gentio, não é não?

– Eles pecaram contra a luz – disse gravemente o Sr. Deasy. – E é possível ver a escuridão nos olhos deles. E é por isso que eles são os errantes da terra até o dia de hoje.

Nos degraus da Bolsa de Paris os homens de pele-dourada cotavam o preço do mercado em seus dedos cobertos de anéis. Parolagem de patetas. Eles formigavam ruidosamente, insólitos, pelo templo, suas cabeças maquinando ferrenhamente por baixo de seus desajeitados chapéus de copa alta. Não eram deles: estas roupas, esta fala, estes gestos. Seus olhos absortos e lentos desmentiam as palavras, os gestos ansiosos e inofensivos, mas sabiam do rancor concentrado à sua volta e sabiam que o seu zelo era vão. Vã a paciência que empilhava e armazenava. O tempo certamente dispersaria tudo. Um tesouro empilhado na beira da estrada: pilhado e passado adiante. Seus olhos conheciam os anos de perambulação e, pacientes, tinham conhecimento das indignidades de sua natureza humana

– Quem não pecou? – disse Stephen.

– O que você quer dizer? – perguntou o Sr. Deasy.

Ele deu um passo à frente e parou junto à mesa. Seu maxilar inferior pendeu um pouco para o lado em dúvida. É isso a velha sabedoria? Ele espera ouvir alguma coisa de mim.

– A história – disse Stephen – é um pesadelo do qual estou tentando despertar.

Do campo de esporte dos meninos ouviu-se um grito. Um apito estridente: gol. O que aconteceria se esse pesadelo desse um pontapé de volta na gente?

– Os caminhos de Deus não são os nossos – disse o Sr. Deasy. – Toda a história da humanidade se move em direção a um grande alvo, a manifestação de Deus.

Stephen sacudiu seu polegar em direção à janela, dizendo:

– Isso é Deus.

Hurra! Ai! Rrhiiii!

– O quê? – o Sr. Deasy perguntou.

– Um grito na rua – respondeu Stephen, sacudindo os ombros.

O Sr. Deasy baixou os olhos e segurou entre os dedos as asas pinçadas do seu nariz. Erguendo novamente os olhos ele as soltou.

– Eu sou mais feliz do que você – disse ele. – Nós cometemos muitos erros e muitos pecados. Uma mulher trouxe o pecado para o mundo. Por uma mulher que não era nem um pouco melhor do que ela, Helena, a mulher fugitiva de Menelau, os gregos guerrearam Tróia durante dez anos. Uma mulher infiel trouxe pela primeira vez estrangeiros para o nosso litoral, a mulher de MacMurrough e seu amante, O’Rourke, príncipe de Breffni. Uma mulher também causou a derrocada de Parnell. Muitos erros, muitas falhas mas não o pecado dos pecados. Eu sou um lutador agora e o serei até o final dos meus dias. Mas eu vou lutar pelo direito até o fim.

Por Ulster lutaremos
E Ulster salvaremos.

Stephen ergueu as folhas de papel em sua mão.

– Bem, senhor – disse ele.

– Eu prevejo – disse o Sr. Deasy – que o senhor não permanecerá aqui nesta atividade por muito tempo. O senhor não nasceu para ser professor, creio. Talvez eu esteja enganado.

– De preferência um aprendiz – disse Stephen.

E aqui o que você aprenderá mais?
O Sr. Deasy sacudiu a cabeça.

– Quem sabe? – disse ele. – Para aprender é necessário ser humilde. Mas a vida é a grande mestra.

Stephen fez as folhas novamente farfalharem.

– Quanto a estas – começou ele...

– Sim – disse o Sr. Deasy. – O senhor tem duas cópias aí. Se o senhor puder fazer com que sejam publicadas imediatamente.

Telegraph. Irish Homestead.

– Eu vou tentar – disse Stephen –, e o informarei amanhã. Eu conheço ligeiramente dois editores.

– Isso é o bastante – disse o Sr. Deasy vivamente. – Eu escrevi ontem à noite ao Sr. Field, membro do Parlamento. Há um encontro de comerciantes de gado hoje no City Arms Hotel. Eu pedi que ele apresentasse a minha carta antes da reunião. Veja se o senhor consegue pôr isso em seus dois jornais. Quais são eles?

– O Evening Telegraph...

– Isso é o bastante – disse o Sr. Deasy. – Não há tempo a perder. Agora tenho que responder essa carta do meu primo.

– Até a vista, senhor – disse Stephen, colocando as folhas no bolso. – Obrigado.

– Não há de quê – disse o Sr. Deasy enquanto procurava os papéis em sua mesa. – Eu gosto de quebrar lanças com o senhor, por mais velho que eu seja.

– Até a vista, senhor – disse Stephen novamente se inclinando para as costas curvadas dele.

Ele saiu pelo pórtico aberto e seguiu pela alados. Assim mesmo eu vou ajudá-lo em sua luta. Mulligan vai me dar um novo apelido: o bardo protetor-de-novilho.

– Sr. Dedalus!

Correndo atrás de mim. Chega de cartas, espero.

– Um instantinho só.

– Sim, senhor – disse Stephen, dando as costas para o portão.

O Sr. Deasy parou, respirando com força e engolindo a respiração.

– Eu só queria lhe dizer – disse ele. – Dizem que a Irlanda tem a honra de ser o único país que nunca perseguiu os judeus. O senhor sabia disso? Não. E o senhor sabe por quê?

Ele franziu a testa severamente no ar luminoso.

– Por quê, senhor? – perguntou Stephen, começando a sorrir.

– Porque ela nunca os deixou entrar – disse o Sr. Deasy solenemente.

Um acesso de tosse e de riso saltou de sua garganta arrastando atrás de si uma cadeia chocalhante de expectoração. Ele se voltou rapidamente, tossindo, rindo, com os braços erguidos abanando no ar.

– Ela nunca os deixou entrar – gritou ele novamente através do riso enquanto batia com os pés calçados de polainas nos cascalhos da alameda. – É essa a razão.

Sobre seus ombros sábios o sol lançou lantejoulas e moedas dançantes através da marchetaria das folhas.

continua na página 44...
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Ulisses - Parte 1 (2b): A mão de Stephen
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Joyce, James 
Ulisses [recurso eletrônico] / James Joyce ; tradução Bernardina da Silveira Pinheiro ; [seleção, elaboração e tradução das notas de capítulos Flavia Maria Samuda]. - Rio de Janeiro : Objetiva, 2010. Romance irlandês.

O Apanhador no Campo de Centeio - 6: Tem coisas difíceis da gente lembrar

O Apanhador no Campo de Centeio

J.D. Salinger

6

Tem coisas difíceis da gente lembrar. Por exemplo, a volta do Stradlater do encontro com a Jane. Quer dizer, não consigo lembrar direito o que é que eu estava fazendo quando ouvi a droga dos passos dele no corredor. Talvez ainda estivesse olhando pela janela, mas juro quê não me lembro. Estava preocupado demais, é por isso. Não brinco em serviço quando me preocupo com alguma coisa. Fico até precisando ir ao banheiro. Só que não vou, porque minha preocupação é tão grande que não quero interrompê-la só para ir lá. Qualquer um que conhecesse o Stradlater também ficaria preocupado. Já tínhamos saído juntos com garotas algumas vezes, e sei o que estou dizendo. Ele não tinha escrúpulos. Nem um pouco.Seja como for, o corredor era forrado de linóleo e tudo, e a gente ouvia a porcaria dos passos dele se aproximando do quarto. Não me lembro mais nem onde estava quando ele entrou - se na janela, ou na minha cadeira, ou na dele. Juro que não me lembro.
Chegou se queixando do frio lá fora. Aí disse:

- Onde é que se meteu o pessoal? Isso aqui tá parecendo mais uma droga dum necrotério.

Nem me dei ao trabalho de responder. Se a burrice dele não lhe permitiu ver que era sábado de noite e que quem não tinha ido passar o fim de semana em casa já estava dormindo - não era eu que ia perder meu tempo para ensinar isso a ele. Começou a tirar a roupa. Não disse nem uma porcaria duma palavra sobre a Jane. Nem umazinha. Nem eu, que fiquei só olhando para ele. Limitou-se a me agradecer pelo casaco que eu tinha emprestado. Pendurou-o num cabide e guardou no armário.
Aí, enquanto tirava a gravata, perguntou se eu havia escrito a droga da redação para ele. Respondi que estava em cima da porcaria da cama. Apanhou-a e foi lendo enquanto desabotoava a camisa. Ficou ali, de pé, lendo e alisando o peito e a barriga, com a maior cara de boçal. Ele vivia alisando o peito ou a barriga. Ele se adorava.
De repente, falou:

- Que negócio é esse, Holden? Você escreveu sobre uma droga duma luva de beisebol!

- E daí? - eu disse, com a maior frieza.

- E daí o quê? Eu te disse que tinha que ser sobre uma porcaria duma sala, uma casa ou outro troço assim.

- Você disse que tinha de ser descritiva. Qual é a diferença se é sobre uma luva de beisebol?

- Merda!

Ele estava com uma raiva dos diabos. Furioso mesmo.

- Por que é que tudo que você faz é enrolado, hem? - falou virando-se para mim.

- Não é à toa que você vai ser chutado daqui do colégio. Não há uma merda duma coisa que você faça direito. É isso mesmo. Nem uma única porcaria.
- Tá bem, então me dá aí a redação - falei. Fui até lá, arranquei o papel da mão dele e rasguei em pedacinhos. - Pra quê que você fez isso?

Nem respondi. Apenas joguei os pedacinhos na cesta de papéis. Aí me deitei na cama e nenhum de nós falou durante muito tempo. Ele tirou toda a roupa, ficando só de cuecas, e eu acendi um cigarro, ainda na cama. Era proibido fumar no dormitório, mas àquela hora da noite, com todo mundo dormindo ou na rua, ninguém podia sentir o cheiro e não tinha importância. Mas fumei mesmo só para chatear o Stradlater, que ficava doente quando a gente não cumpria o regulamento. Ele nunca fumava no dormitório, era sempre eu.
Ainda não tinha dito nem uma palavra sobre a Jane. Não me aguentei:

- Você está chegando um bocado tarde, se é que ela só tinha mesmo licença para voltar às nove e meia. Ela chegou atrasada por tua causa?

Quando perguntei, ele estava sentado na beirada da cama, cortando a porcaria das unhas dos pés.

- Só uns dois minutos. Também é o tipo da idéia infeliz ir dormir às nove e meia numa noite de sábado.

Puxa vida, como eu detestava aquele sujeito.

- Vocês foram a Nova York? - perguntei.

- Tá maluco? Como é que a gente podia ir a Nova York se às nove e meia ela tinha que estar de volta?

- É, é meio difícil mesmo.

Olhou para mim.

- Escuta aqui - ele disse. - Se você está com vontade de fumar, que tal dar uma chegadinha no banheiro, bem? Você está indo embora daqui, mas eu ainda preciso agüentar a mão até me formar.

Não dei pelota. Não dei mesmo. Continuei a fumar como uma chaminé. Só fiz me virar meio de lado e ficar olhando para ele, enquanto aparava a droga das unhas. Que colégio! A gente passava o tempo todo vendo alguém cortar a porcaria das unhas ou espremer as espinhas, ou coisa que o valha.

- Você deu minhas lembranças a ela? - perguntei.

- Dei.

Aposto que não deu, o sacana.

- E aí, o quê que ela disse? Você perguntou a ela se ainda guarda todas as damas na última fila?

- Não! Como é que ia perguntar um troço desses? Que é que você pensa que nós ficamos fazendo a noite inteira? Jogando damas, é? Essa não!

- Se você não foi a Nova York, então pra onde foi? - perguntei um pouco depois. Minha voz já estava saindo trêmula pra burro. Puxa, como eu estava nervoso. Tinha a impressão de que havia acontecido alguma coisa esquisita entre eles dois.

Stradlater acabou de cortar a porcaria das unhas. Levantou-se, só de cuecas e tudo, e começou a bancar o brincalhão. Chegou junto da minha cama, se abaixou e ficou dando uns murros de brincadeira no meu ombro.

- Para com isso - eu disse. - Se não foi a Nova York, pra onde é que você levou a Jane?

- Pra lugar nenhum. Ficamos no carro mesmo - respondeu e me deu novamente um daqueles murrinhos idiotas no ombro.

- Para com isso! No carro de quem?

- Do Ed Banky.

Ed Banky era o técnico de basquete do Pencey. O Stradlater era protegido dele porque jogava de pivô no time. Por isso o carro do Ed Banky estava sempre à sua disposição. Era proibido aos alunos dirigir os carros dos professores, mas os sacanas que praticavam esporte eram um bocado unidos. Em todos os colégios onde estive, esses sacanas formavam sempre a sua panelinha. Stradlater continuava a dar aqueles saquinhos de brincadeira no meu ombro. Botou na boca a escova de dentes que estava segurando.

- Você mandou brasa nela dentro do carro do Ed Banky? - perguntei, com a voz tremendo mais do que gelatina.

- Isso é coisa que se diga? Tá querendo que eu lave a tua boca com sabão?

- Mandou ou não mandou?

- Isso é segredo profissional, meu chapa.

Não me lembro direito do que aconteceu depois. Só sei que me levantei da cama, como se fosse para o banheiro ou coisa parecida, e tentei dar-lhe um murro de surpresa, com toda força, bem ali na escova de dentes, para furar a droga da garganta dele. Só que errei. Não consegui acertar direito. Quando muito, peguei-o no lado da cabeça. Talvez tivesse machucado um pouquinho, mas não como eu queria. Teria machucado de verdade, se eu não tivesse usado a direita, que é a minha mão fraca. Por causa daquele defeito de que eu já falei.

Afinal, quando vi já estava deitado no chão, e o Stradlater, com o rosto vermelho pra diabo, sentado em cima do meu peito. Quer dizer, a droga dos joelhos dele estavam fincados no meu peito e o safado pesava mais de uma tonelada. Meus pulsos também estavam presos, por isso não podia lhe dar outro murro. Tive vontade de matá-lo.

- Quê que há com você? - ele repetia, a cara estúpida cada vez mais vermelha.

- Tira essa merda desses joelhos de cima de mim - falei, quase urrando. Urrando mesmo. - Vamos, sai de cima de mim, seu filho da puta!

Mas ele não saiu. Continuou prendendo meus pulsos, e eu continuei a chamá-lo de filho da puta e tudo, durante mais de dez horas. Nem me lembro direito do que eu disse a ele. Disse que ele pensava que podia mandar brasa em quem bem entendesse. Disse que não fazia a menor diferença para ele se uma pequena deixava todas as damas na última fila ou não, e que ele só não se importava com isso porque era um imbecil total. Ele ficava furioso quando era chamado de imbecil. Todos os imbecis detestam ser chamados de imbecis.

- Cala a boca, Holden! - ele disse, com a carona imbecil toda vermelha. - Cala a boca!

- Você nem ao menos sabe se o nome dela é Jane ou Jean, seu boçalão!

- Cala essa boca, Holden, que merda! Estou avisando - ele disse. O cara estava alucinado. - Se você não calar a boca vou te dar uma porrada.

- Tira a droga desses joelhos de idiota de cima de mim.

- Se eu te soltar, você fica calado?

Nem respondi. Ele repetiu:

- Se eu te soltar, você vai ficar calado, Holden?

- Vou.

Ele se levantou e eu também. Meu peito estava doendo pra chuchu do peso dos joelhos dele.

- Você é um filho da puta dum imbecil - falei.

Aí o Stradlater virou fera de verdade. Ficou sacudindo o dedão na minha cara.

- Porra, Holden, tou te avisando. Pela última vez. Se você não fechar a matraca, vou te...

- Pra quê? - perguntei, quase gritando. - Esse é que é o problema com os imbecis como você. Nunca querem discutir coisa nenhuma. É assim que a gente descobre quem é boçal. Não discutem nunca um troço com inteligên...

Aí ele me mandou um murro tremendo e eu capotei. Não me lembro se cheguei a perder os sentidos, mas acho que não. Não é nada fácil nocautear uma pessoa, a não ser no cinema. Mas meu nariz pingava sangue pelo quarto todo. Quando abri os olhos, o Stradlater estava em pé, bem ao meu lado

- Por que diabo você não cala a boca quando eu mando? - perguntou.

Ele estava um bocado nervoso. Acho que estava apavorado, com medo que eu tivesse fraturado o crânio ou coisa parecida quando bati com a cabeça no chão. É pena que isso não tenha acontecido.

- A culpa é tua, toda tua - ele disse.

Puxa, estava preocupado pra burro.
Nem me dei ao trabalho de levantar do chão. Continuei espichado ali mesmo, chamando-o de imbecil e filho da puta. Minha raiva era tanta que eu estava quase berrando

- Quer saber de uma coisa, vai lavar a cara - ele falou. - Tá ouvindo?

Disse que ele, se quisesse, que fosse lavar sua cara de boçal. Era o tipo da resposta infantil, mas eu estava com uma raiva desgraçada. Disse ainda que, no caminho do banheiro, desse uma parada e mandasse uma brasinha na Sra. Schmidt. A Sra. Schmidt era a mulher do zelador. Andava aí pelos sessenta e cinco anos.
Fiquei sentado no chão até ouvir o Stradlater fechar a porta e seguir para o banheiro, no fim do corredor. Então me levantei. Não conseguia achar a droga do meu chapéu de caça em lugar nenhum. Procurei um pouco mais e acabei encontrando, debaixo da cama. Botei-o na cabeça e virei a aba para trás, até ficar como eu gostava. Aí fui até o espelho dar uma olhada na minha cara de imbecil. Garanto que ninguém nunca viu ferimento igual àquele. Tinha sangue espalhado pela boca e pelo queixo, e até no pijama e no roupão. Fiquei meio assustado e meio fascinado. Todo aquele sangue me dava um jeitão de machão. Na minha vida inteira só tinha entrado numas duas brigas, e apanhei nas duas vezes. Não sou muito de briga. Para dizer a verdade, eu sou é pacifista.
Tinha a impressão de que o Ackley tinha ouvido a bagunça toda e estava acordado. Por isso atravessei as cortinas do banheiro que ficavam entre o quarto dele e o nosso, só para ver o que ele estava fazendo. Eu quase nunca ia ao quarto dele, porque o sacana era tão relaxado em seus hábitos pessoais que o quarto dele sempre tinha um fedor meio esquisito.

Cirque du Soleil

Missão gangorra


saltar 
girar
cair
com os pés
os braços brincando
esvoaçando o colorido do ar
os corpos
a música
a gangorra
o impulso
o medo
as emoções
o coração

saltitando
saltando
pulando
espremendo o medo




A oportunidade de aprender gangorra na sede internacional do Cirque du Soleil em Montreal. Começando do zero até 15 semanas de treinamento!



Quinten Mangelschots 
Teeterboard 2017



Nenhuma edição extravagante, apenas habilidades. Há algumas filmagens da GoPro, alguns vídeos do iPhone e algumas coisas filmadas da TV, então, infelizmente, está tudo misturado.

Atuando em Amaluna - Cirque du Soleil.

Contato: quinten@jobland.be

Música:
1. The Right Song - Tiësto & Oliver Heldens ft. Natalie La Rose
2. Rio - Netksy

Carinhoso

Pixinguinha 
(arr. Rafael Bogéa) 
- Ivana Giljanović, Rafael Bogéa





"Esta peça é uma das canções mais queridas do repertório da música popular brasileira, escrita pelo grande compositor brasileiro Pixinguinha (letra de João de Barro).
Foi um grande prazer fazer o arranjo dessa música e tocá-la com a cantora croata Ivana Giljanović. Tomei a liberdade de compor esse Choro ao meu gosto com as diversas influências que encontrei em minha vida.
A gravação foi feita na Robert Schumann Hochschule Düsseldorf na Alemanha, em novembro de 2022."


sábado, 1 de julho de 2023

Memórias - 17 Cuando llueve, diluvia...

No se puede hacer la revolucion sin las mujeres

Livro Um

baitasar

Memórias

17 – Cuando llueve, diluvia...

o leite era distribuído primeiro entre as famílias com crianças, em seguida, los ancianos y ancianas recebiam sua parte, não havia contradição entre oferecer alimentos entre los más necesitados de los campesinos, seu jeito de combater a injustiça e a humilhação, uma aliança estratégica entre los campesinos, maneiras que o povo sofrido encontra em si mesmo para ter a energia necessária à luta por uma vida melhor

a luta contra a fome e a unidade entre los campesinos é uma ideia revolucionária

a ordenha era feita duas vezes, a primeira ao amanhecer, e a segunda, no entardecer; as leiteiras, na maioria das vezes, repetiam a quantidade derramada, mas já se percebia que não bastava, o leite estava escasso para tantas bocas

as duas ordenhas enchiam as bacias leiteiras, mas não esvaziavam a fome, era preciso fazer alguma coisa, Necessitamos aumentar la producción, Sí, es correto, pero¿cómo?

la insatisfacción crecía junto con la miseria y la penuria

fue entonces cuando el enano sonriente apareceu de repetente, emergindo das pedras, nunca existiu en las Piedras Altas pessoa mais pequeña nem mais alegre, um sujeito com as aparências de um niño curto e forte

parava e conversava com quer que fosse, olhava direto nos olhos, jamais os desviava, imaginava si el pequeño sentia dores na nuca

un rostro lisinho como bundinha de niños de corta edad

existem pessoas que botamos os olhos dos sentidos e pensamos, Esto es buena gente.

hay gente que se revela aos pouquinhos, vamos enxergando inconstâncias e rachaduras em suas humanidades que nos obrigam recuar e avançar com as cautelas da convivência, confiar só desconfiando

confesso, naqueles dias de recém-chegado en Piedras Altas, el enano mais se parecia com um casario cheio de rachaduras em suas paredes, ele veio se juntar aos medos de un tiempo sem farturas de tierra, leche y justicia, tiempos de grandes penurias, demasiada pobreza para dar a los campesinos  riqueza material, pero no para darles un sentido de igualdad, un sentido de dignidad humana

hombres y mujeres haviam de se acomodarem com pouco, mas los niños y las niñas precisavam das regalias de comer com suficiência e alegria

o leite que saciava a sede e alimentava passou a servir apenas de alimento, a sede precisava se contentar com as águas do córrego

até que o córrego virou um fio de água, as vaquinhas emagreceram – dizem que por estranhamentos con papá – parecia que las manos de papá não eram mais dele

uma desgraça não anda sozinha, repetiam às escondidas, Cuando llueve, diluvia...

uma reunião de emergência sobre a escassez do ouro branco foi chamada en nuestra cabaña

mesmo que papá emprestasse ao silêncio sua voz, o ajuntamento sobre as leiteiras foi assunto por lá, sentados no chão, em pé, encostados nas paredes, agachados, acomodados do jeito que dava

a fumarada dos palheiros deixava a luz menos sóbria, parecia não existir lamparilla com força de clarear através daquela aparência defumada

aquele ajuntamento de emergência estava muito desencontrado para atinar qualquer solução, não havia vontade de ceder ou entender, falando aos gritos sem escutar os silêncios dos demais, os olhos, as mãos, a respiração turva, o acúmulo de gente com fome misturava os sinais que partiam do estômago e confundiam o olhar mais vigilante

e tudo piora quando a fome chega en los hijos y hijas

¡Necessitamos más leche!

um companheiro sugeriu aumentar o nosso roçado de milho

¿Nuestro?

en los tiempos que se perderam sem memórias, o roçado de maíz foi dos nossos espíritos ancestrais, en los tiempos que corren, nada mais era nosso en la Montaña nem mesmo as nossas histórias

nossas vidas não eram nossas, eram do milho y el maíz já tinha dono, o grileiro de la Montaña

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