quarta-feira, 3 de setembro de 2025

Victor Hugo - Os Miseráveis: Mário, Livro Primeiro - Paris estudado na sua mais tênue parcela / VII - O gaiato podia ocupar um lugar nas classificações da Índia

Victor Hugo - Os Miseráveis

Terceira Parte - Mário

Livro Primeiro — Paris estudado na sua mais tênue parcela

VII - O gaiato podia ocupar um lugar nas classificações da Índia
     
     O ser gaiato em Paris ainda não é para todos, por isso que esta espécie de entes ali quase constituem uma raça.
     A palavra gaiato foi impressa pela primeira vez, passando pela linguagem popular para a linguagem literária, em 1834. A sua aparição teve lugar num opúsculo intitulado Cláudio Gueux e produziu grande escândalo, mas a palavra ficou adoptada.
     São variadíssimos os elementos que constituem a consideração dos gaiatos entre eles. Um conhecemos nós e com ele falámos muitas vezes, que era em extremo respeitado e admirado por ter visto cair um homem das torres de Notre-Dame; outro, por ter conseguido penetrar no pá o onde estavam inteiramente guardadas as estátuas do zimbório dos Inválidos e ter-lhes «surripiado» um pouco de chumbo! Um terceiro, por ter visto tombar uma diligência; e ainda outro, por «conhecer» um soldado que esteve quase a tirar um olho a um sujeito bem trajado.
     É isto o que explica a seguinte exclamação de um gaiato parisiense, epifonema profundo de que o vulgo ri sem o compreender: Deus do céu, não querem lá ver! Dizerem que ainda não vi cair ninguém dum quinto andar!
     É, realmente, sobremodo chistoso o seguinte dito de um aldeão: «Tio fulano, sua mulher morreu da doença que teve; porque não mandou chamar um médico?»
     «O senhor que quer? Cá nós, os pobres, não temos com que pôr embargos à morte!» Se este dito, porém, exprime toda a passividade do aldeão, no que em seguida se vai ler, revela-se toda a anarquia do livre pensar do gaiato parisiense. Vendo um destes um condenado à morte a falar com o seu confessor, exclamou: «Lá está o maricas a dizer segredinhos ao sotaina!»
     O gaiato torna-se saliente por certa dose de audácia em assuntos religiosos. É que ser espírito forte inculca importância.
     A assistência às execuções constitui para ele um dever. Apontam uns aos outros para a guilhotina e riem, designando-a por toda a espécie de nomes figurados, como «sobremesa», «corta-gorgomilos», «cerradouro», «decepa-toutiços», «diligência do outro mundo», etc., etc. Tal é o empenho com que procuram ver todas as peripécias do terrível drama, que trepam acima das paredes, sobem às árvores, agarram-se às grades, andam de gatas pelos telhados. O gaiato já nasce trolha e marinheiro. Tanto o intimida um telhado como um mastro. Não há festa para ele como a execução de um condenado. Os nomes mais populares são os de Sansão e o do abade Montês. Apupam o paciente para o animar, e às vezes mostram por frases cheias de fogo a admiração que lhe tributam. Lacenaire, quando gaiato, vendo morrer intrepidamente o terrível Danton, proferiu esta frase que encerra um futuro: «Tenho-lhe inveja». Voltaire é desconhecido entre os garotos, mas todos conhecem Papavoine. Na mesma lenda misturam os «políticos» e os assassinos, e de todos conservam a tradição do último trajo que usaram. Sabem, pois, que Tolleron trazia uma carapuça de moço de forneiro, Avril um barrete de pele de lontra, Louvei um chapéu de copa baixa, que o velho Delaporte era calvo e andava sem nada na cabeça, que Castaing era corado e sobremodo bonito, que Bories tinha uma romântica cadelinha de água, que Jean Mar n guardava os suspensórios, que Lecouffé e sua mãe andavam sempre a travar-se de razões. «Disse o tacho à sertã, pira-te lá não me enfarrusques!», gritou-lhe uma vez um gaiato. Outro, para ver passar Debacker, que de pequeno se perdia por entre o povo, lembra-se do lampeão do cais e trepa acima dele. Ao ver isto, um guarda que ali estava de sentinela franze o sobrolho e o gaiato diz-lhe: «Ó camarada, deixe-me subir», e para melhor o comover acrescenta: «Esteja descansado que eu não caio». «E a mim dá-se-me bem que tu caias!» responde o guarda.
     Os gaiatos apreciam sempre sumamente algum desastre memorável. Se alguém sucede dar um golpe profundo «até ao osso», como eles dizem, torna-se objeto da mais subida veneração.
      Ter pulso é também um elemento de respeito, e não dos mais medíocres. Uma das coisas que o gaiato diz com mais desvanecimento é: «Caramba! Eu, assim mesmo, ainda tenho bastante força.» Entre eles ser canhoto é circunstância digna de inveja e apreciável o ser vesgo.

continua na página 442...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Primeiro - VII - O gaiato podia ocupar um lugar nas classificações da Índia
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira 

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