sexta-feira, 5 de setembro de 2025

Victor Hugo - Os Miseráveis: Mário, Livro Primeiro - Paris estudado na sua mais tênue parcela / VIII - Onde se narra um dito galante do último rei

Victor Hugo - Os Miseráveis

Terceira Parte - Mário

Livro Primeiro — Paris estudado na sua mais tênue parcela

VIII - Onde se narra um dito galante do último rei
     
     De Verão, o gaiato metamorfoseia-se em rã. No fim da tarde vê-lo-eis defronte das pontes de lena e de Austerlitz atirar-se ao Sena, de cabeça para baixo, de cima das barcas de carvão e dos barcos das lavadeiras, com manifesta infracção das leis do pudor e dos regulamentos policiais. Contudo, os agentes de polícia vigiam, do que resulta uma situação sumamente dramática, que já deu lugar a um grito fraternal memorável; este grito, que se tornou célebre em 1830, é um aviso estratégico de um gaiato a outro; é susceptível de se expandir como um verso de Homero e tem uma entoação quase tão inexprimível como a melopeia elegíaca das Panatheneias. Parece o antigo Evohé.
     Ei-lo: Ohé Titi, ohéée! pica a amarra, desatraca, que anda mouro na costa, desatraca, faz piranço.
     Às vezes sabe ler este mosquito, como ele a si próprio se denomina, às vezes sabe escrever; mas o que ele sabe sempre é pintar monos nas paredes. Não hesita em aprender, por não sabermos que misterioso ensino mútuo, todas as habilidades que à república possam ser úteis: desde 1815 até 1830, imitava o gargarejar do peru; desde 1830 até 1848, rabiscava peras pelas paredes. Numa tarde de es o, recolhendo-se Luís Filipe a pé, viu um gaiato, que de pequeno que era suava e punha-se em bicos de pés para desenhar a carvão uma gigantesca pera num dos pilares da grade de Neuilly; o rei com o pachorrento humor que herdara de Henrique IV, ajudou o gaiato, e acabada a pera deu-lhe um luís, dizendo: «Isso também tem uma pera!»
      O gaiato gosta das rusgas, agrada-lhe certo estado violento. Os «abades» é que ele não pode ver. Um dia, estando um destes girigotes pequenos na rua da Universidade a pintar um nariz de vara e meia no portão da casa número 69, um indivíduo que ia a passar perguntou-lhe:

— Para que estás aí a fazer isso? 
— É porque mora aqui um abade — respondeu o gaiato.

      Era aquela, efetivamente, a casa em que morava o núncio do Papa.
     Entretanto, por mais intenso que seja o voltaireanismo do gaiato, se se lhe oferece ensejo de ser menino do coro, abraça o mister e ajuda à missa com toda a compostura e gravidade. Existem duas coisas que são para ele o suplício de Tântalo, porque as vê em espírito sem nunca chegar a elas na realidade: derribar o governo e compor as calças.
     O gaiato no seu estado perfeito conhece todos, os polícias de Paris, o seu número certo e os seus nomes, de modo que se não vê embaraçado para, quando encontra algum, o designar pelo que lhe pertence. Além disto, estuda-lhes os costumes e possui notas especiais a respeito de cada um deles. Lê-lhes na alma como nas folhas de um livro aberto. Dir-vos-á correntemente e sem balbuciar: fulano é traiçoeiro; sicrano é mau como as cobras; beltrano é um grande homem ou uma criatura ridícula, etc. (estes termos de traidor, mau, grande, ridículo, têm todos na boca deles uma acepção particular). «Este pensa que traz o rei na barriga; cuida que a gente lhe come alguma coisa em andar a passear por cima das guardas da Ponte Nova; aquele tem a mania de puxar as orelhas a uma pessoa, etc., etc.».

continua na página 443...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Primeiro - VIII - Onde se narra um dito galante do último rei
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira 

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