Émile Zola
Tradução de Francisco Bittencourt
Tradução de Francisco Bittencourt
Segunda Parte
I
.continuando...
De resto, as venturas choviam sobre aquela casa. O Sr. Grégoire, muito jovem, desposara a filha de um farmacêutico de Marchiennes, moça feia, sem dinheiro, que ele adorava e que lhe retribuía em dobro a felicidade. Ela se fechara em casa, extasiada diante do marido, não tendo outra vontade senão a dele; nenhum gosto diferente os separava, um mesmo ideal de bem-estar confundia seus desejos. E assim viviam havia quarenta anos, de ternuras e pequenos cuidados recíprocos. Era uma existência pautada, os quarenta mil francos comidos sem ruído, as economias gastas com Cécile, cujo nascimento tardio chegou a transtornar por um instante o orçamento. Ainda hoje satisfaziam todos os caprichos da filha: um segundo cavalo, mais duas outras carruagens, roupas de Paris. Mas saboreavam naquilo uma alegria a mais; nada era bonito em demasia para a sua filha, apesar do horror pessoal que tinham da exibição, que, aliás, levou-os a conservar os modos de sua juventude. Toda despesa sem proveito lhes parecia estúpida.
Repentinamente a porta abriu-se e uma voz alta soou:
— Muito bem! Com que então fazem o desjejum sem mim!
Era Cécile, recém-saída da cama, os olhos intumescidos de sono;
levantara simplesmente os cabelos e enfiara um roupão de lã branca.
— Claro que não — respondeu a mãe. — Como vês, esperávamos
te. O vento não te deixou dormir, não foi? Coitadinha!
A moça olhou-a, muito admirada.
— Vento? Não senti nada, dormi toda a noite.
A história lhes pareceu engraçada e os três se puseram a rir; as
criadas, que traziam o desjejum, também começaram a rir, a tal ponto a
ideia de que a moça da casa dormira doze horas consecutivas alegrava a
todos. À vista do bolo, o regozijo foi ainda mais acentuado.
— Como! Já está pronto? — repetia Cécile. — Por esta não
esperava... Como vai ser bom quentinho, com chocolate!
Finalmente puseram-se à mesa; o chocolate fumegava nas taças, o
bolo foi motivo para longa conversação. Melanie e Honorine permaneceram
na sala dando detalhes sobre o modo de assar observando-os
empanturrarem-se, os lábios gordurosos, repetindo que era um prazer
preparar um bolo e ver os patrões comê-lo com tanto gosto.
Nesse momento, os cães ladraram violentamente; pensou-se que era
a professora de piano, que vinha de Marchiennes às segundas e sextas-feiras. Vinha também um professor de literatura. Toda a instrução da moça
estava sendo feita assim, na Piolaine, numa feliz ignorância, entre caprichos
infantis que a levavam a jogar o livro pela janela no momento em que um
problema a aborrecia.
— E o Sr. Deneulin — disse Honorine voltando.
Atrás dela, Deneulin, um primo do Sr. Grégoire, entrou sem
cerimônia, falando alto, gesticulando, com maneiras de antigo oficial de
cavalaria. Embora já tivesse ultrapassado os cinquenta, os cabelos cortados
à escovinha e o bigode farto conservavam-se pretos retintos.
— Alô, sou eu, bom dia. Não se incomodem.
Sentou-se entre as exclamações admirativas da família, que não
tardou a voltar ao chocolate.
— Tens alguma coisa a me dizer? — perguntou Grégoire.
— Não, nada — apressou-se a responder Deneulin. — Saí para dar
um passeio a cavalo, para me desenferrujar um pouco, e, como passava pela
porta, entrei para dar um bom-dia.
Cécile quis saber de suas filhas, Jeanne e Lucie. Iam muito bem; a
primeira não largava mais os pincéis, enquanto a outra, a mais velha,
cultivava o canto, ao piano, de manhã à noite. Havia um ligeiro tremor na
sua voz, um mal-estar que dissimulava com explosões de alegria.
O Sr. Grégoire voltou à carga:
— E tudo vai bem na mina?
— Pois sim! Fui arrastado com os outros companheiros para essa
crise dos diabos! Ah! estamos pagando pelos anos de prosperidade...
Construímos fábricas e linhas férreas em demasia, imobilizamos enormes
capitais tendo em vista uma produção formidável e hoje o dinheiro está
imobilizado, não se encontram meios de fazer funcionar tudo isso...
Felizmente não é para desesperar, conseguirei safar-me.
Como seu primo, recebera em herança um dinheiro das minas de
Montsou. Mas, engenheiro empreendedor, açulado pelo desejo de uma
fortuna principesca, apressara-se a vender o dinheiro assim que a sua
cotação atingira um milhão. Há algum tempo que vinha articulando um
plano: sua mulher recebera de um tio a pequena concessão de Vandame,
onde só havia duas galerias abertas, Jean-Bart e Gaston-Marie, num tal
estado de abandono, com material tão deficiente, que a exploração mal
cobria as despesas. Ora, ele sonhava em reparar a Jean-Bart, renovar as
máquinas e alargar o poço para poder botar mais gente a trabalhar, deixando
a Gaston-Marie só para esgoto. Era certo, dizia ele, que ali se encontraria
ouro a dar com o pé. A ideia era correta, só que o milhão já fora gasto e
essa maldita crise industrial explodia no momento em que lucros enormes
iam dar-lhe razão. De resto, mau administrador, de uma bondade rude para
com os seus operários, deixava-se roubar após a morte da mulher, dando
também às filhas rédea solta. A mais velha falava em entrar para o teatro e a
outra já tivera três paisagens recusadas no Salão, mas ambas, risonhas na
derrocada, revelavam-se ótimas donas de casa, diante da miséria próxima.
— Pois é, Léon — continuou ele com a voz hesitante —, fizeste
mal em não vender tua ação quando vendi a minha. Agora terás que correr,
está tudo desmoronando. Se me tivesses confiado teu dinheiro, verias o que
teríamos feito em Vandame, na nossa mina.
O Sr. Grégoire acabava o chocolate, devagar. Respondeu
tranquilamente:
— Isso nunca! Bem sabes que não quero especular. Vivo em paz,
seria estúpido começar agora a quebrar a cabeça com negócios. Quanto a
Montsou, pode continuar a baixar, sempre nos bastará. Não se deve querer
abarcar o mundo com as pernas, que diabo! Escuta o que te digo: serás tu
quem vai roer as unhas um dia, porque Montsou subirá e ainda dará pão aos
filhos dos filhos de Cécile.
Deneulin ouviu-o com um sorriso forçado.
— Então — murmurou ele —, se eu te dissesse que empregasses
cem mil francos no meu negócio, recusavas?
Diante dos olhares inquietos dos Grégoire, ele se arrependeu de ter
ido tão longe, e deixou para mais tarde sua ideia de empréstimo,
reservando-a para um caso desesperado.
— É uma brincadeira, ainda não cheguei a esse ponto. Depois, Deus
meu! talvez tenhas razão: o dinheiro ganho com o suor dos outros é o que
mais engorda.
Mudaram de conversa. Cécile voltou a falar nas primas, cujos
gostos a preocupavam e lhe desagradavam; a Sra. Grégoire prometeu levar
a filha a visitar suas queridas priminhas no primeiro dia de sol. Mas o Sr.
Grégoire, com ar distraído, não entrou na conversa; de repente, acrescentou
em voz alta:
— Eu, se estivesse no teu lugar, não teimaria mais, negociaria com
Montsou. Eles estão prontos a negociar e tu receberias de volta o teu
dinheiro.
Aludia ao velho ódio que existia entre a concessão de Montsou e a
de Vandame. Apesar da pouca importância desta última, sua poderosa
vizinha enfurecia-se de ver, encravada nas suas sessenta e sete comunas,
aquela légua quadrada que não lhe pertencia; e, depois de ter tentado em
vão matá-la, tramava sua compra a baixo preço, quando estivesse
sufocando. A guerra sem quartel continuava, cada exploração fixava suas
galerias a duzentos metros umas das outras, era um duelo de morte, ainda
que os diretores e engenheiros mantivessem entre si relações corteses.
Os olhos de Deneulin chamejaram.
— Nunca! — exclamou ele por sua vez. — Enquanto eu for vivo
Montsou não vai encampar Vandame... Jantei na quinta-feira com
Hennebeau e notei as voltas que dava para chegar ao assunto.
Já no outono passado, quando os cartolas visitaram a empresa,
quiseram adoçar-me o bico. Pois sim! Conheço bem esses marqueses e
duques, esses generais e ministros! Salteadores é o que são! Capazes de
roubar até a camisa da gente numa curva da estrada...
O homem desandou a falar que não acabava mais. A verdade é que
o Sr. Grégoire não defendia a direção da Montsou, os seis diretores
instituídos pelo tratado de 1760, que governavam despoticamente a
companhia e cujos cinco sobreviventes, a cada falecimento, escolhiam o
novo membro entre os acionistas poderosos e ricos. A opinião do
proprietário da Piolaine, de gostos tão comuns, era que esses senhores eram
às vezes desmedidos no seu amor ao dinheiro.
Melanie viera retirar a mesa. Fora, os cães voltaram a ladrar, e
Honorine já se dirigia para a porta quando Cécile, que o calor e a comida
entorpeciam, ergueu-se da mesa.
— Deixa que eu vejo; deve ser a professora.
Deneulin também se levantou. Examinou a moça que saía e
perguntou sorrindo:
— E então, esse casamento com o pequeno Négrel?
— Por enquanto, nada — respondeu a Sra. Grégoire. — Não passa
de um plano, temos que refletir.
— Claro — continuou ele com um sorriso astuto. — Suponho que o
sobrinho e a tia... O que me espanta é que seja a Sra. Hennebeau que se joga
dessa maneira nos braços de Cécile.
O Sr. Grégoire indignou-se; uma senhora tão distinta, e catorze anos
mais velha que o rapaz! Era uma monstruosidade, não gostava que fizessem
brincadeiras com tais assuntos...
Deneulin, rindo sempre, apertou-lhe a mão e saiu.
— Ainda não é a professora — disse Cécile voltando. — É aquela
mulher com dois filhos; sabes quem é, mamãe? A mulher do mineiro que
encontramos. Mando-os entrar aqui?
Hesitaram. Estavam muito sujos? Não, não muito, e deixariam seus
tamancos no patamar. O pai e a mãe já se tinham acomodado no fundo das
grandes poltronas, para a digestão. O temor de uma mudança de ar fê-los
decidir.
— Que entrem, Honorine.
A mulher de Maheu e suas crianças entraram, enregelados,
famintos, perdidos e amedrontados ao verem-se naquela sala tão aquecida e
cheirando a bolo.
continua na página 73...
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Segunda Parte - (I.b) sala tão aquecida e cheirando a bolo
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando — se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu.
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura.
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.
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