segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Moby Dick: 49 - A Hiena

Moby Dick

Herman Melville

49 - A Hiena


     Há certas circunstâncias e ocasiões bizarras neste estranho e caótico negócio que chamamos de vida nas quais um homem considera todo o universo uma grande piada, ainda que mal perceba a sua graça, e mais do que suspeita que a piada seja feita à sua custa e de mais ninguém. No entanto, nada o desanima, e nada parece valer o esforço de uma disputa. Ele engole todos os acontecimentos, todas as crenças e credos, e convicções, todas as coisas difíceis, visíveis ou invisíveis, pouco importando quão intricadas sejam; como um avestruz de estômago poderoso devora cartuchos e pedras de fuzis. Quanto às pequenas dificuldades e preocupações, expectativas de desastres súbitos, perigo de vida ou ferimentos; tudo isso e a própria morte lhe parecem apenas manhosos e bem humorados safanões, tapas nas costas dados pelo galhofeiro invisível e inexplicável. Esse tipo estranho de humor caprichoso ao qual me refiro assola o homem apenas nos momentos de tribulação extrema; assola-o em meio à sua seriedade, de tal modo que aquilo que lhe parecia uma coisa muito importante se afigura, então, como parte da piada geral. Não há nada como os perigos da pesca da baleia para gerar esse tipo indulgente e liberto de filosofia genial daquele que não tem nada a perder; e assim eu agora encarava toda a viagem do Pequod, e a grande Baleia Branca, seu propósito.

“Queequeg”, disse, quando fui levantado ao convés, o último homem, e ainda me sacudia para tirar a água que estava na minha jaqueta; “Queequeg, meu bom amigo, esse tipo de coisa acontece sempre?” Sem muita emoção, ainda que tão encharcado quanto eu, deu-me a entender que tais coisas sempre aconteciam.
“Sr. Stubb”, disse eu, voltando-me àquele homem digno, que, todo abotoado em seu casaco impermeável, fumava agora calmamente seu cachimbo na chuva; “Sr. Stubb, penso tê-lo ouvido dizer que, de todos os baleeiros que o senhor conhece, nosso primeiro oficial, o sr. Starbuck, é o mais cuidadoso e o mais prudente. Imagino, então, que atirar-se sobre uma baleia fugitiva com a vela desfraldada numa tempestade com neblina é o máximo de prudência que se pode esperar de um baleeiro?”
“É claro! Eu já desci os botes de um navio com vazamento para caçar baleias no meio de uma tempestade ao largo do cabo Horn.”
“Sr. Flask”, disse eu, virando-me para o pequeno King-Post, que estava parado ali perto; “você tem experiência nessas coisas, e eu não. Você poderia me dizer se é uma lei inalterável nesta pesca, sr. Flask, que um remador deva quebrar a coluna arrastando-se de costas para as mandíbulas da morte?”
“Precisa fazer tantos rodeios?”, disse Flask. “Sim, esta é a lei. Queria ver uma tripulação remando de frente para a baleia. Rá, rá! e a baleia ficaria fazendo-lhes caretas, já pensou?!”

     Eis que então, de três testemunhas imparciais, eu obtivera declarações deliberadas sobre todo o caso. Considerando, portanto, que tempestades e naufrágios e os consequentes bivaques no fundo do mar eram ocorrências comuns neste tipo de vida; considerando que no momento superlativamente crítico de ir em direção à baleia devo entregar minha vida nas mãos daquele que comanda o bote – muitas vezes um sujeito que naquele exato momento está em sua impetuosidade a ponto de fazer um rombo na embarcação com suas pisadas frenéticas; considerando que o desastre em particular de nosso bote em particular foi principalmente devido a Starbuck ter nos guiado em direção à sua baleia na boca da tempestade, e considerando que Starbuck, no entanto, era famoso por sua grande diligência na pesca; considerando que eu pertencia a este bote do prudentíssimo Starbuck; e finalmente considerando a caçada demoníaca em que eu estava implicado, no tocante à Baleia Branca: levando tudo isso em conta, digo, pensei que podia muito bem descer e fazer um rascunho sumário de meu testamento. “Queequeg”, eu disse, “venha comigo, você será meu advogado, executor e herdeiro.”
     Pode parecer um fato estranho que os marinheiros se dediquem aos últimos desejos e testamentos, mas não há homens no mundo mais afeitos a tal diversão. Esta era a quarta vez em minha vida marinha que fazia a mesma coisa. Depois de concluída a cerimônia na presente ocasião, senti-me muito mais aliviado; uma pedra foi retirada do meu coração. Além do mais, todos os dias que viveria agora seriam tão bons quanto os que viveu Lázaro após sua ressurreição; um lucro líquido suplementar de tantos meses ou semanas, conforme fosse o caso. Eu sobrevivi a mim mesmo; minha morte e enterro estavam cerrados em meu peito. Olhei ao meu redor tranquilo e contente, como um fantasma pacífico com a consciência limpa sentado dentro de um aprazível jazigo de família.
     Agora, pois, pensei, inconscientemente arregaçando as mangas do meu casaco, façamos juntos um refrescante mergulho na morte e na destruição, e que o diabo carregue o último que ficar.

Continua na página 220...
______________________

Leia também:
Moby Dick: Etimologia, Excertos, Citações / Moby Dick: 1  - Miragens
Moby Dick: 48 - A Primeira Descida(b) / Moby Dick: 49 - A Hiena / 
________________________

Moby Dick é um romance do escritor estadunidense Herman Melvillesobre um cachalote (grande animal marinho) de cor branca que foi perseguido, e mesmo ferido várias vezes por baleeiros, conseguiu se defender e destruí-los, nas aventuras narradas pelo marinheiro Ishmael junto com o Capitão Ahab e o primeiro imediato Starbuck a bordo do baleeiro Pequod. Originalmente foi publicado em três fascículos com o título "Moby-Dick, A Baleia" em Londres e em Nova York em 1851.
O livro foi revolucionário para a época, com descrições intrincadas e imaginativas do personagem-narrador, suas reflexões pessoais e grandes trechos de não-ficção, sobre variados assuntos, como baleias, métodos de caça a elas, arpões, a cor do animal, detalhes sobre as embarcações, funcionamentos e armazenamento de produtos extraídos das baleias.
O romance foi inspirado no naufrágio do navio Essex, comandado pelo capitão George Pollard, que perseguiu teimosamente uma baleia e ao tentar destruí-la, afundou. Outra fonte de inspiração foi o cachalote albino Mocha Dick, supostamente morta na década de 1830 ao largo da ilha chilena de Mocha, que se defendia dos navios que a perturbavam.
A obra foi inicialmente mal recebida pelos críticos, assim como pelo público por ser a visão unicamente destrutiva do ser humano contra os seres marinhos. O sabor da amarga aventura e o quanto o homem pode ser mortal por razões tolas como o instinto animal, sendo capaz de criar seus fantasmas justamente por sua pretensão e soberba, pode valer a leitura.


E você com o quê se identifica?

Nenhum comentário:

Postar um comentário