quinta-feira, 11 de junho de 2026

Massa e Poder - Elementos do Poder: Pergunta e Resposta

Elias Canetti

ELEMENTOS DO PODER

     Pergunta e Resposta

          Toda pergunta é uma intromissão. Onde ela é aplicada como um instrumento de poder, a pergunta corta feito faca a carne do interrogado. Sabe-se de antemão o que se pode descobrir, mas quer-se descobri-lo e tocá-lo de fato. Com a segurança de um cirurgião, o inquiridor precipita-se sobre os órgãos do interrogado. Esse cirurgião mantém viva sua vítima para saber mais sobre ela. É uma espécie particular de cirurgião, que atua provocando deliberadamente a dor em certos pontos; estimula certas porções da vítima para saber de outras com maior segurança.
     Perguntas visam respostas; aquelas que não se fazem seguir de respostas são como flechas atiradas ao vento. A pergunta mais inocente é aquela que permanece isolada, não trazendo outras consigo. Pergunta-se a um estranho onde fica um determinado edifício. O estranho indica sua localização. O inquiridor contenta-se com a resposta e segue seu caminho. Deteve o estranho por um momento; obrigou-o a pensar. Quanto mais clara e concludente a resposta deste último, tanto mais rapidamente ele se livrará do primeiro. Deu-lhe o que ele esperava e nunca mais precisará revê-lo.
     Um inquiridor, porém, poderia não se contentar com a resposta e fazer outras perguntas. Quando estas se acumulam, elas logo despertam a má vontade do inquirido. Que não é detido apenas exteriormente; a cada resposta, ele mostra um pedaço a mais de si. Tal pedaço pode ser desimportante, superficial, mas foi-lhe solicitado por um estranho; ademais, vincula-se a outros, mais ocultos, aos quais ele atribui valor muito maior. A indisposição que sente logo se converte em desconfiança.
     E isso porque o efeito das perguntas sobre o inquiridor é o de uma elevação de sua sensação de poder; elas lhe dão vontade de fazer mais e mais perguntas. O inquirido sujeita-se tanto mais quanto mais frequentemente consentir em respondê-las. A liberdade das pessoas reside em boa parte em estar a salvo de perguntas. É a tirania mais vigorosa que se permite as perguntas mais enérgicas.
     Uma resposta inteligente é aquela que põe m às perguntas. Quem pode, responde com outra pergunta; entre iguais, esse é um meio de defesa já comprovado. Aquele a quem a posição do inquiridor não permite nenhuma réplica, esse tem de dar-lhe uma resposta completa, revelando-lhe o que ele quer saber; do contrário, precisará, pela astúcia, retirar-lhe a vontade de seguir inquirindo. Poderá, assim, adulando-o, reconhecer a superioridade real do inquiridor, de modo que este não precise manifestá-la ele próprio. E poderá ainda desviar-lhe a atenção para outros, os quais seria mais interessante ou fecundo inquirir. Se sabe dissimular bem, é possível que apague sua identidade. Quando isso acontece é como se a pergunta tivesse, por assim dizer, sido dirigida a outro, ele próprio não sendo a pessoa competente para responder a ela.
     Pretendendo, em última instância, dissecar, a pergunta principia pelo contato. Vai, então, tocando mais pontos, e pontos diversos. Não encontrando resistência, avança. O que colhe não é prontamente desfrutado, mas colocado de lado para utilização posterior. Primeiramente, ela tem de encontrar aquele que é o objeto específico de sua busca. Atrás de cada pergunta há sempre um objetivo deliberado. Perguntas indefinidas — as de uma criança ou de um louco — não possuem força alguma, deixando-se satisfazer com facilidade.
     A situação mais perigosa é aquela na qual se exige uma resposta concisa. A dissimulação convincente, a fuga pela metamorfose, torna-se difícil em poucas palavras, se não impossível. A defesa mais crua é fazer se de surdo ou desentendido. Mas esta só auxilia quando se está entre iguais. Se, pelo contrário, a pergunta parte do mais forte rumo ao mais fraco, ela pode ser feita por escrito ou traduzida. A resposta a uma pergunta assim faz-se, então, muito mais comprometedora. Ela pode ser comprovada, e o inquiridor poderá recorrer a ela.
     Aquele que é exteriormente indefeso recolhe-se em sua armadura interior. Tal armadura interior a protegê-lo da pergunta é o segredo. Este jaz no interior de um corpo qual num segundo corpo, mais bem protegido; quem se aproxima demais dele há de estar preparado para surpresas desagradáveis. Na qualidade de algo mais denso, o segredo é apartado de seu entorno e mantido numa escuridão que somente poucos logram iluminar. O que ele possui de perigoso é sempre colocado acima de seu conteúdo propriamente dito. O mais importante, o mais denso — poder-se-ia dizer — no segredo é a defesa eficaz contra toda e qualquer pergunta.
     O silêncio diante de uma pergunta é como o ricochetear de uma arma num escudo ou armadura. O calar é uma forma extrema de defesa, cujas vantagens e desvantagens equilibram-se. Aquele que cala, é certo, não se entrega; em compensação, porém, dá a impressão de ser mais perigoso do que é. Supõe-se haver nele mais do que aquilo que ele cala. Silencia apenas porque tem muito o que calar; tanto mais importante faz-se, pois, não libertá-lo. O silêncio obstinado conduz à inquisição penosa, à tortura.
     Contudo, mesmo em circunstâncias normais a resposta sempre aprisiona aquele que a deu. Ele não pode mais simplesmente abandoná-la. Ela o obriga a posicionar-se num determinado lugar e a permanecer ali, tendo o inquiridor a alvejá-lo de todas as direções. Este o circunda, por assim dizer, escolhendo a posição que lhe convém. Pode rodeá-lo, surpreendê-lo e confundi-lo. A mudança de posição confere-lhe uma espécie de liberdade da qual o inquirido não pode desfrutar. Com sua pergunta, o inquiridor lança-se sobre ele e, se logra tocá-lo com ela — ou seja, se logra obrigá-lo a responder —, ele o capturou, aprisionando o num determinado lugar. “Quem é você?” “Sou fulano de tal.” Este já não pode mais ser outra pessoa; do contrário, sua mentira enredá-lo-á em dificuldades. Subtraiu-se-lhe já a possibilidade de escapar valendo-se da metamorfose. Se se prolonga por algum tempo, esse processo pode ser encarado como uma espécie de acorrentamento.
     A primeira pergunta tem por objeto a identidade; a segunda, o lugar. Como ambas têm a língua por pressuposto, é de se perguntar se seria concebível uma situação arcaica, existente em palavras já anteriormente à pergunta e a ela correspondente. Nela, identidade e lugar coincidiriam ainda: uma não teria sentido sem o outro. Essa situação arcaica se verifica no contato hesitante com a presa. Quem é você? Você é comestível? O animal, em sua busca incessante por alimento, toca e cheira tudo quanto encontra. Mete seu focinho em toda parte: você é comestível? Que gosto você tem? A resposta é um odor, uma reação, uma rigidez inanimada. O corpo estranho é também seu próprio lugar; cheirando-o e tocando-o é que é conhecido ou — traduzindo para nossos costumes humanos — é nomeado.
     Na educação da criança ainda pequena, dois processos que se entrecruzam parecem desproporcionalmente intensificados; embora pareçam desproporcionais, vinculam-se intimamente um ao outro. Ordens ininterruptas, de natureza vigorosa e enfática, partem dos pais; da criança, por sua vez, parte uma infinidade de perguntas. Essas primeiras perguntas da criança são como um grito por alimento, já em sua segunda e mais elevada forma. São inofensivas, uma vez que absolutamente não transmitem à criança o saber pleno dos pais; a superioridade destes permanece gigantesca.
     Quais as primeiras perguntas que a criança faz? Dentre elas encontram-se aquelas relacionadas a um lugar: “Onde é...?”. “O quê?” e “Quem?” figuram também entre essas primeiras perguntas. Vê-se, pois, que papel, lugar e identidade desempenham desde cedo. Constituem as primeiras coisas acerca das quais a criança busca informar-se. Somente mais tarde, ao final do terceiro ano de vida, ela começa a perguntar “por quê?”, e, mais tarde ainda, “quando?” e “quanto tempo?” — as perguntas relativas ao tempo. Um longo período se passa até que a criança adquira ideias precisas acerca do tempo.
     A pergunta que principia com o contato hesitante busca, como já se disse, avançar mais. Há algo nela que busca cindir, assemelhando-se a uma faca. Pode-se percebê-lo em função da resistência que crianças bem pequenas opõem a perguntas duplas. “O que você prefere? Uma maçã ou uma pera?” A criança não responderá, ou dirá “pera”, simplesmente por ter sido esta a última alternativa mencionada. Uma decisão de fato, que constituísse uma cisão entre pera e maçã, é-lhe, porém, difícil: no fundo, ela quer ambas.
     Seu verdadeiro poder de corte, a cisão atinge quando possíveis são somente as duas respostas mais simples que existem: sim ou não. Sendo opostas e excluindo tudo o mais que há entre elas, a decisão por uma ou outra implica um comprometimento e alcance particulares.
     Antes que a pergunta seja feita, em geral não se sabe o que se pensa. É ela quem obriga à separação dos prós e contras. Se gentil e não aflitiva para com o inquirido, ela deixa a seu cargo a decisão.
     Nos diálogos platônicos, Sócrates é coroado uma espécie de rei da inquirição. Ele despreza as formas comuns de poder e evita zelosamente tudo quanto possa lembrá-las. Qualquer um que o queira pode desfrutar da sabedoria que constitui sua superioridade. Nem sempre, porém, ele a transmite num discurso coeso, mas antes lançando suas perguntas. Nos diálogos, cuida-se para que seja ele a fazer a maioria das perguntas, e as mais importantes dentre elas. Assim, Sócrates não larga mais de seus ouvintes, obrigando-os a cisões das mais variadas naturezas. Seu domínio sobre eles, ele o obtém exclusivamente mediante a inquirição.
     As formas da civilidade que restringem a inquirição são importantes. A um estranho, não é admissível que se façam certas perguntas. Quem as fizer estará se aproximando demasiado dele, invadindo-o, e o estranho terá motivo para sentir-se ofendido. A reserva, pelo contrário, convencê-lo-á do quanto ele é respeitado. O estranho é tratado como se fosse alguém mais forte — uma forma de adulação que provoca nele atitude semelhante. Somente dessa maneira, a uma certa distância um do outro e não ameaçados por perguntas, qual fossem todos fortes e iguais nessa sua força, os homens se sentem seguros e convivem em paz.
     Uma pergunta colossal é aquela que diz respeito ao futuro. Poder-se ia chamá-la a pergunta suprema; é também a mais intensa de todas. Os deuses, aos quais ela é dirigida, não são obrigados a dar uma resposta. A pergunta que se faz ao mais forte é uma pergunta desesperada. Os deuses jamais se deixam aprisionar; não se pode penetrá-los. Suas manifestações são ambíguas; não se deixam decompor. Toda inquirição que se lhes faça não vai além de uma primeira pergunta, para a qual é dada uma única resposta. Com bastante frequência, tal resposta consiste meramente em sinais, os quais são reunidos em grandes sistemas pelos sacerdotes de muitos povos. Dos babilônios, a tradição transmitiu-nos milhares desses sinais. Chama a atenção o fato de cada um deles apresentar-se isolado dos demais. Não decorrem uns dos outros, nem possuem coerência interna alguma. Não são mais que listas de sinais; mesmo quem os conhece a todos só é capaz de inferir de cada um deles em particular um aspecto também particular do futuro.
     Em contraposição a isso, o interrogatório restabelece o passado, e, aliás, em sua totalidade. Ele é dirigido contra o mais fraco. Antes, porém, de nos voltarmos aqui para sua interpretação, convém dedicarmos algumas palavras a um procedimento que hoje já se impôs na maioria dos países: trata-se do registro policial. Desenvolveu-se um grupo de perguntas que são as mesmas por toda parte e que, em essência, estão a serviço da segurança e da ordem. Quer-se saber quão perigoso alguém poderia tornar-se, e, tendo esse alguém se tornado de fato perigoso, poder capturá-lo de imediato. A primeira pergunta que se faz oficialmente a um homem diz respeito ao seu nome; a segunda, a seu domicílio, seu endereço. Têm-se aí, como já se sabe, as duas perguntas mais antigas que existem: aquelas que têm por objeto a identidade e o lugar. A profissão, a pergunta seguinte, revela o que o indivíduo faz; disso, e de sua idade, infere-se a influência que exerce e o prestígio que tem — ou seja, como se deve abordá-lo. O estado civil informa acerca de suas relações humanas mais íntimas, homens, mulheres ou crianças. A origem e a nacionalidade dão uma indicação de como ele possivelmente pensa — em épocas de nacionalismos fanáticos como a atual, dados mais importantes do que a crença religiosa, que perdeu importância. Com tudo isso — mais fotografia e assinatura —, estabeleceu-se já muita coisa a seu respeito.
     As respostas a tais perguntas são aceitas. No momento em que são dadas, elas não estão sob suspeita. Somente no interrogatório voltado para um determinado m é que a pergunta faz-se carregada de desconfiança. Constrói-se, então, um sistema de perguntas que se presta ao controle sobre as respostas; em si, estas poderiam agora ser, todas elas, falsas. O interrogado encontra-se numa relação de hostilidade para com o interrogador. Sendo muito mais fraco que este, ele somente escapa se o faz crer que não é um inimigo.
     Nos interrogatórios judiciais, a inquirição produz uma onisciência a posteriori do inquiridor, o poderoso. Os caminhos que uma pessoa percorreu, os lugares em que esteve, as horas que viveu e que outrora lhe pareceram livres, sem ninguém a persegui-la, passam subitamente a sofrer perseguição. Todos os caminhos precisam ser novamente percorridos, todos os lugares revisitados, até que reste o mínimo possível daquela liberdade passada. Antes de proferir a sentença, o juiz deve ter conhecimento de uma grande quantidade de fatos. Seu poder, em especial, baseia-se na onisciência. A m de adquiri-la, ele tem o direito de formular qualquer pergunta: “Onde você esteve? Quando esteve lá? O que você fez?”. Nas respostas que servem à construção de seu álibi, o interrogado contrapõe identidades e locais. “A essa hora eu estava em outro lugar. Não fui eu quem fez tal coisa.”
     “Certa vez”, conta uma lenda vende, “por volta do meio-dia, uma jovem camponesa, deitada na relva nas proximidades de Dehsa, adormeceu. Seu noivo encontrava-se sentado a seu lado. Pensava numa maneira de livrar-se da noiva. Veio, então, a mulher do meio-dia e pôs-se a lhe fazer perguntas. Por mais que respondesse, ela sempre fazia novas perguntas. Quando o sino deu uma hora, o coração dele parou. A mulher do meio-dia o havia interrogado até a morte.”

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ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994. 
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) e O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de Marrakech, Festa sob as bombas e Sobre a morte.
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Copyright @ 1960 by Claassen Verlag GmbH, Hamburg
Copyright @ 1992 by Claassen Verlag GmbH, Hildescheim
Título original Masse und Macht

"Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido."

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e você... conhece alguém que em meio a nossa danação geral em 2020, 2021 e 2022, NÃO sentiu empatia por nós, os sobreviventes, nem mesmo pelos nossos mortos e mortas, e apenas repetia: NÃO sou coveiro!?
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e perguntas sem resposta te incomodam?

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