quinta-feira, 25 de setembro de 2025

Thomas Mann - A Montanha Mágica: Como um soldado, como um valente (e)

Thomas Mann

A Montanha Mágica
 
Capítulo VI
Como um soldado, como um valente

continuando...

     Hans Castorp acompanhara a conversa com atenção não muito grande, visto se preocupar com a pessoa do guerreiro e representante de uma essencialidade distintíssima, que se achava perto dele. No fundo, o que mais lhe dava que pensar era a expressão nova que se via nos olhos do primo. Por isso sobressaltou-se um pouquinho ao sentir-se chamado e interpelado pelas últimas palavras do Sr. Settembrini. A seguir fez uma cara igual àquela que fizera na ocasião em que o italiano o quisera obrigar solenemente a escolher entre o “Oriente” e o “Ocidente”, quer dizer, uma cara cheia de reserva e de recalcitrância. Permaneceu calado. Esses dois levavam tudo ao extremo, como talvez fosse necessário, quando se queria discutir. Disputavam encarniçadamente em torno de alternativas irreconciliáveis, ao passo que a ele próprio parecia patente que em alguma parte entre essas posições incompatíveis, entre o humanismo retórico e a barbárie analfabeta, devia encontrar-se aquilo que ele, pela sua pessoa, podia reputar de humano. Não se manifestou, porém, para não exasperar os dois antagonistas. Envolto em reticências, observou como continuavam borboleteando de assunto em assunto, como um estendia a mão ao outro, na intenção hostil de guiá-lo por sempre novos desvios, desde o momento em que Settembrini desencadeara a controvérsia com sua gracinha sobre o latino Virgílio.
     O humanista ainda não largara a palavra, brandia-a, fazia com que ela triunfasse. Arvorou se em guardião do gênio literário; glorificou a história das letras a partir do instante em que, pela primeira vez, um ser humano gravara na pedra sinais simbólicos, a fim de conferir a durabilidade de um monumento ao seu saber e sentir. Falou de Tot, deus egípcio, com o qual o grande Hermes do helenismo se identificava, e que tinha sido venerado como o inventor da escrita, como padroeiro das bibliotecas e como animador de todos os esforços intelectuais. Ajoelhou-se, metaforicamente, diante desse Trismegisto, o Hermes humanista, ao qual a humanidade devia os presentes sublimes da palavra literária e da retórica agonística. Com isso levou Hans Castorp a ponderar que esse egípcio nato, evidentemente, fora um estadista e desempenhara, em maior escala, o papel do Sr. Brunetto Latini, o primeiro que esmerilou a cultura dos florentinos e ensinou-lhes a oratória, bem como a arte de dirigir a sua república conforme as regras da política. Ao que Naphta redargüiu que o Sr. Settembrini desfigurava levemente as coisas e que Tot-Trismegisto saíra muito “favorecido” no seu retrato. Em realidade, tratava-se de uma divindade dos macacos, da lua e das almas, representada pela figura de um babuíno coroado de um crescente. Sob o nome de Hermes fora antes de tudo um deus da morte e dos mortos, dominador e guia das almas; já na fase derradeira da Antiguidade havia sido transformado em arquifeiticeiro, ao passo que a Idade Média cabalística o considerara o pai da alquimia hermética.
     Que era isso? Na oficina dos pensamentos e das representações de Hans Castorp reinava plena desordem. Havia ali a morte no seu manto azul, e essa morte era um setor humanista; mas quando se olhava mais de perto esse deus da literatura, pedagogo e amigo dos homens, achava-se acocorada em seu lugar a imagem grotesca de um mono que levava sobre a fronte o símbolo da noite e da magia... Procurou afastar a visão com a mão. A seguir cobriu os olhos. Mas pelas trevas onde se refugiara na sua confusão ressoava a voz de Settembrini, que prosseguia encomiando a literatura. Não somente a grandeza contemplativa, senão também a grandeza ativa, assim bradou o italiano, andara em todos os tempos ligada a ela. E citou os nomes de Alexandre, César, Napoleão; mencionou Frederico da Prússia e outros heróis, inclusive Lassalle e Moltke. Não se intimidou quando Naphta lhe opôs a China, onde reinava a mais ridícula idolatria do abecedário que se conhecia, e onde uma pessoa chegava a ser generalíssimo quando sabia traçar com tinta nanquim todos os quarenta mil ideogramas, o que devia agradar muito ao coração de um humanista. Ora, Naphta sabia perfeitamente que aqui não se tratava do uso de tinta nanquim, mas da literatura como impulso humano, do seu espírito; sim, pobre zombeirão, do seu espírito que era o espírito em si, o milagre da fusão de análise e forma. Era ele que despertava a compreensão de tudo quanto é humano, que se empenhava em debilitar e em aniquilar os preconceitos tolos e as convicções estúpidas, e que purificava, enobrecia e melhorava o gênero humano. Ao criar o mais intenso refinamento moral e a mais sutil sensibilidade, conduzia os homens, longe de fanatizá-los, ao ceticismo, à justiça, à tolerância. O efeito purificante e santificador da literatura, a destruição das paixões pelo conhecimento e pela palavra, a literatura como caminho à compreensão, à indulgência e ao amor, o espírito literário como o fenômeno mais nobre do espírito humano em geral, o poder salvador da língua, o literato como homem perfeito, como santo – era nessa tonalidade exaltada que decorria o panegírico apologético do Sr. Settembrini. Ai dele, o seu adversário tampouco se deixou amedrontar. Soube interromper o aleluia angélico com argumentos maliciosos e brilhantes, optando pelo partido da conservação e da vida, contra o espírito dissolvente que se escondia atrás dessa falácia seráfica. Aquela fusão milagrosa que o Sr. Settembrini decantara em voz trêmula não passava, segundo se ouviu agora, de um embuste e de uma trapaça. Pois a forma que o espírito literário se vangloriava de saber conciliar com o princípio do exame e da divisão era apenas uma forma fictícia e mentirosa; não, porém, uma forma genuína, natural, cheia de vida. Sim, o pretenso aperfeiçoador do homem apregoava a pureza e a santificação, mas em realidade visava à castração e à sarjadura da vida. O espírito, o zelo da teoria profanavam a vida, e quem se esforçava por destruir as paixões desejava o nada, o puro nada, sendo “puro” o único adjetivo adequado para qualificar o nada. E precisamente nesse ponto o literato Settembrini patenteava o que era; revelava-se partidário do progresso, do liberalismo e da revolução burguesa. Pois o progresso era mero niilismo. O burguês liberalista era propriamente o homem do nada e do Diabo, e chegava a negar Deus, o absoluto conservador e positivo, professando o absoluto contrário, demoníaco, e arvorando-se em modelo de piedade, por causa do seu pacifismo letal. No entanto, o que menos havia nele era piedade; pelo contrário, atentava de um modo sumamente criminoso contra a vida, a cuja inquisição merecia ser entregue; e assim por diante...
     Com semelhantes alfinetadas argumentava Naphta, dando ao panegírico aspectos satânicos e apresentando-se a si próprio como a encarnação do amor austero e conservador, de maneira que mais uma vez se tornava completamente impossível distinguir onde se achava Deus e onde o Diabo, onde a morte e onde a vida. Ninguém duvidará quando afirmarmos que o seu antagonista se mostrou à altura e não ficou devendo resposta, que foi notável e provocou uma réplica não menos boa, depois da qual a discussão prosseguiu por algum tempo, antes de a conversa embocar naquela confusão já mencionada. Hans Castorp, entretanto, já deixara de prestar atenção, porque Joachim, nesse ínterim, lhe comunicara que tinha certeza de se ter resfriado e de estar com febre, e que não sabia o que fazer, uma vez que os resfriados não eram reçus ali em cima. Os duelistas haviam passado por cima dessa novidade, mas Hans Castorp, que, como já dissemos, velava diligentemente pelo primo, retirou-se em sua companhia, no meio de uma tréplica, sem se importar com a questão de saber se o público restante, composto de Ferge e Wehsal, seria ou não capaz de produzir o estímulo pedagógico necessário para a continuação da contenda.
     Durante o caminho combinou com Joachim que em matéria de resfriado e dores de garganta trilhariam a via hierárquica; quer dizer, encarregariam o massagista de avisar a Superiora, depois do que provavelmente seriam tomadas algumas medidas em benefício do enfermo. Assim fizeram bem. À mesma noite, logo depois do jantar, quando Hans Castorp casualmente se encontrava no quarto de Joachim, Dona Adriática bateu à porta e informou-se, em voz esganiçada, sobre os desejos e as moléstias do jovem oficial. – Dores de garganta? Rouquidão? – repetiu a enfermeira. – Que lhe deu na veneta, rapaz? – E fez uma tentativa de fitar o doente com olhar penetrante. Não era culpa de Joachim que os olhares não se encontrassem, pois era o da Superiora que se esquivava obstinadamente. Coisa estranha que ela insistisse nessa manobra, apesar de a experiência lhe demonstrar que era incapaz de realizá-la! Mediante uma espécie de calçadeira de metal, que tirou da bolsa presa à cintura, examinou a goela do paciente, enquanto Hans Castorp a alumiava com a lâmpada de cabeceira. Mantendo-se nas pontas dos pés, a Superiora espiava a úvula de Joachim. – Agora me diga, prezadíssimo rapaz – continuou –, já se engasgou alguma vez?
     Que responder? No momento, isto é, durante o exame, era impossível dar explicações, mas também depois de ela soltar o enfermo era difícil acertar a resposta. Claro que já lhe acontecera engasgar-se uma ou outra vez, enquanto comia ou bebia, mas isso ocorria a toda gente e certamente não era o que ela queria saber. Assim, Joachim perguntou: – Por quê? – e acrescentou que não se lembrava quando aquilo se dera pela última vez, 

– Está bem – disse ela. – Foi apenas uma idéia que me veio. Então o senhor se resfriou – concluiu para a maior surpresa dos primos, visto a palavra “resfriado” normalmente não ser tolerada no sanatório. Para um exame mais minucioso, se preciso fosse, seria indispensável o laringoscópio do conselheiro. Ao sair, a Superiora deixou comprimidos de formaminto, bem como uma atadura e um pedaço de gutapercha, para que Joachim pudesse fazer compressas durante a noite. Joachim serviu-se de ambas as coisas e teve a nítida impressão de que lhe traziam alívio. Por isso continuou com o tratamento, já que a rouquidão não fazia menção de ceder; pelo contrário, até se intensificou nos dias seguintes, embora as dores de garganta desaparecessem às vezes quase por completo.

     O tal resfriado febril não passava, aliás, de pura imaginação. O resultado objetivo do exame era o de sempre, justamente aquele que, em combinação com os diagnósticos anteriores do conselheiro, requeria do ambicioso Joachim um “pequeno tratamento suplementar”, antes que ele pudesse voltar às fileiras do exército. O prazo de outubro, que acabava de expirar, era tratado com a maior discrição possível. Ninguém o mencionou, nem o conselheiro, nem os primos entre si. Silenciosos, com os olhos baixos, passaram uma esponja nessa data. Depois do que Behrens ditara ao assistente-psicanalista, por ocasião da última consulta mental, e do que a chapa radiográfica mostrava, era mais do que evidente que uma partida “em falso” seria arriscadíssima. E dessa vez tratava-se de perseverar ali em cima, com disciplina de aço, no trabalho da cura, até que se obtivesse a definitiva imunidade, necessária para suportar as exigências do outro trabalho, lá na planície, e para cumprir o juramento.
     Tal era a divisa a respeito da qual haviam chegado a um tácito acordo. Na realidade, porém, um não tinha certeza se o outro, no âmago da sua alma, acreditava nessa divisa. Se baixavam os olhos, era devido a essa dúvida, e isso não se dava sem que antes os seus olhares se tivessem encontrado. Tais encontros ocorriam freqüentemente, desde o referido colóquio sobre literatura, quando Hans Castorp notara, pela primeira vez, aquela luz nova no fundo dos olhos de Joachim, bem como a sua expressão “ominosa”. Ocorriam antes de tudo à mesa, quando o primo, rouco de repente, se engasgava de modo sumamente violento, a ponto de mal recobrar o fôlego. Certa vez, enquanto Joachim ofegava atrás do guardanapo, e sua vizinha, a Srª. Magnus, lhe dava palmadas nas costas, segundo um velho costume, os olhos dos primos encontraram-se de um modo que espantou Hans Castorp, mais do que o próprio engasgamento, que afinal podia acontecer a qualquer um. A seguir, Joachim cerrou os olhos e, com o rosto oculto pelo guardanapo, abandonou a mesa e a sala, a fim de esperar lá fora o fim do acesso de tosse.
     Sorrindo, embora ainda um pouco pálido, voltou uns dez minutos depois. Desculpou-se pelo susto que dera aos comensais e participou, como antes, da abundante refeição. Mais tarde, os primos até se esqueceram totalmente de comentar o incidente banal. Mas alguns dias após, não durante o jantar, senão por ocasião do fartíssimo segundo café da manhã, produziu-se o mesmo fenômeno. Dessa vez não se encontraram os olhares, ao menos não os dos primos. Hans Castorp, inclinado para o prato, continuou comendo com aparente indiferença. Terminada a refeição, parecia contudo conveniente dizer algumas palavras sobre o ocorrido. Joachim deblaterou contra a Mylendonk, cuja pergunta feita à queima-roupa o fizera ficar com a pulga atrás da orelha. Essa mulher lhe sugerira alguma coisa; embruxara-o. – Que o diabo a carregue! – Hans Castorp respondeu que evidentemente se tratava do efeito de uma sugestão e achou o fato divertido, apesar do seu caráter desagradável. E Joachim, depois de ter achado uma denominação para a coisa, daí por diante defendeu-se com êxito contra ela. Precavia-se, enquanto comia, e não se engasgava com maior frequência do que qualquer outra pessoa não embruxada. Somente uns nove ou dez dias mais tarde repetiu-se o incidente, o que, afinal de contas, não era anormal.
     Não obstante foi chamado por Radamanto, embora ainda não fosse a sua vez. A Superiora avisara o médico e sem dúvida fizera bem. Uma vez que a casa dispunha de um laringoscópio, existiam motivos suficientes para tirar do armário o instrumento engenhosamente construído: aquela rouquidão obstinada, que às vezes degenerava em afonia total, e também a dor de garganta que voltava a manifestar-se, cada vez que Joachim omitia lubrificar a goela com remédios salivantes, sem contar que, se agora se engasgava menos amiúde, era só devido à imensa cautela que usava durante as refeições, o que sempre o atrasava em relação aos vizinhos.
     E o conselheiro, servindo-se de espelhos e reflexos, perscrutou profunda e demoradamente a garganta de Joachim. A seguir, o paciente, em obediência aos rogos de Hans Castorp, encaminhou-se logo à sacada do primo, para relatar-lhe pormenores do exame. A coisa lhe havia causado muitas cócegas e fora bastante desagradável, segundo contou cochichando, porque estavam na hora do repouso principal, com silêncio obrigatório. Behrens fizera um grande palavrório sobre um estado de irritação e dissera que convinha pincelar todos os dias. Logo no dia seguinte começaria a causticar. Era apenas preciso preparar o remédio. Pois então, estado de irritação e causticações... Hans Castorp tinha a cabeça cheia de associações de ideias, que iam muito longe e se referiam a pessoas quase estranhas, como, por exemplo, o porteiro coxo e aquela senhora que passara uma semana inteira comprimindo a orelha e todavia não tivera motivos para preocupar-se. Estava a ponto de fazer mais algumas perguntas, porém não conseguiu pronunciá-las. Resolveu então pedir informações ao próprio conselheiro, quando estivessem a sós. Por enquanto limitou-se a expressar a Joachim a satisfação que experimentava ao ver que aquela moléstia se achava agora sob controle e que o Dr. Behrens se encarregara do assunto. Era “bamba” nessas coisas e saberia, sem dúvida, remediar. Joachim fez um sinal de aprovação, sem encarar o primo; deu meia-volta e passou para o seu compartimento.

continua pág 345...
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Leia também:

Capítulo I
A Chegada
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI
Como um soldado, como um valente  (e)
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A Montanha Mágica (Der Zauberberg, no original alemão) é um romance de Thomas Mann que foi publicado em 1924. É considerado o romance mais importante de seu autor e um clássico da literatura de língua alemã do século XX que foi traduzido para inúmeros idiomas, sendo de domínio público em países como Estados Unidos, Espanha, Brasil, entre outros.
Thomas Mann começou a escrever o romance em 1912, após uma visita à sua esposa no Wald Sanatorium em Davos, onde ela foi hospitalizada. Ele inicialmente o concebeu como um romance curto, mas o projeto cresceu ao longo do tempo para se tornar um trabalho muito maior. A obra narra a permanência de seu personagem principal, o jovem Hans Castorp, em um sanatório nos Alpes suíços, onde inicialmente vinha apenas como visitante. A obra tem sido descrita como um romance filosófico, pois, embora se enquadre no molde genérico do Bildungsroman ou romance de aprendizagem, introduz reflexões sobre os mais variados temas, tanto pelo narrador quanto pelos personagens (especialmente Nafta e Settembrini, aqueles encarregados da educação do protagonista). Entre esses temas, o do "tempo" ocupa um lugar preponderante, a ponto de o próprio autor o descrever como um "romance do tempo" (Zeitroman), mas muitas páginas também são dedicadas a discutir a doença, a morte, a estética ou a política.
O romance tem sido visto como um vasto afresco do modo de vida decadente da burguesia europeia nos anos anteriores à Primeira Guerra Mundial.

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