sexta-feira, 12 de junho de 2026

Victor Hugo - Os Miseráveis: Mário, Livro Sexto - Conjunção de duas estrelas / IX — Eclipsa

Victor Hugo - Os Miseráveis

Terceira Parte - Mário

Livro Sexto — Conjunção De Duas Estrelas

     IX — Eclipsa

             Viu-se já como Mário descobriu ou lhe pareceu descobrir que ela se chamava Úrsula. O amor é insaciável. Saber que ela se chamava Úrsula, que muito fora, já agora lhe parecia pouco: dentro de três ou quatro semanas devorara esta ventura, e, portanto, queria outra. Queria saber onde ela morava.
     Não contente, pois, com a sua primeira falta, que o fora e grande, deixar-se cair na armadilha do banco do Gladiador; não satisfeito com a segunda, que tão desassisadamente cometera em sair do Luxemburgo quando via que Leblanc chegava só; cometeu ainda terceira, e esta imensa seguiu Úrsula.
     A sua Úrsula morava no lugar mais deserto da rua do Oeste, numa casa nova de três andares, de modesta aparência.
     A partir desse dia, ao prazer de a ver no Luxemburgo, juntava Mário o de segui-la sempre até casa.
     A sua fome, porém, como a sede dos hidrópicos, que mais se ateia, se mais a tentam apagar, aumentava.
     Já sabia como ela se chamava, isto é, sabia-lhe o nome de batismo pelo menos; já sabia onde ela morava; quis também saber quem ela era. Para isto, depois de os ter seguido uma tarde até à entrada de casa e vê-los subir a escada que do portal comunicava com o interior, foi-lhes resolutamente no encalço e desassombradamente perguntou ao porteiro: 

— Este senhor que agora entrou, não é o que mora no primeiro andar? 
— Não, senhor. O que entrou mora no terceiro.

     Ousado com o próspero resultado, resolveu levar mais longe as averiguações.

— Para o lado da frente? — continuou ele. 
— Ora, a pergunta não está má! — exclamou o porteiro. 
— A casa não tem traseiras. 
— E que ocupação é a deste sujeito, sabe? — replicou Mário.

     É um rendeiro e homem de bons sentimentos.
     Conquanto não tenha lá grandes riquezas, favorece os infelizes como outros que têm muito e não o fazem.

— Sabe-me dizer como se chama? — tornou Mário.

     O porteiro, porém, em vez de responder à pergunta, fitou-lhe os olhos e disse-lhe: 

— O senhor é espião?

     Mário saiu dali corrido e vexado, porém sa sfeito com o feliz sucesso das suas pesquisas e informações que ia colhendo. 

— Bem — disse ele consigo. — Já sei que se chama Úrsula, que é filha de um rendeiro e que mora no terceiro andar daquela casa da rua do Oeste.

     No dia seguinte, Leblanc e a filha apareceram no Luxemburgo, porém demoraram-se muito menos do que o costume, retirando-se ainda dia claro, seguidos de Mário, que foi atrás deles até à entrada de casa, como costumava. Ao chegarem à porta, Leblanc deixou passar a filha adiante, parou antes de transpor o limiar da porta e depois voltou atrás e pôs-se a olhar fixamente para Mário.
     No outro dia, Mário esperou por eles, mas debalde. Os dois assíduos frequentadores do Luxemburgo não apareceram.
     Ao escurecer, Mário dirigiu-se para a rua do Oeste, e como nas janelas do terceiro andar visse luz, pôs-se a passear na rua até que a luz se apagou.
     No dia seguinte, nem vivalma no Luxemburgo. Mário esperou todo o dia, e como não visse quem ele esperava, foi fazer a sua ronda noturna debaixo das, janelas da casa da rua do Oeste, que durou até às dez horas. O seu jantar constava do que o acaso lhe deparava. A febre sustenta o enfermo, o amor o namorado.
     Desta maneira se passaram oito dias. No Luxemburgo nunca mais tornaram a aparecer nem Leblanc nem sua filha. Mário fazia tristes conjecturas, porém, receoso, não se atrevia a espionar de dia a modesta casa dos dois entes a que andava ligado o seu destino. Contentava-se em ir de noite contemplar o avermelhado clarão que se coava pelas vidraças, a espaços entenebrecido pelo perpassar de umas sombras, que lhe faziam pulsar o coração aligeirado nos estros da comoção.
     Ao oitavo dia, quando chegou debaixo das janelas, não viu luz. 

— Ora esta! Ainda não acenderam o candeeiro, não obstante ser já noite fechada! Terão eles saído?

     Dito isto, esperou até às dez horas, até à meia-noite, até à uma hora. Ao ver, porém, que em todo este tempo nem nas janelas do terceiro andar apareceu luz, nem para aquela casa entrava vivalma, saiu dali com o coração atribulado.
     No dia seguinte pois o mancebo vivia só das esperanças do outro dia, desde que para ele, permitam-nos a expressão, já não havia hojes no dia seguinte, não encontrando ninguém no Luxemburgo, como já esperava, dirigiu-se para a casa da rua do Oeste. Nem sinal de luz nas janelas; estavam corridas as persianas do terceiro andar e tudo completamente às escuras. Mário bateu à porta, entrou e disse para o porteiro: 

— O inquilino do terceiro andar está em casa? 
— Mudou-se — respondeu o porteiro.

     Mário cambaleou, mas perguntou ainda com voz sumida: 

— Há quanto tempo? 
— Ontem. 
— E onde mora agora, faz favor de me dizer? 
— Isso não sei. 
— Então ele não disse onde era a sua nova morada? 
— Não, senhor.

     E, como o porteiro o reconhecesse, exclamou: 

— Ah, é o senhor! O senhor decididamente é espião, não tem que ver!

continua na página 539...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Sexto - IX — Eclipsa
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira 

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