sexta-feira, 29 de maio de 2026

Eduardo Galeano: As veias abertas da América Latina - Primeira Parte: Os mineiros do estanho, por baixo e por cima da terra (5)

 A Pobreza do Homem como resultado da riqueza da terra


PRIMEIRA PARTE 

As Fontes Subterrâneas do Poder

     37. Os mineiros do estanho, por baixo e por cima da terra
          Há pouco menos de um século, um homem quase morto de fome lutava contra as rochas em meio às desolações do altiplano da Bolívia. A dinamite explodiu. Quando ele se aproximou para recolher os pedaços de pedra triturados pela explosão, deslumbrou-se. Tinha nas mãos cacos do mais rico veio de estanho do mundo. Ao amanhecer do dia seguinte, montou a cavalo rumo a Huanuni. A análise das amostras confirmou o valor do achado. O estanho podia ser levado diretamente do veio para o porto, sem necessidade de passar por processo algum de concentração. Aquele homem se tornou o rei do estanho, e quando morreu a revista Fortune afirmou que ele era um dos dez multimilionários mais multimilionários do planeta. Chamava se Simón Patiño. Da Europa, durante muitos anos, fez e derrubou presidentes e ministros bolivianos, planificou a fome dos operários e organizou suas matanças, ramificou e estendeu sua fortuna pessoal: a Bolívia era um país que existia só para servi-lo. 
     A partir das jornadas revolucionárias de abril de 1952, a Bolívia nacionalizou o estanho. No entanto, aquelas riquíssimas minas agora já eram pobres. No cerro Juan del Valle, onde Patiño descobrira o fabuloso filão, a lei do estanho se reduzira 120 vezes. Das 156 mil toneladas de rocha que saem mensalmente pelas bocas das minas, são recuperadas apenas 400. As perfurações já somam, em quilômetros, uma distância duas vezes maior do que aquela que separa a mina da cidade de La Paz: o cerro, por dentro, é um formigueiro atravessado por infinitas galerias, corredores, túneis e chaminés. Está a caminho de tornar-se uma casca oca. A cada ano perde um pouco mais de altura, e a lenta derrubada vai carcomendo sua crista: de longe, parece um dente cariado.
     Antenor Patiño não só recebeu uma considerável indenização pelas minas que seu pai espremeu, como também manteve o controle do preço e do destino do estanho expropriado. Da Europa, não cessava de sorrir. “Mister Patiño é o afável rei do estanho boliviano”, seguiriam comentando as crônicas sociais muitos anos depois da nacionalização [1]. Porque a nacionalização, conquista fundamental da revolução de 1952, não modificou o papel da Bolívia na divisão internacional do trabalho. A Bolívia seguiu exportando o material bruto, e quase todo o estanho ainda é refinado nos fornos de Liverpool da empresa Williams, Harvey and Co., que pertence a Patiño. A nacionalização das fontes de produção de qualquer matéria prima, como ensina a dolorosa experiência, não é suficiente. Um país pode continuar tão condenado à impotência como antes, ainda que, nominalmente, torne-se o dono de seu subsolo. Ao longo de sua história, a Bolívia produziu minerais brutos e discursos refinados. Abundam a retórica e a miséria; desde sempre, escritores afetados e doutores de fraque se devotaram à absolvição dos culpados. De cada dez bolivianos, seis ainda não sabem ler; a metade das crianças não frequenta a escola. Recém em 1971, a Bolívia terá em funcionamento sua própria fundição nacional de estanho, levantada em Oruro, ao cabo de uma história interminável de traições, sabotagens, intrigas e sangue derramado [2]. Esse país que, até agora, não podia produzir seus próprios lingotes, dá-se ao luxo de contar com oito faculdades de Direito, destinadas à fabricação de vampiros de índios.

[1The New York Times de 13 de agosto de 1969 o definia nesses termos, ao descrever em êxtase as férias do duque e da duquesa de Windsor no castelo do século XVI que Patiño possui nos arredores de Lisboa. “Agrada-nos dar aos empregados um pouco de calma e de paz”, confessava a senhora, enquanto explicava para Charlotte Curtis seu programa do dia.
      Depois, é o tempo das férias de montanha na Suíça; os fotógrafos e os jornalistas perseguem os condes e os artistas da moda em Saint Moritz. Uma milionária de 50 anos acaba de perder o segundo marido, vice-presidente da Ford, e sorri diante dos flashes: anuncia seu próximo casamento com um jovenzinho que a toma pelo braço e olha com olhos assustados. Ao lado, outro casal do grande mundo. Ele é um homem de baixa estatura e traços indígenas: sobrancelhas espessas, olhos duros, nariz achatado, pômulos salientes. Antenor Patiño continua parecendo boliviano. Numa revista, Antenor aparece fantasiado de príncipe oriental, com turbante e tudo, entre vários príncipes autênticos que se reuniram no palácio do barão Alexis de Rédé: a princesa Margarita da Dinamarca, o príncipe Enrique, María Pía de Saboya e seu primo o príncipe Miguel de Bourbon-Parma, o príncipe Lobckowitz e outros trabalhadores.
[2] Quando o general Alfredo Ovando anunciou, em julho de 1966, que se chegara a um acordo com a empresa alemã Klochner para a instalação dos fornos estatais, disse também que teriam um novo destino “essas pobres minas que, até agora, só serviram para abrir buracos nos pulmões de nossos irmãos mineiros”. Esses homens que dão sua vida ao mineral, escrevia Sergio Almaraz Paz (El poder y la caída. El estaño en la historia de Bolivia. La Paz; Cochabamba, 1967), “não o possuem. Nunca o possuíram, nem antes nem depois de 1952. Porque o que acontece é que o estanho, para aproveitamento imediato, nada vale senão com o brilhante aspecto de um lingote. O mineral, pó pesado de terroso aspecto, certamente não serve para nada, ou só serve para ser despejado à boca do forno.
      Almaraz Paz contou a história de um industrial, Mariano Peró, que ao longo de 30 anos sustentou uma guerra solitária para que o estanho boliviano fosse refinado em Oruro e não em Liverpool. Em 1946, poucos dias depois da queda do presidente nacionalista Gualberto Villarroel, Peró entrou no Palacio Quemado. Ia recolher dois lingotes de estanho. Eram os primeiros lingotes produzidos em sua fundição de Oruro, e já não havia sentido que aquele par de símbolos, que encarnavam a nação, continuassem decorando o gabinete do Presidente da República. Villarroel tinha sido enforcado num poste da Plaza Murillo e a partir de sua queda o poder da rosca oligárquica fora restaurado. Mariano Peró apanhou os lingotes e foi embora com eles. Estavam manchados de sangue seco.

     Contam que, há um século, o ditador Mariano Melgarejo obrigou o embaixador da Inglaterra a beber um barril inteiro de chocolate, como castigo por ter recusado um copo de chicha. Depois o embaixador teve de desfilar pela rua principal de La Paz, montado ao contrário num burro. E foi devolvido para Londres. Dizem que então a rainha Vitória, enfurecida, mandou trazer o mapa da América do Sul, desenhou com giz uma cruz sobre a Bolívia e decretou: “A Bolívia não existe”. Para o mundo, de fato, a Bolívia não existia e nem existiu depois: o saque da prata e, posteriormente, do estanho, não passaram de um exercício do direito natural dos países ricos. Afinal, as embalagens de lata identificam os Estados Unidos tanto quanto o emblema da águia e a torta de maçã. Mas tal embalagem não é só um símbolo pop dos Estados Unidos; embora não se saiba, é também um símbolo da silicose nas minas de Huanuni e Século XX: a lata contém estanho, e os mineiros bolivianos morrem com os pulmões apodrecidos para que o mundo possa consumir estanho barato. Meia dúzia de homens fixa seu preço mundial. Para os consumidores de conservas ou os manipuladores da Bolsa, que importa a dura vida do mineiro da Bolívia? Os norte-americanos compram a maior parte do estanho que é refinado no planeta: para manter em dado limite os preços, periodicamente ameaçam lançar no mercado suas enormes reservas do mineral, compradas por muito menos do que a cotação, a preços de “contribuição democrática” nos anos da Segunda Guerra Mundial. Segundo os dados da FAO, o cidadão médio dos Estados Unidos consome cinco vezes mais carne e leite e vinte vezes mais ovos do que um habitante da Bolívia. E os mineiros estão muito abaixo da média nacional. No cemitério de Catavi, onde os cegos rezam pelos mortos em troca de uma moeda, dói encontrar, entre as lápides escuras dos adultos, um sem-número de cruzes brancas sobre as tumbas pequeninas. De cada duas crianças nascidas nas minas, morre uma pouco tempo depois de abrir os olhos. A outra, a que sobrevive, seguramente vai ser mineira quando crescer. E antes dos 30 anos já não terá pulmões.
     O cemitério range. Debaixo dos túmulos, foram cavados incontáveis túneis, cavernas de boca estreita onde mal cabem os homens que ali se introduzem como viscachas, em busca do mineral. Novas jazidas de estanho se acumularam nos aterros ao longo dos anos, toneladas de resíduos sobre resíduos despejados em gigantescos montes cinzentos que, assim, somaram estanho ao estanho da paisagem. Quando cai a chuva com violência das nuvens próximas, os desempregados se agacham ao longo das ruas de terra de Llallagua, onde os homens se embriagam desesperadamente nas bodegas de chicha: vão recolhendo e calculando o peso do estanho arrastado pela chuva. Ali o estanho é um deus de lata que reina sobre os homens e as coisas, e está presente em todos os lugares. Não é só no ventre do velho cerro de Patiño que há estanho. Anunciado pelo brilho negro da cassiterita, há estanho até nas paredes de adobe dos acampamentos. Há estanho também na lama amarelada que avança arrastando as sobras da mina, e há estanho ainda nas águas envenenadas que correm da montanha; o estanho está presente na terra e na rocha, na superfície e no subsolo, nas areias e nas pedras do leito do rio Seco. Nessas terras áridas e pedregosas, a quase 4 mil metros de altitude, onde não cresce o pasto e onde tudo, até as pessoas, tem a cor escura do estanho, os homens sofrem estoicamente seu obrigado jejum e não conhecem a festa do mundo. Vivem em acampamentos, amontoados em casas de uma única peça de chão batido; o vento cortante entra pelas frestas. Um informe universitário sobre a mina de Colquiri revela que, de cada dez rapazes pesquisados, seis dormem na mesma cama de suas irmãs, e acrescenta: “Muitos pais se sentem constrangidos quando seus filhos os observam durante o ato sexual”. Não há banheiros; as latrinas são pequenos cubículos cheios de imundície e moscas: as pessoas preferem usar os quintais, áreas abertas, onde ao menos circula o ar, apesar do lixo e dos excrementos acumulados e dos porcos que se refocilam felizes. Também é coletivo o serviço de água: é preciso esperar que a água chegue e se apressar, fazer a fila, recolher a água do tanque público com latões de gasolina ou jarros de barro. A comida é escassa e de mau aspecto: batatas, macarrão, arroz, farinha, milho miúdo e um naco de carne dura.
     Estávamos no fundo do cerro Juan del Valle. O uivo penetrante de uma sirene, que chamava os trabalhadores do primeiro turno, ressoara no acampamento algumas horas antes. Recorrendo galerias, passávamos do calor tropical ao frio polar e novamente ao calor, sem sair, durante horas, de uma mesma atmosfera envenenada. Aspirando aquele ar espesso – umidade, gases, pó, fumaça –, podíamos compreender por que os mineiros, em poucos anos, perdem os sentidos do olfato e do gosto. Enquanto trabalhavam, todos mastigavam folhas de coca com cinza, e isto também era parte da obra de aniquilação, pois a coca, como se sabe, ao atenuar a fome e mascarar a fadiga, vai apagando o sistema de alarmas com que conta o organismo para continuar vivo. Mas o pior era o pó. Os capacetes com lâmpada acoplada irradiavam um rebuliço de círculos de luz que salpicavam a gruta negra e deixavam ver, à sua passagem, cortinas de um pó branco e denso: o implacável pó da sílica. O mortal alento da terra vai envolvendo pouco a pouco. No primeiro ano, sentem-se os primeiros sintomas, e em dez anos entra-se no cemitério. Dentro da mina são usadas perfuratrizes suecas em seus últimos modelos, mas os sistemas de ventilação e as condições de trabalho não melhoraram com o tempo. Na superfície, os trabalhadores independentes usam picareta e pesadas marretas de doze libras para lutar com a rocha, exatamente como há 100 anos, e peneiras, filtros, coadores para concentrar o material em campo aberto. Ganham centavos e trabalham como animais. No entanto, muitos deles têm, ao menos, a vantagem do ar livre. Dentro da mina, os obreiros são presos condenados sem apelação a morrer por asfixia.
     Cessara o estrépito das brocas e os operários faziam uma pausa enquanto aguardávamos a explosão de mais de vinte cargas de dinamite. A mina também proporciona mortes rápidas e sonoras: basta um erro na contagem das detonações ou que a mecha demore mais do que o normal para arder. Basta também que uma rocha solta, um pesado fragmento desprenda-se sobre um crânio. Ou basta o inferno da metralhadora: a noite de São João de 1967 foi a última conta de um longo rosário de matanças. De madrugada, os soldados tomaram posição nas colinas, joelhos no chão, e lançaram um furacão de balas sobre os acampamentos iluminados pelas fogueiras da festa [3]. Mas a morte lenta e silenciosa é a especialidade da mina. O vômito de sangue, a tosse, a sensação de um peso de chumbo nas costas e uma aguda opressão no peito são os sinais que a anunciam. Depois do exame médico vêm as peregrinações burocráticas, que nunca se acabam. Dão o prazo de três meses para desocupar a casa.

[3]  “Quando me sento, bêbado estou. Três, quatro, vejo as gentes. Não posso comer só. Uma huahua eu sou, pois. Uma criança.” Saturnino Condori, velho pedreiro do acampamento mineiro da mina Século XX, há mais de três anos está deitado numa cama do hospital de Catavi. É uma das vítimas da matança da noite de São João, em 1967. Ele nem sequer estivera a festejar. Ofereceram-lhe um pagamento triplo para que trabalhasse no sábado, 24, e então, diferentemente dos demais, resolveu não se afundar no delírio da chicha e da farra. Deitou-se cedo. Nessa noite sonhou que um cavaleiro atirava espinhos em seu corpo. “Me atirou espinhos grandes”. Despertou várias vezes, pois a chuva de balas sobre o acampamento começou às cinco da manhã. “Meu corpo se desarranjou, se desmanchou, uma mornidão me pegou e eu assustado, assustado, assim eu estava. Minha mulher disse: anda, foge. Mas eu não tinha feito nada, nem tinha ido a parte alguma. Anda, anda, ela disse. Tiroteios havia de noite, que será isso, que será, pap-pap-pap-pap-pap e eu despertando e dormindo assim, aos poucos, e nem assim escapei. Minha mulher disse: anda logo, anda, foge. Mas o que vão me fazer, eu digo, sou um pedreiro particular, o que vão me fazer?” Ele despertou por volta das oito da manhã. Ergueu-se na cama. A bala atravessou o teto, atravessou o chapéu de sua mulher e rebentou sua coluna vertebral.

     Já havia cessado o estrépito das brocas e a explosão logo estremeceria aquele veio escorregadio cor de café e lembrando uma cobra. Agora era possível falar. O volume da coca inflava as bochechas dos operários e pelas comissuras de seus lábios escorria uma baba esverdeada. Um mineiro passou, apressado, chapinhando no barro entre os trilhos da galeria. “Esse é novato”, disseram-me, “viu só? Com sua calça do exército e o blusão amarelo sobressai sua juventude. Ele entrou agorinha e como trabalha. Ainda é um bom braço. Ainda não sente nada.”
     Os tecnocratas e os burocratas não morrem de silicose, mas vivem dela. O gerente geral da COMI OL, Corporação Mineira Boliviana, ganha 100 vezes mais do que um obreiro. De um barranco que cai a pique no leito do rio, no limite de Llallagua, pode-se ver o pampa de María Barzola. Chama-se assim em homenagem a uma militante operária que, há quase 30 anos, à frente de uma manifestação, caiu com a bandeira da Bolívia cosida ao corpo pelas rajadas de metralhadoras. E além do pampa de María Barzola pode-se ver o melhor campo de golfe da Bolívia: é o campo usado pelos engenheiros e principais funcionários de Catavi. O ditador René Barrientos reduziu à metade o salário de fome dos mineiros, em 1964, ao mesmo tempo em que elevou a remuneração de técnicos e burocratas proeminentes. Os estipêndios do pessoal superior são secretos. Secretos e em dólares. Há um poderoso grupo assessor formado por técnicos do anco Interamericano de Desenvolvimento, da Aliança para o Progresso e da banca estrangeira credora, cujos conselhos orientam a mineração nacionalizada da Bolívia de tal modo que, nesta altura, a COMIBOL, convertida num Estado dentro do Estado, constitui uma propaganda viva contra a nacionalização de qualquer coisa. O poder da velha rosca oligárquica foi substituído pelo poder de numerosíssimos membros de uma “nova classe” que têm dedicado seus melhores esforços para sabotar por dentro a mineração estatal. Os engenheiros não só torpedearam todos os projetos e planos destinados à criação de uma fundição nacional, como também colaboraram para que as minas do Estado ficassem fechadas nos limites das velhas jazidas de Patiño, Aramayo e Hochschild, em acelerado processo de esgotamento de reservas. Entre fins de 1964 e abril de 1969, o general Barrientos rompeu a barreira do som na entrega dos recursos do subsolo boliviano ao capital imperialista, com a aberta cumplicidade de técnicos e gerentes. Sergio Almaraz, num de seus livros [4], conta a história da concessão dos aterros de estanho à International Mining Processing Co. Com um capital declarado de apenas cinco mil dólares, a empresa de tão pomposo nome obteve um contrato que lhe permitirá ganhar mais de 900 milhões.

[4] ALMARAZ PAZ, op. cit.

continua na página 248...
____________________
As Fontes Subterrâneas do Poder
Primeira Parte: Dentes de cobre sobre o Chile (4)
Primeira Parte: Os mineiros do estanho, por baixo e por cima da terra (5)

_____________________________

o petróleo é da Venezuela... o petróleo no pré-sal é do Brasil... os minerais nas terras raras são do Brasil... ?

Nenhum comentário:

Postar um comentário