quarta-feira, 10 de setembro de 2025

Émile Zola - Germinal: Segunda Parte - (II.a) No quarto, que se conservara fechado

Germinal

Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Segunda Parte

II
 .


      No quarto, que se conservara fechado, as persianas deixavam entrar, pouco a pouco, manchas pardas de luz que se espalhavam em leque pelo teto. O ar viciado ficava cada vez mais pesado, mas todos continuavam no seu sono da noite: Lénore e Henri nos braços um do outro, Alzire com a cabeça para trás, apoiada na corcunda, enquanto o velho Boa-Morte, com a cama de Zacharie e Jeanlin só para ele, roncava de boca aberta. Nenhum ruído no cubículo ao lado da escada, onde a mulher de Maheu voltara a dormir dando de mamar a Estelle, com o seio caído para o lado, a criança atravessada na barriga, empanturrada de leite, adormecida também, sufocando-se nas carnes moles dos seios maternos.
     O relógio de cuco, embaixo, deu seis horas. Ouviu-se ao longo das fachadas dos casebres o bater de portas, depois o pisar de tamancos na pedra das calçadas: eram as separadoras de carvão que partiam para a mina.
     Até as sete horas houve outra vez silêncio; a partir de então, as persianas se abriram e através das paredes ouviram-se bocejos e limpar de gargantas. Por algum tempo rangeu uma máquina de moer café, sem que ninguém acordasse no quarto.
     Subitamente, um barulho de tapas e gritos ao longe fez Alzire sentar na cama. Deu-se conta da hora e, descalça, correu e sacudiu a mãe.

 — Mamãe! mamãe! É tarde e tens o que fazer... Cuidado! Vais esmagar Estelle.

     E puxou a criança já meio sufocada sob a abundância dos seios.

 — Inferno de vida! — tartamudeou a mulher, esfregando os olhos. — Ando tão esfalfada que podia dormir o dia inteiro. Veste Lénore e Henri, levo-os comigo; tu ficas com a Estelle, não quero expô-la, tenho medo de que apanhe alguma doença com este tempo maldito.

      Lavou-se às pressas, enfiou uma velha saia azul, a mais limpa que tinha, uma bata de lã cinzenta, na qual pusera dois remendos na véspera.

— E a sopa, como é que vai ser? Vida miserável! — murmurou ela de novo.

     Enquanto sua mãe descia, esbarrando em tudo, Alzire retornou ao quarto levando consigo Estelle, que voltara a berrar; já estava acostumada com as manhas da criança; nos seus oito anos, possuía astúcias de mulher capazes de acalmá-la e distraí-la. Com muito jeito, deitou-a na sua cama ainda quente e adormeceu-a dando-lhe um dedo para chupar. Não era sem tempo, porque começava outra algazarra: teve que apaziguar Lénore e Henri, que enfim acordavam. Esses dois não se entendiam muito bem, só se abraçavam enquanto dormiam. A menina, de seis anos, engalfinhava-se no garoto logo que acordava; este, que era dois anos mais moço, recebia os tapas sem retribuí-los. Ambos tinham uma cabeça enorme, como um balão, de cabelos eriçados e amarelos. Foi preciso que Alzire puxasse a irmã pelas pernas, ameaçando-a com uma boa surra. Depois repetiu-se a algazarra durante a lavagem do rosto e a cada peça de roupa que Alzire lhes enfiava. Evitava-se abrir as persianas para não perturbar o sono do velho Boa-Morte, que continuava a roncar, apesar da terrível gritaria das crianças.

— Está pronto! Vocês ainda estão aí em cima? — gritou a mãe. Tinha aberto os postigos das janelas, reavivado o fogo, colocado mais carvão. Sua esperança era que o velho não tivesse engolido toda a sopa, mas encontrou o tacho lambido. Colocou no fogo um punhado de aletria que tinha de reserva havia três dias; comê-la-iam assim, feita em água, sem manteiga: não devia restar nada da insignificância da véspera, mas ficou surpresa ao ver que Catherine, ao preparar as porções, miraculosamente deixara um pouco, do tamanho de uma noz. Fora isso, no entanto, desta vez o guarda-comida estava completamente vazio; nada, nem uma côdea de pão, um resto de provisões, um osso para roer... Que ia ser deles se Maigrat não quisesse fiar mais, se os burgueses da Piolaine não lhe dessem cem soldos? Quando os homens e a moça voltassem da mina teriam que comer alguma coisa; infelizmente ainda não tinham inventado um meio para que se vivesse sem comer.
— Vão descer ou não vão? — gritou ela, zangada. — Já devia ter saído.

     Quando Alzire e as duas crianças apareceram, repartiu a aletria em três pratos pequenos. Ela não estava com fome, disse. Ainda que Catherine já tivesse passado água pela borra de café da véspera, passou mais um pouco e bebeu dois canecos de um café tão fraco que mais parecia chá. Mesmo assim, sentiu-se reconfortada.

— Escuta — repetiu ela a Alzire —, deixa teu avô dormir, cuida de Estelle para que não quebre a cabeça, e, se ela acordar e berrar muito, aqui tens um torrão de açúcar... Prepara uma água açucarada e dá-lhe algumas colheradas. Sei que és sensata e não vais comê-lo. 
— E a escola, mãe? 
— A escola... pois fica para um outro dia. Estou precisando de 
— E a sopa, queres que a faça, se demorares? 
— A sopa, a sopa... Não, espera por mim.  

     Alzire, de uma inteligência precoce de menina enferma, sabia fazer sopa muito bem. Devia ter compreendido, não insistiu.
     Agora todo o conjunto habitacional já estava desperto, grupos de crianças iam para a escola arrastando os tamancos. Deram oito horas; à esquerda, na casa de Levauque, um barulho de conversa foi aumentando. As mulheres começavam o seu dia, em volta das cafeteiras, mãos nos quadris, tagarelando sem descanso, verdadeiras línguas — de — trapo. Uma cabeça' definhada, de lábios grossos e nariz chato, apareceu repentinamente do outro lado do vidro da janela, gritando:

— Escuta, tenho novidade! 
— Não, não, mais tarde — respondeu a mulher de Maheu. — Tenho de sair.

     E receando sucumbir ao oferecimento de um copo de café quente, empurrou aos tapas Lénore e Henri para a porta e saíram. Em cima, o velho Boa-Morte continuava a roncar num compasso que embalava a casa.
     Na rua, a mulher admirou-se ao constatar que o vento amainara. Era um degelo súbito, o céu cor de terra, as paredes viscosas de uma umidade esverdeadas os caminhos encharcados de uma lama resinosa, dessa lama típica das regiões carboníferas, negra como a fuligem diluída, espessa e pegajosa a ponto de lá ficarem enterrados os tamancos. Logo de saída teve de bater em Lénore porque a menina divertia-se em juntar o lodo sobre os tamancos, como numa pá. Ao deixar o conjunto habitacional, contornou o aterro e tomou o caminho do canal, atravessando, para encurtar caminho, ruas intransitáveis, terrenos baldios fechados por tapumes cobertos de hera. Passou por diversos galpões compridos edifícios de fábricas, altas chaminés cuspindo fuligem. sujando esses arredores arrasados de subúrbio industrial. Por trás de um bosque de choupos, a velha mina Réquillart exibia o desmoronamento de sua torre do sino de rebate, da qual só restavam em pé as vigas mais grossas. Dobrando à direita, a mulher e as duas crianças entraram na estrada real.

— Espera um pouco porcalhão! — exclamou a mãe — Vou te ensinar como é que se fazem bolas de barro.

     Agora era Henrique tinha apanhado um punhado de lama para amassar. As duas crianças, esbofeteadas em conjunto, voltaram à ordem, mas sem deixar de olhar para trás, para ver as pegadas que haviam feito na lama. No fim, já patinhavam, exaustas dos esforços que faziam para despegar os tamancos a cada passada.
     Do lado de Marchiennes, a estrada tinha duas léguas retas de pavimento que mais pareciam uma fita embebida de graxa entre terras avermelhadas. Do outro lado, porém, esta mesma estrada descia em ziguezague através de Montsou, construída num declive ondulado que ia dar na planície. Essas estradas ao norte, traçadas a cordel entre as cidades manufatureiras, com curvas suaves e subidas lentas, estavam sendo construídas aos poucos, tendentes a transformar um departamento numa colmeia de trabalho. As casinhas de tijolos, pintadas em cores variadas para alegrar o ambiente — umas de amarelo, outras de azul, outras de preto, estas últimas sem dúvida já antecipando a cor final de todas —, desciam serpenteando à direita e à esquerda, até a base do declive. Algumas belas casas de dois andares, residências dos chefes das fábricas, furavam a linha apertada das fachadas estreitas. Uma igreja, também de tijolos, mais parecia algum modelo novo de alto-forno, com seu campanário quadrado, já sujo da poeira do carvão. E, entre as refinarias de açúcar, cordoarias e fábricas de moagem, o que dominava eram as salas de baile, os botequins, as cervejarias, e em tão grande número que, para mil casas, havia mais de quinhentas tabernas.
     Ao aproximar-se dos depósitos da companhia, vasto renque de armazéns e oficinas, a mulher resolveu levar Henri e Lénore pela mão, um à direita, outro à esquerda. Logo adiante ficava o palacete do diretor, o Sr. Hennebeau, uma espécie de chalé amplo, separado da estrada por uma grade, com um jardim onde vegetavam árvores raquíticas.
     Nesse momento, em frente à porta, estacionava uma carruagem; desembarcaram um senhor condecorado e uma senhora de capa de peles: alguma visita de Paris vinda pelo trem e que devia ter descido na estação de Marchiennes, porque a Sra. Hennebeau, surgindo na meia-luz do vestíbulo, soltou uma exclamação de surpresa e alegria.

 — Caminhem, seus malandros! — ralhou a mulher, puxando as duas crianças, que se arrastavam pela lama.

     Estava chegando à venda de Maigrat, daí seu nervosismo. Maigrat morava bem ao lado do diretor, um simples muro separava o palacete da sua casinha; tinha ali um armazém, uma edificação comprida que dava para a estrada; era uma loja sem vitrine, mas onde havia de tudo: condimentos, artigos defumados, frutas, pão, cerveja, caçarolas. Antigo fiscal na Voreux, Maigrat começara com uma pequena cantina; depois, graças à proteção dos chefes, seu negócio aumentara, matando pouco a pouco o comércio a varejo de Montsou. Ele centralizava as mercadorias, a considerável clientela dos conjuntos habitacionais de mineiros permitia-lhe vender mais barato e abrir créditos maiores. Aliás, permanecera nas mãos da companhia, que lhe tinha construído a casinha e o armazém.

— Aqui estou outra vez, Sr. Maigrat — disse a mulher com humildade, ao dar com ele justamente à porta.

     O homem encarou-a sem responder. Era gordo, frio e polido, e gabava-se de nunca voltar atrás numa decisão.

 — O senhor não pode mandar-me embora como ontem. Temos de comer pão, daqui até sábado... Eu sei, nós lhe devemos sessenta francos há dois anos...

     Tentava explicar-se em frases curtas, saídas a custo. Era uma dívida antiga, contraída durante a última greve. Vinte vezes tinham prometido saldá-la, mas não conseguiam, mal podiam entregar-lhe quarenta soldos por quinzena. Para cúmulo, acontecera-lhes uma desgraça na antevéspera, ela tivera de pagar vinte francos a um sapateiro que os ameaçava com uma penhora; eis a razão por que estavam sem dinheiro, de outro modo teriam ido até sábado, como os outros mineiros.
     Maigrat, barrigudo, de braços cruzados, respondia negativamente com a cabeça a cada súplica.

— Só dois pães, Sr. Maigrat. Sou comedida, nem quero café. Nada mais que dois pães de três libras {2} por dia... 
— Não! — berrou ele enfim com toda a força.

     Sua esposa apareceu: uma criatura insignificante, que passava os dias sobre o livro do registro, sem mesmo ousar levantar a cabeça. Fugiu assustada ao ver a infeliz virar para ela uns olhos de súplica ardente. Dizia se que cedia o leito conjugal às operadoras de vagonetes que faziam parte da clientela. Era coisa sabida: quando um mineiro queria uma prorrogação do crédito, bastava enviar sua filha ou esposa, feias ou belas, contanto que fossem condescendentes.
     A mulher de Maheu, que continuava a suplicar com o olhar, sentiu se chocada com o clarão pálido daqueles olhinhos que a desvestiam. Encolerizou-se; compreenderia tal audácia antes de ter tido sete filhos, quando era jovem. Partiu puxando violentamente Lénore e Henri, que juntavam cascas de nozes jogadas na sarjeta para levar para casa.

 — O que está fazendo não lhe trará nenhum proveito, Sr. Maigrat, não esqueça!

     Agora só lhe restavam os burgueses da Piolaine. Se esses não dessem os cem soldos, então o melhor seria deitar-se e esperar pela morte.

continua na página 78...
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Segunda Parte - (II.a) No quarto, que se conservara fechado
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando — se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.

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