Terceira Parte - Mário
Livro Sexto — Conjunção De Duas Estrelas
VIII — Até os próprios inválidos podem ser felizes
Já que pronunciámos a palavra pudor, e também porque não ocultamos nada,
diremos que apesar de tudo houve uma ocasião, no meio dos seus êxtases, em que a
«sua Úrsula» lhe deu sério motivo de queixa.
Foi num dos dias em que ela convencera o senhor Leblanc a deixar o banco e a
passear na álea. A brisa soprava fresca agitando os cimos dos plátanos. O pai e a filha, de
braço dado, foram passar por diante do banco de Mário. Este, apenas eles passaram,
levantou-se e seguiu-os com a vista, como é próprio de tais situações, nas quais a alma
está desvairada.
De repente, uma rajada de vento mais forte, provavelmente encarregada de produzir
os efeitos da Primavera, precipitou-se do viveiro sobre a álea, envolveu a jovem num
arrebatador estremecimento, digno das ninfas de Virgílio e dos faunos do Teócrito, e
levantou-lhe o vestido, aquele vestido mais sagrado do que a túnica de Ísis, até quase à
altura da liga, deixando ver uma perna de forma irrepreensível.
Mário viu-a. Ficou exasperado e furioso.
A jovem baixara rapidamente o vestido com um movimento divinamente assustado,
mas nem por isso Mário ficara menos indignado. Era verdade que estava só na álea, mas
podia ali ter estado alguém. E se estivesse! Pois pode compreender-se semelhante coisa?
Fora horrível o seu procedimento! A pobre criança não fizera coisa alguma, não houvera
senão um culpado: o vento. Mas Mário, em quem estremecia confusamente o Bártolo
contido em Querubim, decidira-se a ficar descontente e sentia-se cioso da sua sombra. É
assim, com efeito, que se desperta no coração humano e que se impõe mesmo sem
direito, o amargo e extravagante ciúme da carne. No fim de tudo, mesmo apesar do
ciúme, não tivera para ele nada agradável a vista daquela encantadora perna; a meia
branca da primeira mulher que aparecesse, ter-lhe-ia causado maior prazer.
Quando a «sua Úrsula», depois de ter chegado à extremidade da álea, voltou para trás
com o senhor Leblanc, e passou por diante do banco em que Mário tornara a sentar-se,
lançou-lhe este um olhar ferozmente zangado. A jovem fez um movimento
acompanhado de ligeiro erguer de pálpebras, que significa: «Ora esta! O que tem ele?»
Foi este o «primeiro arrufo».
Acabava de ter lugar entre a jovem e Mário esta muda cena, em que um ao outro só
com os olhos falaram, quando pela álea passou um sujeito. Era um inválido, alquebrado,
de fronte encanecida e arregoada pelo arar do tempo, senão pelo queimar do sol dos
combates, com uniforme do tempo de Luís XV, com a cruz de S. Luís do soldado ao peito,
a qual consiste num retalho de pano vermelho de forma oval com duas espadas
cruzadas, e afora isto ornado com uma manga de casaco sem braço, de uma perna de
pau e de um queixo de prata. Apesar de tudo afigurou-se ao mancebo ver no rosto
daquela estranha criatura um ar de satisfação, que estaria longe de apresentar outro a
quem tão graves mu lações vesse feito a espada inflexível da guerra. Pareceu-lhe até
que, quando o cínico velho passou por ele bamboleando donairosamente a sua perna de
proveniência estranha, lhe piscara o olho com o mais fraternal e prazenteiro gesto, como
se acaso ambos estivessem em inteligência e pudessem saborear em comum as delícias
de alguma boa patuscada. Que razões de contentamento teria aquele despontado raio
de Marte? Que se tinha passado entre esta perna de pau e a outra de carne, que a
voluptuosidade da brisa estival não poupara aos seus lascivos ósculos? Mário chegou a
sentir-se confrangido nos paroxismos do ciúme, «De certo ele estava por aqui e viu!» E,
ao mesmo tempo que dizia isto em monólogo interior, vinha-lhe de ímpeto ao coração o
desejo indomável de dar cabo do decepado inválido.
Porém, o tempo tudo desgasta e tudo com ele se adoça. Embora em extremo justa e
legítima, a cólera de Mário contra «Úrsula» passou, como passam todas as coisas desta
vida, e ele veio enfim a perdoar, não, contudo, sem grande esforço. Antes de atingido
este resultado, andaram os namorados três dias mudamente desavindos.
No entanto, apesar de tudo isto e por causa de tudo isto, recrudescia o fogo da paixão
e já quase atingia o extremo da loucura.
continua na página 536...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Sexto - VIII — Até os próprios inválidos podem ser felizes
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS
Título original: Les Misérables (1862)
OS MISERÁVEIS
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira
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