quarta-feira, 13 de março de 2019

Edgar Allan Poe - Contos: Um Homem na Lua (06)

Edgar Allan Poe - Contos




Um Homem na Lua 
Título original: The Unparalleled Adventure of One Hans Pfaall 
Publicado em 1835






Cheio o coração de delirantes fantasias 
Que eu capitaneio, 
Com uma lança de fogo e um cavalo de ar 
Viajo através da imensidade.

— Canção de Tom O’Fedlan



continuando...




«17 de abril. — Esta manhã ficará marcada na minha viagem. Recordarão Vossas Excelências que a 13 a terra formava comigo um ângulo de 25 graus. A 14 este ângulo tinha diminuído consideravelmente; no dia 15 observei uma diminuição ainda mais rápida e, a 16, antes de me deitar, notei que 0 ângulo tinha diminuído para 7 graus e 15 minutos. Compreenderão perfeitamente o meu espanto quando, ao despertar, nessa manhã do dia 17, depois de um sono curto e penoso, notei que a superfície planetária colocada por baixo de mim tinha aumentado súbita e espantosamente de volume e que o seu diâmetro aparente formava um ângulo não inferior a 39 graus. 
«Fiquei aterrado! Não há palavras que possam dar ideia exata do horror absoluto e supremo que se apossou de mim quase por completo. Senti dobrarem-se-me os joelhos, bater os dentes e eriçarem-se-me os cabelos. 
«A primeira ideia que me ocorreu foi a de que o balão tinha explodido. A julgar pelo espaço tão rapidamente percorrido na descida, não deveria levar mais de dez minutos a chegar à terra, rebentando ao chocar com ela. 
«No entanto, como de outras vezes, a reflexão tranquilizou-me. Era impossível, fosse como fosse, uma descida tão rápida. Além disso, embora me aproximasse evidentemente da superfície terrestre, a minha velocidade real não estava de forma alguma em relação com a velocidade espantosa que imaginara a princípio. 
«Já tranquilo, procurei encarar o fenômeno sob o seu verdadeiro ponto de vista. Somente o espanto excessivo que me acometeu nos primeiros momentos pôde privar-me do exercício dos meus sentidos a ponto de não ver a enorme diferença entre o aspeto da superfície colocada debaixo de mim e a do meu planeta natal. 
«Esta última era a que estava na parte de cima e completamente oculta pelo balão, enquanto a Lua, a verdadeira Lua, em toda a sua glória, a tinha por baixo de mim. 
«O assombro produzido por esta extraordinária modificação na situação das coisas era muito mais lógico e explicável que o espanto anterior. 
«E no entanto era uma consequência natural, visto que eu tinha chegado ao ponto exato em que a atração do planeta terrestre era substituída pela atração do satélite. Em resumo: ao ponto em que a gravitação do balão em relação à Terra era menos poderosa que em relação à Lua. É verdade também que saía de um sono profundo, que tinha os sentidos ainda embotados e que me encontrei subitamente na presença de um fenômeno previsto de antemão, mas não naquele momento. 
«É inútil dizer que, livre já do terror, do assombro e, por fim, da reflexão que se seguiu a isso, dediquei toda a minha atenção a contemplar o aspeto geral da Lua. Estendia-se como um mapa, e, embora ainda estivesse a uma distância bastante considerável, as asperezas da sua superfície apareciam ante os meus olhos com singular nitidez. O que mais me chocou desde o primeiro momento, como característica mais extraordinária da sua condição geológica, foi a ausência completa de oceanos e mesmo de qualquer lago ou rio. 
«Via no entanto enormes regiões planas, com terrenos de aluvião, embora a maior parte do hemisfério visível estivesse coberta de grande número de montanhas vulcânicas, de forma cônica, que pareciam mais obra do homem que da natureza. 
«A mais alta não teria mais do que três milhas e três quartos. Um simples mapa das regiões vulcânicas de Campi Phlegroei dará a Vossas Excelências melhor ideia dessa superfície geral que qualquer descrição, sempre insuficiente, feita por mim. 
«A maior dessas montanhas estava indubitavelmente em estado eruptivo e dava uma ideia terrível da sua poderosa fúria com as explosões cada vez mais numerosas das pedras impropriamente chamadas meteóricas, que partiam agora de baixo e passavam ao lado do balão com uma frequência cada vez mais ameaçadora.

«18 de abril. — Novo e considerável aumento no volume aparente da lua. A velocidade indubitavelmente acelerada da descida alarma-me cada vez mais. 
«Não esqueceram Vossas Excelências que, quando comecei a supor possível uma viagem à Lua, a hipótese de uma atmosfera cuja densidade fosse proporcional ao volume do planeta formava a parte principal dos meus cálculos, passando por cima de qualquer teoria contrária e abandonando o preconceito universal que nega qualquer atmosfera lunar. Mas, sem ter em conta as ideias anteriormente emitidas relativamente ao cometa de Encke e à luz zodiacal, o que mais confirmava a minha opinião eram certas observações do senhor Shroeter, de Dilienthal. 
«Contava, portanto, com a resistência de uma atmosfera existente num estado de densidade hipotética para efetuar uma descida feliz. Além de tudo, se as minhas conjeturas fossem absurdas já não tinha outro remédio senão ser pulverizado contra a superfície do satélite. Infelizmente, o receio desta última hipótese aumentava. 
«A distância que me separava da lua era relativamente pequena, enquanto que os esforços exigidos para condensar o ar, longe de diminuir, se tornavam cada vez maiores.

«19 de abril. — Cerca das nove da manhã, já espantosamente próximo da superfície lunar, dou conta de que o êmbolo do condensador dá indícios de alteração atmosférica. Às dez, creio notar que aumenta consideravelmente a sua densidade. Às onze, o aparelho não exige senão um trabalho mínimo, e ao meio dia, não sem hesitar algum tempo, decido-me a desapertar o torniquete, e, vendo que a operação se torna fácil, abro a câmara de borracha e destapo a barquinha. Como era lógico, uma violenta dor de cabeça, acompanhada de estremecimentos espasmódicos, foi a consequência imediata de uma experiência tão precipitada e perigosa. Mas como estes inconvenientes e outros relativos à respiração já não eram bastante grandes para atacar a vida, resignei-me a suportá-los, tanto mais que iriam desaparecendo progressivamente à medida que me fosse aproximando das camadas mais densas da atmosfera lunar. 
«No entanto, esta aproximação efetuava-se com excessiva impetuosidade e não demorei em ter a prova, que muito me alarmou, de que naturalmente me não tinha enganado, contando com uma densidade proporcional ao volume do satélite. Equivoquei-me no entanto ao supor que essa densidade, mesmo na superfície, bastaria para suportar o enorme peso contido na barquinha do balão. 
«Entretanto, a descida aumentava de velocidade. Não havia tempo a perder. Atirei fora todo o lastro, depois os barris de água, depois o aparelho condensador e o invólucro de borracha e, por fim, todos os objetos que havia na barquinha. 
«Mas não serviu de nada. Caía sempre com a maior rapidez e já não estava a mais de meia milha de distância. Como supremo recurso, tirei o capote, o chapéu e as botas, desprendendo do balão a própria barquinha e dependurando-me das cordas com as duas mãos. Mal tive tempo para observar que toda a região, na extensão que podia dominar com a vista, estava coberta de habitações liliputianas, e fui cair como uma bala no próprio centro de uma cidade fantástica e no meio de uma multidão de pessoas, sem que nenhuma pronunciasse uma única sílaba, ou se preocupasse, por pouco que fosse, com prestar-me auxílio.
«Permaneciam todas com as mãos nas ancas como um montão de idiotas, gesticulando ridiculamente e olhando-me de soslaio. Voltei-lhes as costas com um gesto de supremo desprezo e, elevando o olhar para a Terra que acabava de abandonar talvez para sempre, vi-a sob a forma de um largo e sombrio escudo de cobre com um diâmetro de 2 graus aproximadamente, fixo e imóvel no céu, e orlado num dos bordos por uma meia lua cintilante e dourada. Não pude distinguir qualquer vestígio marítimo ou continental. Só via diversas manchas inumeráveis que a atravessavam nas zonas equatorial e tropicais. 
«Desta maneira, depois de uma longa série de angústias, de inauditos perigos, chegara são e salvo, após dezanove dias de saída de Roterdão, ao fim da viagem mais extraordinária, mais importante que foi efetuada, empreendida ou até imaginada por qualquer outro cidadão do nosso planeta.

«Agora ficam por relatar as minhas aventuras. Vossas Excelências já compreenderam que, depois de residir cinco anos sobre um planeta bastante interessante por si mesmo, e que o é ainda mais pelo seu íntimo parentesco, na qualidade de satélite, com o mundo habitado pelo homem, estou em condições de entabular com o Colégio Astronômico Nacional uma correspondência secreta muito mais importante que os simples pormenores, por muito importantes que sejam, desta viagem feliz. 
«É este o importante aspecto da questão. Tenho ainda muitas coisas para dizer e será para mim um prazer comunicá-las. 
«Ainda me resta muito que falar sobre o clima deste planeta, sobre as suas assombrosas alternativas de frio e de calor, sobre a claridade solar que dura quinze dias, implacável e ardente, e sobre a temperatura glacial ultra polar que enche a outra quinzena. Não menos interessantes são os dados relativos a uma translação constante da umidade operada por destilação, como no vácuo, desde o ponto situado imediatamente abaixo do Sol até ao mais longínquo. E também o que diz respeito à raça dos habitantes, seus costumes, seus trajos e instituições políticas, a sua constituição física a sua fealdade, a sua falta de orelhas, apêndices supérfluos numa atmosfera tão estranhamente organizada, e portanto a sua ignorância de qualquer espécie de linguagem, e o singular meio de comunicação que substitui a palavra. E os dados que se referem à incompreensível relação que une cada cidadão lunar a um cidadão do globo terrestre, análoga e submetida à que rege igualmente os movimentos do planeta e do seu satélite e em virtude da qual as existências e os destinos dos habitantes de um estão sujeitos às existências e destinos dos habitantes do outro. E, sobretudo, falarei a Suas Excelências dos sombrios e horríveis mistérios relegados para as regiões do outro hemisfério lunar que, graças à concordância quase milagrosa da rotação do satélite sobre o seu eixo com a sua revolução sideral em volta da Terra, nunca apresentou a sua superfície à nossa vista e que — Deus louvado! — não se exporá jamais à curiosidade dos telescópios humanos. 
«Tudo isto e muito mais poderei contar a Suas Excelências, mas é preciso que previamente me recompensem. 
«Aspiro a entrar de novo na minha família e na minha casa e, como único preço das minhas futuras revelações — e tendo em conta a luz que posso lançar sobre muitos ramos importantes das ciências físicas e metafísicas —, solicito por intermédio da vossa ilustre Corporação o perdão do crime cometido para com os meus três credores ao abandonar a cidade de Roterdão. 
«Tal é o fim da presente carta. O portador, que é um habitante da lua que eu convenci a servir-me de mensageiro e que leva as instruções suficientes, esperará a resolução de Vossas Excelências e trar-me-á o perdão solicitado se me for concedido. 
«Tenho a honra de me subscrever humílimo servidor de Vossas Excelências, 

Hans Pfaall»





Continua...



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Edgar Allan Poe (nascido Edgar Poe; Boston, Massachusetts, Estados Unidos, 19 de Janeiro de 1809 — Baltimore, Maryland, Estados Unidos, 7 de Outubro de 1849) foi um autor, poeta, editor e crítico literário estadunidense, integrante do movimento romântico estadunidense.[1][2] Conhecido por suas histórias que envolvem o mistério e o macabro, Poe foi um dos primeiros escritores americanos de contos e é geralmente considerado o inventor do gênero ficção policial, também recebendo crédito por sua contribuição ao emergente gênero de ficção científica.[3] Ele foi o primeiro escritor americano conhecido por tentar ganhar a vida através da escrita por si só, resultando em uma vida e carreira financeiramente difíceis.

Ele nasceu como Edgar Poe, em Boston, Massachusetts; quando jovem, ficou órfão de mãe, que morreu pouco depois de seu pai abandonar a família. Poe foi acolhido por Francis Allan e o seu marido John Allan, de Richmond, Virginia, mas nunca foi formalmente adotado. Ele frequentou a Universidade da Virgínia por um semestre, passando a maior parte do tempo entre bebidas e mulheres. Nesse período, teve uma séria discussão com seu pai adotivo e fugiu de casa para se alistar nas forças armadas, onde serviu durante dois anos antes de ser dispensado. Depois de falhar como cadete em West Point, deixou a sua família adotiva. Sua carreira começou humildemente com a publicação de uma coleção anônima de poemas, Tamerlane and Other Poems (1827).

Poe mudou seu foco para a prosa e passou os próximos anos trabalhando para revistas e jornais, tornando-se conhecido por seu próprio estilo de crítica literária. Seu trabalho o obrigou a se mudar para diversas cidades, incluindo Baltimore, Filadélfia e Nova Iorque. Em Baltimore, casou-se com Virginia Clemm, sua prima de 13 anos de idade. Em 1845, Poe publicou seu poema The Raven, foi um sucesso instantâneo. Sua esposa morreu de tuberculose dois anos após a publicação. Ele começou a planejar a criação de seu próprio jornal, The Penn (posteriormente renomeado para The Stylus), porém, em 7 de outubro de 1849, aos 40 anos, morreu antes que pudesse ser produzido. A causa de sua morte é desconhecida e foi por diversas vezes atribuída ao álcool, congestão cerebral, cólera, drogas, doenças cardiovasculares, raiva, suicídio, tuberculose entre outros agentes.

Poe e suas obras influenciaram a literatura nos Estados Unidos e ao redor do mundo, bem como em campos especializados, tais como a cosmologia e a criptografia. Poe e seu trabalho aparecem ao longo da cultura popular na literatura, música, filmes e televisão. Várias de suas casas são dedicadas como museus atualmente.


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Edgar Allan Poe

CONTOS

Originalmente publicados entre 1831 e 1849 






Edgar Allan Poe - Contos: Um Homem na Lua (01)

Edgar Allan Poe - Contos: Um Homem na Lua (02)

Edgar Allan Poe - Contos: Um Homem na Lua (03)

Edgar Allan Poe - Contos: Um Homem na Lua (04)

Edgar Allan Poe - Contos: Um Homem na Lua (05)

Edgar Allan Poe - Contos: Um Homem na Lua (fim)


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