ELEMENTOS DO PODER
O Segredo
O segredo encontra-se no mais recôndito cerne do poder. O ato de
espreitar é, por sua própria natureza, secreto. O observador se esconde
ou se amolda a seu entorno e não se deixa reconhecer por um único
movimento sequer. À espreita, ele desaparece por completo; reveste-se
do segredo como que de uma nova pele, e persiste por um longo tempo
em seu refúgio. Nesse seu estado, caracteriza-o uma peculiar mistura de
paciência e impaciência. Quanto mais tempo ele permanecer assim, tão
mais intensa será sua esperança de conseguir um sucesso repentino.
Contudo, para que ele enfim obtenha êxito, sua paciência deve crescer
até o infinito. Esgotando-se ela um só minuto mais cedo, tudo terá sido
em vão, e ele, carregado de decepção, precisará começar tudo de novo.
Se a captura em si dá-se abertamente, pois deseja intensificar seu
efeito com o auxílio do terror, a partir do início da incorporação tudo
volta a desenrolar-se na escuridão. A boca é escura, e escuros são
também o estômago e o intestino. Ninguém fica sabendo ou reflete
sobre a atividade incessante em seu interior. Em grande parte, esse
primitivíssimo processo da incorporação permanece um segredo. Ele
principia ativamente com o segredo que o próprio observador, à
espreita, cria; e termina, desconhecido e passivo, na escuridão secreta do
corpo. Entre uma coisa e outra, somente o momento da captura
rebrilha com fulgor, semelhante a um raio iluminando seu próprio e
fugaz instante.
O segredo mais verdadeiro é o que se passa no interior do corpo. Um
curandeiro, atuando a partir de seu conhecimento dos processos
corporais, tem de, antes de exercer seu ofício, submeter-se a operações
bastante singulares em seu próprio corpo.
Entre os arandas da Austrália, o homem que deseja iniciar-se como
curandeiro caminha até a entrada da caverna onde moram os espíritos.
Ali, antes de mais nada, sua língua é perfurada. Ele está completamente
sozinho, e de sua iniciação faz parte que ele tenha muito medo dos
espíritos. A coragem da solidão, e justamente num lugar especialmente
perigoso, parece constituir pré-requisito para esse ofício. Mais tarde —
conforme acredita —, ele é morto por uma lança que lhe atravessa a
cabeça de orelha a orelha, e deitado pelos espíritos em sua caverna,
onde estes vivem juntos numa espécie de além. Do nosso mundo, ele
perdeu a consciência; no outro, todos os seus órgãos interiores são-lhe
extraídos, e órgãos novos ocupam o lugar dos antigos. É de se supor que
tais órgãos sejam melhores do que os habituais; invulneráveis, talvez, ou
menos expostos às interferências da magia. O iniciante é, pois,
fortalecido para seu ofício, mas o é de dentro para fora: seu novo poder
começa em suas entranhas. Esteve morto antes de lhe ser permitido
começar, mas sua morte serve apenas à penetração total de seu corpo.
Seu segredo, somente ele e os espíritos conhecem; ele jaz no interior de
seu corpo. Uma característica notável é a ornamentação do feiticeiro com uma
grande quantidade de pequenos cristais. Ele os carrega em seu corpo, e
eles são imprescindíveis para seu ofício: no tratamento dos doentes, tem
sempre lugar uma intensa atividade com essas pedrinhas. Algumas vezes,
o próprio feiticeiro as distribui; outras, ele recolhe algumas delas dos
pontos afetados do corpo do doente. Sólidas e estranhas partículas no
corpo deste último causaram-lhe o sofrimento. É como uma estranha
unidade monetária da doença, cuja taxa de câmbio só é conhecida dos
feiticeiros.
À exceção desse tratamento absolutamente íntimo dos doentes, a
feitiçaria ocorre sempre à distância. O feiticeiro prepara em segredo
toda sorte de a ados pauzinhos mágicos e, a grande distância, os dirige
contra a vítima, que, sem ter ideia do que está ocorrendo, é acometida
do efeito terrível da magia. É do segredo da espreita que o feiticeiro se
beneficia aqui. Com más intenções, pequenas lanças são atiradas; às
vezes, sob a forma de cometas, elas se fazem visíveis no céu. O ato
propriamente dito é rápido, mas pode levar algum tempo até que ele
surta efeito.
A prática do mal em atos individuais de feitiçaria é possível a todo
aranda. A defesa contra esse mal está nas mãos apenas dos curandeiros.
Pela iniciação e pela prática, eles possuem outras defesas. Alguns
curandeiros bastante idosos podem causar o mal a grupos inteiros de
homens. Tem-se, portanto, algo como três graus de intensidade do
poder. O mais poderoso é aquele que é capaz de levar a doença a
muitos, simultaneamente.
Bastante temido é o poder mágico de estranhos que moram em
lugares distantes. É provável que estes sejam os mais temidos porque os
antídotos contra sua magia não são tão desconhecidos quanto os
próprios feitiços. Além disso, inexiste aí a responsabilidade pelas
maldades que sempre existe no interior de um mesmo grupo.
Na defesa contra o mal e no tratamento de doenças, o poder do
curandeiro é visto como bom. De mãos dadas com este caminha,
porém, a prática do mal em grandes proporções. Nada de ruim
acontece por si só; tudo é provocado por um homem ou espírito
malévolo. O que quer que chamemos causa é para eles culpa. Toda morte
é um assassinato, e, enquanto tal, tem de ser vingada.
Espantosa é aí a proximidade absoluta com o mundo do paranoico.
Nos dois capítulos sobre o caso Schreber, ao final deste livro, ficar-se-á
sabendo mais a esse respeito. Até mesmo o ataque a órgãos internos é
descrito ali com detalhes: após a sua completa destruição e um longo
sofrimento, os órgãos se restabelecem, invulneráveis.
O duplo caráter do segredo segue apegado a ele também em todas as
formas superiores de poder. Um único passo separa o curandeiro
primitivo do paranoico. E não é maior a distância que separa ambos do
detentor de poder, conforme este se desenvolveu ao longo da história, em
muitos e bem conhecidos exemplos.
Neste último, o segredo tem sua esfera ativa. O detentor de poder
que se vale do segredo o conhece com precisão e sabe muito bem avaliá-lo de acordo com seu significado. Ele sabe o que espreitar, quando quer
conseguir alguma coisa, e sabe quem de seus auxiliares empregar na
espreita. Sendo muitos os seus desejos, ele possui muitos segredos, e os
reúne num sistema no qual eles se guardam uns aos outros. Confidencia
uma coisa a um, outra coisa a outro, e cuida para que seus confidentes
jamais possam unir-se.
Todo aquele que sabe alguma coisa é vigiado por um outro, o qual
jamais descobre o que realmente está vigiando no primeiro. O vigilante
tem de registrar cada palavra e cada movimento daquele que lhe coube
vigiar, e, relatando com frequência o que registrou, transmite a seu
senhor uma imagem do pensamento do vigiado. Contudo, também o
vigilante é, por sua vez, vigiado, e o relato daquele que o vigia corrige o
seu. Assim, o detentor de poder está sempre a par da confiabilidade e da
segurança dos recipientes nos quais deposita seus segredos, e é capaz de
avaliar quais desses recipientes estão tão repletos que podem
transbordar. Somente ele tem a chave do sistema completo de caixas
que abriga seus segredos. Se a confia inteiramente a alguém, ele se sente
em perigo.
Uma distribuição desigual da capacidade de percepção faz parte do
poder. O poderoso percebe o que abrigam os outros, mas não permite
que percebam o que ele próprio abriga. Ele tem de ser o que mais cala.
A ninguém é permitido conhecer-lhe o pensamento e a intenção.
Um caso clássico dessa impenetrabilidade foi o de Filippo Maria, o
último dos Visconti. Seu ducado, Milão, era uma grande potência na
Itália do século XV. Ninguém igualava o duque em sua capacidade de
ocultar o que abrigava em seu íntimo. Ele jamais dizia abertamente o
que queria, mas encobria tudo com uma maneira peculiar de se
expressar. Se não gostava mais de alguém, seguia louvando-o; se
distinguira alguém com honrarias e presentes, inculpava-o de
impetuosidade ou burrice, fazendo-o sentir que não era digno de sua
sorte. Se desejava ter alguém à sua volta, atraía-o longamente,
incutindo-lhe esperanças e, depois, abandonando-o. Quando, então, o
envolvido acreditava-se já esquecido, o duque o chamava de volta. Se
concedia uma graça a pessoas que lhe haviam prestado bons serviços,
com notável astúcia perguntava a outras a respeito, como se nada
soubesse do benefício concedido. De um modo geral, dava às pessoas
algo diferente do que lhe fora pedido, e sempre de um modo diferente
do desejado. Quando queria oferecer um presente ou uma honraria a
alguém, costumava, dias antes, inquiri-lo sobre os assuntos mais
irrelevantes, de modo que o bene ciado não lograva adivinhar-lhe a
intenção. A m de não revelar a pessoa alguma seu mais recôndito
propósito, chegava mesmo a queixar-se com frequência da concessão de
favores que ele próprio concedera, ou ainda da execução de penas de
morte que ele próprio decretara.
Neste último caso, a impressão que se tem é que ele busca guardar
seus segredos até mesmo de si próprio. O caráter consciente e ativo
destes se perde para ele, que anseia por aquela forma passiva do segredo
que carregamos na escuridão das cavidades de nosso corpo, que
guardamos num lugar onde jamais o descobriremos novamente e que
nós mesmos esquecemos.
“Constitui um direito dos reis preservar seus segredos de seu pai, mãe, de seus irmãos, mulheres e amigos.” Assim afirma o Livro da coroa dos árabes, que contém muitas e antigas tradições datando da corte dos sassânidas.
“Constitui um direito dos reis preservar seus segredos de seu pai, mãe, de seus irmãos, mulheres e amigos.” Assim afirma o Livro da coroa dos árabes, que contém muitas e antigas tradições datando da corte dos sassânidas.
O rei persa Cósroes II, o Vitorioso, inventou métodos bastante
particulares para testar a discrição daqueles que pretendia empregar. Se
sabia que uma íntima amizade unia duas pessoas de seu círculo, uma
união em tudo e por tudo, trancava-se com uma delas e confiava-lhe um
segredo acerca da outra: comunicava-lhe que decidira mandar executá-la, proibindo-a, sob ameaça de castigá-la, de revelar tal segredo ao
amigo. A partir daí, observava as atitudes do amigo condenado em suas
idas e vindas pelo palácio; observava-lhe a coloração do rosto e seu
comportamento quando diante do rei. Se constatava que tal
comportamento não se modificara, sabia então que o outro não lhe
revelara o segredo. Incluía, então, este último entre os de sua maior
confiança, tratava-o com particular distinção, elevava-lhe o posto e
fazia-o sentir suas graças. Depois, a sós com ele, dizia-lhe: “Eu tinha a
intenção de mandar executar aquele homem em razão de algumas
informações que chegaram até mim, mas, investigando melhor,
descobriu-se que era tudo mentira”.
Se, pelo contrário, notava que o condenado mostrava medo,
mantinha-se afastado e desviava o olhar, compreendia que o segredo
fora revelado. Nesse caso, lançava-se impiedoso sobre o traidor,
degradava-o e o tratava duramente. Ao outro, fazia saber que
pretendera apenas testar-lhe o amigo, confiando-lhe um segredo.
Assim, somente confiava no silêncio de um cortesão após havê-lo
obrigado a uma traição mortal para com seu melhor amigo.
Assegurava-se, pois, da mais elevada discrição. “Quem não se presta a
servir ao rei”, dizia, “não possui valor algum para si próprio, e aquele
que nada vale nem mesmo para si próprio, deste não se pode tirar
proveito algum.”
O poder do silêncio foi sempre muito estimado. Ele significa que uma pessoa é capaz de resistir a todas as inumeráveis oportunidades que se lhe oferecem para falar. Uma tal pessoa não dá resposta alguma, como se jamais lhe houvessem feito qualquer pergunta. Não dá a perceber se gosta disto ou daquilo. É muda sem se calar. Mas ouve. Em seu extremo, a virtude estoica da imperturbabilidade haveria de conduzir necessariamente ao silêncio.
O poder do silêncio foi sempre muito estimado. Ele significa que uma pessoa é capaz de resistir a todas as inumeráveis oportunidades que se lhe oferecem para falar. Uma tal pessoa não dá resposta alguma, como se jamais lhe houvessem feito qualquer pergunta. Não dá a perceber se gosta disto ou daquilo. É muda sem se calar. Mas ouve. Em seu extremo, a virtude estoica da imperturbabilidade haveria de conduzir necessariamente ao silêncio.
O silêncio pressupõe ainda um conhecimento preciso daquilo que se
cala. Como, na prática, ninguém permanece calado para sempre, o que
se faz é escolher entre o que pode ser dito e o que cumpre calar. O que
se cala é o que melhor se conhece. É algo mais preciso e mais valioso;
algo que o silêncio não apenas protege, mas concentra. Um homem que
cala bastante dá sempre a impressão de uma concentração maior.
Quando cala, supõe-se que ele saiba muito, e que pensa bastante em seu
segredo. Encontra-se com ele a cada vez que tem de protegê-lo.
Aquele que silencia não pode, pois, esquecer-se de seu segredo. É
respeitado pelo fato de esse segredo arder-lhe mais e mais, crescer
dentro dele, e de ele, ainda assim, não revelá-lo.
O silêncio isola: quem silencia está mais só do que os que falam.
Atribui-se-lhe, assim, o poder do isolamento. Ele é o guardião de um
tesouro, e esse tesouro está dentro dele.
E o silêncio atua contrariamente à metamorfose. Aquele que monta
guarda em seu posto interior jamais é capaz de distanciar-se dele. O
silente pode disfarçar-se, mas apenas de um modo rígido. Ele pode
vestir uma determinada máscara, mas aferra-se a ela. A fluidez da
metamorfose é-lhe vedada. O efeito que esta provoca é demasiado
incerto; uma vez entregue a ela, não se pode prever onde é que se vai
parar. Sempre que não deseja metamorfosear-se o homem silencia. No
silêncio, rompem-se todos os ensejos para a metamorfose. É por meio
da fala que se tecem as relações entre os homens; no silêncio, tudo se
enrijece.
Aquele que silencia tem a vantagem da expectativa maior por sua
manifestação. Dá-se a esta maior valor. Sucinta e isolada, sua fala
aproxima-se mais da transmissão de uma ordem.
A distinção artificial entre aquele que ordena e aquele a quem cabe
obedecer a ele significa que eles não falam a mesma língua. Não devem
conversar um com o outro, como se não fossem capazes de fazê-lo. Sob
quaisquer circunstâncias, a ficção segundo a qual inexiste entendimento
entre eles exteriormente à esfera da ordem é mantida. Assim, na esfera
de sua função, os que possuem voz de comando fazem-se silentes. Desse
modo, as pessoas acostumam-se também a esperar dos silentes, quando
estes finalmente falam, manifestações que são como ordens.
A desconfiança que se sente em relação a todas as formas mais livres de governo — um desdém por tais formas, como se elas fossem incapazes de realmente funcionar — vincula-se à ausência do segredo. Os debates nos parlamentos desenrolam-se entre centenas de pessoas; seu verdadeiro sentido reside em seu caráter público. Opiniões as mais diversas confrontam-se e medem-se umas com as outras. Mesmo as sessões declaradas secretas dificilmente permanecem inteiramente em segredo. A curiosidade profissional da imprensa e o interesse do mundo das finanças conduzem frequentemente a indiscrições.
A desconfiança que se sente em relação a todas as formas mais livres de governo — um desdém por tais formas, como se elas fossem incapazes de realmente funcionar — vincula-se à ausência do segredo. Os debates nos parlamentos desenrolam-se entre centenas de pessoas; seu verdadeiro sentido reside em seu caráter público. Opiniões as mais diversas confrontam-se e medem-se umas com as outras. Mesmo as sessões declaradas secretas dificilmente permanecem inteiramente em segredo. A curiosidade profissional da imprensa e o interesse do mundo das finanças conduzem frequentemente a indiscrições.
O indivíduo isolado — crê-se —, ou um grupo bastante reduzido de
criaturas ao seu redor, é capaz de guardar um segredo. No tocante a
discussões deliberativas, o mais seguro, aparentemente, é que elas se
desenrolem no interior de grupos bastante reduzidos, formados com o
objetivo de guardar segredo e que tenham estabelecido sanções as mais
rigorosas para a traição. Quanto à decisão, porém, o melhor — julga-se
— é que ela que a cargo de uma única pessoa. Esta pode inclusive
desconhecê-la antes de tomá-la, mas, uma vez tomada a decisão, esta, na
qualidade de uma ordem, encontra cumprimento imediato.
Uma boa parte do prestígio vinculado às ditaduras reside no fato de
se atribuir a elas a força concentrada do segredo, a qual, nas
democracias, é diluída e repartida entre muitos. Com escárnio,
enfatiza-se que nestas tudo é discutido
à
exaustão. Todos palpitam, todos
interferem em tudo e nada acontece, pois tudo era sabido já de
antemão. Aparentemente, reclamasse aí da falta de decisão, mas, na
realidade, a causa dessa decepção é a ausência do segredo.
As pessoas estão dispostas a suportar muita coisa, desde que essas
coisas se deem de forma violenta e sem conhecimento prévio algum.
Quando não se é nada, ir parar na barriga de um poderoso parece
constituir um ímpeto servil de um tipo muito especial. Não se sabe o
que realmente se passa nem quando irá acontecer: é possível que outros
tenham a precedência do ingresso no monstro. Aguarda-se
humildemente, estremece-se, nutre-se a esperança de se vir a tornar-se a
vítima escolhida. Pode-se identificar nessa postura uma apoteose do
segredo. Tudo o mais é subordinado à sua glorificação. O que importa é
não tanto o que se passa, mas sim que aconteça com a ardente
subtaneidade de um vulcão — inesperada e inapelavelmente.
Mas o acúmulo de todos os segredos de um só lado e em uma só mão
há de ser, por fim, fatal. E fatal não apenas para seu possuidor — o que,
em si, não teria maior importância —, mas também para todos os
envolvidos, o que é de enorme importância. Todo segredo é explosivo e
se intensifica em seu próprio calor interno. O juramento que o sela é
precisamente o ponto no qual ele voltará a se abrir.
Em que grande medida o segredo é perigoso, somente hoje consegue se percebê-lo claramente. Ele se carregou de um poder cada vez maior nas esferas mais distintas, as quais apenas aparentemente independem uma da outra. Nem bem estava morto o ditador contra o qual, reunido, o mundo todo guerreou, e ressurgia já o segredo sob a forma da bomba atômica — mais perigoso do que nunca, e intensificando-se rapidamente em seus rebentos.
Em que grande medida o segredo é perigoso, somente hoje consegue se percebê-lo claramente. Ele se carregou de um poder cada vez maior nas esferas mais distintas, as quais apenas aparentemente independem uma da outra. Nem bem estava morto o ditador contra o qual, reunido, o mundo todo guerreou, e ressurgia já o segredo sob a forma da bomba atômica — mais perigoso do que nunca, e intensificando-se rapidamente em seus rebentos.
Designa-se concentração do segredo a relação entre o número daqueles
por ele afetados e o número dos que o guardam. A partir dessa
definição, pode-se facilmente perceber que nossos modernos segredos
tecnológicos são os mais concentrados e perigosos que já existiram. Eles
afetam a todos, mas somente um pequeno número de pessoas sabe a seu
respeito, dependendo de cinco ou dez homens a possibilidade de eles
virem a ser empregados.
continua página 450...
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Leia também:
Massa e Poder - Elementos do Poder: O Segredo
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ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994.
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) e O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de Marrakech, Festa sob as bombas e Sobre a morte.
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"Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido."
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e você... conhece alguém que em meio a nossa danação geral em 2020, 2021 e 2022, NÃO sentiu empatia por nós, os sobreviventes, nem mesmo pelos nossos mortos e mortas, e apenas repetia: NÃO sou coveiro!?
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e perguntas sem resposta te incomodam?
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