quinta-feira, 4 de junho de 2026

Massa e Poder - Elementos do Poder: Poder e Velocidade

Elias Canetti

ELEMENTOS DO PODER

     Poder e Velocidade

          Toda velocidade, na medida em que se vincula à esfera do poder, traduz-se numa velocidade de perseguição ou de agarramento. Para ambas, o homem teve por modelo os animais. A perseguição, ele a aprendeu com os animais de rapina, especialmente o lobo. O agarramento pelo bote súbito foi-lhe mostrado pelos felinos, dos quais os mestres mais invejados e admirados foram o leão, o leopardo e o tigre. As aves de rapina juntam ambas as coisas, o perseguir e o agarrar. Na ave de rapina que se pode ver voando sozinha para um ataque a grande distância, o fenômeno manifesta-se em sua totalidade. Ela deu ao homem a flecha — durante muito tempo, a maior velocidade de que ele dispôs: com suas flechas, o homem voava rumo a sua presa.
     Assim, esses animais são também, desde muito tempo, símbolos do poder, representando ora os deuses ora os ancestrais do detentor de poder. Gêngis Khan teve por antepassado um lobo. O falcão Horus é o deus do faraó egípcio. Nos reinos africanos, o leão e o leopardo são os animais sagrados do clã do rei. Das chamas nas quais ardia o corpo do imperador romano, sua alma voava para o céu sob a forma de uma águia.
     O que há, porém, de mais rápido continua sendo o que sempre foi: o raio. O medo supersticioso do raio, do qual o homem não tem como se proteger, é algo bastante difundido. Os mongóis — conta o monge franciscano Rubruk, que os visitou como enviado de são Luís — temiam o trovão e o raio mais do que qualquer outra coisa. À sua presença, eles tocam os estranhos de suas iurtas, envolvem-se em feltro preto e ali permanecem escondidos até que tudo tenha passado. — Evitam comer a carne de um animal atingido por um raio, relata o historiador persa Rachid, que esteve a seu serviço, e não ousam nem mesmo aproximar-se dele. Todas as proibições possíveis que vigoram entre os mongóis têm por objetivo obter as graças do raio. Deve-se evitar tudo quanto possa atraí-lo. O raio é, frequentemente, a arma principal do deus mais poderoso.
     Seu súbito brilhar na escuridão possui o caráter de uma revelação. O raio persegue e ilumina. A partir de seu comportamento, procura-se tirar conclusões acerca da vontade dos deuses. Sob que forma ele brilha e em que parte do céu? De onde vem? Para onde vai? Entre os etruscos, tal decifração é tarefa de uma classe particular de sacerdotes, classe esta que os romanos adotaram na gura dos “fulguratores”.
     “O poder do soberano”, afirma um antigo texto chinês, “assemelha-se ao do raio, ainda que lhe seja inferior em pujança.” É espantosa a frequência com que os poderosos são atingidos por raios. As histórias a respeito podem nem sempre ser verdadeiras, mas o estabelecimento dessa vinculação é já, em si, significativo. Relatos desse tipo são numerosos entre os romanos e os mongóis. Ambos esse povos acreditam num deus celestial supremo, e ambos apresentam um senso de poder bastante desenvolvido. O raio é aí entendido como uma ordem sobrenatural. Quando ele atinge alguém é porque deve atingi-lo. Se atinge um poderoso, enviou-o alguém mais poderoso ainda. Cumpre, pois, a função do mais veloz e repentino dos castigos, e do mais visível também.
     Imitado pelos homens, o raio foi transformado numa espécie de arma: a arma de fogo. O clarão e o estrondo do tiro, o fuzil e particularmente os canhões sempre provocaram o medo dos povos que não os possuíam: estes os percebiam como o raio.
     Ainda antes, porém, os esforços do homem caminhavam já na direção de torná-lo um animal mais veloz. A domesticação do cavalo e o desenvolvimento dos exércitos de cavaleiros, em sua forma mais completa, conduziram às grandes invasões históricas provenientes do Oriente. Todos os relatos da época acerca dos mongóis destacam quão velozes eles eram. Sua aparição era sempre inesperada: eles surgiam tão repentinamente quanto desapareciam, e reapareciam de maneira ainda mais abrupta. Sabiam converter em ataque até mesmo a pressa da fuga: mal se começava a crer que haviam fugido, estava-se já novamente cercado por eles.
     Desde sempre, a velocidade física, como característica do poder, intensificou-se de todas as formas. Desnecessário faz-se abordar seus efeitos sobre nossa era tecnológica.
     À esfera da captura pertence também uma outra espécie bastante diversa de velocidade — a do desmascaramento. Está-se diante de um ser inofensivo ou submisso; arrancasse-lhe a máscara e, por trás dela, encontra-se um inimigo. Afim de ser eficaz, o desmascaramento deve ocorrer subitamente. A essa espécie de velocidade pode-se caracterizar como dramática. A perseguição limita-se aí a um espaço bem reduzido; ela se concentra. A troca de máscaras como instrumento de dissimulação é antiquíssima; seu negativo é o desmascaramento. Passando-se de uma máscara a outra, alcançam-se alterações decisivas das relações de poder. A dissimulação inimiga é combatida com a própria. Um soberano convida notáveis civis ou militares para um banquete. De repente, quando menos esperavam hostilidade, são todos mortos. A mudança de uma postura para outra corresponde exatamente a uma troca de máscaras. A velocidade do acontecimento é intensificada ao máximo; dela, e apenas dela, depende o sucesso da empreitada. O detentor de poder, consciente de suas próprias e constantes dissimulações, só pode esperar dos outros o mesmo comportamento. A velocidade com que se antecipa a eles parece-lhe lícita e imprescindível. Pouco o comoverá apanhar por equívoco um inocente: na complexidade das máscaras, o engano é possível. Mas se irritará profundamente se, pela falta de velocidade, um inimigo lhe escapar.

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ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994. 
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) e O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de Marrakech, Festa sob as bombas e Sobre a morte.
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Copyright @ 1960 by Claassen Verlag GmbH, Hamburg
Copyright @ 1992 by Claassen Verlag GmbH, Hildescheim
Título original Masse und Macht

"Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido."

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e você... conhece alguém que em meio a nossa danação geral em 2020, 2021 e 2022, NÃO sentiu empatia por nós, os sobreviventes, nem mesmo pelos nossos mortos e mortas, e apenas repetia: NÃO sou coveiro!?

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