Émile Zola
Tradução de Francisco Bittencourt
Tradução de Francisco Bittencourt
Segunda Parte
II
.No quarto, que se conservara fechado, as persianas deixavam entrar, pouco a pouco, manchas pardas de luz que se espalhavam em leque pelo teto. O ar viciado ficava cada vez mais pesado, mas todos continuavam no seu sono da noite: Lénore e Henri nos braços um do outro, Alzire com a cabeça para trás, apoiada na corcunda, enquanto o velho Boa-Morte, com a cama de Zacharie e Jeanlin só para ele, roncava de boca aberta. Nenhum ruído no cubículo ao lado da escada, onde a mulher de Maheu voltara a dormir dando de mamar a Estelle, com o seio caído para o lado, a criança atravessada na barriga, empanturrada de leite, adormecida também, sufocando-se nas carnes moles dos seios maternos.
O relógio de cuco, embaixo, deu seis horas. Ouviu-se ao longo das
fachadas dos casebres o bater de portas, depois o pisar de tamancos na
pedra das calçadas: eram as separadoras de carvão que partiam para a mina.
Até as sete horas houve outra vez silêncio; a partir de então, as
persianas se abriram e através das paredes ouviram-se bocejos e limpar de
gargantas. Por algum tempo rangeu uma máquina de moer café, sem que
ninguém acordasse no quarto.
Subitamente, um barulho de tapas e gritos ao longe fez Alzire sentar
na cama. Deu-se conta da hora e, descalça, correu e sacudiu a mãe.
— Mamãe! mamãe! É tarde e tens o que fazer... Cuidado! Vais
esmagar Estelle.
E puxou a criança já meio sufocada sob a abundância dos seios.
— Inferno de vida! — tartamudeou a mulher, esfregando os olhos.
— Ando tão esfalfada que podia dormir o dia inteiro. Veste Lénore e Henri,
levo-os comigo; tu ficas com a Estelle, não quero expô-la, tenho medo de
que apanhe alguma doença com este tempo maldito.
Lavou-se às pressas, enfiou uma velha saia azul, a mais limpa que
tinha, uma bata de lã cinzenta, na qual pusera dois remendos na véspera.
— E a sopa, como é que vai ser? Vida miserável! — murmurou ela
de novo.
Enquanto sua mãe descia, esbarrando em tudo, Alzire retornou ao
quarto levando consigo Estelle, que voltara a berrar; já estava acostumada
com as manhas da criança; nos seus oito anos, possuía astúcias de mulher
capazes de acalmá-la e distraí-la. Com muito jeito, deitou-a na sua cama
ainda quente e adormeceu-a dando-lhe um dedo para chupar. Não era sem
tempo, porque começava outra algazarra: teve que apaziguar Lénore e
Henri, que enfim acordavam. Esses dois não se entendiam muito bem, só se
abraçavam enquanto dormiam. A menina, de seis anos, engalfinhava-se no
garoto logo que acordava; este, que era dois anos mais moço, recebia os
tapas sem retribuí-los. Ambos tinham uma cabeça enorme, como um balão,
de cabelos eriçados e amarelos. Foi preciso que Alzire puxasse a irmã pelas
pernas, ameaçando-a com uma boa surra. Depois repetiu-se a algazarra
durante a lavagem do rosto e a cada peça de roupa que Alzire lhes enfiava.
Evitava-se abrir as persianas para não perturbar o sono do velho Boa-Morte,
que continuava a roncar, apesar da terrível gritaria das crianças.
— Está pronto! Vocês ainda estão aí em cima? — gritou a mãe.
Tinha aberto os postigos das janelas, reavivado o fogo, colocado mais
carvão. Sua esperança era que o velho não tivesse engolido toda a sopa, mas
encontrou o tacho lambido. Colocou no fogo um punhado de aletria que
tinha de reserva havia três dias; comê-la-iam assim, feita em água, sem
manteiga: não devia restar nada da insignificância da véspera, mas ficou
surpresa ao ver que Catherine, ao preparar as porções, miraculosamente
deixara um pouco, do tamanho de uma noz. Fora isso, no entanto, desta vez
o guarda-comida estava completamente vazio; nada, nem uma côdea de
pão, um resto de provisões, um osso para roer... Que ia ser deles se Maigrat
não quisesse fiar mais, se os burgueses da Piolaine não lhe dessem cem
soldos? Quando os homens e a moça voltassem da mina teriam que comer
alguma coisa; infelizmente ainda não tinham inventado um meio para que
se vivesse sem comer.
— Vão descer ou não vão? — gritou ela, zangada. — Já devia ter
saído.
Quando Alzire e as duas crianças apareceram, repartiu a aletria em
três pratos pequenos. Ela não estava com fome, disse. Ainda que Catherine
já tivesse passado água pela borra de café da véspera, passou mais um
pouco e bebeu dois canecos de um café tão fraco que mais parecia chá.
Mesmo assim, sentiu-se reconfortada.
— Escuta — repetiu ela a Alzire —, deixa teu avô dormir, cuida de
Estelle para que não quebre a cabeça, e, se ela acordar e berrar muito, aqui
tens um torrão de açúcar... Prepara uma água açucarada e dá-lhe algumas
colheradas. Sei que és sensata e não vais comê-lo.
— E a escola, mãe?
— A escola... pois fica para um outro dia. Estou precisando de
— E a sopa, queres que a faça, se demorares?
— A sopa, a sopa... Não, espera por mim.
Alzire, de uma inteligência precoce de menina enferma, sabia fazer
sopa muito bem. Devia ter compreendido, não insistiu.
Agora todo o conjunto habitacional já estava desperto, grupos de
crianças iam para a escola arrastando os tamancos. Deram oito horas; à
esquerda, na casa de Levauque, um barulho de conversa foi aumentando.
As mulheres começavam o seu dia, em volta das cafeteiras, mãos nos
quadris, tagarelando sem descanso, verdadeiras línguas — de — trapo. Uma
cabeça' definhada, de lábios grossos e nariz chato, apareceu repentinamente
do outro lado do vidro da janela, gritando:
— Escuta, tenho novidade!
— Não, não, mais tarde — respondeu a mulher de Maheu. —
Tenho de sair.
E receando sucumbir ao oferecimento de um copo de café quente,
empurrou aos tapas Lénore e Henri para a porta e saíram. Em cima, o velho
Boa-Morte continuava a roncar num compasso que embalava a casa.
Na rua, a mulher admirou-se ao constatar que o vento amainara. Era
um degelo súbito, o céu cor de terra, as paredes viscosas de uma umidade
esverdeadas os caminhos encharcados de uma lama resinosa, dessa lama
típica das regiões carboníferas, negra como a fuligem diluída, espessa e
pegajosa a ponto de lá ficarem enterrados os tamancos. Logo de saída teve
de bater em Lénore porque a menina divertia-se em juntar o lodo sobre os
tamancos, como numa pá. Ao deixar o conjunto habitacional, contornou o
aterro e tomou o caminho do canal, atravessando, para encurtar caminho,
ruas intransitáveis, terrenos baldios fechados por tapumes cobertos de hera.
Passou por diversos galpões compridos edifícios de fábricas, altas chaminés
cuspindo fuligem. sujando esses arredores arrasados de subúrbio industrial.
Por trás de um bosque de choupos, a velha mina Réquillart exibia o
desmoronamento de sua torre do sino de rebate, da qual só restavam em pé
as vigas mais grossas. Dobrando à direita, a mulher e as duas crianças
entraram na estrada real.
— Espera um pouco porcalhão! — exclamou a mãe — Vou te
ensinar como é que se fazem bolas de barro.
Agora era Henrique tinha apanhado um punhado de lama para
amassar. As duas crianças, esbofeteadas em conjunto, voltaram à ordem,
mas sem deixar de olhar para trás, para ver as pegadas que haviam feito na
lama. No fim, já patinhavam, exaustas dos esforços que faziam para
despegar os tamancos a cada passada.
Do lado de Marchiennes, a estrada tinha duas léguas retas de
pavimento que mais pareciam uma fita embebida de graxa entre terras
avermelhadas. Do outro lado, porém, esta mesma estrada descia em
ziguezague através de Montsou, construída num declive ondulado que ia
dar na planície. Essas estradas ao norte, traçadas a cordel entre as cidades
manufatureiras, com curvas suaves e subidas lentas, estavam sendo
construídas aos poucos, tendentes a transformar um departamento numa
colmeia de trabalho. As casinhas de tijolos, pintadas em cores variadas para
alegrar o ambiente — umas de amarelo, outras de azul, outras de preto,
estas últimas sem dúvida já antecipando a cor final de todas —, desciam
serpenteando à direita e à esquerda, até a base do declive. Algumas belas
casas de dois andares, residências dos chefes das fábricas, furavam a linha
apertada das fachadas estreitas. Uma igreja, também de tijolos, mais parecia
algum modelo novo de alto-forno, com seu campanário quadrado, já sujo da
poeira do carvão. E, entre as refinarias de açúcar, cordoarias e fábricas de
moagem, o que dominava eram as salas de baile, os botequins, as
cervejarias, e em tão grande número que, para mil casas, havia mais de
quinhentas tabernas.
Ao aproximar-se dos depósitos da companhia, vasto renque de
armazéns e oficinas, a mulher resolveu levar Henri e Lénore pela mão, um à
direita, outro à esquerda. Logo adiante ficava o palacete do diretor, o Sr.
Hennebeau, uma espécie de chalé amplo, separado da estrada por uma
grade, com um jardim onde vegetavam árvores raquíticas.
Nesse momento, em frente à porta, estacionava uma carruagem;
desembarcaram um senhor condecorado e uma senhora de capa de peles:
alguma visita de Paris vinda pelo trem e que devia ter descido na estação de
Marchiennes, porque a Sra. Hennebeau, surgindo na meia-luz do vestíbulo,
soltou uma exclamação de surpresa e alegria.
— Caminhem, seus malandros! — ralhou a mulher, puxando as
duas crianças, que se arrastavam pela lama.
Estava chegando à venda de Maigrat, daí seu nervosismo. Maigrat
morava bem ao lado do diretor, um simples muro separava o palacete da sua
casinha; tinha ali um armazém, uma edificação comprida que dava para a
estrada; era uma loja sem vitrine, mas onde havia de tudo: condimentos,
artigos defumados, frutas, pão, cerveja, caçarolas. Antigo fiscal na Voreux,
Maigrat começara com uma pequena cantina; depois, graças à proteção dos
chefes, seu negócio aumentara, matando pouco a pouco o comércio a varejo
de Montsou. Ele centralizava as mercadorias, a considerável clientela dos
conjuntos habitacionais de mineiros permitia-lhe vender mais barato e abrir
créditos maiores. Aliás, permanecera nas mãos da companhia, que lhe tinha
construído a casinha e o armazém.
— Aqui estou outra vez, Sr. Maigrat — disse a mulher com
humildade, ao dar com ele justamente à porta.
O homem encarou-a sem responder. Era gordo, frio e polido, e
gabava-se de nunca voltar atrás numa decisão.
— O senhor não pode mandar-me embora como ontem. Temos de
comer pão, daqui até sábado... Eu sei, nós lhe devemos sessenta francos há
dois anos...
Tentava explicar-se em frases curtas, saídas a custo. Era uma dívida
antiga, contraída durante a última greve. Vinte vezes tinham prometido
saldá-la, mas não conseguiam, mal podiam entregar-lhe quarenta soldos por
quinzena. Para cúmulo, acontecera-lhes uma desgraça na antevéspera, ela
tivera de pagar vinte francos a um sapateiro que os ameaçava com uma
penhora; eis a razão por que estavam sem dinheiro, de outro modo teriam
ido até sábado, como os outros mineiros.
Maigrat, barrigudo, de braços cruzados, respondia negativamente
com a cabeça a cada súplica.
— Só dois pães, Sr. Maigrat. Sou comedida, nem quero café. Nada
mais que dois pães de três libras
{2} por dia...
— Não! — berrou ele enfim com toda a força.
Sua esposa apareceu: uma criatura insignificante, que passava os
dias sobre o livro do registro, sem mesmo ousar levantar a cabeça. Fugiu
assustada ao ver a infeliz virar para ela uns olhos de súplica ardente. Dizia
se que cedia o leito conjugal às operadoras de vagonetes que faziam parte
da clientela. Era coisa sabida: quando um mineiro queria uma prorrogação
do crédito, bastava enviar sua filha ou esposa, feias ou belas, contanto que
fossem condescendentes.
A mulher de Maheu, que continuava a suplicar com o olhar, sentiu
se chocada com o clarão pálido daqueles olhinhos que a desvestiam.
Encolerizou-se; compreenderia tal audácia antes de ter tido sete filhos,
quando era jovem. Partiu puxando violentamente Lénore e Henri, que
juntavam cascas de nozes jogadas na sarjeta para levar para casa.
— O que está fazendo não lhe trará nenhum proveito, Sr. Maigrat,
não esqueça!
Agora só lhe restavam os burgueses da Piolaine. Se esses não
dessem os cem soldos, então o melhor seria deitar-se e esperar pela morte.
continua na página 78...
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Segunda Parte - (II.a) No quarto, que se conservara fechado
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando — se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu.
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura.
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.
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