Émile Zola
Tradução de Francisco Bittencourt
Tradução de Francisco Bittencourt
Segunda Parte
II
.continuando...
Tomou à esquerda o caminho de Joiselle. A sede da administração era ali, numa volta da estrada, um verdadeiro palácio de tijolos, onde os ricaços de Paris, príncipes, generais e gente do governo vinham todos os outonos participar de grandes jantares. Enquanto caminhava, ia pensando onde gastaria os cem soldos: primeiro pão, depois café, em seguida um quarto de manteiga e um alqueire {3} de batatas para a sopa da manhã e para o guisado da noite; finalmente, talvez um pouco de torresmos, porque o pai precisava de carne.
O pároco de Montsou, Padre Joire, passou levantando a batina, com
delicadezas de velho gato bem alimentado que tem medo de molhar o pelo.
Era um bom sujeito, só que fingia não se interessar por nada, para não ter
problemas nem com operários, nem com patrões.
— Bom dia, senhor pároco.
Ele não parou, apenas sorriu para as crianças e deixou-a parada no
meio da estrada. Apesar de não ter religião, ela imaginou de repente que
esse padre ia dar-lhe alguma coisa.
E a caminhada recomeçou na lama negra e pegajosa. Ainda tinha
dois quilômetros pela frente e as crianças deixavam-se arrastar, cansadas,
não se divertindo mais. À direita e à esquerda da estrada desenrolavam-se
os mesmos terrenos baldios, fechados por tapumes cobertos de hera, os
mesmos edifícios de fábricas, sujos de fumaça, coroados de altas chaminés.
Depois, em pleno campo, as terras planas se estendiam, imensas, iguais a
um oceano de moitas escuras, sem o mastro de uma árvore até a linha
violácea da floresta de Vandame.
— Mamãe, me leva no colo!
Levou-os, ora um, ora outro. Charcos acidentavam o calçamento,
arregaçou a saia para não chegar muito suja. Três vezes quase caiu, tão
escorregadias estavam aquelas malditas pedras. Ao chegarem, finalmente, à
escadaria da mansão, dois cães enormes correram para eles ladrando tão
forte que as crianças começaram a chorar de medo. Foi preciso que o
cocheiro apanhasse um chicote.
— Tirem os tamancos e entrem — disse Honorine.
Na sala de jantar mãe e filhos ficaram imobilizados, atordoados
pelo calor, sem jeito diante dos olhares daquele casal de velhos estendidos
em suas poltronas.
— Minha filha — disse a dona da casa —, faze a tua caridade.
Os Grégoire encarregavam Cécile da distribuição de suas esmolas.
Com isso pensavam estar inculcando na filha uma bela educação. Era
preciso ser caridoso; diziam mesmo que sua casa era a casa de Nosso
Senhor. Deleitavam-se em dizer que praticavam a caridade com
inteligência; na verdade, viviam possuídos do pavor de serem enganados e
de encorajarem os vícios. Por isso nunca davam dinheiro, nunca! nem dez
soldos, nem mesmo dois; então não era sabido que assim que um pobre se
via com dois soldos ia logo bebê-los? Suas esmolas, portanto, eram sempre
em gêneros, principalmente em roupas quentes, distribuídas no inverno às
crianças indigentes.
— Ah, pobrezinhos! — exclamou Cécile. — Estão roxos de frio...
Honorine, vai buscar o pacote no armário.
As criadas também olhavam aqueles miseráveis com a piedade e a
ponta de inquietação daqueles que não precisam preocupar-se com o que
vão jantar. Enquanto a camareira subiu, a cozinheira permaneceu ali, voltou
a colocar o que sobrara do bolo na mesa e ficou de braços cruzados.
— Felizmente — continuou Cécile — ainda tenho dois vestidos de
lã e uns lenços de pescoço. Vocês vão ver como os pobrezinhos vão ficar
aquecidos!
Só então a mulher de Maheu pôde soltar a língua; disse gaguejando:
— Muito obrigada, senhorita... Os senhores todos são muito bons.
Os olhos encheram-se de lágrimas, estava certa de que lhe dariam
os cem soldos, só não sabia como pedi-los se não oferecessem. A camareira
estava custando a voltar, houve um silêncio embaraçoso. Agarradas à saia
da mãe, as crianças arregalavam os olhos na contemplação do bolo.
— Você só tem esses dois? — perguntou a Sra. Grégoire para
romper o silêncio.
— Não, senhora. Tenho sete.
O Sr. Grégoire, que voltara ao seu jornal, teve um sobressalto de
indignação.
— Sete filhos! Por que, Santo Deus?
— Que imprudência! — murmurou a senhora.
A mulher de Maheu esboçou um gesto vago de desculpa. Que havia
de fazer? Não eram planejados, vinham naturalmente. Depois, quando
cresciam, sempre produziam, ajudavam na manutenção da casa. Na família
dela, por exemplo, todos poderiam viver muito bem se não fosse o avô que
começava a ficar velho; dos filhos, apenas dois dos rapazes e a moça mais
velha é que estavam em idade de trabalhar na mina. O problema era
alimentar os menores, que não faziam nada...
— Então — continuou a Sra. Grégoire —, há muito tempo que
trabalham nas minas?
Um sorriso mudo passou pelo rosto lívido da mulher.
— Sim, sim, há muito tempo. Eu trabalhei até os vinte anos.
Quando dei à luz pela segunda vez, o médico disse que eu morreria se
continuasse na mina; parece que o trabalho estava atacando-me os ossos.
Aliás, foi nessa ocasião que me casei, e tinha muito que fazer em casa. Mas,
do lado do meu marido, eles trabalham nisso há séculos, desde o tetravô,
que sei eu! Seja como for, a família sempre trabalhou na mina, a partir das
primeiras escavações em Réquillart.
Com um olhar sonhador, o Sr. Grégoire examinou aquela mulher e
aquelas crianças esquálidas, suas carnações linfáticas, seus cabelos
descoloridos, a degenerescência que até as fazia mirrar, roídas pela anemia,
de uma fealdade triste de esfomeados.
Fez-se novo silêncio; apenas a hulha ardia, lançando um jato de gás.
Na sala ligeiramente úmida respirava-se esse ar pesado de bem-estar no
qual medra, sonolenta, a felicidade burguesa.
— Mas o que é que ela está fazendo? — exclamou Cécile
impaciente. — Mélanie, vá dizer-lhe que o pacote está no fundo do armário,
à esquerda.
Nesse entretempo, o Sr. Grégoire concluiu em voz alta as reflexões
que lhe inspirava a visão desses famintos.
— Há muita desgraça neste mundo, isso é verdade; mas, minha boa
mulher, é preciso que se diga que os operários nem sempre têm juízo... Em
lugar de porem um dinheirinho de lado, como fazem os nossos camponeses,
os mineiros bebem, contraem dívidas, terminam não tendo com que
alimentar a família.
— O senhor tem razão — respondeu gravemente a mulher do
mineiro. — Nem sempre trilhamos a estrada certa. É isso que sempre digo a
esses malandros, quando se queixam... Eu tive sorte, meu marido não bebe,
a não ser nos domingos de festa, quando às vezes toma uns tragos, mas só
então. E o que é formidável, no caso dele, é que antes do nosso casamento
tomava cada bebedeira de ver tudo de pernas para o ar, com perdão dos
senhores... Mas o comportamento atual do meu marido não nos tem servido
de grande coisa. Há dias, como hoje, que nem revirando todas as gavetas da
casa se encontraria um tostão.
Com isso queria insinuar-lhes a ideia da moeda de cem soldos; e,
continuando com sua voz arrastada, explicou o caso da dívida fatal, no
começo pequena, depois grande e devoradora. Pagaram regularmente
durante algumas semanas; um dia atrasaram e depois disso nunca mais
conseguiram pôr-se em dia. O buraco era cada vez maior, os homens
desgostavam-se do trabalho, que nem lhes permitia pagar as dívidas.
Inferno de vida! Desse atoleiro não sairiam mais... Mas, que diabo, também
era preciso saber compreender: um mineiro precisava de um gole de cerveja
para limpar a garganta. Infelizmente tudo começa por aí, e, quando as
dificuldades chegam, ele não sai mais da taberna. Vendo bem, e sem querer
queixar-se de ninguém, talvez os operários não estivessem ganhando o
suficiente para viver.
— Pensava — disse a Sra. Grégoire — que a companhia lhes
fornecesse casa e carvão.
A mulher de Maheu lançou um olhar oblíquo para a hulha que ardia
na chaminé.
— Sim, é verdade, fornecem-nos carvão, não é grande coisa, mas
sempre acende... Quanto à casa, o aluguel é de seis francos por mês, parece
que não é grande coisa, mas muitas vezes como é duro pagar... De forma
que hoje, nem que me cortassem em pedaços, não encontrariam dois soldos.
Onde não há nada, não há nada.
O casal resolveu ficar em silêncio, confortavelmente refestelados,
pouco a pouco enojados e inquietos com todo aquele alarde de miséria. A
outra, receando tê-los ofendido, acrescentou, com seu ar justo e calmo de
mulher prática:
— Não me estou queixando. As coisas são assim, temos que aceitar,
de nada adiantaria lutar, não mudaríamos nada, claro... O melhor mesmo é
continuar trabalhando honestamente, como Deus quer, não é verdade, meus
senhores?
O dono da casa aprovou-a com entusiasmo.
— Com tais sentimentos, minha boa mulher, é que se vencem os
infortúnios.
Honorine e Mélanie trouxeram finalmente o pacote; Cécile desatou
o e retirou os dois vestidos, alguns lenços de pescoço e até meias e luvas.
Tudo ia ficar às mil maravilhas; apressou-se, fez as criadas embrulharem as
roupas escolhidas, e, como sua professora de piano acabava de chegar, foi
empurrando a mãe e os filhos para a porta.
— Estamos tão apertados — gaguejou a mulher —; se ao menos
tivéssemos uma moeda de cem soldos...
A frase engasgou-a: os Maheu eram orgulhosos, não mendigavam.
Cécile, inquieta, olhou para o pai, que recusou terminantemente,
com ares de estar cumprindo um dever.
— Não, isso não está nos nossos costumes. Não podemos.
A moça, então, comovida com o semblante transtornado da mãe,
quis agradar aos filhos, que não tiravam os olhos do bolo; cortou duas fatias
e deu-as às crianças.
— Pronto! É para vocês.
Mas em seguida apanhou novamente os pedaços de bolo e pediu um
jornal velho.
— Esperem, repartam com seus irmãos.
E, sob os olhares enternecidos dos pais, pô-los finalmente para fora
da sala. As pobres crianças, que não tinham pão, lá se foram carregando
respeitosamente as fatias de bolo nas mãozinhas entorpecidas pelo frio.
A mulher de Maheu saiu arrastando os filhos pela estrada, não
enxergando mais os campos desertos, a lama negra, o vasto céu lívido que
girava. Ao passar novamente por Montsou, entrou resolutamente na loja de
Maigrat e suplicou com tal veemência que conseguiu arrancar dois pães,
café, manteiga e até sua moeda de cem soldos; o homem emprestava a juro,
em curto prazo. Não era ela que ele queria, era Catherine; compreendeu
muito bem quando ele lhe recomendou que mandasse a filha para fazer as
compras. Ah, gostaria de ver! Que ele se aproximasse muito e Catherine lhe
deixaria a cara marcada..
continua na página 78...
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Segunda Parte - (II.b) Tomou à esquerda o caminho
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando — se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu.
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura.
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.
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