segunda-feira, 1 de junho de 2026

Dostoiévski - Os Irmãos Karamazov (Prefácio)

Os Irmãos Karamazov

Fiódor Dostoiévski

"Se Deus NÃO existe, tudo é permitido e o homem muito provavelmente não vai optar pelo bem ao invés do mal."

"Os Irmãos Karamazov é uma obra-prima da literatura russa escrita por Fiódor Dostoiévski e publicada pela primeira vez em 1880. O romance é uma exploração complexa da natureza humana, das questões morais e religiosas, e das questões familiares. É uma história envolvente que gira em torno da família Karamázov e seus três filhos: Dmitri, Ivan e Alexei."

Parte 1: Os Personagens Principais:
Fiódor Pavlovitch Karamázov, um palhaço devasso que subiu na vida principalmente devido aos dotes de suas duas mulheres, ambas mortas de forma precoce, e à sua mesquinharia.
Dmitri Karamazov, o filho mais velho, é impulsivo e apaixonado. Ele está envolvido em um conflito com o pai sobre uma herança e é acusado de assassinato.
Ivan Karamazov, o filho do meio, é um intelectual até que questiona a existência de Deus e os valores morais tradicionais.
Alexei Karamazov, o filho mais novo, é um monge ortodoxo que busca a espiritualidade e a fé em meio às relações familiares tumultuadas.

Os irmãos Karamázov deveria ter uma continuação, onde o narrador exporia de melhor forma o caráter de seu herói, o filho mais novo Aliêksei Fiodorovitch Karamázov, para o qual esta narrativa seria a primeira parte de sua biografia, porém Dostoiévski morreu antes de finalizar a segunda parte de sua obra. Dostoiévski declara no início do prólogo que a obra é, de fato, sobre Alieksiéi:

   Ao começar a biografia de meu herói, Alieksiéi Fiódorovitch, sinto-me um tanto perplexo. Com efeito, se bem que o chame meu herói, sei que ele não é um grande homem; prevejo também perguntas deste gênero: "Em que é notável Alieksiéi Fiódorovitch, para que tenha sido escolhido como seu herói? Que fez ele? Quem o conhece e por quê? Tenho eu, leitor, alguma razão para consagrar meu tempo a estudar-lhe a vida?".

O enredo gira em torno do misterioso assassinato de Fiódor Pavlovitch Karamazov, o pai dos três irmãos. Dmitri é acusado injustamente de cometer o assassinato, e o romance explora o julgamento, os depoimentos das testemunhas e as investigações, enquanto também mergulha profundamente nas psicologias dos personagens.



Resenha: Os Irmãos Karamázov, de Fiódor Dostoiévski





Prefácio

     Ao começar a biografia de meu herói, Alieksiéi Fiódorovitch, sinto me um tanto perplexo. Com efeito, se bem que o chame meu herói, sei que ele não é um grande homem; prevejo também perguntas deste gênero: "Em que é notável Alieksiéi Fiódorovitch, para que tenha sido escolhido como seu herói? Que fez ele? Quem o conhece e por quê? Tenho eu, leitor, alguma razão para consagrar meu tempo a estudar-lhe a vida?"
     A derradeira pergunta é a mais embaraçosa, porque só lhe posso responder dizendo: "Talvez o senhor mesmo descubra isso no romance". Mas se o lerem, sem achar que meu herói é notável? Digo isto porque prevejo, infelizmente, a coisa. A meus olhos, é ele notável, mas duvido bastante de que consiga convencer o leitor. O fato é que ele age seguramente, mas de uma maneira vaga e obscura. Aliás, seria estranho, em nossa época, exigir clareza das pessoas! Uma coisa, no entanto, está fora de dúvida: é um homem estranho, até mesmo um original. Mas a estranheza e a originalidade prejudicam, em lugar de conferir um direito à atenção, sobretudo quando todo mundo se esforça por coordenar as individualidades e destacar um sentido geral do absurdo coletivo. O original, na maior parte dos casos, é o indivíduo que se põe de parte. Não é verdade?
     No caso de me contradizerem, a propósito deste último ponto, dizendo: "Não é verdade", ou "não é sempre verdade", retomo coragem a respeito do valor de meu herói. Porque não somente o original não é "sempre" o indivíduo que se põe de parte, mas acontece-lhe deter a quinta-essência do patrimônio comum, enquanto seus contemporâneos o repudiaram por algum tempo.
     Aliás, em vez de engajar-me nessas explicações destituídas de interesse e confusas, teria começado bem simplesmente, sem prefácio — se minha obra agradar, hão de lê-la —, mas a desgraça está em que, além de uma biografia, tenho dois romances. O principal é o segundo, é a atividade de meu herói em nossa época, no momento presente. O primeiro desenrola-se há treze anos, e, para dizer a verdade, é apenas um momento da primeira juventude do herói. Ê indispensável, porque, sem ele, muitas coisas ficariam incompreensíveis no segundo. Mas isso só faz aumentar o meu embaraço: se eu, biógrafo, acho que um romance teria bastado para um herói tão modesto e vago, como apresentar-me com dois e justificar tal pretensão?
     Desesperando de resolver essas questões, deixo-as em suspenso. Naturalmente, o leitor perspicaz já adivinhou que tal era meu fim desde o começo e leva-me a mal que perca um tempo precioso em palavras inúteis. Ao que responderei que o fiz por polidez, e em seguida por astúcia, a fim de que se fique prevenido de antemão. Além do mais, folgo que meu romance se divida por si mesmo em duas narrativas, "contudo conservando sua unidade integral"; depois de ter tomado conhecimento do primeiro, o leitor verá por si mesmo se vale a pena abordar o segundo. Sem dúvida, cada qual é livre; pode-se fechar o livro desde as primeiras páginas da primeira narrativa para não mais abri-lo. Mas há leitores delicados que querem ir até o fim, para não deixar de ser imparciais; tais são, por exemplo, todos os críticos russos. Sente-se a gente de coração mais leve para com eles. Malgrado sua consciência metódica, forneço-lhes um argumento dos mais fundamentados para abandonar a narrativa no primeiro episódio do romance. Eis terminado o meu prefácio. Convenho que é supérfluo, mas, já que está escrito, deixemo-lo.
     E agora, comecemos.
     O Autor.
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Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, nascido em Moscou, 11 de novembro de 1821 — falecido em São Petersburgo, 9 de fevereiro de 1881, foi um escritor, filósofo e jornalista russo. É considerado por muitos um dos maiores romancistas e pensadores da história, bem como um dos maiores «psicólogos» que já existiu, ao considerar a designação e etimologia mais ampla do termo, como investigador da psique.
Os Irmãos Karamazov é um romance de Fiódor Dostoiévski, escrito em 1879, uma das mais importantes obras das literaturas russa e mundial, ou, conforme afirmou Freud: "a maior obra da história". Freud considera esse romance, juntamente com Édipo Rei e Hamlet, três importantes livros a respeito do embate pai e filho, e retratam o complexo de Édipo.

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Mais uma resenha...

“Os Irmãos Karamazov”, de Dostoiévski



Turguêniev - Diário de um Homem Supérfluo (26 de março - Um descongelamento)

DIÁRIO DE UM HOMEM SUPÉRFLUO 

Ivan Turgenev

     26 de março - Um descongelamento.
 
          Quando, no dia seguinte, depois de longa hesitação e apaziguamento interior, entrei na familiar sala de visitas dos Ozhógins, não era mais o mesmo homem que eles haviam conhecido pelo espaço de três semanas. Todos os meus hábitos anteriores, dos quais comecei a me desmamar sob a influência de uma emoção que era nova para mim, de repente voltaram a aparecer, e tomaram toda a posse de mim como os donos voltando para sua casa.
     Pessoas como eu geralmente são guiadas não tanto por fatos positivos, mas por suas próprias impressões; eu, que, não mais do que na noite anterior, sonhava com "os arrebates do amor mútuo", hoje não nutria a menor dúvida quanto à minha própria "infelicidade", e estava em total desespero, embora eu mesmo não fosse capaz de descobrir nenhum pretexto razoável para o meu desespero. Eu não podia ter ciúmes do Príncipe N***, e quaisquer que fossem os méritos que ele pudesse possuir, sua mera chegada não era suficiente para extirpar instantaneamente a inclinação de Liza por mim.... Mas fique! - Essa inclinação existe? Eu me lembrei do passado. "E o passeio na floresta?" Eu me perguntei. "E a expressão do rosto dela no espelho?" - "Mas", continuei, - "o passeio na floresta, aparentemente...". Phew, meu Deus! Que ser insignificante eu sou!" Eu exclamei em voz alta, finalmente. Este é um exemplar das ideias meio expressas, meio pensadas que, retornando mil vezes, giravam num redemoinho monótono na minha cabeça. Repito, - voltei para os Ozhógins a mesma pessoa desconfiada, receosa, constrangida que eu tinha sido desde a minha infância...
     Encontrei a família toda na sala de visitas; Bizmyónkoff estava sentado também ali, num canto. Todos pareciam estar de bom humor: Ozhógin, em particular, estava bastante radiante, e suas primeiras palavras foram para me comunicar que o Príncipe N*** tinha passado toda a noite anterior com eles. - "Bem", disse para mim mesmo, "agora entendo porque você está de tão bom humor". Devo confessar que a segunda chamada do Príncipe me intrigou. Eu não esperava isso. Em geral, pessoas como eu esperam tudo no mundo, exceto o que deveria acontecer na corrida normal das coisas. Eu amuei e assumi o aspecto de um homem ferido, mas magnânimo; quis castigar Liza por sua indelicadeza; da qual, além do mais, é preciso concluir, que, no entanto, ainda não estava em completo desespero. Dizem que, em alguns casos, quando se é realmente amado, é até vantajoso torturar o objeto adorado; mas, na minha posição, foi indubitavelmente estúpido. Liza, da maneira mais inocente, não me deu atenção alguma. Só a velha Madame Ozhógin notou minha solene taciturna vaidade, e perguntou ansiosamente pela minha saúde. Claro que eu lhe respondi com um sorriso amargo que "eu estava perfeitamente bem, graças a Deus". Ozhógin continuou a dilatar o assunto de sua visita; mas, observando que eu lhe respondi relutantemente, dirigiu-se principalmente a Bizmyónkoff, que o escutava com muita atenção, quando um criado de pés entrou e anunciou o Príncipe N****. O dono da casa saltou instantaneamente aos seus passos, e saiu correndo para recebê-lo! Liza, sobre quem eu imediatamente ousei um olhar de águia, corei de prazer, e me agachei em sua cadeira. O Príncipe entrou, perfumado, alegre, amável...
     Como não estou compondo um romance para o leitor indulgente, mas simplesmente escrevendo para meu próprio prazer, não há necessidade de eu recorrer aos dispositivos habituais dos senhores literários. Portanto, direi imediatamente, sem mais delongas, que Liza, desde o primeiro dia, apaixonou-se apaixonadamente pelo Príncipe, e o Príncipe apaixonou-se por ela - em parte pela falta de algo para fazer, mas também em parte porque Liza era realmente uma criatura muito charmosa. Lá não foi nada notável o fato de que eles se apaixonaram um pelo outro. Ele, muito provavelmente, não esperava encontrar tal pérola em uma concha tão miserável (estou falando da cidade abandonada por Deus de O****), e ela, até então, nunca havia visto, mesmo em seus sonhos, nada no mínimo como este brilhante, inteligente, fascinante aristocrata.
     Após as saudações preliminares, Ozhógin me apresentou ao Príncipe, que me tratou com muita delicadeza. Como regra, ele era educado com todos, e apesar da distância incomensurável que existia entre ele e nosso obscuro círculo rural, ele entendeu não só como não envergonhar ninguém, mas até mesmo ter a aparência de ser nosso igual, e de só acontecer para viver em São Petersburgo.
     Naquela primeira noite..... Ah, aquela primeira noite! Nos dias felizes de nossa infância, nossos professores costumavam nos narrar e nos apresentar como exemplo de fortaleza viril o jovem Lacedæmonian que, tendo roubado uma raposa e escondido sob seu manto, nunca proferiu um som, mas permitiu que o animal devorasse todas as suas entranhas, preferindo assim a morte à desonra... Não encontro melhor expressão dos meus sofrimentos indizíveis no decorrer daquela noite, quando, pela primeira vez, vi o Príncipe ao lado de Liza. Meu sorriso persistente e constrangido, minha atenção angustiada, minha estúpida taciturnidade, minha dor plena e vã saudade de partir, tudo isso, com toda probabilidade, era extremamente perceptível em seu caminho. Nem uma raposa por si só estava devastando minha vitalidade - ciúme, inveja, a consciência de minha própria insignificância, e a raiva impotente estava me dominando. Eu não podia deixar de admitir que o Príncipe era realmente um jovem muito amável.... Eu o devorava com os olhos; eu realmente acredito que me esqueci de piscar o olho enquanto olhava para ele. Ele não conversava exclusivamente com Liza, mas, é claro, ele falava por ela sozinho. Eu devo tê-lo entediado muito...... Ele provavelmente logo adivinhou que tinha a ver com um amante descartado, mas, por compaixão por mim, e também por uma profunda sensação de minha perfeita inofensividade, ele me tratou com extraordinária gentileza. Você pode imaginar como isso me machucou!
     Lembro-me que, no decorrer da noite, tentei apagar a minha culpa; eu (não ria de mim, quem quer que seja sob cujos olhos estas linhas possam cair, especialmente porque este era o meu sonho final)... De repente levei na minha cabeça, Deus é minha testemunha, entre os variados tormentos, que Liza estava tentando me castigar pela minha frieza arrogante no início da minha visita; que ela estava com raiva de mim, e estava flertando com o Príncipe apenas por vexação comigo. Agarrei uma oportunidade conveniente, e ao me aproximar dela com um sorriso manso mas carinhoso, murmurei: "Chega, perdoe-me... entretanto, eu não pergunto porque tenho medo" - e sem esperar a resposta dela, de repente dei ao meu rosto uma expressão invulgarmente viva e fácil, dei um riso irônico, joguei a mão sobre minha cabeça na direção do teto (lembro que estava tentando ajustar minha gola), e estava até no ponto de rodar num só pé, tanto quanto dizer: "Está tudo acabado, estou de bom humor, que todos estejam de bom humor", mas eu não rodei, mesmo assim, porque tinha medo de cair, devido a uma rigidez antinatural nos joelhos... Liza não me entendeu minimamente, olhou-me no rosto com surpresa, sorriu apressadamente, como se desejasse se livrar de mim o mais rápido possível, e novamente se aproximou do Príncipe. Cego e surdo como eu era, não pude deixar de admitir interiormente que ela não estava nada zangada nem irritada comigo naquele momento; ela simplesmente não estava pensando em mim. O golpe foi decisivo, minhas últimas esperanças se desfizeram em ruínas com um acidente - como um bloco de gelo penetrado com o sol da primavera de repente se desfaz em pequenos fragmentos. Eu tinha recebido um golpe na cabeça no primeiro ataque, e, como os prussianos em Jena, em um dia eu perdi tudo. Não, ela não estava com raiva de mim!...
     Ai de mim! ao contrário! Ela mesma - eu podia ver isso - estava sendo minada, como com um golpe. Como uma jovem muda, que já meio abandonou o banco, ela se inclinou avidamente para frente sobre a enchente, pronta para se render a ela tanto o primeiro desabrochar de sua primavera, quanto toda sua vida. Qualquer um a cuja sorte tenha caído para ser testemunha de tamanha paixão viveu momentos amargos, se ele mesmo amou e não foi amado. Lembrar-me-ei para sempre da atenção devoradora, da ternura, do auto-esquecimento inocente, do olhar, meio infantil e já feminino, do sorriso feliz que desabrochou, por assim dizer, e nunca deixou os lábios semicerrados e as bochechas coradas... Tudo aquilo de que Liza tinha tido um mau presságio durante nosso passeio no bosque tinha agora passado - e ela, entregando-se totalmente ao amor, tinha, ao mesmo tempo, crescido tranquila e espumante como um vinho jovem que deixou de fermentar, porque chegou a sua hora...
     Tive a paciência de sentar-me naquela primeira noite, e as noites que se seguiram.... tudo, até o fim! Eu não podia alimentar nenhuma esperança. Liza e o Príncipe cresciam cada vez mais apegados um ao outro a cada dia que passava..... Mas eu positivamente perdi todo o sentido da minha própria dignidade, e não pude me afastar do espetáculo da minha infelicidade. Lembro que um dia fiz um esforço para não ir, me dei minha palavra de honra pela manhã de que ficaria em casa, - e às oito horas da noite (geralmente saia às sete), pulei como um lunático, coloquei meu chapéu, e corri, ofegante, para a casa de Kiríll Matvyéevitch.
     Minha posição era extremamente constrangedora; mantinha um silêncio obstinado, e às vezes, durante dias, em um trecho nunca emitia um som. Nunca me distingui pela eloquência, como já disse; mas agora todo o sentido que eu tinha parecia voar para longe na presença do Príncipe, e permaneci tão pobre quanto um rato de igreja. Além disso, em particular, forcei meu cérebro infeliz a trabalhar a tal ponto, ponderando lentamente sobre tudo o que havia marcado ou notado no decorrer do dia anterior, que quando voltei à casa dos Ozhógins, mal me restava força suficiente para continuar minhas observações. Eles me pouparam como se fosse um homem doente, eu vi isso. Todas as manhãs chegava a uma nova e definitiva decisão, que havia sido tomada principalmente durante uma noite sem dormir. Agora eu me preparava para ter uma explicação com Liza, para dar-lhe alguns conselhos amigáveis... Mas quando por acaso estava sozinho com ela, minha língua de repente parou de agir, como se tivesse congelado, e ambos esperávamos dolorosamente o aparecimento de uma terceira pessoa; então, novamente, eu queria fugir, para sempre, deixando para trás, pelo objeto de meus afetos, é claro, uma carta cheia de reprovações; e um dia eu me dispus a fazer essa carta, mas o sentido de justiça ainda não havia desaparecido de dentro de mim; Compreendi que não tinha o direito de transtornar ninguém por nada, e atirei minha nota para o fogo; de repente ofereci todo o meu ser como sacrifício, de forma magnânima, e dei minha bênção a Liza, desejando sua felicidade em seu amor, e sorri de uma ponta de um canto para o Príncipe, de forma gentil e amistosa. Mas os amantes de coração duro não só não me agradeceram pelo meu sacrifício, como nem mesmo o perceberam, e evidentemente não precisaram nem das minhas bênçãos nem dos meus sorrisos... Então, com vexação, de repente passei para o estado de espírito diametralmente oposto. Prometi a mim mesmo, enquanto me enfiava no meu manto, à moda espanhola, cortar a garganta do sortudo rival de uma ponta à outra, e com a alegria de uma fera selvagem, imaginei para mim o desespero de Liza... Mas, em primeiro lugar, na cidade de O**** havia pouquíssimos cantos assim, e, em segundo lugar, uma cerca de tábua, uma lanterna de rua, um policial na distância.... Não! em uma esquina como essa, seria mais fácil vender anéis de pão do que derramar sangue humano. Devo confessar que, entre outros meios de libertação, - como expressei muito indefinidamente ao realizar uma conferência comigo mesmo -,  pensei em apelar diretamente ao Sr. Ozhógin .... de direcionar a atenção daquele nobre para a perigosa posição de sua filha, para as tristes conseqüências de sua frivolidade.... Comecei até a conversar com ele um dia sobre o assunto muito delicado, mas enquadrei meu discurso de forma tão astuciosa e obscura, que ele me ouviu e escutou, e de repente, como se despertasse do sono, rapidamente esfregou a palma da mão em todo o rosto, não poupando nem mesmo o nariz, bufou, e se afastou de mim.
     É desnecessário dizer que, ao adotar essa decisão, assegurei-me de que estava agindo pelos motivos mais desinteressados, que estava desejando o bem-estar universal, que estava cumprindo o dever de um amigo da família... Mas me atrevo a pensar que mesmo que Kiríll Matvyéevitch não tivesse cortado minhas efusões, ainda me faltaria coragem para terminar meu monólogo. Às vezes me comprometi, com a pompa de um antigo sábio, a pesar os méritos do Príncipe; às vezes me confortava com a esperança de que era apenas uma fantasia passageira, de que Liza viria à razão, de que seu amor não era amor genuíno... Oh, não! Em uma palavra, não sei de um pensamento sobre o qual eu não me tenha arrebatado naquela época. Um único remédio, confesso francamente, nunca me passou pela cabeça; isto é, nunca me ocorreu cometer suicídio. Por que isso não me ocorreu, eu não sei.... Talvez até então eu tivesse um presságio de que não tinha muito tempo de vida em nenhum caso.
     É fácil entender que, em condições tão desfavoráveis, minha conduta, meu comportamento para com outras pessoas, era mais desnatural e constrangedor do que nunca. Mesmo a velha senhora Ozhógin - aquela idiota - começou a me evitar, e às vezes não sabia de que lado se aproximar de mim. Bizmyónkoff, sempre cortês e pronto para ser útil, me evitou. Também me pareceu então que nele eu tinha um companheiro de sofrimento, que ele também amava Liza. Mas ele nunca respondeu às minhas dicas, e, em geral, falou comigo com relutância. O príncipe se comportou de uma maneira muito amigável com ele; posso dizer que o príncipe o respeitava. Nem Bizmyónkoff nem eu interferimos com o Príncipe e Liza; mas ele não os evitou como eu, ele não parecia um lobo nem uma vítima - e de bom grado se juntou a eles sempre que eles o desejavam. Ele não se distinguia particularmente pela jocularidade em tais ocasiões, é verdade; mas mesmo em tempos passados havia um elemento de quietude em sua alegria.
     Assim se passaram cerca de duas semanas. O Príncipe não era apenas bonito e inteligente: tocava ao piano, cantava, desenhava muito respeitavelmente e sabia narrar bem. Suas anedotas, tiradas dos círculos mais altos da sociedade da capital, sempre causaram forte impressão nos ouvintes, o que era ainda mais poderoso porque ele mesmo não parecia atribuir-lhes importância particular...
     A consequência desse engano, se assim se chama, da parte do Príncipe, foi que durante sua breve estada na cidade de O***, ele enfeitiçou absolutamente toda a sociedade de lá. É sempre muito fácil para um homem dos círculos mais altos enfeitiçar-nos a nós os estepes. Os frequentes apelos do Príncipe aos Ozhógins (ele passava as noites na casa deles), naturalmente, despertavam a inveja dos outros nobres e oficiais; Mas o Príncipe, sendo um homem do mundo e inteligente, não descuidou de nenhum deles, chamou a todos eles, disse pelo menos uma palavra agradável a todas as damas e moças, permitiu-se encher-se de vagens laboriosamente pesadas e tratou de vinhos vis com magníficas denominações; em uma palavra, comportou-se de maneira admirável, cautelosa e inteligente. O Príncipe N**** era, ao todo, um homem de disposição alegre, sociável, amável por inclinação, e também como uma questão de cálculo: como era possível que ele fosse diferente de um sucesso completo em todos os sentidos?
     Desde a sua chegada, todos na casa haviam pensado que o tempo passava com notável rapidez; tudo corria esplendidamente; o velho Ozhógin, embora fingisse não notar nada, estava, com toda a probabilidade, esfregando secretamente as mãos na ideia de ter um genro assim. O próprio Príncipe estava conduzindo todo o caso com muita calma e decoro, quando, de repente, um acontecimento imprevisto...
     Até amanhã. Hoje estou cansado. Essas reminiscências me irritam, mesmo à beira da sepultura. Teréntievna pensou hoje que meu nariz tinha ficado ainda mais pontiagudo; e isso é um mau sinal, dizem eles.

continua em... 27 de março 
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Ivan Sergeyevich Turgenev - (9 de novembro de 1818 – 3 de setembro de 1883) foi um romancista, contista, poeta, dramaturgo, tradutor e divulgador da literatura russa no Ocidente. Seu romance Pais e Filhos (1862) é considerado uma das principais obras da ficção do século XIX. Ao contrário de Tolstói e Dostoiévski, Turguêniev carecia de motivos religiosos em seus escritos, representando o aspecto mais social do movimento reformista. Ele era considerado agnóstico. Tolstói, mais do que Dostoiévski, pelo menos a princípio, até desprezava Turguêniev. Enquanto viajavam juntos em Paris, Tolstói escreveu em seu diário: "Turguêniev é um tédio." Dostoiévski parodia Turguêniev em seu romance Os Demônios (1872) através do personagem do vaidoso romancista Karmazinov, que está ansioso para se agradar à juventude radical. Em 3 de setembro de 1883, Turguêniev morreu de um abscesso espinhal, complicação do lipossarcoma metastático, em sua casa em Bougival, perto de Paris. Seus restos mortais foram levados para a Rússia e enterrados no Cemitério Volkovo em São Petersburgo. No leito de morte, ele implorou a Tolstói: "Meu amigo, volte à literatura!" Depois disso, Tolstói escreveu obras como A Morte de Ivan Ilyich e A Sonata de Kreutzer.

Tratado da Natureza Humana: Livro 1: Do Entendimento (Parte 2: Seção I)

Da origem das nossas ideias

Livro 1 
Do Entendimento

Parte 2
Das ideias de espaço e de tempo

Seção I
Da divisibilidade infinita 
das nossas ideias de espaço e de tempo
     
     Tudo o que tem ares de paradoxo e é contrário às primeiras e mais despreconcebidas noções da humanidade é muitas vezes avidamente aceite pelos filósofos, como se patenteasse a superioridade da sua ciência, capaz que seria de descobrir opiniões tão afastadas das concepções vulgares. Por outro lado, tudo o que, ao ser-nos proposto, provoca sur presa e admiração, proporciona ao espírito uma tal satisfação que este se compraz nessas emoções agradáveis e jamais se deixará convencer que o seu prazer não tem qualquer fundamento. Estas disposições dos filósofos e seus discípulos geram entre eles uma deferência mútua: os primeiros produzindo grande abundância de opiniões estranhas e inexplicáveis, e os segundos prontamente acreditando nelas. Não posso dar exemplo mais evidente desta mútua deferência do que a doutrina da divisibilidade infinita; é pelo exame desta que vou entrar no assunto das ideias de espaço e de tempo.
     É universalmente reconhecido que a capacidade do espírito é limitada e jamais pode alcançar uma concepção plena e adequada do infinito; e mesmo que tal não fosse reconhecido, seria suficientemente evidente pela mais clara observação e experiência. É igualmente óbvio que tudo o que pode dividir-se in infirútum, deve consistir num número infinito de partes e que não é possível limitar o número das partes sem ao mesmo tempo limitar a divisão. Quase não é necessária qualquer indução para daqui concluir que a ideia que formamos de qualquer qualidade finita não é infinitamente divisível, mas que por distinções e separações adequadas, podemos remeter esta ideia a ideias inferiores, que serão perfeitamente simples e indivisíveis. Ao rejeitarmos a capacidade infinita do espírito, supomos que ele pode chegar a um termo na divisão das suas ideias, e não é possível descobrir maneira de fugir à evidência desta conclusão.
     É pois certo que a imaginação atinge um mínimo e pode propor a si mesma uma ideia da qual não é capaz de conceber subdivisão nenhuma e que não podemos diminuir sem a aniquilar completamente. Quando me falam da milésima e da décima-milésima parte de um grão de areia, tenho uma ideia distinta destes números e das suas diferentes proporções; mas as imagens que formo no espírito para representar as coisas em si mesmas em nada diferem uma da outra, e não são inferiores a essa imagem pela qual represento o próprio grão de areia que, segundo se supõe, tanto as excede. Aquilo que é composto de partes pode dividir-se nessas partes, e o que é divisível é separável. Mas o que quer que imaginemos da coisa mesma, a ideia de um grão de areia não é nem divisível, nen1 separável em vinte, e muito menos em mil, dez mil ou um número infinito de ideias diferentes.
     As impressões dos sentidos estão no mesmo caso que as ideias da imaginação. Colocai uma mancha de tinta num papel, fixai o olhar nessa mancha e afastai-vos para uma distância tal que finalmente a percais de vista; está claro que no momento anterior a desvanecer-se a imagem ou impressão era perfeitamente indivisível. Não é por falta de raios luminosos a incidir nos nossos olhos que as partes diminutas de corpos distantes não produzem qualquer impressão sensível; é porque elas estão afastadas para além daquela distância à qual as suas impressões eram reduzidas a um mínimo e não eram susceptíveis de nova diminuição. Um microscópio ou telescópio, que as torna visíveis, não produz novos raios luminosos, mas apenas espalha os que sempre emanaram de lá; e por este meio dá partes às impressões, que a olho nu parecem simples e sem composição, ao mesmo tempo que faz avançar para um mínimo aquilo que antes era imperceptível.
     A partir daqui podemos descobrir o erro da opinião comum segundo a qual a capacidade da mente é limitada nos dois sentidos e a imaginação não pode formar uma ideia adequada daquilo que ultrapassa um certo grau de pequenez assim como de grandeza. Nada pode ser mais diminuto que certas ideias que formamos na fantasia e certas imagens que aparecem aos sentidos, visto que são ideias e imagens perfeitamente simples e indivisíveis. O único defeito dos nossos sentidos é que nos dão imagens desproporcionadas das coisas e representam-nos como diminuto e sem composição aquilo que na realidade é grande e com posto de grande número de partes. Nós não nos apercebemos deste erro; mas, considerando as impressões desses objetos diminutos, que aparecem aos nossos sentidos, iguais ou quase iguais aos objetos e descobrindo pela razão que há outros objetos imensamente mais diminutos, concluímos precipitadamente que estes são inferiores a qualquer ideia da nossa imaginação ou impressão dos nossos sen tidos. Contudo é certo que podemos formar ideias que não serão maiores do que o mais pequeno átomo dos espíritos animais de um inseto mil vezes menor do que uma pulga; e devemos antes concluir que a dificuldade está na ampliação das nossas concepções até ao ponto de formar uma noção precisa de uma pulga, ou mesmo de um inseto mil vezes menor do que uma pulga. Com efeito, para formar uma noção precisa destes animais, temos de ter uma ideia distinta que represente cada uma das suas partes; o que é completamente impossível, segundo o sistema da divisibilidade até ao infinito, e extremamente difícil segundo o sistema das partes indivisíveis ou átomos, em razão do imenso número e multiplicidade dessas partes.

continua na página 66...
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Livro 1: Do Entendimento Parte 1
Livro 1: Do Entendimento Parte 2
Seção I /  
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4ª edição
Tradução de Serafim da Silva Fontes 
Prefácio e Revisão Técnica da Tradução de João Paulo Monteiro 

Tradução do texto inglês intitulado 
A TREATISE OF HUMAN NATURE, de David Hume, 
 segundo a edição da Oxford University Press, 
 Oxford, 1888

domingo, 31 de maio de 2026

O Gênio da Geografia

Milton Santos  

| 27/05/2026

Nesta quarta-feira (27), às 22h30, a TV Cultura estreou o documentário inédito Milton Santos – O Gênio da Geografia, produção do Jornalismo da emissora que celebra o centenário de nascimento de um dos maiores intelectuais brasileiros do século 20. O filme revisita a trajetória pessoal, acadêmica e política do geógrafo baiano Milton Santos, reconhecido internacionalmente por sua visão crítica sobre a globalização e por suas reflexões sobre desigualdade, território e sociedade. A produção reúne depoimentos do professor Fernando Conceição, biógrafo autorizado de Milton Santos; do geógrafo e pesquisador Billy Malachias; e de Nina Santos, neta de Milton e doutora em Comunicação. O documentário também traz trechos de uma entrevista concedida por Milton Santos ao cineasta Silvio Tendler, quatro meses antes de sua morte.

Milton Santos O Gênio da Geografia mostra como o pensamento do intelectual brasileiro segue atual e influente no Brasil e no mundo, mais de duas décadas após sua morte.




00:00:05 – Introdução: O legado do geógrafo.
00:03:27 – Reconhecimento e importância mundial.
00:07:09 – Origens e formação na Bahia.
00:09:44 – Carreira acadêmica e o doutorado na França.
00:11:12 – Exílio, ditadura e trajetória internacional.
00:15:02 – Obra literária e visão de mundo.
00:17:06 – Conceitos: Natureza do espaço e informação.
00:18:31 – Milton Santos como fonte intelectual.
00:22:56 – A globalização: fábula, perversidade e possibilidade.
00:29:03 – Crítica à política e à "democracia de mercado".
00:31:07 – A importância das cidades.
00:32:44 – Racismo e o papel do intelectual negro.
00:52:49 – Centenário e homenagens (Museu das Favelas).

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Mais cinema-documentário:

O Gênio da Geografia /   

Marcel Proust - Sodoma e Gomorra (Cap III - Fazia mais que conhecê-la)

 em busca do tempo perdido


volume IV
Sodoma e Gomorra

Capítulo Terceiro

Tristezas do Sr. de Charlus. - Seu duelo fictício. - As estações do "Transatlântico". - Cansado de Albertine, desejo romper com ela.  
 

     Fazia mais que conhecê-la, era o pai dele. Algumas das lembranças afetuosas de Morel à memória de meu tio ligavam-se ao fato de que não tencionávamos permanecer sempre no palacete de Guermantes, aonde só fôramos morar por causa da minha avó! Às vezes, falava-se de uma possível mudança. Ora, para compreender os conselhos que a tal respeito me dava Charles Morel, é preciso saber que, antigamente meu tio-avô morava no bulevar Malesherbes 40 bis. Como nós íamos muito à casa de meu tio Adolphe, até o dia fatal em que fiz meus pais brigarem com ele ao contar a história da dama cor-de-rosa, resultou daí que, na família, em vez de se dizer "casa do seu tio", dizia-se "no 40-bis": Primas de minha mãe diziam com o ar mais natural do mundo: 

- Ah! Domingo não podemos visitar vocês, pois vão jantar no 40-bis. -  

     Se eu ia visitar uma parenta, recomendavam-me que passasse primeiro no 40-bis, para que meu tio não se melindrasse por não ter começado por ele. Ele era proprietário da casa e, para falar a verdade, mostrava-se muito difícil na escolha dos locatários, que eram todos seus amigos, ou ficariam sendo. O coronel barão de Vatry vinha todos os dias fumar um charuto com ele a fim de mais facilmente obter os consertos. A porta da rua estava sempre fechada. Se, numa janela, meu tio avistava uma roupa, um tapete, enfurecia-se e mandava retirá-los mais rapidamente do que hoje o faz a polícia. Mas afinal, nem por isso deixava de alugar uma parte da casa, reservando para seu uso apenas dois andares e as cavalariças. Apesar disso, sabendo que lhe agradava elogiassem a boa manutenção da casa, louvavam o conforto do "palacete" como se meu tio fosse o seu único ocupante, e ele deixava que o dissessem, sem opor o desmentido formal que seria de esperar. Seguramente o "palacete" era confortável (pois meu tio introduzia nele todas as invenções da época). Porém nada possuía de extraordinário. Só meu tio, embora dizendo com falsa modéstia "meu casebre", estava persuadido, ou pelo menos inculcara a seu criado de quarto, à mulher deste, ao cocheiro, à cozinheira a ideia de que não existia nada em Paris que se comparasse ao pequeno palacete em conforto, luxo e satisfação. Charles Morel crescera dentro dessa fé. E nela permanecera. Assim, mesmo nos dias em que não conversava comigo, se, no trem, eu falasse a alguma pessoa sobre a possibilidade de uma mudança, logo ele me sorria e, piscando o olho com ar de entendido, dizia: 

- Ah, o que o senhor precisaria era de alguma coisa do tipo do 40-bis! Aí é que haveria de sentir-se a gosto! Pode-se dizer que seu tio entendia dessas coisas. Estou certo de que em Paris inteira não existe nada que valha o 40-bis.

     Ao ar melancólico que o Sr. de Charlus assumira ao falar da princesa de Cadignan, bem senti que essa novela não o fazia pensar apenas no jardinzinho de uma prima muito indiferente. Caiu num profundo devaneio e, como que falando para si mesmo, exclamou: 

- Os Segredos da Princesa de Cadignan! Que obra-prima! Como é profunda, como é dolorosa essa má reputação de Diane, que tanto receia que o homem a quem ama o venha a saber! Que verdade eterna, e mais geral do que aparenta! Como vai longe isso! -

     O Sr. de Charlus pronunciou essas palavras com uma tristeza que, no entanto, a gente sentia que ele não achava sem atrativos. Provavelmente o Sr. de Charlus, não sabendo ao certo em que medida os seus costumes eram ou não conhecidos, estremecia desde algum tempo à ideia de que voltaria a Paris e que o encontrariam com Morel, a família deste acabasse por intervir e que, assim, a sua felicidade ficasse comprometida. Tal eventualidade provavelmente só lhe aparecera até então como algo de profundamente penoso e desagradável. Mas o barão era muito artista. E agora que, desde um momento, confundia sua situação com a descrita por Balzac, refugiava-se de algum modo na novela, e, ao infortúnio que talvez o ameaçasse e, de qualquer forma, não deixava de assustá-lo, ele tinha esse consolo de encontrar na própria ansiedade aquilo que Swann e o próprio Saint-Loup teriam denominado algo de "muito balzaquiano". Essa identificação com a princesa de Cadignan tornara-se fácil ao Sr. de Charlus graças à transposição mental que se lhe tornara um hábito e da qual já dera vários exemplos. Aliás, era o bastante para que a simples substituição da mulher, como objeto amado, por um rapaz desencadeasse imediatamente, em torno deste, todo o processo de complicações sociais que se desenvolvem ao redor de uma ligação comum. Quando, por um motivo qualquer, introduz-se de uma vez por todas uma mudança no calendário ou nos horários, se se faz principiar o ano algumas semanas mais tarde ou soar a meia-noite quinze minutos mais cedo, como os dias, mesmo assim, terão vinte e quatro horas e os meses trinta dias, tudo o que decorre da medida do tempo permanecerá idêntico. Tudo pode ter sido alterado sem causar nenhum transtorno, pois as relações entre os números são sempre as mesmas. Assim ocorre com os que seguem "a hora da Europa central" ou os calendários orientais. Parece até que o amor-próprio que se tem em sustentar uma atriz desempenhava um papel nesta ligação. Quando, desde o primeiro dia, o Sr. de Charlus tomara informações sobre Morel, certamente ficara sabendo que era de origem humilde; mas uma demi mondaine a quem amamos, nada perde de seu prestígio para nós por ser filha de gente pobre. Em compensação, os músicos conhecidos a quem ele mandara escrever nem mesmo por interesse, como os amigos que, apresentando Swann a Odette, haviam-na descrito como mais difícil e mais requisitada do que o era por simples banalidade de homens em evidência que exaltam um estreante, haviam respondido ao barão: 

- Ah, grande talento, boa situação, naturalmente considerando que é um jovem, muito apreciado pelos conhecedores, irá longe. -

     E, com a mania dos que ignoram a inversão, falando da beleza masculina: 

- E depois, dá gosto vê-lo tocar; faz melhor figura que ninguém num concerto; tem lindos cabelos, uma postura distinta; a cabeça é atraente e ele parece um violinista de retrato. -

     Assim o Sr. de Charlus, aliás sobrexcitado por Morel, que não o deixava ignorar de quantas propostas era objeto, sentia-se lisonjeado em trazê-lo consigo, de construir-lhe um pombal a que ele voltasse várias vezes. Pois desejava estar livre o restante do tempo, o que se fazia necessário para a sua carreira, que o Sr. de Charlus queria que Morel continuasse, por mais dinheiro que tivesse de lhe dar, fosse por causa daquela ideia muito Guermantes de que é necessário que um homem faça alguma coisa, de que as pessoas só valem pelo seu talento, e que a nobreza ou o dinheiro são somente o zero que multiplica um valor, fosse por ter medo de que, ocioso e sempre a seu lado, o violinista acabasse se aborrecendo. Enfim, não queria privar se do prazer que sentia consigo próprio, de dizer por ocasião de certos concertos de gala: "Este a quem aclamam no momento estará comigo esta noite." As pessoas elegantes, quando estão enamoradas, e de qualquer maneira que o estejam, põem sua vaidade naquilo que pode destruir as vantagens anteriores em que sua vaidade encontrou satisfação. Morel, sentindo que eu não tinha maldade com ele, sinceramente ligado ao Sr. de Charlus e, por outro lado, de uma indiferença física absoluta em relação a ambos, acabou por manifestar a meu respeito os mesmos sentimentos de calorosa simpatia de uma cocote que sabe que não a desejamos e que seu amante tem em nós um amigo sincero que não tentará fazê-lo romper com ela. Não só me falava exatamente como outrora Rachel, a amante de Saint-Loup, mas também, conforme o que me repetia o Sr. de Charlus, dizia de mim, na minha ausência, as mesmas coisas que Rachel falava sobre mim a Robert. Por fim, o Sr. de Charlus me dizia: 

- Ele gosta muito do senhor.

     Como Robert: - Ela gosta muito de ti. -
     E, como o sobrinho em nome da amante, era em nome de Morel que o tio me pedia muitas vezes que fosse jantar com eles. Além disso, não havia menos tempestades entre eles do que entre Robert e Rachel. Certo, quando Charlie (Morel) ia embora, o Sr. de Charlus não lhe poupava elogios, repetindo desvanecido que o violinista era muito bom para ele. Mas era visível, no entanto, que freqüentemente Charlie, mesmo diante de todos os fiéis, tinha um ar irritado em vez de parecer sempre feliz e submisso como o teria desejado o barão. Essa irritação chegou até, mais tarde, devido à fraqueza que fazia o Sr. de Charlus perdoar as atitudes inconvenientes de Morel, ao ponto de o violinista não mais ocultá-la, ou ainda a afetava. Vi o Sr. de Charlus entrando num vagão onde se achava Morel com alguns de seus amigos militares e ser recebido com um dar de ombros do músico, acompanhado com um piscar de olhos a seus amigos. Ou então fingia estar dormindo, como alguém a quem semelhante chegada é o cúmulo do aborrecimento. Ou punha-se a tossir; os outros riam, simulando, para divertir-se, o falar amaneirado de homens como o Sr. de Charlus; atraíam Charlie para um canto e este acabava por voltar, como que forçado, para junto do Sr. de Charlus, cujo coração era transpassado por todos esses maus-tratos. É inconcebível que os tenha suportado; e essas formas cada vez diferentes de sofrimento colocavam de novo para o Sr. de Charlus o problema da felicidade, forçavam-no não apenas a pedir mais, como também a desejar outra coisa, já que a combinação precedente se achava viciada por uma lembrança horrível. E no entanto, por mais penosas que fossem logo tais cenas, convém reconhecer que, nos primeiros tempos, se manifestava em Morel o gênio do homem do povo da França, emprestando-lhe formas encantadoras de simplicidade, de aparente franqueza, e até de uma altivez independente que parecia inspirada pelo desinteresse. Isso era falso, mas a vantagem da atitude estava bem mais a favor de Morel, considerando-se que, enquanto aquele que ama está sempre forçado a voltar à carga, a insistir, pelo contrário, é fácil ao que não ama seguir uma linha reta, inflexível e graciosa. Ela existia, por privilégio da raça, no rosto tão aberto desse Morel de coração tão fechado, nesse rosto adornado com a graça neo-helênica que floresce nas basílicas da Champagne. Apesar de sua altivez artificial, seguidamente, avistando o Sr. de Charlus no momento em que não o esperava, ficava constrangido diante do pequeno clã, enrubescia, baixava os olhos, para deslumbramento do barão que via naquilo todo um romance. Era simplesmente um sinal de irritação e de vergonha. A primeira por vezes se expressava; pois, por mais calma e energicamente decente que fosse a atitude de Morel, ele não passava sem desmentir-se com freqüência. Às vezes até, a alguma palavra que o barão lhe dissesse, estourava da parte de Morel uma réplica insolente, em tom duro, e com o qual todos ficavam chocados. O Sr. de Charlus baixava a cabeça com ar triste, nada respondia e, com a faculdade que têm os pais idólatras de achar que ninguém repara na frieza e dureza dos filhos, nem por isso deixava de entoar louvores ao violinista. Aliás, o Sr. de Charlus não era sempre tão submisso, mas suas rebeliões em geral não alcançavam seu objetivo, principalmente porque, tendo convivido com pessoas da alta sociedade, levava em conta, no cálculo das reações que podia despertar, a baixeza, se não original pelo menos adquirida pela educação. Ora, em vez disso, encontrava em Morel alguma veleidade plebéia de indiferença momentânea. Infelizmente para o Sr. de Charlus, ele não compreendia que, para Morel, tudo cedia diante das questões em que o Conservatório e a boa reputação no Conservatório (porém isto, que devia ser mais grave, não se colocava de momento) entravam em jogo. Assim, por exemplo, os burgueses mudam facilmente de nome por vaidade, os grão-senhores por vantagem. Para o jovem violinista, ao contrário, o nome de Morel estava indissoluvelmente ligado a seu prêmio de violino; logo, era impossível modificá-lo. O Sr. de Charlus gostaria que Morel tivesse tudo dele, mesmo o seu nome. Considerando que o prenome de Morel era Charles, que se assemelhava a Charlus, e que a propriedade em que eles se encontravam tinha o nome de Charmes, quis convencer Morel de que um belo nome, agradável de dizer, era a metade de uma reputação artística, e que o virtuoso devia sem hesitar tomar o nome de “Charmel", discreta alusão ao local de seus encontros. Deu de ombros Morel e, como último argumento, o Sr. de Charlus teve a infeliz idéia de acrescentar que tinha um criado de quarto que se chamava desse modo. Não fez mais que excitar a furiosa indignação do rapaz. 

- Houve um tempo em que meus antepassados sentiam-se orgulhosos do título de criado de quarto, de mordomo do rei. - Houve um outro - respondeu altivamente Morel - em que meus antepassados mandaram cortar o pescoço dos seus. -

     O Sr. de Charlus ficaria muito espantado se pudesse supor que, na falta de "Charmel", resignado a adotar Morel e a lhe dar um dos títulos da família de Guermantes de que dispunha, mas que as circunstâncias, conforme se verá, não lhe permitiram oferecer ao violinista, este o houvesse recusado, pensando na reputação artística ligada a seu nome de Morel e nos comentários que fariam na "classe". De tal modo colocava ele a rua Bergere acima do faubourg Saint-Germain! Ao Sr. de Charlus forçoso lhe foi contentar-se, no momento, em mandar fazer, para Morel, anéis simbólicos com a antiga inscrição: PLVS VLTRA CAROLVS. Por certo, diante de um adversário de uma espécie a que não conhecia, o Sr. de Charlus deveria mudar de tática. Mas quem é capaz de tal? Além disso, se o Sr. de Charlus tinha dessas inabilidades, tampouco Morel as deixava de ter. Bem mais do que a simples circunstância que provocou o rompimento, o que devia, ao menos provisoriamente (mas esse provisório veio a ser definitivo), perdê-lo ante o Sr. de Charlus é que nele não havia apenas a baixeza, que o fazia ser vulgar diante da severidade e responder com insolência à doçura. Paralelamente à natural baixeza, havia nele uma neurastenia complicada com a má educação, que, despertando em toda circunstância em que estivesse em falta ou dependesse de alguém, fazia com que, no próprio momento em que necessitaria de toda a sua gentileza, de toda a sua doçura, de toda a sua alegria para desarmar o barão, ele se tornasse sombrio, intratável; procurasse travar discussões em que sabia que divergiam dele, sustentava seu ponto de vista hostil com uma fraqueza de razões e uma violência cortante que só fazia aumentar essa mesma fraqueza. Pois bem depressa, à falta de argumentos, ainda assim os inventava, revelando destarte toda a extensão de sua tolice e ignorância. Estas mal se mostravam quando ele era amável e só procurava agradar. Pelo contrário, só elas é que apareciam em seus acessos de mau humor sombrio, nos quais, de inofensivas tornavam-se odiosas. Então o Sr. de Charlus sentia-se farto pondo toda a sua esperança num dia seguinte melhor, ao passo que Morel, esquecendo que o barão o fazia viver faustosamente, ostentava um sorriso irônico de piedade superior e dizia: 

- Nunca aceitei nada de ninguém. Desse modo, não há ninguém a quem eu deva um só muito obrigado.

     Nesse meio tempo, e como se tivesse de lidar com um homem da alta sociedade, o Sr. de Charlus continuava a exercer as suas cóleras, verdadeiras ou fingidas, porém agora inúteis. Entretanto, nem sempre o eram. Assim, um dia (que se coloca aliás após aquele primeiro período) em que o barão voltava comigo e Charlie de um almoço em casa dos Verdurin, julgando passar o fim da tarde e a noite com o violinista em Doncieres, a despedida deste, logo que o trem partiu, respondendo: 

- Não, tenho o que fazer -, causou ao Sr. de Charlus uma tão forte decepção que, embora tentasse mostrar boa cara diante do azar, vi que lágrimas dissolviam o cosmético de suas pestanas, enquanto que ele permanecia estupidificado diante do trem. Essa dor foi tamanha que, como Albertine e eu pretendêssemos acabar o dia em Doncieres, disse ao ouvido dela que não gostaria de deixar sozinho o Sr. de Charlus, que me parecia, não saber por quê, muito desgostoso. A querida pequena aceitou de bom grado. Então, perguntei ao Sr. de Charlus se não desejava que o acompanhasse um pouco. Ele também aceitou, mas recusou incomodar por isso a minha prima. Achei uma certa doçura (e sem dúvida pela última vez, pois estava decidido a romper com ela) em lhe ordenar suavemente, como se ela fosse minha mulher: 
- Volta sozinha, vou me encontrar contigo esta noite -, e em ouvi-la, como o faria uma esposa, dar-me licença de proceder como quisesse e aprovar que me pusesse à disposição do Sr. de Charlus, caso este, de quem muito gostava, precisasse de mim.   

     Fomos, o barão e eu, ele bamboleando a sua corpulência, com seus olhos de jesuíta baixos, eu seguindo-o até um café onde nos serviram cerveja. Senti os olhos do Sr. de Charlus presos pela inquietação a algum projeto. De súbito, pediu papel e tinta e pôs-se a escrever com rapidez singular. Enquanto enchia folha após folha, seus olhos brilhavam num devaneio raivoso. Depois de escrever oito páginas: 

- Posso pedir-lhe um grande obséquio? - indagou. - Desculpe-me fechar esta carta. Mas é necessário. O senhor vai tomar um carro, um auto se puder, para ir mais depressa. Certamente ainda encontrará Morel no seu quarto, aonde foi se trocar. Pobre menino, quis bancar o fanfarrão no momento de nos deixar, mas fique certo de que ele está com o coração mais pesado que eu. O senhor vai entregar-lhe esta carta e, se ele perguntar onde é que me viu, dirá que desembarcou em Doncieres (o que aliás era verdade) para ver Robert (o que talvez não seja verdade), mas que me encontrou com alguém a quem não conhecia, que eu parecia bastante encolerizado, que o senhor julgou surpreender palavras de envio de testemunhas (na verdade, bato-me amanhã). Principalmente, não lhe diga que peço para chamá-lo, nem procure trazê-lo, mas, se ele quiser voltar com o senhor, não o impeça. Vá, meu menino, é para o bem dele, o senhor pode evitar um grande drama. Enquanto estiver fora, vou escrever às minhas testemunhas. Impedi o senhor de ir passear com sua prima. Espero que ela não me queira mal por isso, e até o creio. Pois trata-se de uma alma nobre e sei que é daquelas que sabem não se furtar à grandeza das circunstâncias. Terá de agradecei-lhe em meu nome. Sou-lhe pessoalmente devedor e agrada-me que assim seja. -

     Sentia grande piedade pelo Sr. de Charlus; parecia-me que Charlie poderia impedir esse duelo, do qual talvez fosse a causa; e, se assim era, sentia-me revoltado que ele tivesse ido embora com aquela indiferença em vez de dar assistência a seu protetor. Minha indignação cresceu quando, ao chegar à casa em que residia Morel, reconheci a voz do violinista que, pela necessidade de expandir sua alegria, cantava a plenos pulmões: "Na noite de sábado, depois do batente!" Se o pobre Sr. de Charlus o ouvisse, justo ele que desejava que acreditassem, e sem dúvida acreditava, que Morel tinha o coração pesado naquele momento! Charlie pôs-se a dançar de prazer quando me viu. 

- Oh, meu velho (perdoe-me chamá-lo desse modo, mas com essa maldita vida de militar a gente adquire maus hábitos), que sorte que o vejo! Não tenho nada a fazer de noite. Vamos passá-la juntos, que tal? Ficaremos aqui, se isto lhe agrada; se achar melhor, vamos passear de bote, tocaremos música, não tenho qualquer preferência.

     Disse-lhe que era obrigado a jantar em Balbec, ele tinha muita vontade de que o convidasse, mas eu não queria.

- Mas, se está tão apressado, por que veio até aqui? 
- Trago-lhe uma carta do Sr. de Charlus. -

     A esse nome, toda a sua alegria desapareceu; seu rosto contraiu-se. 

- Como! Até aqui ele vem me importunar? Então eu sou um escravo! Meu velho, seja amável. Não vou abrir a carta. Você lhe dirá que não me encontrou. 
- Não seria melhor abri-la? Acho que contém algo de grave. 
- Cem vezes não, você não conhece as mentiras, as manhas infernais desse velho pirata. É um truque para que vá vê-lo. Pois bem! Não irei, quero ter paz esta noite. 
- Mas não haverá um duelo amanhã? - perguntei a Morel, que eu julgava a par de tudo. 
- Um duelo? -indagou com ar estupefato. - Não sei uma só palavra a respeito. Afinal, pouco me importa. Esse velho repulsivo bem pode se deixar esfaquear se lhe agrada. Mas olhe, você me deixou intrigado; em todo caso, vou ler a carta dele. Diga-lhe que a deixou aqui, para o caso de eu voltar para casa. -

     Enquanto Morel me falava, eu olhava com espanto os admiráveis livros que o Sr. de Charlus lhe dera e que atulhavam o quarto. Tendo o violinista recusado aqueles que traziam a divisa: "Pertenço ao barão, etc.", divisa que lhe parecia insultante para si próprio, como um sinal de posse, o barão, com o engenho sentimental em que se compraz o amor infeliz, tinha variado com outras, provenientes de ancestrais, porém encomendadas ao encadernador conforme as circunstâncias de uma amizade melancólica. Às vezes eram breves e confiantes, como Spes mea, ou como Exspectata non eludet; às vezes, apenas resignadas, como "Esperarei"; algumas galantes: Mesmes, prazer do Mestre, ou recomendando a castidade, como aquela tomada de empréstimo aos Simiane, semeada de torres de blau (azul) e de flores-de-lis, e desviada de seu sentido: Sustentant lilia turres; outras, enfim, desesperadas e marcando encontro no céu para quem não quisera saber dele na terra: Manet ultima coelo; e achando muito verdes as uvas que não podia alcançar, fingindo não ter procurado aquilo que não obtivera, o Sr. de Charlus dizia em uma: Non mortale quod opto. Mas não tive tempo de ver todas. Se o Sr. de Charlus, lançando no papel essa carta, parecera possuído do demônio da inspiração que fazia correr a sua pena, assim que Morel rompeu o selo: Atavis et armis.

[Tradução respectiva das expressões em latim: Spes mea, "minha esperança"; Exspectata non eludet, "Não decepcionará minhas expectativas"; Sustentant filia turres, "As torres sustentam os lírios"; Manet ultima coelo, "O fim pertence ao céu"; Non mortale quod opto, "Tenho a ambição de um imortal". Atavis et armis: "Pelos ancestrais e pelas armas." (N. do T)] 

     Acometido por um leopardo acompanhado de duas rosas de goelas, pôs-se a ler com tão grande febre como a que tivera o Sr. de Charlus ao escrever, e sobre essas páginas preenchidas ao acaso, o seu olhar não corria menos depressa que a pena do barão. 

- Ah, meu Deus! - gritou - só faltava mais essa! Mas onde encontrá-lo? Deus sabe onde estará agora. -

     Insinuei que, se a gente se apressasse, iria encontrá-lo ainda no mesmo café onde ele pedira cerveja para se refazer. 

- Não sei se voltarei - disse ele à governanta da casa, e acrescentou in petto: - Isso dependerá do aspecto que as coisas assumirem. -

     Minutos depois chegávamos ao café. Notei o aspecto do Sr. de Charlus ao me avistar. Vendo que eu não voltava sozinho, senti que a respiração e a vida lhe eram devolvidas. Estando naquela noite num estado de espírito em que não podia dispensar Morel, inventara que lhe tinham dito que dois oficiais do regimento haviam falado mal dele a propósito do violinista e que ele ia enviar-lhes suas testemunhas. Morel adivinhara o escândalo, sua vida ficaria impossível no regimento, e havia acorrido. No que absolutamente não procedera mal. Pois, para tornar mais verossímil a sua mentira, o Sr. de Charlus já escrevera a dois amigos (um deles era Cottard) para pedir que fossem suas testemunhas. E, se o violinista não tivesse vindo, é certo que, doido como era o Sr. de Charlus (e para mudar sua tristeza em furor), ele os teria enviado a um oficial qualquer, ao acaso, oficial com quem lhe seria um alívio bater-se. Durante esse tempo, o Sr. de Charlus, lembrando-se que era de mais pura estirpe que a Casa de França, dizia consigo que ele era muito bom por inquietar-se tanto por causa do filho de um mordomo, cujo patrão ele não se dignaria a frequentar. Por outro lado, se apenas lhe agradava agora a companhia dos crápulas, o hábito arraigado que têm estes de não responder a uma carta, de faltar a um encontro sem prevenir, sem se desculparem depois, dava-lhe, como se tratava muitas vezes de amores, tantas emoções, e, no resto de tempo, lhe causava tanta irritação, constrangimento e raiva, que às vezes chegava a lamentar a multiplicidade de caretas por um nada, a exatidão escrupulosa dos príncipes e embaixadores, os quais, se desgraçadamente lhe eram indiferentes, apesar de tudo davam-lhe uma espécie de repouso. Habituado aos modos de Morel e sabendo da pouca influência que tinha sobre ele e de como era incapaz de insinuar-se numa vida em que as camaradagens vulgares mais consagradas pelo hábito ocupavam excessivo lugar e tempo para que se reservasse uma hora ao grão-senhor repelido, orgulhoso e que implorava em vão, o Sr. de Charlus estava de tal modo persuadido de que o músico não viria, de tal maneira receava estar brigado para sempre com ele, por ter ido longe demais, que mal pôde reter um grito ao vê-lo. Porém, sentindo-se vencedor, fez questão de ditar as condições de paz e delas tirar as vantagens que pudesse. 

- Que vem fazer aqui? - disse-lhe. - E o senhor? - acrescentou, olhando-me - eu lhe havia recomendado, acima de tudo, que não o trouxesse. 
- Ele não queria me trazer - disse Morel, virando para o Sr. de Charlus, na ingenuidade de sua coqueteria, olhares convencionalmente tristes e langorosamente desusados, com um ar, que sem dúvida julgava irresistível, de querer beijar o barão e de ter vontade de chorar. - Fui eu que vim contra a vontade dele. Venho, em nome da nossa amizade, para suplicar de joelhos que não cometa essa loucura. 

     O Sr. de Charlus delirava de alegria. A reação era muito forte para os seus nervos; apesar disso, manteve-se senhor da situação. 

- A amizade, que o senhor invoca de modo bastante inoportuno - respondeu ele em tom seco - devia pelo contrário conseguir a aprovação de sua parte, quando acho que não devo deixar passar em branco as impertinências de um tolo. Além disso, se eu quisesse obedecer aos rogos de uma afeição que já conheci mais bem inspirada, não poderia mais fazê-lo, visto que as cartas já foram expedidas às minhas testemunhas e não duvido que sejam aceitas. O senhor sempre agiu comigo como um perfeito imbecil e, em vez de se orgulhar, como seria de seu direito, da predileção com que eu o assinalava, em vez de fazer compreender, à chusma de ajudantes ou de criados em meio aos quais a lei militar o força a viver, que motivo de incomparável orgulho era para o senhor uma amizade como a minha, procurou desculpar-se, quase transformando num mérito estúpido o fato de não ser devidamente reconhecido. Sei que nisso acrescentou, para não deixar perceber o quanto certas cenas o haviam humilhado o senhor só é culpado de ter-se deixado levar pelo ciúme dos outros. Mas como é que, na sua idade, pode ser tão criança (e criança mal-educada) para não ter adivinhado imediatamente que minha preferência pelo senhor e todas as vantagens que daí deviam resultar iriam provocar ciúmes? Que todos os seus camaradas, enquanto o incitavam a brigar comigo, iriam trabalhar para tomar o seu posto? Achei que não devia mostrar-lhe as cartas que recebi, sobre o assunto, de todos aqueles em quem mais confia. Desdenho tanto as investidas desses lacaios como suas vãs zombarias. A única pessoa que me preocupa é o senhor, porque muito o estimo, mas a afeição tem limites, e o senhor bem o deveria saber. -

continua na página 211...
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Leia também:

Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Sodoma e Gomorra (Cap III - Fazia mais que conhecê-la)
Volume 6
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