Fiódor Dostoiévski
Tradução portuguesa por José Geraldo Vieira
Quarta Parte
7.
continuando...
O príncipe parou para tomar fôlego pois
argumentara com incrível precipitação. Estava pálido e sem ar. O velho
dignitário, depois que todos se entreolharam, deu um largo sorriso. O Príncipe
N... tirou os óculos, pondo-se sem eles a observar Míchkin por algum tempo. Por
sua vez o poeta alemão, saindo do seu canto, se aproximou da mesa, um sorriso
hostil nos lábios, com ar de querer prolongar assunto tão inédito. Nisto, com
afetação de quem se sente desconsiderado diante de tamanha desenvoltura, Iván
Petróvitch disse vagarosamente:
- Mas como o senhor está exagerando! Existem representantes dessa igreja
que não somente são virtuosos como até mesmo merecedores de todo o nosso
respeito!
- Não estou falando contra os representantes individuais da igreja. Estou falando
da essência do catolicismo romano. Estou falando de Roma. Como haveria uma
igreja toda de desaparecer? Nunca disse isso!
- Estou de acordo. Trata-se de fato
bem conhecido. De assunto, com efeito, aqui, inadequado e inconveniente, agora.
De mais A mais, é uma questão puramente teológica...
- Oh! Não, não! Não é uma questão apenas teológica, posso afiançar-lhe.
Interessa-nos muito mais intimamente do que o que o senhor julga. O erro está
justamente em não sabermos ver que não se trata de uma questão teológica,
exclusivamente! Foi precisamente como desespero, como oposição ao
catolicismo que o ateísmo nasceu, com uma função ética para substituir a força
moral perdida da religião. Para extinguir a sede espiritual da humanidade
abrasada e então salvá-la a seu modo, não através de Cristo, mas pela violência.
Ora, também isso não passa de tentativa de liberdade por intermédio da
violência! Também isto outra coisa não é senão a união feita com a espada e o
sangue. “Não ouseis ter crença em Deus! De que adianta ter propriedades e
individualidade! Fratermité ou la mort! Dois milhões de cabeças!” Pelas suas
obras os convenceremos, já foi dito. E não acredite o senhor que tudo isso não
tenha um alvo, que tudo isso não constitua um perigo. Oh! É preciso resistirmos,
imediatamente, já! Aquele Cristo que conservamos intato, o nosso Cristo, e que
eles não conheceram nunca, deve brilhar diante de todos e vencer o Ocidente!
Não deixemos que as forças dos jesuítas nos escravizem! Levemos a nossa
civilização russa até eles, enfrentemo-los, e não consintamos que seja dito diante
de nós, como ainda agora foi, que a sua pregação é mais sagaz e mais
proficiente.
- Mas me permita um instante.., um instante! - retrucou Iván Petróvitch, cujo
espanto crescia à medida que olhava para o príncipe positivamente com receio.
Todas essas suas ideias são muito valiosas e demonstram patriotismo, mas tudo
isso está exagerado ao extremo e... com efeito, seria melhor desistirmos de...
- Exagerado em quê? Eu não disse tudo, absolutamente; não disse tudo pois me
faltam os termos mediante os quais possa...
- Per-mi-ta-me...
Sentando-se de chofre na cadeira, o príncipe parou de falar, encarando
com olhar fixo e fervente Iván Petróvitch.
- A minha impressão é que o amigo se
deixou afetar pelo que aconteceu ao seu benfeitor – observou indulgentemente o
velho dignitário em tom calmo e inalterável. - Esse seu temperamento ardoroso
deve provir da sua solidão. Se vivesse mais entre as pessoas, e visse um pouco
mais o mundo, espero que chegaria a ser um notável moço. Se não tivesse
crescido assim tão irritável, veria como tudo isso é muito mais simples. E
acabaria reconhecendo, ainda por cima, como eu reconheci, que esses casos
excepcionais são devidos, por uma parte, por estarmos blasés, por outra parte por
estarmos aflitos...
- Justamente, justamente! - aplaudiu Míchkin. - Esplêndida
ideia! Tudo isso advém da nossa estupidez, de uma grande estupidez nossa. Não
por sermos blasés. Muito ao contrário. Pela nossa insatisfeita sofreguidão, e não
por sermos blasés. Nisso o senhor está errado. Não só, simplesmente, pela nossa
sofreguidão insatisfeita, mas por esta abrasadora, sufocante sede. E não se diga
que a diferença é assim tão diminuta que dela nos possamos rir. Desculpe-me,
mas essas coisas devem ser olhadas de frente. Logo que os russos sentem o chão
sob os pés e se convencem que é chão, ficam tão contentes de o terem atingido
que não param mais, vão aos limites mais avançados. Por que será? O senhor se
surpreendeu com Pavlíchtchev e deu como causa, da parte dele, loucura ou
simplicidade. Mas não foi uma coisa nem outra. A intensidade russa é uma
surpresa não só para nós, como para a Europa inteira. Se um de nós se torna
católico, automaticamente vira jesuíta e dos mais inabaláveis. Se se torna ateu,
não cessará nunca de clamar pela extirpação da crença em Deus, através da
força, isto é, pela - espada. Por que é isto? Por que este frenesi? Precisamos
descobrir: o motivo. Seria porque encontrou a pátria que tinha perdido aqui?: Ele
atingiu o litoral, descobriu a terra e investe para beijá-la. Os. ateus russos, da
mesma maneira que os jesuítas russos, são os exilados não só da vaidade, não só
de um mau e vão sentimento, mas também de uma agonia espiritual, de uma
sede interior, a fome por uma coisa mais alta, a rota firme rumo a uma outra
pátria já que deixaram de crer nesta porque nunca chegaram a conhecê-la. É
mais fácil um russo se tornar ateu, do que qualquer outra pessoa no mundo. E os
russos não só se tornam ateus, como acreditam invariavelmente no ateísmo,
como em uma nova religião, sem reparar que estão pondo a sua fé a serviço de
uma negação. Tão grande é a nossa fome! “Quem não tem raízes debaixo de si,
não tem Deus!” Não sou eu que o estou dizendo! Foi dito por um mercador e
Velho Crente que encontrei certa vez em viagem. Na verdade, as
suas palavras não foram estas. O que ele disse, foi: “O homem que renunciou à
sua pátria, renunciou ao seu Deus!”
Corre entre nós que muita gente altamente educada se filia à seita dos
Flageladores. Ora, pergunto, será isso pior do que o ateísmo, o jesuitismo ou
niilismo? Não será, antes, um pouco mais profundo? Pois foi ao que os levou a
sua agonia. Revelado aos sôfregos e febris companheiros de Colombo o “Novo
Mundo”, revelemos ao russo o “mundo” da Rússia, deixemo-lo descobrir o ouro,
o tesouro. escondido dentro da terra! Mostremo-lhe a humanidade inteira
levantando-se outra vez renovada pelo pensamento russo tão somente, talvez pelo
Deus e pelo Cristo russo, e veremos em que poderoso e verdadeiro gigante, belo
e sábio, ele se desenvolvera diante dos olhos do mundo atônito! Atônito e
pasmado, porque não esperava de nós senão a espada! Senão a espada e a
violência, porque, julgando-nos por eles próprios, não nos podiam conceber livres
da barbárie. Sempre foi assim até aqui e continuará sendo, cada vez mais! E...
Mas, a esta altura, aconteceu um incidente que cortou de pronto a eloquência do
locutor, da maneira mais inesperada. Este período desordenado, este rasgo de
estranhas e agitadas palavras e de entusiásticas ideias confusas que pareciam
tropeçar umas nas outras, pareciam indicar, todas elas, algo da ominosa condição
mental desse jovem que, a propósito de uma nonada, se pusera nesse estado
assim tão inesperadamente.
Dentre os presentes, aqueles que conheciam o
príncipe, se encheram de apreensões (e alguns até ficaram contrafeitos) ante
essa explosão que não era de esperar, dada a sua habitual timidez e notório
acanhamento, ou melhor, dado o seu raro e especial tato diante de certos casos,
pois tinha um sentimento instintivo das conveniências reais. Não puderam
entender o motivo a que era devido isso. O que lhe tinham contado a respeito de
Pavlíchtchev não podia ter sido a causa.
Lá dos seus lugares as damas o
contemplavam crentes de que estava fora do seu juízo. E a Princesa
Bielokónskaia confessou depois que estivera até para se retirar. Os senhores de
idade ficaram desconcertados, em seu primeiro espanto. O diretor de seção
olhou-o, lá do seu canto, de um modo carrancudo e antipático. O coronel de
engenharia permaneceu em absoluta imobilidade. O alemão empalideceu, mas,
sorrindo um sorriso artificial, observou toda aquela gente a ver que efeito estava
sentindo.
Mas tudo isso, se escândalo houve, em outra circunstância teria
terminado de maneira comum. O General Epantchín, que estava extremamente
estupefato, compreendera a situação muito antes dos demais e fizera diversas
tentativas para que o príncipe
parasse. Os seus esforços tendo falhado, dirigiu-se em pessoa, para o príncipe,
com firme e resoluto desígnio e, se houvesse tido tempo, um minuto só que fosse,
teria tomado a extrema solução de levar Míchkin para fora do salão, de maneira
amistosa, pretextando achar-se ele doente, o que bem poderia talvez ser
verdadeiro, estando o general, no íntimo, convencido disso...
Mas a cena acabou
de um modo muito outro.
continua página 490...
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O Idiota: Quarta Parte (7b) - O príncipe parou
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