A Montanha Mágica
Capítulo VI
Como um soldado, como um valente
.
Hans Castorp recebia frequentemente breves notícias de seu primo; boas e jubilosas no
começo, menos favoráveis depois, e finalmente outras que mal disfarçavam fatos muito tristes. A
série dos cartões-postais começara por uma mensagem humorística que comunicava a chegada de
Joachim ao regimento e a cerimônia romântica, na qual, como Hans Castorp o expressou no seu
cartão de resposta, o primo prestara o juramento de pobreza, castidade e obediência. E as
missivas continuavam alegres, assinalando as etapas de uma carreira fácil e favorecida, aplainada
pela dedicação apaixonada à profissão e pela simpatia dos superiores. Tudo isso vinha descrito
em poucas palavras acompanhadas de saudações e votos de felicidade. Como Joachim cursara a
universidade durante alguns semestres, haviam-no dispensado dos estudos na Escola Militar e do
serviço de aspirante. No dia de Ano-Novo foi promovido a sargento e mandou uma fotografia
que o mostrava numa farda guarnecida de galões. Cada um dos seus concisos relatos refletia o
prazer que Joachim experimentava em face do espírito da hierarquia pundonorosa com sua
disciplina férrea, que no entanto não o impedia de levar em conta as fraquezas humanas, sob a
forma de um humor rude. Contou anedotas a respeito da conduta esquisita e complexa do
subtenente, soldado carrancudo e fanático, que tratava o jovem e inexperiente subordinado como
se já visse na sua pessoa o futuro chefe, que Joachim seria efetivamente, uma vez que já
frequentava a mesa dos oficiais. Tudo isso era turbulento e engraçado. Depois se falava da
admissão ao exame para oficial. Em princípios de abril, Joachim foi promovido a tenente.
Aparentemente não existia homem mais feliz do que ele. Não se podia imaginar pessoa
alguma cuja natureza e cujos desejos correspondessem mais completamente a essa forma de vida.
Entre deliciado e ruborizado contava Joachim como pela primeira vez passara, no seu esplêndido
uniforme novo, em frente da prefeitura e dera sinal de desfazer a continência à sentinela que
apresentava armas. Descrevia as pequenas contrariedades e as satisfações do serviço; elogiava a
simpática e brilhante camaradagem; falava da lealdade astuta da ordenança, de incidentes cômicos
que se haviam passado durante os exercícios e as horas de instrução, de revistas e de ágapes.
Também mencionava, de vez em quando, assuntos sociais, visitas, banquetes e bailes. Nunca,
porém, se referia à sua saúde.
Isso durou até começos do verão. Foi quando comunicou que se achava acamado e
tivera, infelizmente, de dar parte de doente. Uma febre catarral, coisa de poucos dias. Em
princípios de junho voltou ao serviço, mas já por meados do mês sentiu-se novamente derreado.
Queixava-se amargamente da sua má sorte e não escondia o receio de, talvez, não estar em
condições por ocasião das grandes manobras que se realizariam em agosto, e das quais ansiava
participar. Tolices! Em julho sentia-se perfeitamente bem, até o dia em que surgiu no horizonte a
necessidade de um exame, em virtude daquelas malditas oscilações da sua temperatura. Desse
exame dependeria tudo. Decorreu bastante tempo sem que Hans Castorp tivesse notícias quanto
ao resultado, e quando as recebeu não foram de Joachim, que deixara de escrever, ou porque era
incapaz de fazê-lo, ou porque se envergonhava. Quem telegrafou foi a mãe, a Srª. Ziemssen;
anunciava que os médicos julgavam indispensável que o filho tirasse uma licença de algumas
semanas, recomendavam a montanha e aconselhavam a partida imediata; pedia a reserva de dois
quartos. Resposta paga. Assinado: Tia Luise. Foi em fins de julho que Hans Castorp recebeu esse
telegrama no seu compartimento de sacada. Percorreu-o com os olhos, releu-o uma e duas vezes,
sacudindo levemente não só a cabeça, mas também o tronco. Por fim disse entre dentes: – Sim,
sim, sim! – à maneira do Sr. Settembrini. – Joachim volta! – observou, sentindo-se invadido de
repentina alegria. Mas logo tornou a acalmar-se e pensou: “Hum, hum! São notícias graves.
Também se poderia dizer: uma bela surpresa! Puxa, mas foi depressa! Já precisa regressar à
‘pátria’. E a mãe viaja com ele... (Disse ‘a mãe’ e não ‘tia Luise’, visto o seu senso de parentesco e
de relações familiares ter-se desvanecido aos poucos.) Isto é uma circunstância agravante. E
justamente na véspera das manobras, nas quais o bom Joachim tanto desejava tomar parte. Hum,
hum! Tudo isso é mesmo infame; parece ironia e obra de um fator antiidealístico. O corpo
triunfa, quer outra coisa que não a alma e se impõe, desmentindo aqueles arrogantes que nos
ensinam que a alma reina sobre ele. Tenho a impressão de que não sabem o que dizem; pois, se
tivessem razão, a alma ficaria bastante comprometida num caso como este. Sapienti sat. Já formei
a minha opinião. Pois o problema que eu estou ventilando é precisamente saber até que ponto
está errado opor a alma ao corpo e até onde ambos estão em conluio e jogam uma partida cujo
resultado combinaram de antemão. Essa idéia, felizmente, não ocorre àquela gente presunçosa.
Meu caro Joachim, ninguém quer censurar você por causa do seu zelo excessivo. É sincero, mas
de que adianta a sinceridade – pergunto eu – se o corpo e a alma estão em conluio? Será possível
que você seja incapaz de esquecer certos perfumes refrescantes, certos seios opulentos e certos
risinhos não motivados que o esperam à mesa da Srª. Stöhr?... Joachim volta!”, pensou de novo,
estremecendo de alegria. “Chegará em mau estado, evidentemente, mas estaremos juntos outra
vez e não precisarei mais viver num isolamento completo. Está bem assim. Verdade é que haverá
algumas modificações. O quarto dele está ocupado por Mrs. Macdonald, que ali não para de
tossir a sua tosse surda, sempre com a fotografia do filhinho na mão ou na mesinha a seu lado.
Mas já se acha na fase final, e se o quarto ainda não estiver reservado... Por enquanto terão outro
disponível. Se não me engano, o 28 está desocupado. Vou logo à ‘administração’ e sobretudo
falarei com Behrens. Que novidade! De um lado é triste, e do outro é maravilhoso. Mas em todo
caso é uma novidade e tanto. Quero apenas esperar o camarada Krokowski, que deve passar
daqui a pouco, pois, como vejo, já são três e meia. Vou perguntar-lhe se também nesse caso se
aferra à sua opinião de que o corpo deve ser considerado secundário ...”
Ainda antes do chá da tarde dirigiu-se ao escritório da “administração”. O referido
quarto, situado no mesmo corredor que o seu, estava à sua disposição. Para a Srª. Ziemssen
tampouco faltariam aposentos. Hans Castorp apressou-se a falar com Behrens. Encontrou-o no
laboratório. O médico tinha um charuto numa das mãos e uma proveta com líquido de cor
duvidosa na outra.
– Senhor conselheiro, já sabe da última? – começou Hans Castorp.
– Sim, que as encrencas nunca acabam – respondeu o tisiólogo. – Aí está o Sr.
Rosenheim, de Utrecht – prosseguiu, apontando com o charuto para o vidro. – Tem Gaffky 10.
E agora veio o fabricante Schmitz, berrando e queixando-se de que o Rosenheim escarrou
durante o passeio, com Gaffky 10. Quer que eu lhe faça uma reprimenda. Mas nesse caso o
homem teria um chilique, porque é sumamente irritadiço, e ele e a família ocupam três quartos.
Não posso ofendê-lo, pois se fosse embora a diretoria cairia em cima de mim. Está vendo os
conflitos que surgem a cada instante, ainda que a gente queira seguir seu caminho com calma e
imparcialidade.
– É uma história estúpida – disse Hans Castorp com a compreensão de um veterano
traquejado. – Conheço os dois senhores. O Schmitz é extremamente correto e diligente, e o
Rosenheim bastante relaxado. Mas pode ser que existam ainda outros motivos de atritos, de
caráter não higiênico. É o que me parece provável. Schmitz e Rosenheim são ambos amigos de
Dona Perez, de Barcelona, aquela que come à mesa da Kleefeld. Acho que nisso reside a causa da
desavença. Em seu lugar, eu recordaria aos pensionistas, de uma forma geral, a proibição
existente, e quanto ao resto fecharia os olhos.
– Claro que fecharei. Já ando com blefarospasmo de tanto fechar. Mas por que se
apresenta o senhor aqui?
E Hans Castorp comunicou a notícia triste e ao mesmo tempo maravilhosa.
Não se pode dizer que o médico se tenha mostrado surpreendido. Não o estaria em caso
algum, menos ainda no presente. Hans Castorp, ou respondendo às suas perguntas ou por
iniciativa própria, sempre o mantivera a par do estado de Joachim e já em maio lhe dera a notícia
de que o primo caíra de cama.
– Hã, hã! – fez Behrens. – Pois então, não lhe disse? Que é que eu disse a ele e ao senhor,
não dez vezes, mas cem? Durante nove meses, o homem teve tudo que desejava e gozou o seu
paraíso. Mas não era um paraíso cem por cento desintoxicado, e nesse caso falta a bênção; é o
que esse desertor nunca quis acreditar no velho Behrens. Convém sempre acreditar no velho
Behrens. Do contrário, a gente apanha e cria juízo quando é tarde. Afinal, ele chegou a ser
tenente; sim, senhor, não se discute. Mas que lhe adianta? Deus vê o coração e não se importa
com graus e posição. Perante Ele aparecemos despidos de tudo, tanto o general como o soldado
raso... – E desatou a tagarelar. Por fim esfregou os olhos com a manzorra, cujos dedos
comprimiam o charuto, e pediu que Hans Castorp agora lhe desse uma folga. Um cômodo para
Ziemssen seria coisa fácil de encontrar, e quando o primo chegasse, que o metesse na cama,
imediatamente. Quanto a ele, Behrens, não guardava rancor a ninguém. Abriria paternalmente os
braços e estava disposto a matar um bezerro por ocasião da volta do filho pródigo.
Hans Castorp telegrafou. Falou a todo o mundo da volta iminente do primo, e quem
conhecia Joachim ouvia a nova com pesar e contentamento. Ambos esses sentimentos eram
sinceros, pois o caráter limpo e cavalheiresco do jovem oficial lhe havia conquistado a simpatia
geral. A opinião íntima, não expressa, de muitos ali de cima, achava que ele fora o melhor de
todos. Não nos referimos a ninguém em particular, mas cremos que mais de um experimentou
uma certa satisfação ao ficar sabendo que Joachim se via forçado a trocar o serviço militar pela
posição horizontal] e, com toda a sua correção, tornaria a ser “um dos nossos”. Como sabemos, a
Srª. Stöhr previra tudo isso desde o princípio. Os acontecimentos acabavam de consolidar-lhe o
ceticismo ordinário que ela manifestara quando da partida de Joachim para a planície. Não deixou
de vangloriar-se dos seus pressentimentos. – A coisa está ruim – dizia. Logo vira que a coisa
cheirava mal, e agora esperava apenas que Ziemssen, com a sua teimosia, não a tivesse feito feder.
(Realmente, na sua imensa vulgaridade, empregou o verbo “feder”.) Valia mais ficar no seu posto,
como fazia ela, apesar de ter interesses vitais na planície, em Cannstatt, onde viviam seu marido e
seus dois filhos. Mas sabia dominar-se... Não chegou mais nenhuma resposta da parte de Joachim
ou da Srª. Ziemssen. Hans Castorp permaneceu na ignorância do dia e da hora da sua chegada.
Por esse motivo não houve recepção na estação. Três dias após a remessa do telegrama de Hans
simplesmente apareceram, e com um risinho nervoso o tenente Joachim aproximou-se da
espreguiçadeira onde o primo estava cumprindo o regulamento.
Foi pouco depois do começo do repouso noturno. Trouxera-os o mesmo trem em que
chegara Hans Castorp, havia anos, anos que não tinham sido nem breves nem longos, senão
desprovidos de duração, anos extremamente ricos em experiências e todavia nulos e vazios. Até a
estação do ano era a mesma: um dos primeiros dias de agosto. Como já dissemos, Joachim entrou
alegremente. Sim, experimentou de fato uma emoção alegre, quando entrou no aposento de Hans
Castorp, ou melhor, quando saiu dele, depois de ter medido o quarto a passo rápido, para ganhar
a sacada. Sorrindo, saudou o primo. Em voz abafada proferiu algumas palavras entrecortadas pela
respiração acelerada. Acabava de realizar a longa viagem de regresso, atravessando diversos países
e o lago que parece um mar, e subindo por estreitas sendas até grandes alturas. E agora estava ali
como se jamais se tivesse afastado, e seu parente, que num sobressalto se soerguera da sua
posição horizontal, recebeu-o com muitos “Olá” e “Ora essa”. Joachim tinha o rosto corado,
fosse devido à vida ao ar livre que levara, fosse em virtude da excitação da viagem. Diretamente,
sem procurar o seu próprio quarto, precipitara-se para o número 34, a fim de cumprimentar o
companheiro de dias passados que novamente se tornavam presentes. Enquanto isso, sua mãe
achava-se ocupada em arrumar-se. Tinham a intenção de jantar dentro de dez minutos,
naturalmente no restaurante. Hans Castorp, sem dúvida, seria capaz de comer mais alguma
coisinha na sua companhia, ou pelo menos de tomar um gole de vinho. E Joachim arrastou-o ao
número 28, onde tudo se passou como naquela noite da chegada de Hans Castorp, só que com os
papéis trocados; Joachim, conversando febrilmente, lavava as mãos na pia lustrosa, e Hans
Castorp contemplava-o, surpreendido e mesmo desapontado por ver o primo à paisana. Disse
lhe que a sua carreira militar em nada se refletia no seu exterior. Sempre o visionara como oficial
de uniforme, e agora se apresentava numa roupa cinzenta como qualquer outro. Joachim riu-se,
achando-o muito ingênuo. Não, senhor! A farda tinha ficado em casa, como lhe convinha. Hans
Castorp devia saber que o uniforme tinha caráter bem especial. Com ele não se ia a qualquer
parte. – Ah, sim. Muito obrigado – respondeu Hans Castorp. Mas Joachim não parecia dar-se
conta do sentido aviltante da sua explicação. Pediu informações acerca das pessoas e dos
acontecimentos do Berghof, não somente sem a menor presunção, mas com toda a intensa
ternura que é própria de quem volta ao lar. A seguir, a Srª. Ziemssen apareceu na porta de
comunicação. Saudou o sobrinho da maneira que certas pessoas acham adequada a essa espécie
de ocasião; quer dizer, fingiu uma surpresa jovial por encontrá-lo nesse lugar. Mas a sua alegria
achava-se empanada pelo cansaço e por uma silenciosa mágoa que evidentemente se ligava a
Joachim. E desceram ao andar térreo.
Luise Ziemssen tinha os mesmos olhos formosos, negros e meigos de Joachim. Os
cabelos igualmente pretos, mas já entremeados de muitos fios brancos, estavam presos por uma
rede quase invisível, e isso harmonizava com o seu modo de ser, que era ponderado,
simpaticamente comedido e controlado com brandura, o que lhe conferia uma dignidade
agradável, apesar da singeleza do seu espírito. Era claro – e Hans Castorp não se admirou nem
um pouquinho com esse fato – que ela não compreendia a animação de Joachim, o aceleramento
da sua respiração e sua fala precipitada, fenômenos que provavelmente estavam em desacordo
com a conduta que o filho tivera em casa e durante a viagem, e não correspondiam à sua situação.
A mãe achou tal atitude um tanto chocante. Como essa chegada se lhe afigurasse triste, julgava
conveniente adaptar a sua atitude ao caráter da situação. Era incapaz de participar dos
sentimentos de Joachim, essas turbulentas emoções despertadas pela volta, cuja embriaguez no
momento sobrepuja quaisquer pensamentos opostos, e que talvez fossem ainda estimuladas pela
renovada aspiração do ar alpino, esse “nosso” ar incomparável, leve, inconsistente e excitante.
Tudo isso, forçosamente, ficou ininteligível para a Srª. Ziemssen. “Meu pobre filho!”, pensou ela,
e ao mesmo tempo via como o coitado se abandonava, junto com o primo, a uma hilaridade
transbordante, ressuscitando mil recordações, fazendo mil perguntas e rindo-se das respostas,
reclinado na cadeira. Diversas vezes disse: – Ora, ora, meus filhos! – E com a observação que
finalmente formulou, pretendeu manifestar alegria, mas na realidade o que expressou foi
estranheza e leve censura: – Joachim, faz tempo que não te vejo assim. Será possível que
tivéssemos de vir aqui para que te sentisses novamente como no dia da tua promoção? – Bem! ao
ouvir isso, acabou-se a alegria de Joachim. Seu bom humor transformou-se em depressão.
Recobrou a consciência. Não tocou na sobremesa, embora se tratasse de um saborosíssimo suflê
de chocolate com nata batida. (No seu lugar, Hans Castorp fez todas as honras ao prato, apesar
de mal ter decorrido uma hora desde o fim do abundante jantar.) Joachim terminou por não mais
levantar os olhos, certamente porque os tinha cheios de lágrimas.
Sem dúvida não fora essa a intenção da Srª. Ziemssen. No fundo era antes por causa das
conveniências que queria obter um pouco mais de seriedade e de moderação, sem saber que tudo
que é meio-termo e medida ficava estranho nesse lugar, onde só se oferecia a escolha entre os
extremos. Quando viu o filho de tal maneira abatido, esteve ela mesma a ponto de chorar e
sentiu-se grata ao sobrinho pelos esforços que fazia no sentido de reanimar o primo desolado. –
Sim – disse –, entre os pensionistas você encontrará muitas modificações e novidades, mas alguns
outros já voltaram durante a sua ausência e estão como antes. A tia-avó, por exemplo, com a sua
companhia, há tempos que está de volta. Como sempre, as senhoras comem à mesa da Stöhr, e
Marusja ainda gosta muito de rir.
Joachim permanecia calado. À Srª. Ziemssen, porém, essas palavras chamaram à memória
um encontro e certas saudações que ela não devia esquecer de transmitir. Tratava-se de um
encontro com uma senhora nada antipática, embora viajasse sozinha e tivesse sobrancelhas
excessivamente regulares. Num restaurante de Munique, onde se haviam demorado um dia entre
dois trajetos noturnos, essa senhora aproximara-se da mesa para cumprimentar Joachim. Era uma
antiga paciente do sanatório... E pediu a Joachim que a ajudasse a lembrar o nome.
– Mme. Chauchat – disse Joachim baixinho. Por enquanto, ela se achava numa estação
climatérica no Allgäu e pensava passar o outono na Espanha. No inverno, provavelmente,
voltaria para ali. Mandava muitas lembranças...
Hans Castorp já não era nenhum menino. Sabia dominar os nervos vasculares que o
poderiam ter feito empalidecer ou ruborizar.
– Ah, era ela? – disse. – Vejam só; saiu então do Cáucaso. E quer ir à Espanha?
Aquela senhora falara de um lugar nos Pireneus. – Mulher bonita ou pelo menos atraente.
Voz agradável e gestos também agradáveis. Mas tem maneiras muito livres e negligentes –
observou a Srª. Ziemssen. – Abordou-nos sem mais aquela, embora Joachim, segundo ouvi,
nunca lhe houvesse sido apresentado. Que costumes estranhos!
– Aquilo vem do Oriente e da doença – explicou Hans Castorp, acrescentando que não se
devia aplicar a essas coisas o padrão da civilização humanística. Isso seria erro grave. E lhe dava
que pensar que Mme. Chauchat tivesse a intenção de ir à Espanha. Hum! A Espanha... Esta se
encontrava na direção oposta, igualmente distante do “meio” humanístico, não ao lado da
moleza, mas ao lado do rigor. Ali não havia falta de forma, senão excesso. A morte considerada
como forma, por assim dizer. Não a dissolução da morte, mas a sua austeridade, de preto, distinta
e sangrenta, a Inquisição, a golilha engomada, Loyola, o Escorial... Seria interessante saber qual a
impressão que Mme. Chauchat teria da Espanha. Sem dúvida perderia ali o costume de bater as
portas, e talvez resultasse da sua permanência um certo equilíbrio dos dois elementos anti
humanísticos, que a tornasse mais humana. Mas também era possível que surgisse um terrorismo
maldoso, quando o Oriente fosse à Espanha...
continua pág 329...
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Leia também:
Capítulo II
Da pia batismal e dos dois aspectos do avô
Da pia batismal e dos dois aspectos do avô
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI
Como um soldado, como um valente (a)
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A Montanha Mágica (Der Zauberberg, no original alemão) é um romance de Thomas Mann que foi publicado em 1924. É considerado o romance mais importante de seu autor e um clássico da literatura de língua alemã do século XX que foi traduzido para inúmeros idiomas, sendo de domínio público em países como Estados Unidos, Espanha, Brasil, entre outros.
Thomas Mann começou a escrever o romance em 1912, após uma visita à sua esposa no Wald Sanatorium em Davos, onde ela foi hospitalizada. Ele inicialmente o concebeu como um romance curto, mas o projeto cresceu ao longo do tempo para se tornar um trabalho muito maior. A obra narra a permanência de seu personagem principal, o jovem Hans Castorp, em um sanatório nos Alpes suíços, onde inicialmente vinha apenas como visitante. A obra tem sido descrita como um romance filosófico, pois, embora se enquadre no molde genérico do Bildungsroman ou romance de aprendizagem, introduz reflexões sobre os mais variados temas, tanto pelo narrador quanto pelos personagens (especialmente Nafta e Settembrini, aqueles encarregados da educação do protagonista). Entre esses temas, o do "tempo" ocupa um lugar preponderante, a ponto de o próprio autor o descrever como um "romance do tempo" (Zeitroman), mas muitas páginas também são dedicadas a discutir a doença, a morte, a estética ou a política.
O romance tem sido visto como um vasto afresco do modo de vida decadente da burguesia europeia nos anos anteriores à Primeira Guerra Mundial.
Thomas Mann começou a escrever o romance em 1912, após uma visita à sua esposa no Wald Sanatorium em Davos, onde ela foi hospitalizada. Ele inicialmente o concebeu como um romance curto, mas o projeto cresceu ao longo do tempo para se tornar um trabalho muito maior. A obra narra a permanência de seu personagem principal, o jovem Hans Castorp, em um sanatório nos Alpes suíços, onde inicialmente vinha apenas como visitante. A obra tem sido descrita como um romance filosófico, pois, embora se enquadre no molde genérico do Bildungsroman ou romance de aprendizagem, introduz reflexões sobre os mais variados temas, tanto pelo narrador quanto pelos personagens (especialmente Nafta e Settembrini, aqueles encarregados da educação do protagonista). Entre esses temas, o do "tempo" ocupa um lugar preponderante, a ponto de o próprio autor o descrever como um "romance do tempo" (Zeitroman), mas muitas páginas também são dedicadas a discutir a doença, a morte, a estética ou a política.
O romance tem sido visto como um vasto afresco do modo de vida decadente da burguesia europeia nos anos anteriores à Primeira Guerra Mundial.
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