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terça-feira, 20 de outubro de 2026

Massa e Poder - A Ordem: A inversão

Elias Canetti

A ORDEM

     A inversão

          "Pois o alimento que o homem comer neste mundo há de comer ele no outro". Esta frase enigmática e inquietante se encontra no Shatapatha-Brahmana, um dos antigos tratados de sacrifício dos hindus. Mais inquietante ainda é o relato que aparece neste mesmo tratado. Trata-se da excursão do vidente Bhrigu ao além.
     Bhrigu, um santo, era filho do deus Varuna; ele tinha adquirido uma grande sabedoria brâmane e isto lhe tinha subido à cabeça. Tornou-se arrogante e colocou-se acima do próprio deus seu pai. Este lhe quis demonstrar o quão pouco sabia e lhe recomendou visitar, uma depois da outra, as diferentes regiões celestes: Leste, Sul, Oeste e Norte. Deveria prestar o máximo de atenção a tudo quanto visse e, no regresso, contar-lhe tudo o que tinha presenciado.
     "Primeiro, ou seja, no Leste, Bhrigu viu homens que arrancavam a machadadas os membros de outros homens, um depois do outro, e os repartiam entre si dizendo: 'Isto pertence a você, isto pertence a mim'. Quando Bhrigu viu isso ficou espantado e as pessoas que esquartejavam os outros lhe deram como explicação o fato de que as vítimas tinham feito o mesmo com eles no mundo dos vivos e que eles agora nada mais faziam do que proceder da mesma forma.
     "Depois disso Bhrigu iniciou sua viagem para o Sul, e lá viu homens que cortavam os membros de outros homens, um depois do outro, e os repartiam entre si dizendo: 'Isto pertence a você, isto pertence a mim'. Quando perguntou o motivo, Bhrigu tornou a ouvir a mesma resposta: os que agora estavam sendo cortados tinham feito a mesma coisa no outro mundo com os que agora os cortavam. No Oeste, depois disso, Bhrigu viu pessoas que, caladas, devoravam outras pessoas, as quais, também caladas, se deixavam devorar. Exatamente desta forma eles tinham se comportado no outro mundo com os que os devoravam. No Norte, viu novamente homens que aos gritos devoravam outros homens que também gritavam, exatamente como estes tinham feito com aqueles no outro mundo.
     "Depois do seu retorno, Bhrigu foi convidado por seu pai Varuna a recitar sua lição como um aluno na escola. Mas Bhrigu disse: 'O que devo dizer? Não existe lição alguma!' Ele tinha visto coisas por demais pavorosas e tudo lhe parecia sem sentido.
     "Então Varuna soube que Bhrigu tinha visto essas coisas e lhe explicou: 'Os homens do Leste, que arrancavam com machados os membros de outros, eram árvores. Os homens do Sul, que cortavam os membros de outros, eram bois e vacas. Os homens do Oeste, que calados devoravam homens calados, eram ervas. Os homens do Norte, que gritando devoravam outros homens, eram as águas'."
     Para todos estes casos ele conhecia um remédio. Mediante determinados sacrifícios, que indicou ao filho, podiam evitar-se as consequências, no além, das próprias ações.
     Noutro tratado de sacrifícios, o Jaiminiya-Brahmana, a mesma história de Bhrigu é contada de forma algo diferente. Ele não percorre as várias direções cardeais, mas vai de um mundo para outro. Em vez das quatro cenas que foram narradas, existem apenas três. Primeiro Bhrigu vê árvores, que assumiram formas humanas no além, e agora cortam homens em pedaços e os devoram. Depois Bhrigu vê um homem que devora outro que grita. A este respeito dá-se uma explicação: "O gado que foi sacrificado e comido aqui assumiu no além uma figura humana e agora faz ao homem o que este lhe fez antes". Finalmente, ele vê um homem devorando outro que não diz coisa alguma. O arroz e a cevada assumiram forma humana e retribuem agora o que sofreram antes.
     Também aqui são indicados determinados sacrifícios. Quem os realiza corretamente escapa do destino de ser devorado no além pelas árvores, pelo gado ou pelo arroz e a cevada. Mas o que aqui nos interessa não são os antídotos contra o destino. O importante é a ideia popular que se oculta por trás do disfarce sacerdotal. O que fazemos aqui nos é feito no além. Não são instituídos servidores especiais de justiça para executar este castigo; pelo contrário, cada qual castiga seu próprio inimigo. Também não se trata de ações quaisquer, mas sim do próprio ato de comer. "Assim como neste mundo os homens comem animais e os consomem, da mesma forma, os animais no outro mundo comem os homens e os consomem".
     Esta frase de um outro Brahmana, semelhante ao que colocamos no início deste capítulo, encontra uma estranha confirmação no Código de Manu. Lá explica-se que não é pecado comer carne, porque este é o comportamento natural das criaturas. Mas promete-se uma recompensa especial a quem se abstiver da carne. A palavra em sânscrito para designar a carne, mamsa, se explica pela decomposição de suas sílabas: mam significa "a mim", sa significa "ele"; mamsa quer dizer "a mim-ele"; "a mim" "ele" lá no além irá comer, ele cuja carne eu comi aqui; isto é o que os sábios explicam como a "carnalidade da carne". Nisto consiste a natureza-carne da carne; este é o verdadeiro sentido da palavra carne.
     A inversão é reduzida aqui à mais concisa de todas as fórmulas, e é captada na imagem da carne. Eu a como, ela me come. A segunda parte, a consequência do que eu fiz, é então precisamente a palavra que designa a carne. O animal que nós comemos lembra-se de quem o comeu. A morte não acabou com este animal. Sua alma continua vivendo, e no além ela se trans ma em homem. Este aguarda então pacientemente a morte do seu devorador. Assim que este morre e chega ao além, a situação primitiva se inverte, transformando-se no oposto. A vítima encontra seu devorador, agarra-o, corta-o e come-o.
     A relação que tudo isso tem com nossa concepção da ordem e do aguilhão é evidente. Entretanto tudo foi levado a tais extremos, tudo se transforma em algo tão concreto que se começa a ter medo. Em vez de acontecer nesta vida, a inversão ocorre no outro mundo. Em vez da ordem, que apenas ameaça com a morte e que assim consegue por extorsão todos os tipos de serviço, trata-se realmente de morte em sua forma mais extrema, na qual o morto é devorado.
     Segundo nossa maneira de ver, que já não encara seriamente a existência no além, o aguilhão que a ameaça de morte provoca continua existindo enquanto a vítima vive. Se ela irá conseguir uma inversão é sempre algo duvidoso; de qualquer forma a vítima tentará consegui-la. Finalmente, o homem é governado por seus aguilhões, sua fisionomia interna é de terminada por eles; conseguindo ou não libertar-se deles, eles são o seu destino. Segundo a concepção hindu, para a qual o além é uma premissa segura, o aguilhão como núcleo duro da alma continua existindo no além, mesmo depois da morte; a inversão ocorre de qualquer maneira, ela se converte na atividade propriamente dita da existência no além. Faz-se exatamente o que nos foi feito, e somos nós mesmos que o fazemos.
     O fato de a mudança de aparência não constituir um obstáculo parece ser uma característica especial. Já não é o animal que comemos que nos agarra no além e que nos retalha: é um homem com a alma desse animal. Externamente a criatura se modificou completamente, mas o aguilhão continua sendo invariavelmente o mesmo. Nas visões de horror que são presenciadas por Bhrigu em sua viagem, o aguilhão aparece como o tema principal da alma; seria inclusive possível dizer que esta é formada inteiramente por aguilhões. A essência propriamente dita do aguilhão, do qual tanto se falou nesta análise da ordem, sua absoluta imutabilidade e a precisão da inversão à qual ele aspira encontram nesta crença hindu do devorado que deve devorar por sua vez sua expressão mais conclusiva.

continua na página 184...
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Massa e Poder - A Ordem: A inversão
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ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994. 
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) e O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de Marrakech, Festa sob as bombas e Sobre a morte.
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Copyright @ 1960 by Claassen Verlag GmbH, Hamburg
Copyright @ 1992 by Claassen Verlag GmbH, Hildescheim
Título original Masse und Macht

"Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido."

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e você... conhece alguém que em meio a nossa danação geral em 2020, 2021 e 2022, NÃO sentiu empatia por nós, os sobreviventes, nem mesmo pelos nossos mortos e mortas, e apenas repetia: NÃO sou coveiro!?
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sábado, 10 de outubro de 2026

Massa e Poder - A Ordem: Negativismo e esquizofrenia

Elias Canetti

A ORDEM

     Negativismo e esquizofrenia

          Um ser humano pode esquivar-se de ordens não lhes dando ouvidos; pode esquivar-se deixando de executá-las. O aguilhão — e nunca se insistirá demais neste ponto - somente aparece com a execução de ordens. É a própria ação realizada sob pressão alheia, de fora para dentro, o que leva o homem à formação de aguilhões. A ordem que é levada à ação estampa sua forma exata no executante; da força com que é dada, de sua aparência, de sua superioridade e de seu conteúdo dependem a profundidade e a dureza com que ela pode estampar-se. Ela sempre permanece como algo isolado, e desta forma é inevitável que todo homem finalmente acumule uma porção de aguilhões, tão isolados como o foram as ordens recebidas. Sua capacidade de aderência nos homens é surpreendente, nada penetra tão profundamente neles e nada chega a ser tão indissolúvel. É possível que chegue um momento no qual um indivíduo esteja tão repleto de aguilhões que já não tenha sensibilidade para nenhuma outra coisa; excetuando-se esses aguilhões, ele não sente mais coisa alguma.
     Sua defesa cm relação a novas ordens se converte então numa questão vital. Ele procura não ouvi-las, para não ter de aceitá-las . Quando é obrigado a ouvi-las, não as compreende, desviando-se delas de maneira ostensiva, fazendo o contrário do que lhe é ordenado. Quando lhe dizem para avançar, retrocede. Quando lhe dizem para retroceder, avança. Não se pode cede. Quando se pode dizer que ele seja livre em relação à ordem. Trata-se de uma reação desastrada ou até mesmo impotente, pois de certa forma ela é também determinada pelo conteúdo da ordem. É esta reação que a psiquiatria designa como negativismo; ele desempenha um papel especialmente importante entre os esquizofrênicos.
     Nos esquizofrênicos o que mais chama a atenção é a carência de contato. Eles estão muito mais isolados do que os demais. Frequentemente dão a impressão de estarem enrijecidos dentro de si mesmos; é como se não existisse nenhum tipo de relação entre eles e os demais; como se nada entendessem; como se nada quisessem entender. Sua obstinação é como a das estátuas de pedra. Não existe uma posição na qual eles não possam enrijecer. No entanto estas mesmas pessoas, noutras fases de sua enfermidade, se comportam repentinamente de maneira diametralmente oposta. Mostram-se de uma sugestionabilidade que assume proporções fantásticas. Fazem tudo o que lhes é ensinado ou que se pede a eles com tal rapidez, com tal perfeição que é como se nós mesmos estivéssemos dentro deles, fazendo as coisas por eles. Trata-se de ataques de servilismo que lhes acontecem repentinamente. "A escravidão da sugestão", como foi definido por um deles. De estátuas passam a ser zelosos escravos do dever, e levam ao extremo, de um modo que às vezes parece ridículo, qualquer coisa que se lhes peça.
     O contraste entre estas duas atitudes é tão grande que se torna difícil compreendê-lo; mas se por um momento nos abstrairmos da maneira como estas atitudes se apresentam dentro deles, se os contemplarmos, por assim dizer, de fora para dentro, não se pode negar que ambos os estados são bastante conhecidos também na vida dos seres "normais". A diferença é que, neste caso, esses estados servem a um determinado fim e dão a impressão de ser menos exagerados.
     O soldado que não dá atenção a qualquer estímulo externo, que permanece rígido, parado onde foi colocado, que não abandona seu posto, a quem ninguém pode induzir a fazer algo que normalmente faria e que já fez com muito agrado, esse soldado corretamente treinado para seu serviço encontra-se artificialmente num estado de negativismo. É verdade que em determinadas circunstâncias ele também pode agir, mas única e exclusivamente por ordens de seu superior. Ele foi adestrado neste negativismo para agir apenas sob determinadas ordens. Trata-se de um negativismo que se deixa manipular, pois está no arbítrio e no poder do superior levá-lo ao estado extremo oposto. Assim que a autoridade competente ordena algo ao soldado, ele se comporta com o mesmo zelo e com o mesmo servilismo do esquizofrênico em sua fase oposta.
     É necessário acrescentar que o soldado sabe muito bem por que age dessa maneira. Ele obedece porque se encontra sob ameaça de morte. Num capítulo anterior já descrevemos como ele se habitua pouco a pouco a este estado, chegando no fim a adaptar-se a ele de dentro para fora. Deve realçar-se apenas uma coisa: a inconfundível semelhança externa que existe entre o soldado em serviço e o esquizofrênico.
     Mas uma ideia bastante distinta se impõe aqui e ela me parece importante. O esquizofrênico, no seu estado de extrema sugestionabilidade, comporta-se como membro de uma massa. Ele é igualmente impressionável, cede de igual maneira a todo e qualquer estímulo externo. Somente não percebemos que ele poderia estar neste estado porque está sozinho. Como não vemos massa alguma em torno dele, não nos ocorre supor que ele — do seu próprio ponto de vista — se sente como se a ela pertencesse: ele é um pedaço desprendido de massa. Esta afirmação somente pode ser demonstrada se entrarmos nas representações internas dos próprios enfermos. Inumeráveis são os exemplos que podem ser citados. Uma mulher declara ter "todos os seres humanos no seu ventre". Outra "ouvia os mosquitos conversando". Um homem escutou "729 mil moças", outro "as vozes sussurrantes de toda a humanidade". Nas representações dos esquizofrênicos aparecem — por trás de disfarces múltiplos — todas as espécies de massa que existem; seria até mesmo possível começar a estudar a massa a partir deste ponto de vista. A meta de um trabalho especial será reunir e revisar as representações de massa dos esquizofrênicos. Sua classificação irá mostrar a grandiosa integridade e amplitude existente nelas.
     Vale a pena perguntar por que os dois estados opostos que mencionamos aqui são necessários para o esquizofrênico. Para compreendê-los é preciso lembrar o que ocorre com um indivíduo, assim que ele entra na massa. A liberação das distâncias obrigadas foi narrada e designada como descarga. Para complementar podemos acrescentar que os aguilhões-ordens que estão acumulados em cada indivíduo fazem parte destas distâncias obrigadas. Na massa todos os seres individuais são iguais entre si, nenhum tem o direito de mandar nos outros; também seria possível dizer que todos mandam em todos. Não só não se formam novos aguilhões: o indivíduo se desfaz ao mesmo tempo de todos os antigos. Por assim dizer ele escapuliu de casa e deixou seus aguilhões para trás, no sótão, onde jazem amontoados. Este sair de tudo o que faz suas rígidas uniões, seus limites e cargas é o motivo principal do sentimento de elevação, quase de euforia, que o homem sente dentro da massa. Em parte alguma ele se sente mais livre, e, se ele deseja tão ardentemente continuar sendo massa, isto se deve ao fato de saber o que irá acontecer depois. Quando ele retornar a si, quando voltar para sua casa, voltará a encontrar-se com tudo isso: limites, cargas e aguilhões.
      O esquizofrênico que está tão sobrecarregado de aguilhões a ponto de ficar por momentos paralisado por causa deles, sucumbe à ilusão do estado oposto: o estado de massa. Enquanto ele se encontra na massa não sente seus aguilhões. Ele saiu — pelo menos assim pensa — de si mesmo, e embora isso aconteça de maneira insegura e duvidosa, ele parece extrair daí um alívio temporário para o seu tormento; sente-se como se estivesse novamente relacionado com os demais. O valor desta redenção, é claro, é apenas ilusório. Justamente onde inicia sua libertação o esperam novas e mais intensas coerções. Mas a natureza completa da esquizofrenia não é o assunto que desejamos estudar aqui. Basta lembrarmo-nos de um fato: ninguém necessita mais da massa do que o esquizofrênico, tão repleto de aguilhões-ordens que se sente asfixiado por eles. Incapaz de encontrar a massa fora, ele se abandona a ela dentro de si.
continua na página 182...
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Massa e Poder - A Ordem: Negativismo e esquizofrenia
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ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994. 
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) e O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de Marrakech, Festa sob as bombas e Sobre a morte.
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sábado, 26 de setembro de 2026

Massa e Poder - A Ordem: Castrações religiosas: os skoptsys

Elias Canetti

A ORDEM

     Castrações religiosas: os skoptsys

          Sabe-se de alguns cultos religiosos que são celebrados com tanta intensidade que acabam induzindo à prática de castrações. Na Antiguidade, os sacerdotes da Grande Mãe Cibele eram conhecidos por esse motivo. Existiram milhares deles que num ataque de frenesi se castraram em homenagem à sua deusa. Em Comana, nas imediações do Ponto, onde se erguia um célebre santuário dedicado à deusa, dez mil seres humanos estavam a seu serviço nessas condições. Não eram apenas homens que se consagravam dessa forma. Mulheres que queriam expressar sua veneração emputavam os seios e se incorporavam à corte da deusa. Em sua obra Sobre a Deusa Síria, Luciano narra como os fiéis caem em delírio durante uma reunião e como um deles, cuja vez havia chegado, se castra. É um sacrifício que ele oferece à deusa para demonstrar-lhe de uma vez por todas o quanto a ama e que nenhum outro amor terá lugar em sua vida.
     A mesma prática se conhece também em relação à seita russa dos skoptsys, as "pombas brancas", cujo fundador, Silivanov, causou nos tempos da imperatriz Catarina II a maior das sensações devido ao êxito de suas pregações. Sob sua influência, centenas, talvez milhares de homens se castraram, e mulheres amputaram os seios como prova de sua fé. É impossível supor que exista alguma conexão histórica entre estas duas configurações religiosas. Esta última seita se originou a partir do Cristianismo russo, cerca de 1500 anos depois de terem terminado os excessos dos sacerdotes frígio-sírios.
     Os skoptsys se distinguem pela concentração sobre um escasso número de mandamentos e de proibições e também por constituírem pequenos grupos de prosélitos que se conhecem muito bem entre si. Concentrada ao máximo está também sua disciplina — o reconhecimento e a adoração de um Cristo vivo entre eles.
     Eles temem a distração causada pelos livros e quase não leem. Na Bíblia são poucas as passagens que significam alguma coisa para eles.
     Sua vida comunitária é muito densa, protegida por diversas maneiras mediante juramentos sagrados. O segredo desempenha para eles um papel extraordinário e decisivo. Sua atividade cultural se desenvolve principalmente à noite, isolada e oculta do mundo exterior. O centro de sua vida reside na quilo que eles devem guardar da maneira mais secreta: a castração, que eles chamam branqueamento.
     Mediante esta operação eles devem transformar-se em anjos puros e brancos. E passam a viver já na terra como se estivessem no céu. A complicada veneração que têm uns em relação aos outros, suas reverências e adorações, seus elogios mútuos são semelhantes àqueles que os anjos deveriam ter entre si.
     A mutilação à qual devem submeter-se tem o caráter rígido de uma ordem. Trata-se de uma ordem que vem de cima; eles a extraíram de certas frases de Cristo nos Evangelhos e também de uma frase dita por Deus a Isaías.
     Eles recebem esta ordem com uma força tremenda e é com esta mesma força que devem transmiti-la. A teoria do aguilhão pode muito bem ser aplicada a eles. A ordem neste caso é executada no próprio receptor. Faça ele o que fizer, o que realmente deve fazer é castrar-se.
     Para esclarecer as coisas, será necessário revisar uma série de ordens de índole especial.
     Considerando que se trata de ordens que são dadas dentro do âmbito de uma disciplina rígida, elas podem ser comparadas às ordens militares. Também o soldado é educado para expor-se ao perigo. Todo o seu treinamento serve para que ele no fim se apresente diante do inimigo, mesmo quando este o ameaça de morte. O fato de ele próprio tentar matá-lo não é reais importante do que sua resistência; sem esta, ele jamais seria capaz de realizar seu intento.
     O soldado, exatamente como o skoptsy, se oferece como vítima. Ambos têm esperança de sobreviver, mas contam com a possibilidade de serem feridos, com a dor, o sangue e a mutilação. Pela batalha o soldado espera tornar-se vencedor. pela castração o skoptsy se transforma em anjo e tem direito ao céu, no qual a partir desse momento ele já passa a viver.
     Mas trata-se dentro desta disciplina de uma ordem secreta, e assim ela somente é comparável à situação na qual se encontra quem está sob comando militar e que deve executar sozinho uma ordem secreta, sem que ninguém saiba do assunto. Para atingir esta finalidade ele não pode ser reconhecível pelo uniforme, devendo portanto disfarçar-se. O uniforme do skoptsy, aquilo que o iguala aos demais aos quais pertence, é sua castração, e esta por sua própria natureza permanece sempre secreta, não podendo jamais ser revelada.
     Seria possível dizer, portanto, que o skoptsy se assemelha a um membro daquela temida seita dos assassins, ao qual um superior ordenou um assassinato de que ninguém jamais terá conhecimento. Mesmo quando a execução é levada a termo, pessoa alguma ficará sabendo como foi realizada. A vítima pode ser atingida e o assassino capturado depois do ato; mesmo assim jamais se esclarecerá o procedimento propriamente dito. A ordem neste caso é uma sentença de morte e está desta forma muito próxima de sua origem biológica. O emissário é enviado a uma morte certa, mas isto não é levado em consideração, pois sua morte, que ele aceita voluntariamente, é usada para se atingir outra pessoa, a vítima escolhida. A ordem se amplia transformando-se numa dupla sentença de morte: uma delas não é formulada, apesar de se contar com ela; a outra é apontada com consciência clara e plena. O aguilhão, que pereceria com o subordinado, é desta forma utilizado antes de desaparecer.
     Os mongóis têm uma expressão muito gráfica para designar este matar precipitado, antes de a própria pessoa ser morta. Os heróis, em sua História Secreta, dizem de um inimigo que querem matar no último instante antes de morrer: "Eu o levarei comigo como travesseiro".
     Mas, se com esta consideração a respeito dos assassins nós conseguimos nos aproximar da situação do skoptsy, mesmo assim ainda não conseguimos apreendê-la com precisão. Pois o skoptsy é obrigado a atingir ou a mutilar sua própria pessoa, A ordem que ele aceitou somente pode ser executada em si mesmo, e somente executando esta ordem é que ele se transforma num membro efetivo do seu exército secreto.
     Não podemos deixar-nos confundir neste diagnóstico pelo fato de que a castração na maioria das vezes é realizada por outras pessoas. Seu sentido reside no fato de que é o próprio indivíduo quem se oferece voluntariamente à castração. Uma vez que ele se declarou disposto a permitir que isso aconteça, perde importância o como é feito. Posteriormente ele irá querer transmitir isso de todas as maneiras; seu aguilhão para tanto permanece sempre igual, uma vez que ele recebeu a ordem a partir de fora para dentro.
     Mesmo se, como é de se supor, houve uma primeira pessoa que começou a efetuar a operação em si mesma, ela também agiu em função de uma suposta ordem celeste. Ela está firmemente convencida disto. As passagens bíblicas que utiliza para converter outras pessoas são as que a levaram à conversão; ela transmite exatamente o que recebeu.
     O aguilhão adquire neste caso a forma visível de uma cicatriz física. Ela é menos secreta do que o aguilhão habitual da ordem. No entanto, ela permanece secreta diante de todos os que não pertencem à seita.
  
continua na página 181...
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Massa e Poder - A Ordem: Castrações religiosas: os skoptsys 
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ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994. 
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) e O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de Marrakech, Festa sob as bombas e Sobre a morte.
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terça-feira, 15 de setembro de 2026

Massa e Poder - A Ordem: Ordem. Cavalo. Flecha.

Elias Canetti

A ORDEM

     Ordem. Cavalo. Flecha.

          Na história dos mongóis chama a atenção a estrita e original relação existente entre ordem, cavalo e flecha. Nesta relação podemos ver a razão principal do aumento súbito e repentino do poder deles. Uma análise desta relação é indispensável e será tentada aqui em rápidas palavras.
     A ordem, como sabemos, deriva biologicamente da ordem de fuga. O cavalo — como todos os demais animais ungulados que se assemelham a ele — foi adaptado durante toda sua história a esta fuga; seria possível até mesmo afirmar que sua própria finalidade era a fuga. Ele sempre viveu em manadas e estas manadas estavam acostumadas a fugir em conjunto. A ordem para isto lhes era dada pelos perigosos animais de presas que pretendiam tirar-lhes a vida. A fuga de massa passou a ser uma de suas experiências mais frequentes e como que uma característica natural dos cavalos. Quando o perigo passa, ou quando eles acreditam que o perigo tenha passado, retomam sua despreocupada vida gregária, onde cada um faz o que lhe agrada.
     O homem que se apoderou do cavalo, que o domesticou, forma uma nova unidade com ele. O mesmo homem aprendeu uma série de procedimentos que podem ser considerados como ordens. Alguns destes procedimentos são constituídos por sons; em sua maioria, porém, são formados por movimentos bastante determinados de pressão e de tração que transmitem ao cavalo a vontade do cavaleiro. O cavalo compreende os impulsos da vontade do cavaleiro e obedece a eles. Entre os povos de cavaleiros, o cavalo é tão necessário e tão familiar ao seu senhor que se formou entre eles uma relação inteiramente pessoal, uma submissão de uma intimidade que não é possível normalmente.
     A distância física que normalmente existe entre quem manda e quem obedece, e também entre o dono e o seu cachorro, por exemplo, deixa de existir neste caso. É o corpo do cavaleiro que transmite as indicações ao corpo do cavalo. O espaço de comando reduz-se a um mínimo. Os aspectos distantes, estranhos, vagos, que pertencem ao caráter original da ordem, desaparecem. A ordem neste caso é domesticada de maneira muito especial; um novo agente se introduziu na história das relações entre as criaturas: a cavalgadura; o servidor sobre o qual o dono se assenta, o servidor que está exposto ao peso físico do dono e que cede a cada pressão do seu corpo.
     Como repercute esta relação com o cavalo sobre o exer cício de comando do cavaleiro? É preciso notar, em primeiro lugar, que o cavaleiro tem a possibilidade de transmitir ao seu cavalo as ordens que recebe de um superior. A meta que lhe é fixada, ele não a alcança correndo pessoalmente em sua direção; ele transmite ao seu cavalo a ordem de chegar até lá. Uma vez que isto ocorre de imediato, ele não mantém em si o aguilhão desta ordem. Ele evita isso pela transmissão da ordem ao seu cavalo. A limitação específica de liberdade que esta ordem lhe teria ocasionado escapa-lhe antes mesmo de ele ter a oportunidade de senti-la de fato. Quanto mais rapidamente ele realiza seu encargo, quanto mais depressa montar, quanto mais depressa cavalgar, tanto menor será o aguilhão que irá permanecer nele. A arte propriamente dita destes cavaleiros, quando reveste o caráter militar, consiste no fato de eles serem capazes de adestrar uma massa muito maior de receptores de ordens, aos quais transmitem sem demora tudo o que eles próprios receberam de cima.
     A organização militar dos mongóis possuía uma disciplina especialmente rígida. Aos povos que eles atacaram e que foram forçados à submissão, e que tinham oportunidade de observá-los mais detalhadamente, esta disciplina parecia ser o que de mais surpreendente e severo jamais tinham visto. Fossem eles persas, árabes ou chineses, russos, húngaros ou os monges franciscanos que chegaram até lá como embaixadores do papa, a todos era igualmente incompreensível que seres humanos pudessem obedecer de maneira tão incondicional. Esta disciplina era suportada com facilidade pelos mongóis (ou tártaros, como frequentemente eram chamados) porque a parte deste povo que realmente arcava com o peso principal eram os cavalos.
     Crianças pequenas de dois ou três anos de idade já eram colocadas sobre o dorso de um cavalo para aprenderem a montar. Já mencionamos que, na primeira fase da educação de uma criança, ela é literalmente crivada de aguilhões-ordens. Principalmente pela mãe, desde muito cedo e de muito perto, mas também pelo pai, mais tarde e a uma distância maior, e por qualquer pessoa encarregada de sua educação. Na prática, qual quer pessoa adulta ou de idade maior que esteja em contato com a criança não se cansa de sobrecarregá-la com determinações, ordens e proibições. Desde cedo vão se acumulando na criança todos os tipos de aguilhões; são eles que se transformarão posteriormente nas coerções e coações de sua vida, forçando-a a procurar outras criaturas nas quais possa desfazer-se dos seus aguilhões. Sua existência se transforma numa aventura de procurar livrar-se desses aguilhões, sem saber por que comete esta ou aquela ação inexplicável, por que estabelece esta ou aquela relação aparentemente absurda.
     A criança mongol que aprende a cavalgar tão cedo tem portanto, em comparação às crianças de culturas sedentárias e superiores, uma liberdade de tipo muito particular. Assim que ela passa a entender de cavalos, pode transmitir a estes tudo o que lhe for ordenado. Desde muito cedo esta criança se livra dos aguilhões que — em medida muito menor — também pertencem à sua educação. O cavalo faz o que a criança deseja, muito antes que o faça qualquer outra pessoa. Essa criança se habitua a tal obediência, e assim vive mais aliviada; mais tarde, porém, exigirá da pessoa por ela subjugada o mesmo tipo de comportamento, ou seja, uma submissão física de natureza absoluta.
     A esta relação — de importância decisiva para o exercício do comando — entre o homem e o cavalo, acrescenta-se em segundo lugar para os mongóis o significado da flecha. Ela é a réplica exata da ordem primordial, não domesticada.
     A flecha é hostil, sua finalidade é matar. Ela atravessa em linha reta uma grande distância. É preciso esquivar-se dela. Quem não o consegue, perece; a flecha fica cravada nele. É possível extraí-la mas, mesmo que ela não se quebre, sempre deixa uma ferida. (Existem alguns relatos a respeito de feri mentos causados por flechas na História Secreta dos Mongóis.) O número de flechas que se pode disparar é ilimitado; a flecha é a arma principal dos mongóis. Elas matam à distância; mas também matam em movimento, a partir do dorso de um cavalo.
     Já observamos que toda ordem, desde sua origem biológica, leva acoplada uma sentença de morte. Quem não foge é atingido. Quem é atingido é destroçado.
     Entre os mongóis a ordem manteve o seu caráter de sentença de morte em grau muito mais elevado. Eles matam homens como se fossem animais. Matar é sua terceira natureza, do mesma forma que cavalgar é a segunda.
     Suas matanças de seres humanos se assemelham muito às suas caçadas de animais. Quando não estão em guerra, vão à caça; suas manobras são as caçadas. Eles devem ter ficado altamente assombrados quando, no decorrer de suas vastas expedições de conquistas, encontraram budistas e cristãos, cujos sacerdotes lhes falavam a respeito do valor especial de toda espécie de vida. Um contraste maior dificilmente pode ter existido: os mestres da ordem pura, que a encarnam por instinto, se encontram com aqueles que por meio de sua religião a querem enfraquecer ou modificar a ponto de perder suas características letais, transformando-a em algo humano.

continua na página 179...
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Leia também:

Massa e Poder - A Ordem: Ordem. Cavalo. Flecha.
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ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994. 
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) e O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de Marrakech, Festa sob as bombas e Sobre a morte.
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Título original Masse und Macht

"Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido."

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e você... conhece alguém que em meio a nossa danação geral em 2020, 2021 e 2022, NÃO sentiu empatia por nós, os sobreviventes, nem mesmo pelos nossos mortos e mortas, e apenas repetia: NÃO sou coveiro!?
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quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Massa e Poder - A Ordem: Aguilhão-ordem e disciplina

Elias Canetti

A ORDEM

     Aguilhão-ordem e disciplina

          A disciplina constitui a essência do exército. Mas trata-se de uma disciplina dupla: uma declarada e outra secreta. A disciplina declarada é a ordem: já se mostrou como o estreitamento da fonte de ordens conduz à formação de uma criatura extremamente curiosa, mais figura estereométrica do que criatura humana propriamente dita: o soldado. O que mais o caracteriza é o fato de viver sempre em estado de espera de ordens. Este estado marca sua atitude e sua estatura; o soldado que sai deste estado já não está mais a serviço — simplesmente é uma pessoa que usa uniforme para combinar com as aparências. A constituição do soldado é reconhecível por todas as pessoas, ela não poderia ser mais pública do que é.
     Mas esta disciplina declarada não é tudo. Com ela existe outra a respeito da qual o soldado não fala, e que ele nem deveria mostrar: uma disciplina secreta. Para certos tipos mais obtusos é possível que esta outra disciplina se torne consciente apenas algumas vezes. Mas na maioria dos soldados, principalmente em nosso tempo, ela sempre está desperta, se bem que de maneira oculta. Trata-se da disciplina da promoção.
     Pode parecer estranho que se qualifique como secreta tuna coisa tão conhecida como a promoção. Mas a promoção apenas é a expressão pública de uma coisa muito mais profunda que permanece secreta, porque na maneira de sua função é pouco compreendida A promoção é a expressão do que existe de oculto no aguilhão-ordem.
     É evidente que esses aguilhões devem acumular-se de maneira francamente monstruosa no soldado. Tudo o que ele faz, é obedecendo a uma ordem; ele não faz outra coisa, não deve fazer outra coisa; é exatamente isto que a disciplina declarada exige deles. Seus próprios impulsos espontâneos são reprimidos. Ele engole ordens e mais ordens e, como quer que ele se sinta durante essas ações, jamais pode cansar-se delas. Para cada ordem que ele executa — e executa todas as ordens que recebe — fica um aguilhão, um espinho, dentro dele.
     A saturação desses aguilhões dentro dele é um processo rápido. Se ele está servindo como soldado raso, no mais baixo degrau da hierarquia militar, lhe é negada toda e qualquer oportunidade para se desfazer dos seus aguilhões, pois ele próprio não pode dar ordem alguma. Somente pode fazer o que lhe é ordenado. Obedece e vai se tornando cada vez mais rígido em sua obediência.
     Uma mudança nesse estado, que possui algo de violento, somente é possível mediante uma promoção. Assim que ele é promovido, deve começar a dar ordens também, e fazendo isso começa a livrar-se de uma parte dos seus aguilhões. Sua situação — se bem que de maneira muito restrita — se inverteu. Ele deve exigir coisas que anteriormente foram exigidas dele próprio. O modelo da situação permaneceu exatamente o mesmo; somente sua posição é que se modificou dentro dele. Seus aguilhões aparecem agora como ordens. O que antes lhe era ordenado por seu superior imediato, ele próprio começa a ordenar. Não depende dos seus caprichos a libertação dos seus aguilhões, mas ele é colocado numa posição que é ideal para que isso aconteça: deve dar ordens. Cada posição permaneceu exatamente a mesma, cada palavra continua sendo exatamente a mesma. Outros ficam parados diante dele, exatamente na mesma posição que ele assumia anteriormente. Dele se ouve a mesma fórmula que ele ouvia antes, com o mesmo tom de voz, carregada com a mesma energia. A identidade da situação tem algo de macabro: é como se ela tivesse sido inventada unicamente para satisfazer seus aguilhões-ordens. Com o que antes o atingia, ele passa agora a atingir outros.
     Mas, embora ele agora tenha chegado a um nível onde seus antigos aguilhões-ordens podem manifestar-se embora — por assim dizer — se exija agora que eles falem, ele continua recebendo ordens de cima. O processo então se torna duplo: ao mesmo tempo que ele se desfaz dos seus antigos aguilhões-ordens, vão se acumulando novos aguilhões dentro dele. Agora são um pouco mais fáceis de serem suportados do que antes, pois o processo da promoção que foi iniciado lhe confere asas: a esperança fundamentada de que ele irá conseguir livrar-se também desses novos aguilhões.
     Resumindo este processo, podemos dizer o seguinte: a disciplina declarada do exército se expressa na emissão atual de ordens; a disciplina secreta consiste na utilização dos aguilhões-ordens que foram armazenados.

continua na página 177...
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Massa e Poder - A Ordem: Aguilhão-ordem e disciplina
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ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994. 
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) e O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de Marrakech, Festa sob as bombas e Sobre a morte.
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terça-feira, 25 de agosto de 2026

Massa e Poder - A Ordem: Espera de ordens dos peregrinos de Arafat

Elias Canetti

A ORDEM

     Espera de ordens dos peregrinos de Arafat

          O momento mais importante durante a peregrinação a Meca, a culminação propriamente dita, é o wukzuf ou o "ficar parado em Arafat", a estação antes de Alá, a algumas horas de distância de Meca. Uma multidão enorme de peregrinos — às vezes seiscentos ou setecentos mil homens — acampa num vale rodeado de penhascos áridos e estende-se em direção ao Monte da Comiseração, situado no centro desse vale. Um pregador se encontra no local onde em outros tempos esteve o profeta, e pronuncia um sermão solene.  
     A multidão lhe responde com o grito: "Labbeika ya Rabbi, labbeika! Aguardamos tuas ordens, Senhor, aguardamos tuas ordens!" Este grito é repetido durante o dia todo de forma incessante e vai aumentando até a demência. Então, numa espécie de repentino medo de massa — chamado ifadha ou "rio" —, todos fogem juntos como possessos de Arafat em direção à localidade vizinha de Mozdalifa, onde passam a noite, indo no dia seguinte para Mina. Todos correm numa terrível confusão, empurrando-se e pisoteando-se uns aos outros; esta correria geralmente custa a vida de vários peregrinos. Uma vez em Mina são sacrificados muitos animais, cuja carne é consumida imediatamente por todos. O solo fica empapado de sangue e encontram-se restos de animais por todos os lados.

     A parada em Arafat é o momento no qual a espera de ordens das massas de crentes alcança sua intensidade máxima. A fórmula concisa repetida milhares de vezes, "Aguardamos tuas ordens, Senhor! Aguardamos tuas ordens", expressa isto com muita clareza. O Islamismo, a submissão estão reduzidos aqui ao seu denominador mínimo, um estado no qual os homens pensam apenas nas ordens do Senhor e clamam por elas com toda a violência imaginável. O medo súbito que se produz a um determinado sinal e que provoca uma fuga em massa sem paralelo tem uma explicação: o antigo caráter da ordem, que é uma ordem de fuga, irrompe sem que os crentes possam saber por que isso acontece. A intensidade de sua expectativa como massa aumenta ao máximo o efeito da ordem divina, até que se converte no que toda ordem originalmente é: uma ordem de fuga. A ordem de Deus coloca os homens em fuga. A continuação desta fuga no dia seguinte, depois de terem passado a noite em Mozdalifa, demonstra que o efeito da ordem ainda não se esgotou.
     Segundo a concepção islâmica, é a ordem imediata de Deus que traz a morte aos homens. Eles procuram escapar desta morte e a transferem para os animais que são sacrificados em Mina, ponto final dessa fuga. Os animais tomam aqui o lugar dos homens, substituição corrente em muitas religiões; basta lembrar, por exemplo, o sacrifício de Abraão. Desta maneira os homens escapam do banho de sangue que Deus lhes destinou. Eles se submeteram às ordens Dele, tanto que fugiram de sua presença, não o privando sequer do sangue: o solo finalmente fica encharcado com o sangue dos animais sacrificados em massa.
     Não existe nenhum outro costume religioso que torne tão evidente a natureza íntima da ordem como a parada em Arafat, o wukuf e a fuga em massa que ocorre logo em seguida, o ifadha. No Islamismo, onde o mandamento religioso ainda possui muito do caráter imediato da própria ordem, a espera de ordens e a própria ordem de forma geral se revelam da maneira mais pura possível no wukuf e no ifadha.

continua na página 177...
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Massa e Poder - A Ordem: Espera de ordens dos peregrinos de Arafat
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ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994. 
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) e O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de Marrakech, Festa sob as bombas e Sobre a morte.
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Massa e Poder - Elias Canetti | Analisando Livros




quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Massa e Poder - A Ordem: Espera de ordens

Elias Canetti

A ORDEM

     Espera de ordens

          O soldado em serviço apenas cumpre ordens. É possível que tenha vontade de fazer isto ou aquilo, mas como é soldado isso não conta. Ele não pode encontrar-se diante de encruzilhadas; e mesmo que se encontrasse não seria ele quem iria decidir qual dos caminhos tomar. Sua vida ativa está restringida por todos os lados. Ele faz o que todos os demais soldados fazem com ele; e faz o que lhe é ordenado. A eliminação de todas as demais ações, que os demais homens executam, livremente (ou assim pensam), o deixa ávido das ações que tem de executar. 
     A sentinela, que permanece imóvel durante horas em seu posto, é o melhor exemplo da constituição psíquica do soldado. Ela não pode se afastar, não pode adormecer, não pode se movimentar, a não ser que lhe tenham sido prescritos certos movimentos, fixados nos menores detalhes. Seu serviço propriamente dito é a resistência a qualquer tentação de abandonar seu posto, seja qual for a forma sob a qual esta tentação possa aparecer. Esse negativismo do soldado, como poderia ser definido, é sua espinha dorsal. Todos os motivos habituais de ação, como os desejos, o temor, a inquietude, que constituem a essência da vida do homem, são reprimidos dentro dele. E ele os combate melhor quando nem sequer chega a confessá-los.
     Todo ato que ele então realmente executa deve estar sancionado por uma ordem. Como é muito difícil para um homem não fazer coisa alguma, acumula-se dentro dele uma grande expectativa pelo que lhe é permitido empreender. O desejo de ação se represa e cresce até atingir proporções desmedidas. Mas, como antes da ação existe uma ordem, a expectativa se volta para esta: o bom soldado está sempre em estado de consciente espera de ordens. Esta espera é ampliada de todas as formas possíveis pela educação; ela se manifesta claramente nas posturas e nas fórmulas militares. O momento vital na existência do soldado é o da posição de atenção diante de seu superior. Num estado de tensão e de receptividade máximas, ele se coloca diante do superior e a fórmula que pronuncia — "Às suas ordens!" — expressa com grande precisão do que se trata.
     A educação do soldado começa no momento em que lhe são proibidas muito mais coisas do que aos demais homens. Para as menores transgressões existem castigos severos. A esfera do proibido, com a qual já está familiarizado desde criança, se amplia até atingir o gigantesco para o soldado. Muros e mais muros são construídos em torno dele; muros que são iluminados para ele, e que dão a impressão de crescer diante dele. Sua altura e severidade se igualam à sua claridade. Constantemente fala-se a respeito desses muros; o soldado não pode alegar desconhecê-los. Começa então a se movimentar como se eles estivessem sempre ao seu redor. O aspecto anguloso do soldado é como um eco, em seu corpo, da dureza e da lisura desses muros; ele adquire algo de uma figura estereométrica. É um prisioneiro que se adaptou aos seus muros; um prisioneiro que está satisfeito; que se defende tão pouco contra a situação em que se encontra quanto os muros que o moldam. Enquanto outros prisioneiros vivem apenas de uma única ideia (como conseguir saltar ou perfurar seus muros), o soldado os aceita como uma nova natureza, como um ambiente natural ao qual se adapta, no qual ele mesmo acaba se transformando.
     Somente quem incorporou dentro de si, desta maneira intensa, a medida plena das proibições, quem através dos afazeres de todos os dias — e isto dia após dia — demonstrou que sabe se esquivar da maneira mais precisa de todas as coisas que são proibidas é que passa realmente a ser soldado. Para ele, a ordem tem um valor superior. É como a saída de uma fortaleza, dentro da qual se tenha permanecido durante tempo demasiado. A ordem o atinge como um raio que o lança contra os muros do que é proibido; como um raio que mata apenas esporadicamente. Neste enorme deserto monótono das coisas proibidas que se estende por todos os lados em torno dele, a ordem acontece como uma redenção: a figura estereométrica se anima e se coloca em movimento ao ouvir a voz de comando.
     Faz parte da formação do soldado que ele aprenda a receber ordens de duas maneiras; sozinho ou na companhia de outros. Os exercícios o habituaram a movimentos que são executados juntamente com os demais; todos devem realizá-los de maneira absolutamente idêntica. Trata-se de uma espécie de precisão que se aprende melhor pela imitação dos demais do que sozinho. Desta forma o indivíduo torna-se igual aos outros; estabelece-se uma igualdade que eventualmente pode ser utilizada para transformar a divisão do exército em massa. Normalmente, porém, deseja-se exatamente o contrário: igualar o mais possível os soldados, sem que eles se transformem em massa.
     Quando estão juntos como unidade, eles reagem a todas as ordens dadas em conjunto. No entanto, deve continuar existindo a possibilidade de separá-los: um, dois, três homens, metade deles, quantos o comandante desejar. O fato de eles marcharem juntos deve ser exterior; a divisibilidade da divisão constitui sua utilidade. A ordem deve sempre poder atingir o número que se quiser: um, vinte ou a divisão inteira. Sua eficiência não pode depender da quantidade dos que são atingidos. É a mesma ordem, pouco importando que seja apenas um quem a recebe ou todos. Esta natureza invariável da ordem é da maior importância: ela a subtrai de todas as influências da massa.
     A pessoa que deve dar ordens num exército deve poder manter-se livre de toda e qualquer massa — fora dele, dentro ele. Ela aprendeu isso tendo sido educada para esperar ordens.

continua na página 176...
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Leia também:

Massa e Poder - A Ordem: Espera de ordens
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ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994. 
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) e O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de Marrakech, Festa sob as bombas e Sobre a morte.
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