Terceira Parte - Mário
Livro Sexto — Conjunção De Duas Estrelas
IX — Eclipsa
Viu-se já como Mário descobriu ou lhe pareceu descobrir que ela se chamava Úrsula.
O amor é insaciável. Saber que ela se chamava Úrsula, que muito fora, já agora lhe
parecia pouco: dentro de três ou quatro semanas devorara esta ventura, e, portanto,
queria outra. Queria saber onde ela morava.
Não contente, pois, com a sua primeira falta, que o fora e grande, deixar-se cair na
armadilha do banco do Gladiador; não satisfeito com a segunda, que tão
desassisadamente cometera em sair do Luxemburgo quando via que Leblanc chegava só;
cometeu ainda terceira, e esta imensa seguiu Úrsula.
A sua Úrsula morava no lugar mais deserto da rua do Oeste, numa casa nova de três
andares, de modesta aparência.
A partir desse dia, ao prazer de a ver no Luxemburgo, juntava Mário o de segui-la
sempre até casa.
A sua fome, porém, como a sede dos hidrópicos, que mais se ateia, se mais a tentam
apagar, aumentava.
Já sabia como ela se chamava, isto é, sabia-lhe o nome de batismo pelo menos; já
sabia onde ela morava; quis também saber quem ela era. Para isto, depois de os ter
seguido uma tarde até à entrada de casa e vê-los subir a escada que do portal
comunicava com o interior, foi-lhes resolutamente no encalço e desassombradamente
perguntou ao porteiro:
— Este senhor que agora entrou, não é o que mora no primeiro andar?
— Não, senhor. O que entrou mora no terceiro.
Ousado com o próspero resultado, resolveu levar mais longe as averiguações.
— Para o lado da frente? — continuou ele.
— Ora, a pergunta não está má! — exclamou o porteiro.
— A casa não tem traseiras.
— E que ocupação é a deste sujeito, sabe? — replicou Mário.
É um rendeiro e homem de bons sentimentos.
Conquanto não tenha lá grandes riquezas, favorece os infelizes como outros que têm
muito e não o fazem.
— Sabe-me dizer como se chama? — tornou Mário.
O porteiro, porém, em vez de responder à pergunta, fitou-lhe os olhos e disse-lhe:
— O senhor é espião?
Mário saiu dali corrido e vexado, porém sa sfeito com o feliz sucesso das suas
pesquisas e informações que ia colhendo.
— Bem — disse ele consigo. — Já sei que se chama Úrsula, que é filha de um rendeiro
e que mora no terceiro andar daquela casa da rua do Oeste.
No dia seguinte, Leblanc e a filha apareceram no Luxemburgo, porém demoraram-se
muito menos do que o costume, retirando-se ainda dia claro, seguidos de Mário, que foi
atrás deles até à entrada de casa, como costumava. Ao chegarem à porta, Leblanc deixou
passar a filha adiante, parou antes de transpor o limiar da porta e depois voltou atrás e
pôs-se a olhar fixamente para Mário.
No outro dia, Mário esperou por eles, mas debalde. Os dois assíduos frequentadores
do Luxemburgo não apareceram.
Ao escurecer, Mário dirigiu-se para a rua do Oeste, e como nas janelas do terceiro
andar visse luz, pôs-se a passear na rua até que a luz se apagou.
No dia seguinte, nem vivalma no Luxemburgo. Mário esperou todo o dia, e como não
visse quem ele esperava, foi fazer a sua ronda noturna debaixo das, janelas da casa da
rua do Oeste, que durou até às dez horas. O seu jantar constava do que o acaso lhe
deparava. A febre sustenta o enfermo, o amor o namorado.
Desta maneira se passaram oito dias. No Luxemburgo nunca mais tornaram a aparecer
nem Leblanc nem sua filha. Mário fazia tristes conjecturas, porém, receoso, não se
atrevia a espionar de dia a modesta casa dos dois entes a que andava ligado o seu
destino. Contentava-se em ir de noite contemplar o avermelhado clarão que se coava
pelas vidraças, a espaços entenebrecido pelo perpassar de umas sombras, que lhe faziam
pulsar o coração aligeirado nos estros da comoção.
Ao oitavo dia, quando chegou debaixo das janelas, não viu luz.
— Ora esta! Ainda não acenderam o candeeiro, não obstante ser já noite fechada!
Terão eles saído?
Dito isto, esperou até às dez horas, até à meia-noite, até à uma hora. Ao ver, porém,
que em todo este tempo nem nas janelas do terceiro andar apareceu luz, nem para
aquela casa entrava vivalma, saiu dali com o coração atribulado.
No dia seguinte pois o mancebo vivia só das esperanças do outro dia, desde que para
ele, permitam-nos a expressão, já não havia hojes no dia seguinte, não encontrando
ninguém no Luxemburgo, como já esperava, dirigiu-se para a casa da rua do Oeste. Nem
sinal de luz nas janelas; estavam corridas as persianas do terceiro andar e tudo
completamente às escuras. Mário bateu à porta, entrou e disse para o porteiro:
— O inquilino do terceiro andar está em casa?
— Mudou-se — respondeu o porteiro.
Mário cambaleou, mas perguntou ainda com voz sumida:
— Há quanto tempo?
— Ontem.
— E onde mora agora, faz favor de me dizer?
— Isso não sei.
— Então ele não disse onde era a sua nova morada?
— Não, senhor.
E, como o porteiro o reconhecesse, exclamou:
— Ah, é o senhor! O senhor decididamente é espião, não tem que ver!
continua na página 539...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Sexto - IX — Eclipsa
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS
Título original: Les Misérables (1862)
OS MISERÁVEIS
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira
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