sábado, 31 de outubro de 2026

Odisseia: Parte II (Canto IX.d - Os Cíconos, os Lotófagos e o Ciclope)

Odisseia


Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes


Parte III
O Relatos de Odisseu 
Canto IX

Os Cíconos, os Lotófagos e o Ciclope 

    “Este canto contém o início do grande Relato: como zarpou Odisseu de Ítaca primeiro chegando à terra dos Cíconos, e pilharam a cidade, junto ao mar, chamada Ismaro. Passaram então por Maleia, extremidade da Lacônia, onde um forte vento levou-os para além de um grande pélago e chegam à terra dos Lotófagos. Depois chegam ao Ciclope. A grande parte da tropa permanece junto à Ilha... mas o Ciclope que foi cego, Polifemo, come seis dos doze que o acompanharam.” (Scolie H Q ... E P)

continuando...

“Isso lhe disse; enraivado ficou mais ainda o Ciclope. 
O cimo pega de grande montanha e, arrancando-o atirou-o 
do nosso lado, o qual veio cair junto à proa anegrada, 
perto; bem pouco faltou porque a ponta do leme apanhasse. 
Diante do baque da pedra o mar todo agitado empolou-se 
e, refluente de cima, levaram as ondas a nave 
da parte funda outra vez, obrigando-a a chegar para a praia. 
Mas eu, tomando nas mãos uma vara bastante comprida, 
longe da praia a impeli, tendo aos sócios dado ordens, depressa, 
por uns sinais com a cabeça, que todos com força remassem,

para fugir do perigo; inclinados aos remos se afincam. 
Quando percurso dobrado já havíamos feito nas ondas, 
volto outra vez a falar ao Ciclope; ao redor os meus sócios 
com termos brandos procuram por toda maneira impedir-me: 
   “‘Louco! por que provocar um selvagem feroz tal como esse, 
que há pouco ao mar um penhasco atirou, e o navio, de novo, 
nos arrastou para a praia, onde a Morte encontrar presumimos? 
Se nos ouvisse falar, por acaso, ou tua voz percebesse, 
no mesmo instante atirara-nos áspera rocha, e esmagara 
nossas cabeças e as vigas da nau; tão possante é o seu tiro.’¹

“Isso disseram, sem que convencessem meu peito magnânimo. 
Por tal motivo, com termos mordazes lhe disse de novo: 
   “‘Ouve, Ciclope! Se um dia, qualquer dos mortais inquirir-te 
sobre a razão vergonhosa de estares com o olho vazado, 
dize ter sido o potente Odisseu, eversor de cidades, 
que de Laertes é filho e que em Ítaca tem a morada.’ 
   “Isso lhe disse; e gemendo me torna ele, então, em resposta: 
   “‘Ai, em verdade atingiu-me veraz predição, muito antiga! 
Antigamente aqui havia adivinho muito bom e grande, 
Télemo, de Êurimo filho, excelente em fazer vaticínios,

que entre os Ciclopes chegou à velhice prevendo o futuro. 
Ele, de fato, predisse que havia de dar-se tudo isto: 
que pelas mãos de Odisseu eu seria privado da vista. 
Mas sempre fui de pensar que indivíduo de bela estatura 
fora o que viesse aqui ter, revestido de força gigante; 
e eis que da vista me priva um sujeito pequeno e sem força, 
um coisa-alguma, depois de me haver pelo vinho domado. 
Vem até aqui, Odisseu, porque dons hospitais te ofereça 
e ao deus Posido suplique que faça alcançares a pátria. 
ou dele filho, que muito se orgulha de pai me ter sido.

Ele, somente, me pode curar, se o quiser, nenhum outro, 
tanto entre os homens mortais, como até entre os deuses beatos.’ 
   “Isso falou; em resposta lhe disse as seguintes palavras: 
‘Fosse a mim dada a certeza de o alento e a existência tirar-te, 
e de mandar-te, também, para o de Hades escuro palácio, 
como não pode curar-te Posido, que a terra sacode!’
   “A essas palavras o monstro a Posido a implorar se pôs logo, 
para o alto céu tacho nado de estrelas as mãos levantando: 
   “‘Ouve-me, ó deus de cabelos escuros, que a terra sacode, 
se sou teu filho, em verdade, e te orgulhas de pai me ter sido,

dá que não possa voltar Odisseu, eversor de cidades, 
que de Laertes é filho e que em Ítaca tem a morada. 
Mas, se é do Fado que deva rever os amigos, e a casa 
bem-construída voltar, assim como ao torrão de nascença, 
que, miserável, o faça e mui tarde, perdidos os sócios, 
em um navio estrangeiro, e aflições vá encontrar no palácio.’ 
   “Dessa maneira implorou. Atendeu-o o de escuros cabelos. 
Pega o Ciclope, depois, doutra pedra bem mais volumosa 
e, tendo-a feito girar, atirou-a com ímpeto grande, 
que para trás foi cair do navio de proa anegrada,

perto, bem pouco faltou porque a ponta do leme colhesse. 
Diante do baque da pedra o mar todo agitado empolou-se; 
a onda o navio empurrou, obrigando-o a chegar para a praia.
   “Quando àquela ilha chegamos em que se encontravam reunidas 
as demais naves de boas cobertas, os sócios achamos 
todos sentados, chorando, sem tréguas, o nosso retorno.
Logo que aí fomos ter, arrastamos a nau para o seco, 
onde saltamos, depois, para a praia do mar sonorosa. 
O do Ciclope rebanho, tirado do bojo da nave, f
oi dividido, porque nenhum homem sem lote ficasse.

Mas, na partilha das reses, os sócios de grevas bem-feitas 
deram-me a mais o carneiro, que logo imolei junto à praia 
a Zeus, o filho de Crono, que em todos os deuses domina, 
tendo-lhe as coxas queimado. Mas Zeus recusou o sacrifício: 
antes pensou de que modo pudesse destruir os navios 
todos, de boas cobertas, e os meus companheiros diletos. 
   “Dessa maneira, portanto, até o Sol no ocidente deitar-se, 
nós estivemos sentados, comendo e bebendo à vontade. 
Logo que o Sol se acolheu e o crepúsculo à terra deitou-se, 
fomo-nos todos deitar pela praia onde as ondas se quebram.

Logo que a Aurora, de dedos de rosa, surgiu matutina, 
os companheiros tratei de exortar, instruções transmitindo 
para embarcarem, também, e as amarras de trás desprenderem. 
Sobem, por isso, os demais para bordo, e nos bancos se sentam, 
todos em ordem, batendo com os remos nas ondas grisalhas. 
O coração apertado, vogamos dali para diante, 
ledos por termos da Morte escapado, com perda dos sócios.²
continua página 807...
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Prelúdio
Parte I
Parte II
Parte III
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Homero é considerado o maior poeta da Grécia Antiga. Estima-se que tenha vivido entre os séculos IX e VIII a.C. Sua obra foi composta e transmitida oralmente, e, devido à falta de evidências, alguns estudiosos chegam até a duvidar de sua existência.
Atribui-se a Homero, tradicionalmente, a autoria das obras Ilíada e Odisseia, dois clássicos que reconstituem a civilização grega com incrível riqueza de detalhes.
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[1] 
Este trecho é extremamente importante porque mostra o momento em que a maior virtude de Odisseu começa a se transformar em seu maior defeito. Até aqui, tudo havia dado certo: ele embriagara Polifemo; cegara o Ciclope; escondera-se sob os carneiros; conseguira salvar os sobreviventes; alcançara o navio. A vitória estava completa. Mas, quando já se encontra longe da costa, Odisseu não resiste à tentação de provocar o inimigo. Ele grita para Polifemo e o repreende publicamente por sua impiedade. O discurso contém uma ideia central da moral grega: quem viola as leis da hospitalidade acaba sofrendo a punição de Zeus. O problema é que os companheiros percebem imediatamente o perigo: "Louco! por que provocar um selvagem feroz tal como esse...?" Eles compreendem algo que Odisseu, naquele instante, esquece: sobreviver é mais importante que ostentar a vitória. A reação de Polifemo confirma seus temores. Mesmo cego, o Ciclope arranca o topo de uma montanha e o lança contra a embarcação. A pedra quase destrói o navio. O mar revolto empurra os gregos de volta para a costa, mostrando que o perigo está longe de terminar.
     * O tema do orgulho (hybris) - Na tradição grega, esse comportamento aproxima-se da hybris, a arrogância ou excesso de confiança que leva alguém a ultrapassar os limites da prudência. Odisseu venceu graças à inteligência, mas agora quer o reconhecimento de sua vitória. Ele deseja que Polifemo saiba que foi derrotado e que o castigo foi merecido. Essa necessidade de afirmar sua glória heroica contrasta com a atitude prática e cautelosa que havia garantido seu sucesso.
     * Um contraste com Aquiles - A Ilíada exalta heróis cuja grande qualidade é a coragem guerreira, como Aquiles. Já a Odisseia valoriza a sobrevivência, a prudência e a inteligência. Neste ponto do poema, Odisseu comporta-se mais como um herói da Ilíada do que da Odisseia: busca a honra pública e o triunfo verbal, quando a situação exigia silêncio e afastamento.
     * Preparação para a tragédia seguinte - A advertência dos companheiros é profética. Eles não temem apenas outra pedra. Temem que Odisseu continue provocando o Ciclope. E é exatamente isso que acontece nos versos seguintes: não satisfeito com a primeira provocação, Odisseu revelará seu verdadeiro nome e sua origem. Esse ato permitirá que Polifemo peça vingança ao pai, Poseidon, desencadeando boa parte dos sofrimentos que ocuparão o restante da Odisseia. Em outras palavras, a fuga da caverna foi o triunfo da inteligência; a provocação ao Ciclope é o início do preço que Odisseu pagará por seu orgulho.

[2] Este trecho encerra o episódio de Polifemo e marca uma transição importante na Odisseia: a vitória sobre o Ciclope já foi conquistada, mas suas consequências começam a aparecer. 
     * A vingança de Polifemo - Mesmo cego, Polifemo continua sendo uma força terrível. Depois da revelação da identidade de Odisseu (que ocorre nos versos imediatamente anteriores), ele lança uma pedra ainda maior contra a embarcação: "Pega o Ciclope, depois, doutra pedra bem mais volumosa..." A cena reforça a potência quase sobre-humana do gigante. Embora derrotado, ele ainda consegue quase destruir o navio dos gregos.
     * O sacrifício recusado por Zeus - Um dos aspectos mais significativos deste trecho é o momento em que Odisseu oferece um carneiro em sacrifício: "Mas Zeus recusou o sacrifício..." Isso é extraordinariamente importante. Na religião grega, o sacrifício servia para estabelecer uma relação favorável com os deuses. Quando Zeus rejeita a oferenda, Homero está anunciando ao leitor que dificuldades ainda maiores aguardam os viajantes. O poema explica o motivo: "antes pensou de que modo pudesse destruir os navios todos, de boas cobertas, e os meus companheiros diletos." Aqui surge um tema central da obra: embora Odisseu tenha escapado de Polifemo, seu destino continua marcado pelo sofrimento.
     * A ambiguidade da vitória - Os sobreviventes comemoram porque escaparam da morte, mas a alegria é incompleta. Homero termina o canto com um contraste poderoso: felicidade por terem sobrevivido; tristeza pelos companheiros devorados pelo Ciclope. O próprio Odisseu resume esse sentimento: "ledos por termos da Morte escapado, com perda dos sócios." Essa mistura de triunfo e perda é característica da épica homérica. Não existem vitórias perfeitas.
     * Um prenúncio do restante da viagem - Sob o ponto de vista narrativo, este trecho funciona como um aviso. O leitor poderia imaginar que, após derrotar Polifemo, o retorno a Ítaca será mais fácil. Homero faz exatamente o contrário: Zeus rejeita o sacrifício; os deuses não estão plenamente favoráveis; os companheiros ainda correm perigo; viagem está longe de terminar. A partir daqui, a Odisseia se torna não apenas uma história de aventuras, mas também uma reflexão sobre os limites da inteligência humana diante da vontade divina e do destino.
     Em resumo, o episódio de Polifemo termina com uma lição dupla: a astúcia de Odisseu salva seus homens da força bruta do Ciclope, mas seu orgulho e a hostilidade dos deuses já anunciam os sofrimentos que dominarão o restante de sua longa jornada de volta a Ítaca.



Odisseia, de Homero - Canto 9 - Os Cíconos, os Lotófagos e o Ciclope


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